Em nome de um turismo “contemporâneo”, cidade restaura relações que marcaram seu passado colonial: expulsa, segrega e devasta. Em vez de caravelas, o conquistador vem nas plataformas do capital imobiliário internacional
Por Eleonora Albano
O maravilhamento que inspirou poemas e canções
A criadora da expressão Cidade Maravilhosa foi a escritora francesa Jane Catulle Mendès, que visitou o Rio na Belle Époque, apaixonando-se por sua beleza e lhe dedicando um livro de poemasiv, o primeiro dos quais é transcrito abaixo (e traduzido em nota):
Le fabuleux jardin étaiet si romanesque
L’ âme des palmiers, ses frissons, ses bambous
Le faisaient si divin, si terrestre et si doux
Que j’étais étourdie et que je pleurais presquev
A alcunha caiu no gosto ufanista e não tardou a inspirar o hino da cidade. É uma unanimidade entre nativos e visitantes. De fato, a metrópole fluminense deslumbra por ser “a única que não conseguiu enxotar a natureza”, como disse Paul Claudel ao visitá-la em missão diplomáticavi em 1917. Além do hino, a música popular, das batucadas ao samba e à bossa nova, não poupa louvores à sua beleza.
Fulgores imobiliários efêmeros: o caso de Ipanema
Mas as belas vistas marinhas do Rio atraíram também cabeças críticas e desejosas de se inspirar na sua policromia e refletir sobre seus paradoxos, a fim de contribuir para a construção das artes e da cultura brasileiras. Nas décadas de 1950/60, à medida que os passeios à beira-mar caíam no gosto dos intelectuais, seu contingente ipanemense se multiplicava. Ali circulavam figuras proeminentes como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Jaguar, Lucio Cardoso, Rubem Braga, Millôr Fernandes, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Foi essa plêiade de mentes afiadas que transformou o bairro num centro de resistência à ditadura militar, cognominado República de Ipanema.
Hoje, infelizmente, os moradores famosos nada mais têm a ver com esses intelectuais: são modelos, artistas pop, autores de textos televisivos e empresárias/os da moda. As grifes de luxo de roupas e joias ocupam um espaço significativo na principal artéria, a Rua Visconde de Pirajá, que, há sessenta anos, abrigava apenas pequenos comércios, tais como bares, depósitos, mercados, farmácias e armarinhos.
Este texto é um esforço pessoal, apoiado na leitura de cronistas vários da cena carioca, de compreender Ipanema como um sintoma privilegiado da violência colonial implantada na Cidade Maravilhosa antes mesmo da sua fundação.
À luz do histórico traçado por Carlos Lessa no seu memorável O Rio de Todos os Brasisix (2000), tento mostrar como Ipanema capturou, no século XX, o condão do maravilhamento que toca quem quer que contemple a paisagem guanabarina desde o século XVI. Inseparável dele é, todavia, o servilismo colonial que reina na população local de quaisquer extratos sociais.
Apesar da sua incapacidade de imitar a ousadia dos rebeldes da sua famosa República, o bairro tem tentado se manter na vanguarda em algumas frentes. Mas seu engajamento recaiu, sobretudo, sobre causas identitárias que não passam de fachada, pois a luta contra a desigualdade socioeconômica e de gênero jamais decolou na cidade. É que, desde o início, um grande contingente militar e miliciano nela se instalou, se espraiando por todos os seus bairros e subúrbios, e espalhando violência econômica e simbólica contra a classe operária.
Era uma vez uma restinga
As águas: das cristalinas às “fétidas”
Os morros: das florestas tropicais às comunidades
A presença inexpugnável do crime
Notas:
Texto dedicado à memória de meu pai, Floroaldo Albano (1922-2015), arquiteto, urbanista e sanitarista da Fiocruz.
iii São eles: São João, Santa Cruz da Barra, São Luiz, Pico, Urca e Copacabana.
iv Mendès, Jane Catulle. – La Ville Merveileuse – Rio de Janeiro – Poèmes. Paris: Bibliothèque Internationale D’Édition, Sandot Cie.,S.d., (circa 1913), primeira edição.
v O fabuloso jardim era tão romanesco/A alma das palmeiras, seus tremores, seus bambus/O tornavam tão divino, tão terrestre e tão doce/Que eu chorava, quase.
vi Como é comum em países colonizadores, tratava-se de convencer as autoridades locais de colaborar numa guerra mundial – a primeira.
vii Em tupi, barulho da revoada dos socós.
viii Ou seja, significados que vão da expropriação ao alheamento.
ix Lessa, Carlos. Rio de todos os Brasis (uma reflexão em busca de auto-estima). Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
x Freitas da Silva, Rafael. O Rio antes do Rio. Relicário Editora. 6ª edição. 2015.
xi Confederação dos Tamoios.
xii https://www.ifch.unicamp.br/noticias/147243
xiii Olliveira, Cecília. Como nasce um miliciano. Rio de Janiro: Editora Bazar do Tempo, 2025.
xiv https://aterraeredonda.com.br/o-principe-do-submundo/
xv Cerqueira, Maria Fizson. Efeitos disruptivos das plataformas da economia compartilhada no mercado imobiliário: a inserção do Airbnb na cidade do Rio de Janeiro. https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFF-2_72ca424fbfd2e4c13b838cef5ad90b77
xvi Gushiken, Igor Yasuo. O impacto do Airbnb nos preços dos aluguéis residenciais na cidade do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado. FGV, 2023. https://repositorio.fgv.br/items/aa4db0aa-14d0-421f-a2d5-829114f26e4d
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CAPA, CIDADE TURÍSTICA, COLONIALIDADE DO PODER, CRIMINALIDADE, DESIGUALDADE SOCIAL, EUROCENTRISMO, HERANÇA COLONIAL, IPANEMA, PATRIARCALISMO, PLATAFORMAS DE ALUGUEL, RIO DE JANEIRO, URBANIZAÇÃO
Fonte: https://outraspalavras.net/outras-cidades/rio-maravilha-miseria-dos-cartoes-postais/
























