sexta-feira, 17 de abril de 2026

OMAR KHAYYAM: Um pouco da poesia persa*




1

Noite, silêncio, folhas imóveis;
imóvel o meu pensamento.
Onde estás, tu que me ofereceste a taça?
Hoje caiu a primeira pétala.

2

Eu sei, uma rosa não murcha
perto de quem tu agora sacias a sede;
mas sentes a falta do prazer que eu soube te dar,
e que te fez desfalecer.

3

Acorda… e olha como o sol em seu regresso
vai apagando as estrelas do campo da noite;
do mesmo modo ele vai desvanecer
as grandes luzes da soberba torre do Sultão.

4

Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.

5

Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.

6

Olha, um dia a alma deixará o teu corpo
e ficarás por trás do véu, entre o Universo
e o desconhecido. Enquanto não chega a hora,
procura ser feliz. Para onde irás depois?


7

Enquanto o rouxinol lhe entoava um hino,
murchou a bela rosa por causa do vento sul.
Lamentaremos por ela ou por nós?
Quando morrermos, outra rosa desabrochará.


8

Se não tiveste a recompensa que merecias,
não te importes, não esperes nada;
já estava tudo nas páginas daquele livro
que o vento da eternidade vai virando ao acaso.


9

Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.


Omar Khayyãm

(Tradução de Alfredo Braga)



Omar Caiam foi um matemático e astrônomo persa que durante sua vida, vivida aproximadamente entre os anos 1030-1123 dC, demonstrou grande interesse pela poesia e mais especificamente por “rubai”, uma quadra de versos, com estrutura fixa, que circulava na região da Pérsia naquele período. Estima-se que o autor tenha reunido mais duzentas dessas pequenas pílulas poéticas, às quais somou outras de sua própria autoria, tornando o trabalho genético de sua produção uma tarefa infindável e de difícil resolução, como o caso de Gregório de Matos, no Brasil. 


* Hoje conhecido Por Irã



Torre Azadi, em Teerã



sábado, 11 de abril de 2026

A Disputa

Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências

Pablo Neruda

Imagem: Google



É fundamental termos clareza do que está em disputa, para a gente definir qual lado devemos ficar.  Vale pra qualquer disputa, algumas de maior ou menor relevância. Em algumas disputas, os protagonistas mais confundem que esclarecem. É um vale tudo para conquistar apoios.  No caso desse pequeno artigo, não é tão difícil separar o joio do trigo. 

     Ao contrário do que alguns pensam, a disputa eleitoral desse ano tem apenas dois lados, o que facilita as escolhas. De um lado, tem os defensores do Estado de Bem-Estar Social; do outro lado os defensores do Estado Mínimo. Vão se apresentar vários candidatos aos Executivos  (Governadores e Presidentes) e aos  Legislativos (Senadores, Deputados Federais e Estaduais). Como o maior número de candidatos é o do Legislativo, o eleitor poderá identificar em qual candidato(a) à Presidência da República esses futuros Senadores(as) e Deputados(as) vão apoiar: Se ao defensor(a) do Estado de Bem-Estar Social ou ao defensor(a) do Estado Mínimo.  Vale também para os futuros Governadores(as). 


ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL


Como o próprio nome diz, é o modelo político-econômico em que o Estado administra o orçamento público, arrecadado em tributos (impostos e taxas), priorizando os serviços essenciais à população, tais como a saúde, a educação, assistência social, segurança, meio-ambiente,  infraestrutura, entre outras, além de apoio aos pequenos empreendedores e trabalhadores de aplicativos,  com o objetivo de garantir qualidade de vida e redução das desigualdades sociais e proteção aos mais necessitados.


ESTADO MÍNIMO


É o modelo político-econômico em que o Estado não intervém na economia, ou seja, o orçamento público, dinheiro vindo da arrecadação de impostos, fica restrito à segurança pública, no combate às fraudes e cumprimento de contratos. Para os defensores do Estado Mínimo, o mercado se autorregula.  Não intervir na economia significa que os serviços essenciais como saúde, educação, assistencial social, moradia, entre outras, devem ficar nas mãos (e nos bolsos) da iniciativa privada. O Estado Mínimo é o Estado Máximo para os empresários e o sistema financeiro, que capturam o orçamento público.


