segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O Rei dos Animais




Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: "Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?" O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: "Claro que é você, Leão, claro que é você!".


Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: "Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?" E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: "Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".


Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?" "Sim, és tu", disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. "Tigre, - disse em voz de estentor - eu sou o rei da floresta. Certo?" O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: "Sim". E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.


Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: "Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?" O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: "Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".


MORAL DA HISTÓRIA


Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende.


A história nos ensina que não importa quão forte ou poderoso a gente é, sempre pode existir alguém mais forte ou poderoso do que a gente. Além disso, não devemos acreditar em tudo o que as pessoas dizem sobre nós, pois algumas vezes elas podem querer nos agradar ou nos enganar.


É importante ser humilde e saber nossas próprias qualidades e limitações. O Leão da história achava que era o rei da floresta e perguntou para os outros animais se ele era mesmo. Todos disseram que sim, mas quando ele perguntou para o elefante, que era muito forte, o elefante ficou bravo e jogou o Leão longe. Então, o Leão descobriu que nem sempre as coisas são como a gente pensa, e que é importante respeitar os outros animais e saber que todos têm seus próprios talentos e habilidades.


Millôr Fernandes

Millôr Viola Fernandes (1923-2012), conhecido como Millôr Fernandes, foi um desenhista, jornalista, escritor, humorista, dramaturgo, roteirista, poeta e tradutor brasileiro.


 

domingo, 27 de setembro de 2026

As mais importantes eleições da História do Brasil (por Céli Pinto)

Estamos a menos de duas semanas das Eleições Gerais no Brasil e são as mais significativas; não se trata de exagero, mas de uma condição muito transparente


Céli Pinto (*)



Costumamos dizer que, quando há eleições gerais, estamos escolhendo presidente, governadores e casas legislativas para os próximos quatro anos, o que parece óbvio. Nas eleições do próximo dia 4 de outubro, em primeiro turno, e no dia 25, em segundo, não se trata de uma escolha de governantes apenas, mas do futuro do país nas próximas décadas.

Não estaremos escolhendo entre o candidato A e o candidato B, mas entre uma escalada abrupta rumo ao totalitarismo colonizado e a continuidade da democracia. Isto tem de estar muito claro na cabeça de cada eleitor, de cada eleitora. Somos responsáveis pelo futuro deste país. Seremos acusados  pelas futuras gerações, com razão, se falharmos e o Brasil for entregue a abutres colonizados.


Os eleitores, as eleitoras, militantes ou não, jovens, adultos ou idosos têm muitas frustrações em relação ao governo do momento. De fato, poderia ter feito mais, principalmente se não tivesse um parlamento dedicado, quase exclusivamente, a tirar proveito em causa própria. Ainda assim, fez muito, não apesar do parlamento, mas justamente porque ele existe e foi possível negociar com ele, constrangê-lo na imprensa e nas redes sociais.


Só poderemos continuar fazendo isto e, ao mesmo tempo, lutar  para transformar a forma de fazer política no parlamento, assegurando que todos que quiserem falar possam falar, possam lutar politicamente, que instituições possam  investigar e serem investigadas. Assegurando  a total liberdade e lisura dos pleitos. E tudo isto só acontecerá se  assegurarmos a continuidade da democracia, mesmo que com muitos problemas.


Os eleitores, as eleitoras, os militantes, jovens, adultos de meia-idade ou idosos podem estar frustrados com o Supremo Tribunal Federal com razão. Há uma fragorosa indecência no comportamento deste bando de homens meio velhos, todos brancos. Da única mulher, que nem progressista é, não existe um único episódio contra seu comportamento como ente público.


Mas vivemos em uma democracia e só não fomos atropelados pela tentativa de melar as eleições de 2022 e, depois, de perdoar militares e assemelhados em um bem armado golpe de Estado, porque existem o Tribunal Superior Eleitoral e o Superior Tribunal Federal. E, ainda, só sabemos o que está acontecendo agora porque vivemos em uma democracia, onde  tudo pode ser  exposto.


O governo Trump está aprofundando a política imperialista a níveis assustadores, até para quem sempre soube do ethos colonizador dos Estados Unidos. A atual quadra do capitalismo abriu mão até de sua retórica pseudodemocrática para avançar, sem nenhum limite, sobre a autonomia e a soberania dos países do sul global, principalmente na América Latina.


Quando o presidente Lula disse, em sua fala na Sessão de Abertura da Assembleia Anual da ONU, que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, ele sabia o que estava dizendo. Ele, assim como muitos de nós, sabe que está se armando um golpe contra a soberania brasileira, liderado pela famiglia Bolsonaro e por seus mais óbvios financiadores. Todos seriam perdoados, caso o pior viesse a ocorrer, e o país seria levado à mais absurda miséria e esbórnia.


