domingo, 29 de março de 2026

Dois poetas modernos

 




Poética


Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas.
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar & agraves mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare.
- Não quero saber do lirismo que não é libertação.



 

Canto de regresso à pátria

Oswald de Andrade







Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.


Erro de português


Oswald de Andrade


Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.



5 comentários:

  1. Stan, bandeira tinha inveja de chão de estrelas de Orestes Barbosa. O maiorpoeta brasileiro é Castro Alves. Saravá darts

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  2. Gosto de Drummond, Quintana, Cecília, Vinicius de Moraes e Leminsk.

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  3. O que mais aprecio no Modernismo, ou em qualquer movimento de vanguarda, é que todos (na sua imensa maioria) tiveram uma formação clássica, antes de qualquer coisa, e escolheram pela mudança. Começando, nesse seu texto, com o Simbolismo do Bandeira, até a grande influência da literatura francesa do Oswald, antes do Manifesto Antropofágico. Na Escola de Belas Artes aprendemos isso com a frase do professor de História da Arte V (a última no curso de Licenciatura em Artes - que segue adiante no curso de Formação em História da Arte especificamente). A frase: “A Arte morreu”. Um choque e uma imensa interrogação ao ouvirmos essa afirmação e só depois do “susto” a explicação, que era bem simples: a cada novo estilo artístico surgido, ocorria a “morte simbólica” do anterior. O Modernismo não “matou” o conhecimento de cada artista plástico ou escritor. Apenas adaptou-se ao seu tempo, seu lugar. Resumindo, todos podem escrever de maneira clássica, se assim o desejarem, pois tiveram formação, ou conhecimento adquirido, para isso. E é isso que eu aprecio demais na liberdade de escolha: embora sejamos “guiados” para o classicismo, o imenso leque de possibilidades está aberto para qualquer tempo. O Modernismo, também, é coisa nossa. Tem a nossa “marca”, a nossa história e ideologias. Adorei! (Desculpe o textão, me empolguei - rsrs)
    Abração, J.!

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  4. Grandes nomes. Grata por compartilhar.
    Abraço fraterno e ótimo dia.

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