Imagem: Google

J Estanislau Filho

terça-feira, 7 de abril de 2026

O Agente Secreto e a Ditadura




Emiliano José

Chegamos ao premiadíssimo O Agente Secreto, cuja trajetória de sucesso de público e prêmios está em andamento. A mim, toca profundamente. Um filme de memória e resistência

O agente secreto é um filme a marcar história. Marcou e vai marcar ainda mais. Estamos a viver um momento de ouro do cinema nacional, glorioso. Depois de Ainda estou aqui, agora este. Kleber Mendonça vai se tornando um dos maiores diretores do cinema brasileiro. Antes, recebera Prêmio do Júri, também no Globo de Ouro, por Bacurau. Agora, de melhor diretor, pelo filme a consagrar ele próprio e a Wagner Moura.

Pelo Critics Choice, ganhou prêmio de melhor filme internacional pelo mesmo O agente secreto, e foi também consagrado como melhor diretor no Festival de Cannes de 2025 pelo filme, onde Wagner Moura alcançou a condição de melhor ator, como aconteceu também no Globo de Ouro. Há mais, e estou apenas lembrando algumas premiações.

Não custa lembrar, porque não é pouca coisa, decisão de Kleber Mendonça, a revelar audácia e comprometimento político: em maio de 2021, filia-se ao PT. Tem lado.

Em 2012, surge O Som ao Redor, o mais aclamado do ano, envolvendo uma trama de uma rua de classe média, onde os moradores contratam uma empresa de segurança privada, em Recife. Evidencia as tensões sociais, a violência e as relações de poder no Brasil, a partir daquela rua. Chegou a ser considerado por um crítico do The New York Times, A. O. Scott, como um dos dez melhores filmes do mundo naquele ano. Dezenas de prêmios.

Aquarius, de 2016, aborda a especulação imobiliária, sempre em Recife, orla de Boa Viagem, envolvendo, também, a memória, envelhecimento e resistência. Registro: resistência é uma das marcas essenciais da obra cinematográfica de Kleber Mendonça. Durante a estreia em Cannes, a equipe do filme protagonizou um protesto no tapete vermelho contra o impeachment de Dilma Rousseff. Esse diretor tem lado, não figura entre os indiferentes, sempre tem posição.

Aquarius recebeu o Sydney Film Prize no Festival de Cinema de Sidney, e Sônia Braga, protagonista, recebeu inúmeros prêmios, incluindo de melhor atriz nos festivais de Lima e Mar del Plata. A revista francesa Cahiers du Cinéma o distinguiu como um dos dez melhores filmes de 2016.

Bacurau, de 2019, a celebrar resistência, sempre ela, ganha o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique, entre tantos outros prêmios em festivais. Não pretendendo falar de toda a produção dele, chegamos ao premiadíssimo O Agente Secreto, cuja trajetória de sucesso de público e prêmios está em andamento. A mim, toca profundamente. Um filme de memória e resistência. De memória e esquecimento.

A cena inicial impacta qualquer um. Tensão logo na abertura. Presença policial, um corpo abandonado no posto de gasolina, sem que se tome qualquer providência. Poderosa metáfora, a denunciar a época, quando a ditadura ainda estava a pleno vapor, rotineiramente habituada desde 1964 a torturar, matar e desaparecer com pessoas. E a sociedade brasileira quase inerte, a deixar as coisas acontecerem até um dia acordar. Ninguém quer saber daquele corpo.

A década de 1970 marcaria, a partir de meados, o início de uma virada, não obstante lenta, com a participação decisiva da Igreja Católica e de parte de igrejas protestantes, principalmente presbiteriana e batista. Não custa lembrar, não obstante: em 1975 a ditadura mata Vladimir Herzog. Em janeiro de 1976, assassina Manoel Fiel Filho. Os dois, vinculados ao PCB. Em dezembro do mesmo ano, há o Massacre da Lapa, onde são mortos três dirigentes do PCdoB, em São Paulo: João Batista Drummond, Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Comunistas na linha de tiro.