O momento é de gravidade absoluta. Circunstâncias como estas devem ser tratadas sem meias palavras, sem meias medidas. Se Lula ganhar as eleições, o paraíso não surgirá de uma hora para outra. Muitos continuarão enfrentando frustrações, mas posso assegurar que não tirarão a comida da boca do povo, nem o teto sobre suas cabeças, nem o fundamental atendimento do SUS, os remédios grátis, as cotas sociais e raciais na educação e para admissão no serviço público.


Se Lula ganhar as eleições, o Brasil não se tornará um paraíso sem violência nem os homens deixarão de matar as mulheres da forma estúpida como fazem hoje, como num passe de mágica, mas podem estar certos de que cada vez menos morrerão jovens pobres e negros, cada vez mais a polícia será  responsabilizada por assassinatos a granel.


O crime organizado será combatido, como está sendo agora, asfixiando o dinheiro das facções, prendendo os cabeças, muitos políticos inclusive. Não haverá chacinas espetaculosas promovidas por uma polícia cujo governador do Estado está sendo acusado de comprometimento com os chefes dos 122 mortos em outubro de 2025, no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro.


Votar em Lula nas próximas eleições não é votar em um mito ou em um salvador da pátria, é votar na segurança de que poderemos continuar nossas vidas, lutar para melhorá-las e para ter o poder de criticar, de reclamar, de ter uma imprensa verdadeiramente livre.


Votar em Lula significa que estaremos estancando o avanço da escalada abrupta rumo a um totalitarismo bestial, violento, sem lei, onde os direitos adquiridos das populações sofridas podem ser retirados com uma canetada, onde a violência se tornará o princípio que vigorará nas relações entre as autoridades e o povo. Onde haverá licença para ser misógino, racista, homofóbico, transfóbico e, ainda por cima, em nome de um Deus ou de um Jesus Cristo que nega toda ideia de igualdade e justiça.


Estamos, pois, de um lado, frente à continuidade da democracia, onde teremos espaço para lutar por um país mais justo, mais igual e mais livre; de outro lado, frente ao caos distópico de dimensões absolutamente trágicas.


Nunca estivemos tão em perigo, apesar de tantos riscos que já vivemos na história deste país.


(*) Professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cientista política e historiadora.

sábado, 26 de setembro de 2026

A prosa de Matias de Jesus e os versos de Luciano Fraga

 






Entre mãos que moldam o barro e histórias que moldam a alma, nasce uma reflexão sobre a origem, pertencimento e identidade.
"Essa gente" é um mergulho nas memórias, nos encontros e nas marcas que deixamos por aqueles que nos formam.
Assim como o barro ganha forma no toque firme e cuidadoso do oleiro, cada experiência vivida esculpe o homem que somos.
Uma narrativa sensível sobre raízes, legado e transformação.


SOBRE O AUTOR



Matias de Jesus é um autor movido pelas memórias, pelas histórias simples e profundas que nasceram em seu cotidiano e das relações humanas.
Sua escrita revela identidade, pertencimento e a força das origens. 




O meu lugar é aqui,
bem dentro de mim,
território e encantos
e desencontros.
Confesso:
Vez em quando
dou minhas escapadas,
fujo de mim
e muitas vezes não sinto 
o menor desejo 
de retornar 
ao corpo atarantado



Assim
feito o prego
e o martelo,
quem é mais relevante,
a mensagem,
ou o mensageiro?
a metade,
ou o corpo
inteiro?

Matias de Jesus (sentado) e Luciano fraga


Luciano Fraga, Agrônomo, professor, nasceu no Recôncavo, em Muritiba, Bahia, ainda na adolescência mudou-se para Cruz das Almas, cidade que adotou.
É autor dos livros de poesia, Vaga-lumes, O Nome do Livro, Poemas Vacinados.
Atuou em alguns curtas, Malvir e Retomada (de Nelson M. Filho), produziu e dirigiu outros, Cura-me, Sumaúma, Lagartas de Fogo, Dona Conce, Padê intergaláctico e Sonho de Menino (Documentário).

Eu só, não sou Eu. A vida é a minha pré-ferida. 








