sexta-feira, 17 de abril de 2026

OMAR KHAYYAM: Um pouco da poesia persa*




1

Noite, silêncio, folhas imóveis;
imóvel o meu pensamento.
Onde estás, tu que me ofereceste a taça?
Hoje caiu a primeira pétala.

2

Eu sei, uma rosa não murcha
perto de quem tu agora sacias a sede;
mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,
e que te fez desfalecer.

3

Acorda… e olha como o sol em seu regresso
vai apagando as estrelas do campo da noite;
do mesmo modo ele vai desvanecer
as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

4

Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.

5

Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.

6

Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde irás depois?


7

Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.


8

Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.


9

Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.


Omar Khayyãm

(Tradução de Alfredo Braga)



Omar Caiam foi um matemático e astrônomo persa que durante sua vida, vivida aproximadamente entre os anos 1030-1123 dC, demonstrou grande interesse pela poesia e mais especificamente por “rubai”, uma quadra de versos, com estrutura fixa, que circulava na região da Pérsia naquele período. Estima-se que o autor tenha reunido mais duzentas dessas pequenas pílulas poéticas, às quais somou outras de sua própria autoria, tornando o trabalho genético de sua produção uma tarefa infindável e de difícil resolução, como o caso de Gregório de Matos, no Brasil. 


* Hoje conhecido Por Irã



Torre Azadi, em Teerã



14 comentários:

  1. Ao que percebi, são quadras independentes . Belo lirismo! 👏

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  2. Stan, parece que foi ele quem disse que o vinho é amargo mas tem o gosto d vida. Os árabes fundaram a cultura, medicina, contos das mil e uma noites, a álgebra, os algarismos arábicos e deram nomes às estrelas. Depois vieram o fanáticos e os invasores. Sara á. Darta

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  3. São lindas as quadras. Por serem traduzidas, não sabemos se são versos livres ou rimados. Mas isso não importa - prefiro assim, aliás. A penúltima, e que aqui segue copiada, me ganhou definitivamente!
    "Se não tiveste a recompensa que merecias,
    não te importes, não esperes nada;
    já estava tudo nas páginas daquele livro
    que o vento da eternidade vai virando ao acaso". Um "aforismo poético", eu chamaria o conteúdo dessas belíssimas linhas. Publicação maravilhosa, J.! Obrigada por compartilhar! Abraços!

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  4. Grande poesia! Encanta a alma. É um quase um toque da rosa poética no espírito do leitor. Lindo demais

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  5. Lindo poema, Stanislau. Grata por compartilhar.
    Abraço fraterno.

    Corina Sátiro

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  6. Lindos versos, líricos, de um misticismo encantador. Obrigada, Stan, pelo prazer dessa leitura
    Abraço

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