O ano de 1977, em que se dá o transcorrer do filme, era um tempo em que pernas cabeludas estavam trocando pontapés, murros, uma luta de vida ou morte. Ditadura vivia um momento tenso, no interior dela. Disputa de poder entre uma chamada linha dura, comandada por Sílvio Frota, ministro do Exército desde a morte do general Vicente de Paulo Dale Coutinho, e a própria corrente do Geisel.

O presidente ganhou a parada: demitiu Frota em outubro daquele ano, muito embora, como se sabe, como o próprio general confessara, não tivesse disposição de abrandar a ditadura, “era preciso continuar a matar”, como dissera antes. Uma perna cabeluda fora jogada ao mar. Frota retirou-se da vida pública, arquivou a ideia de ser presidente da República, alimentada até ali. Tivesse tido sucesso, e a situação política poderia ter sido ainda pior, por incrível possa parecer.

O filme quer nos lembrar o esquecimento, a tentativa de sepultar nossa memória. É um grito contra isso, contra todos os massacres, quer revelar o sangue derramado, o corpo estendido no chão, ignorado, e os corpos desaparecidos, nunca encontrados. Denuncia o clima de então, tenso, violento, terra sem lei. Evidencia a perseguição permanente.

E o óbvio entrelaçamento entre o capital e ditadura. Todas as ditaduras na América Latina levam esse traço: surgem, derramam sangue, matam, sequestram, perseguem em nome e a mando do capital. No filme, o capital aparece entrelaçado, ou pretendendo-se, na relação com a universidade. Quer o domínio da instituição acadêmica, controlar o saber, a tecnologia, tê-los sob o garrote do dinheiro. Parte pra cima de modo violento. Olho para os lados, penso na nossa caminhada, nas nossas lutas contra o Acordo MEC-USAID, na nossa derrota, no domínio do capital sobre o ensino superior – atualmente, em torno de 80% das matrículas são da área privada.

E penso, ainda para tratar da Universidade, na escassez de recursos para o ensino superior público, decorrente sobretudo do escândalo bilionário das emendas parlamentares, e da procura de emendas por parte de diretores de unidade, numa distorção profunda do orçamento público, uma espécie de privatização enviesada, perigosa, um outro tipo de domínio do capital sobre o saber.

O filme nos leva a pensar em tudo isso quando nos joga na cara a violência capitalista, a guilhotina do capital, incapaz de adequar-se à ideia de uma universidade autônoma, inclusiva, trazendo a juventude negra e pobre para o interior dela, e voltada a contribuir para o bem-estar do povo e da nação. Contra tal ensino superior o capital se bate até os dias atuais.

Conclama-nos a pensar na perna cabeluda, metáfora poderosa a nos fazer caminhar por muitas estradas. Kleber Mendonça chega a dizer numa entrevista ter sido o surgimento dela uma maneira de enfrentar a censura, de o jornalismo poder dizer as coisas através dela, impedido que era de fazê-lo de modo aberto, transparente. Talvez. Chega a imaginar a possibilidade de fazer um trabalho cinematográfico tendo a tal perna no centro, a embarcar no realismo mágico oriundo de terras pernambucanas. Um bom desafio.

Interessante a localização do filme no Recife, no Nordeste. Pelas mais variadas razões, por muito descuido inclusive, a violência da ditadura parece ter sido mais violenta em estados do Sul. Besteira disputar isso, mas importante não deixar de lado o terror da ditadura em terras nordestinas.

Se quiserem, lembro: em 1973, é preso na Bahia Gildo Macedo Lacerda, da AP, junto com vários outros companheiros e companheiras, inclusive a mulher dele, Mariluce Moura. É levado para Pernambuco, torturado até a morte – o corpo dele jamais encontrado, não obstante os esforços de Mariluce e da Comissão Nacional da Verdade.