Na noite de lançamento de O Cio do Silêncio, foi lançado Pássaros de Balaustradas em homenagem a Antônio Luiz Eloy Machado, falecido no dia 13 de novembro de 1994.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Haicai de Paulo Leminski








tudo dito,
nada feito,
fito e deito


viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície


acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

Paulo Leminski

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Coisificada

 



Ofereço-me em sacrifício

                  ao santo mercado…

Ofereço

a minha face desiludida

meus peitos expostos

meu ventre bronzeado

                  meus cabelos

                            chapados

                                      rafiados 

 meu corpo

            Inflado

                  tatuado

                          modelado…

Ofereço-me

por qualquer moeda

ao santíssimo mercado …

Ofereço

a minha desrazão

    a minha alienação

       a minha estupidez

           a minha banalização…

Ofereço

          O meu sonho de consumo

               por qualquer proposta

                  de plano de pagamento…

Ofereço

a minha imagem programada…

Ofereço –me

       Ofereço-me

               ofereço-me coisificada…

Ofereço

           em sacrifício

               ao santíssimo mercado

                   a minha humanidade destroçada!


Ametista Nunes


Minibio  

 

AMETISTA NUNES de Salvador, Bahia, Brasil, Bel. em Direito e Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia, Professora Universitária, Poetisa e militante sociocultural. Vem de uma longa caminhada de luta pela arte, pela cultura, pela justiça. Fez parte da primeira antologia feminina publicada no Brasil(45mulheres), intitulada Palavra de Mulher, em 1980, entre outras antologias local, estadual e Internacional e tem o seu autoral Meu Grito, livro solo publicado em 1980. Ocupa a Cadeira nº 52 da AILB (Academia Internacional de Literatura Brasileira) em NY, integra o Grupo MIEL (Movimento de Escritores, Escritoras e Artistas pela Liberdade entre outras entidades latinas. Também participa da ASORBAEX(Espanha) e tem recebido homenagens desde o FSM de 2018, entre Mulheres que mudam o mundo ao título de Doctor Honoris Causa pela parceria Brasil-Alemanha. Integra ainda  o GTNM(Grupo Tortura Nunca Mais). CEBRAPAZ (Centro Brasileiro pela Paz),Vida Brasil, La Internacional de Escritores e Escritoras Insurgentes , entre outros .

terça-feira, 21 de julho de 2026

Três Poemas Feministas

 

 

Por Ali Cobby Eckermann






Dentro da minha mãe


Minha mãe é uma rocha de granito
que não consigo mais escalar nem contornar;
seu
peso é uma constante lembrança
de mim mesma.
Sento-me à sua sombra,
gaivotas aninham-se em seus olhos,
suas sombras, seu epitáfio.
Carrego
uma pedrinha dela no bolso.



Por De Rosarios Castellanos




As Misérias Alegres


Este lugar onde estou, como areia com rios,
há muito conhece as visitas do céu.
Uma procissão inteira de pássaros cruza meu rosto
e eu os sigo extasiado,
sem sentir as pedras que me atingem, me quebram, me rejeitam.
Caminho sem medir minha força ou passo.
Ah, mas alcançarei o mar e o céu voará além do meu alcance…




Por Maya Angelou




Mulher Fenomenal



Mulheres bonitas se perguntam onde reside meu segredo.
Não sou bonito nem tenho o corpo de uma modelo,
mas quando começo a contar,
elas acham que estou mentindo.

Digo:
Está ao alcance dos meus braços,
na largura dos meus quadris,
na firmeza dos meus passos,
na curva dos meus lábios.

Sou uma mulher
fenomenal.
Mulher fenomenal,
essa sou eu.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

gotas de desejo

 



1


dizer
te amo
exagero
o certo
te quero
perto
no abraço
no cheiro




2


dizer 
te adoro
não
claro
é demais
te desejo
almejo
beijo




3


prosa
a dois
ciúme
de rosa
crime
atroz
paz
entre nós




4


dizer
da alegria 
tê-la 
comigo 
poesia
estrela
persigo 
tão bela




5


desejo
bom
prosa
e som
amor
mulher
qualquer
cor




6


dizer
é o fim
amor
não 
acaba
assim
sem 
poesia




7


desejo
também
breu
luz
meu
coração
aprende
lição




8


desejo
ainda
Terra
linda
despoluída
sensualidade
beleza
vida


J Estanislau Filho


Imagens do acervo do autor

sábado, 4 de julho de 2026

O Voo do Poeta Lutador




Não é de ferro, é de fibra,
este homem que carrega o mundo
num peito que, embora sensível,
tem a têmpera de quem luta.


Ele ama a terra onde pisa,
o verde, o rio, o vento no rosto.
Defende a raiz e a brisa,
com a garra de quem vê o justo.