Moram na Bahia Vera Rocha e Bruno Dauster, casados até hoje, ambos saídos no sequestro do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, em janeiro de 1971, além de Nancy Mangabeira Unger. Nesse momento, eu estava preso, recém-saído da tortura. Por economia, não devo estender-me.

Vera, Nancy e Chico de Assis, militantes do PCBR, são cercados num aparelho no bairro de Afogados, no Recife, em 20 de julho de 1970. A fuzilaria começa às seis da manhã, com os três armados apenas de um 38, e dura até o momento de Nancy ser atingida por uma bala de fuzil 12, e os revolucionários começarem a gritar pessoa ferida e dizendo que se renderiam. O tiro perfurou órgãos internos e decepou o polegar dela. Passou mais de um mês internada comendo o pão que o diabo amassou.

Chico de Assis cumpriu longa pena no Brasil. Há muito material à disposição sobre aquele episódio. Ainda de Pernambuco, onde ele nasceu e começou a militância, conheço Paulo Pontes, com quem dividi prisão. Ele e Theodomiro Romeiro dos Santos foram presos em outubro de 1970, em Salvador. Passaram por inomináveis torturas e nove anos de cadeia. Theodomiro protagonizou incrível fuga da prisão à beira da anistia de 1979. Laços de sangue Bahia-Pernambuco.

Por tudo isso, os filmes de Kleber Mendonça, ao fortalecer o Nordeste, principalmente com O Agente Secreto, recoloca adequadamente a região como palco destacado da violência da ditadura, e quis apenas, com dois ou três episódios, reforçar a ênfase dele.

Ao falar da ditadura de modo relativamente extensivo, não pretendo dar a impressão de que Kleber Mendonça tenha simplificado aquele período da ditadura, tenha feito uma espécie de panfleto da época. De modo nenhum. É filme complexo, densamente elaborado, a obrigar quem o assista a pensar, refletir, elaborar a partir da criação dele.

No final, vem o esquecimento. O filho não quer lembrar. Recusa-se. Ouço isso de muita gente, convidando-me a parar de falar de ditadura em meus livros. Jogar a verdade, ainda precariamente revelada, para debaixo do tapete.

O filme, pelos mais variados caminhos, demonstra o quanto é essencial não esquecer, o quanto é fundamental manter viva a memória daquele tempo, de modo a que nunca mais se repita. É uma batalha essencial, especialmente num tempo de Trump, Bolsonaro, em um período em que um admirador de Pinochet é eleito no Chile, um Milei na Argentina, e seguimos por aí, o mundo tomado pela saudade do nazifascismo.

É um filme da esperança, o de Kleber Mendonça, contudo. Se posso, valho-me de poema de Aimé Cesaire, do livro Eu, Laminária… Últimos Poemas, para continuar com o espírito de O Agente Secreto.

Nova Bondade

“está fora de questão entregar o mundo aos
assassinos da aurora
. a vida-morte
. a morte-vida
os que desprezam o crepúsculo
as estradas pendem nos seus pescoços
de esfoladores
como calçados novos demais
não pode tratar-se de derrota
só os painéis foram de noite escamoteados
quanto ao resto
corcéis que só deixaram sobre o solo
suas pegadas furiosas
focinhos retesados de sangue tragado
o desembainhar das facas da justiça
e dos cornos inspirados
dos pássaros vampiros cada bico iluminado
brincando com as aparências
mas também seios que amamentam rios
e as doces cabaças no côvado das mãos
de oferenda
uma nova bondade cresce sem cessar
no horizonte.”

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros


Fonte: https://patrialatina.com.br/agente-secreto-e-ditadura/

sábado, 4 de abril de 2026

Dois cenários antagônicos



Imagem: acervo do autor






No primeiro cenário eu colhia amoras e acerolas no quintal. As amoras estavam pretas, sinal de maduras, implorando para serem chupadas. Eu as colhia e depositava numa cesta, feliz por surpreender Antonia.  Elas também pareciam felizes. Impossível não perceber as acerolas, vermelhas como  sangue. Depois de chupar algumas amoras, me dirigi ao pé de acerola, também pedindo colheita. Eram muitas, que encheram a cesta. Tive o cuidado de retirar as amoras, para não serem amassadas, depois, cuidadosamente, coloquei as amoras sobre as acerolas. Não demonstraram incômodos, ao contrário, estavam contentes em dividir o espaço.

Imagem: Acervo do autor

     Viajei no pensamento, enquanto saboreava algumas. A Natureza é sábia. Espécies diferente convivem em harmonia e até se ajudam. Ao redor, algumas aves e insetos também habitam o quintal de Antonia, que tem, ainda, uma caixa de abelhas, para a produção de mel. São abelhas sem ferrão. Um enorme e imponente pé de caju  observa o pé de jabuticaba, pitanga. lima, limão, sapoti, cajarana num vaso, araçá, além de um pé de manga papo de rola, adolescente. Ao me despedir desse esplêndido cenário, minha mente, inquieta, vislumbrou outro, terrível, tenebroso. 

    Nesse cenário, contraponto do outro, de cizânia e caos, emergiram Michele Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, eleitos ao Senado Federal, Jair Renan eleito Deputado Federal e Flávio Bolsonaro, que a mídia corporativa, depois de dar-lhe um banho de loja e transformá-lo em apenas Flávio, ou FlávioB, para não lembrar o pai, extremista de direita, condenado a vinte e sete anos de prisão por tentativa de golpe. Flávio, FlávioB e até mesmo Flavinho, eleito Presidente da República. 

    Esse cenário, obviamente, fruto da minha imaginação, ou de minha paranoia é viável?  Se isso acontecer, ainda por cima, pelo voto, será um inferno. Ou estou equivocado? 



Imagem: SINDSEP-PE


domingo, 29 de março de 2026

Dois poetas modernos

 




Poética


Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto espediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas.
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar & agraves mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare.
- Não quero saber do lirismo que não é libertação.



 

Canto de regresso à pátria

Oswald de Andrade







Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.


Erro de português


Oswald de Andrade


Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.



sexta-feira, 27 de março de 2026

Dois minicontos do realismo fantástico de Kafka

 Fábula Curta 

Imagem: Google

Ai de mim!”, disse o rato, ” – o mundo vai ficando dia a dia mais estreito” .

“- Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair”.

“- Mas o que tens a fazer é mudar de direção”, disse o gato, devorando-o.


Diante da Lei

Imagem: Google

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. -“É possível” – diz o guarda. -“Mas não agora!”. O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz. -“Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”.

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferenca, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: -“Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste”.

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guada durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.

Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. -“Que queres tu saber ainda?”, pergunta o guarda. -“És insaciável”.

-“Se todos aspiram a Lei”, disse o homem. -“Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: -“Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”.


Franz Kafka


sábado, 14 de março de 2026

O afogado mais bonito do mundo




Os primeiros meninos que viram o volume escuro e silencioso que se aproximava pelo mar imaginaram que era um barco inimigo. Depois viram que não trazia bandeiras nem mastreação, e pensaram que fosse uma baleia. Quando, porém, encalhou na praia, tiraram-lhe os matos de sargaços, os filamentos de medusas e os restos de cardumes e naufrágios que trazia por cima, e só então descobriram que era um afogado.

Tinham brincado com ele toda a tarde, enterrando-o e o desenterrando na areia, quando alguém os viu por acaso e deu o alarme no povoado. Os homens que o carregaram à casa mais próxima notaram que pesava mais que todos os mortos conhecidos, quase tanto quanto um cavalo, e disseram que talvez tivesse estado muito tempo à deriva e a água penetrara-lhe os ossos. Quando o estenderam no chão viram que fora muito maior que todos os homens, pois mal cabia na casa, mas pensaram que talvez a capacidade de continuar crescendo depois da morte estava na natureza de certos afogados. Tinha o cheiro do mar e só a forma permitia supor que fosse o cadáver de um ser humano, porque sua pele estava revestida de uma couraça de rêmora e de lodo. Não tiveram que limpar seu rosto para saber que era um morto estranho. O povoado tinha apenas umas vinte casas de tábuas, com pátios de pedra sem flores, dispostas no fim de um cabo desértico. A terra era tão escassa que as mães andavam sempre com medo de que o vento levasse os meninos, e os poucos mortos que os anos iam causando tinham que atirar das escarpas. Mas o mar era manso e pródigo, e todos os homens cabiam em sete botes. Assim, quando encontraram o afogado, bastou-lhes olhar uns aos outros para perceber que nenhum faltava. Naquela noite não foram trabalhar no mar.