Da sua pena, a tinta vira aço,
escreve versos que são espadas
cortando o silêncio e o mofo,
iluminando as madrugadas.


Inteligência que não se cala,
alma de poeta, voz de trovão.
Mas no olhar, ele traz a calma
de quem busca a paz na razão.


E quando a injustiça aperta,
ele se agiganta, ele voa.
Livre como os pássaros que cantam,
norteando a vida, numa boa.


Não, ele não teme a altura.
Sua luta é sua poesia,
feita de coragem e ternura,
e da beleza de um novo dia.


Por tudo isso, eu o admiro,
neste mistério que ele encerra:
um coração que sabe ser lírico,
com os pés firmes nesta terra.



Ana Lúcia Gadelha


sábado, 27 de junho de 2026

a novidade




depois de longa ausência

      ela voltou

com a mesma elegância


com o brilho nos olhos

     toda contente

chegou com uma novidade


um sorriso confiante

      que a idade

suavizou seu semblante


afugentou dores e medos

      a felicidade

é o seu nome sem arremedo


J Estanislau Filho


domingo, 21 de junho de 2026

CONTO DE AMOR



Quando servi o Exército eu me tornei especialista em bombas. Sei fabricar qualquer tipo de bomba portátil, muito usada por terroristas. A bomba que eu estava fazendo tinha que ter efeito fulminante, para que a vítima nada sofresse. E antes da explosão, era necessário que fosse emitido um feixe de luz radiante que fizesse a vítima perceber a iminência da explosão.

A pessoa que eu queria matar era o meu filho João.

Minha mulher Jane estava grávida quando fui enviado ao exterior com um contingente do Exército a serviço das Nações Unidas. Fiquei ausente cerca de dois anos. Escrevia constantemente para Jane e ela respondia. Quando o meu filho nasceu e recebeu o nome de João, as cartas de Jane ficaram bem estranhas. Ela dizia que precisava falar comigo uma coisa muito séria, mas não sabia como. Eu respondia impaciente para ela dizer de qualquer maneira, mas ela persistia na falta de clareza, que cada vez piorava mais. Afinal, Jane deixou de responder minhas cartas.
Quando voltei da missão da ONU, corri para casa assim que desembarquei no aeroporto.

Jane abriu a porta para mim. Seu aspecto me surpreendeu. Estava envelhecida, pálida, parecia doente.

“Onde está o João?”, perguntei. Jane começou a chorar convulsivamente, apontando a porta do quarto onde ele estava.

Entrei no quarto, seguido de Jane.

João estava deitado no berço, um menino lindo, que ao me ver deu um sorriso. Peguei-o no colo. Então, tive uma surpresa que me deixou atônito. João só tinha uma perna e um braço, eram os únicos membros que possuía.

Jane estendeu-me um papel, todo amassado, uma receita médica onde estava escrito: esta criança sofre de focomelia, uma anomalia congênita que impede a formação de braços e pernas. Jane cuidava do João com o maior cuidado e com grande carinho. Mas ela definhava cada vez mais e morreu quando João tinha seis anos. Eu dei baixa no Exército para poder cuidar do meu filho. Quando eu perguntava se ele queria alguma coisa, ele dizia “Eu quero ir para a guerra”.

Sua deficiência física se agravava com a idade. Ele tinha 15 anos, mas não podia andar, estava impossibilitado de exercer as mínimas atividades físicas.

“Eu quero ir para a guerra, papai”, ele pediu mais uma vez.

Então decidi que ele iria à guerra. Foi quando preparei a bomba.

Com a bomba na mão eu disse: “Meu filho, você foi convocado para ir à guerra.”

“Obrigado, meu pai querido, eu te amo muito.”

Eu o amava mais ainda.

Coloquei a bomba na sua mão.

“Essa bomba vai explodir. É a guerra”, eu disse.

“É a guerra”, ele repetiu feliz.

Saí do quarto onde estava. Pouco depois vi o clarão.

João também viu esse clarão, feliz, antes da bomba explodir, matando-o.

Eu amava o meu filho.


 


Rubem Fonseca nasceu em 1925 e é um dos maiores escritores contemporâneos de língua portuguesa. Autor de 27 livros, entre suas principais obras estão as coletâneas de contos Lúcia McCartney e Feliz ano novo, além dos romances A grande arte e Agosto. A história publicada pelo Cândido faz parte do novo livro de contos do autor, Amálgama, que a editora Nova Fronteira lança este mês. O escritor vive no Rio de Janeiro (RJ).


Ilustração: André Ducci


Fonte: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Conto-Rubem-Fonseca