Arte de Joaquín Sorolla

Enquanto os homens verificavam se não faltava alguém nos povoados vizinhos, as mulheres foram cuidando do afogado. Tiraram-lhe o lodo com escovas de esparto, desembaraçaram-lhe os cabelos dos abrolhos submarinos e rasparam a rêmora com ferros de descamar peixes. À medida que o faziam, notaram que a vegetação era de oceanos remotos e de águas profundas; e que suas roupas estavam em frangalhos, como se houvesse navegado entre labirintos de corais. Notaram também que carregava a morte com altivez, pois não tinha o semblante solitário dos outros afogados do mar, nem tampouco a catadura sórdida e indigente dos afogados dos rios. Somente, porém, quando acabaram de limpá-lo tiveram consciência da classe de homens que era, e então ficaram sem respiração. Não era só o mais alto, o mais forte, o mais viril e o mais bem servido que jamais tinham visto, senão que, embora o estivessem vendo, não lhes cabia na imaginação.

Não encontraram no povoado uma cama bastante grande para estendê-lo, nem uma mesa bastante sólida para velá-lo. Não lhe serviram as calças de festa dos homens mais altos, nem as camisas de domingo dos mais corpulentos, nem os sapatos do maior tamanho. Fascinadas por sua desproporção e sua beleza, as mulheres decidiram então fazer-lhe umas calças com um bom pedaço de vela carangueja e uma camisa de cretone de noiva, para que pudesse continuar sua morte com dignidade.

Enquanto costuravam, sentadas em círculo, contemplando o cadáver entre ponto e ponto, parecia-lhes que o vento não fora nunca tão tenaz nem o Caribe estivera tão ansioso quanto naquela noite, e supunham que essas mudanças tinham algo a ver com o morto. Pensavam que, se aquele homem magnífico tivesse vivido no povoado, sua casa teria as portas mais largas, o teto mais alto e o piso mais firme, e o estrado de sua cama seria de cavernas mestras com pernas de ferro, e sua mulher seria a mais feliz. Pensavam que tivera tanta autoridade que poderia tirar os peixes do mar só os chamando por seus nomes, e pusera tanto empenho no trabalho que fizera brotar mananciais entre as pedras mais áridas, e semear flores nas escarpas. Compararam-no, em segredo, com seus homens, pensando que não seriam capazes de fazer, em toda uma vida, o que aquele era capaz de fazer numa noite, e acabaram por repudiá-los, no fundo de seus corações, como os seres mais fracos e mesquinhos da terra. Andavam perdidas por esses labirintos de fantasia, quando a mais velha das mulheres, que por ser a mais velha contemplara o afogado com menos paixão que compaixão, suspirou:


— Tem cara de se chamar Estêvão.


Era verdade. À maioria bastou olhá-lo outra vez para compreender que não podia ter outro nome. As mais teimosas, que eram as mais jovens, mantiveram-se com a ilusão de que, ao vesti-lo, estendido entre flores e com uns sapatos de verniz, pudesse chamar-se Lautaro. Mas foi uma ilusão vã. O lençol ficou curto, mal cortadas e pior costuradas, ficaram apertadas e as forças ocultas de seu coração faziam saltar os botões da camisa. Depois da meia noite diminuíram os assobios do vento e o mar caiu na sonolência da quarta feira. O silêncio pôs fim às últimas dúvidas:era Estêvão. As mulheres que o vestiram, as que o pentearam, as que lhe cortaram as unhas e barbearam não puderam reprimir um estremecimento de compaixão quando tiveram de resignar-se a deixá-lo estendido no chão. Foi então quando compreenderam quanto devia ter sido infeliz com aquele corpo descomunal, se até depois de morto o estorvava. Viram-no condenado em vida a passar de lado pelas portas, a ferir-se nos tetos, a permanecer de pé nas visitas, sem fazer o que fazer com suas ternas e rosadas mãos de boi marinho, enquanto a dona da casa procurava a cadeira mais resistente e suplicava-lhe, morta de medo, sente-se aqui Estêvão, faça-me o favor, e ele encostado nas paredes, sorrindo, não se preocupe senhora, estou bem assim, com os calcanhares em carne viva e as costas abrasando de tanto repetir o mesmo, em todas as visitas,não se preocupe senhora, estou bem assim, só para não passar pela vergonha de destruir a cadeira, e talvez sem ter sabido nunca que aquele que lhe diziam não se vá, Estêvão, espere pelo menos até que aqueça o café, eram os mesmos que, depois, sussurravam já se foi o bobo grande, que bom, já se foi o bobo bonito. Isto pensavam as mulheres diante do cadáver um pouco antes do amanhecer.

Mais tarde, quando lhe cobriram o rosto com um lenço para que não o maltratasse a luz, viram-no tão morto para sempre, tão indefeso, tão parecido com seus homens, que se abriram as primeiras gretas de lágrimas nos seus corações. Foi uma das mais jovens que começou a soluçar. As outras, consolando-se entre si, passaram dos suspiros aos lamentos, e enquanto mais soluçavam, mais vontade sentiam de chorar, porque o afogado estava se tornando cada vez mais Estevão, até que o choraram tanto que ficou sendo o homem mais desvalido da Terra, o mais manso, o mais serviçal, o pobre Estêvão. Assim que, quando os homens voltaram com a notícia de que o afogado também não era dos povoados vizinhos, elas sentiram um vazio de júbilo entre as lágrimas. — Bendito seja Deus — suspiraram: — é nosso! Os homens acreditaram que aqueles exageros não eram mais que frivolidades de mulher. Cansados das demoradas averiguações da noite, a única coisa que queriam era descartar-se deuma vez do estorvo do intruso, antes que acendesse o sol bravo daquele dia árido e sem vento. Improvisaram umas padiolas com restos de traquetes e espichas, e as amarraram com carlingas de altura, para que resistissem ao peso do corpo até as escarpas. Quiseram prender-lhe aos tornozelos uma ancora de navio mercante para que ancorasse, sem tropeços, nos mares mais profundos, onde os peixes são cegos e os búzios morrem de saudade, de modo que as más correntes não o devolvessem à margem, como acontecera com outros corpos. Porém, quanto mais se apressavam, mais coisas as mulheres lembraram para perder tempo.


Andavam como galinhas assustadas, bicando amuletos do mar nas arcas, umas estorvando aqui porque queriam pôr no afogado os escapulários do bom vento, outras estorvando lá para abotoar-lhe uma pulseira de orientação; e depois de tanto sai daí mulher, ponha-se onde não estorve, olhe que quase me faz cair sobre o defunto, aos fígados dos homens subiram as suspeitas e eles começaram a resmungar, para que tanta bugiganga de altar-mor para um forasteiro, se por muitos cravos e caldeirinhas que levasse em cima os tubarões iam mastigá-lo, mas elas continuavam ensacando suas relíquias de quinquilharia, levando e trazendo, tropeçando, enquanto gastavam em suspiros o que poupavam em lágrimas, tanto que os homens acabaram por se zangar, desde quando aqui semelhante alvoroço por um morto ao léu, um afogado de nada, um presunto de merda. Uma das mulheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou o lenço do rosto do cadáver e também os homens perderam a respiração. Era Estêvão. Não foi preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Se lhe tivessem chamado SirWalter Raleigh, talvez, até eles ter-se-iam impressionado com seu sotaque de gringo, com sua arara no ombro, com seu arcabuz de matar canibais, mas Estêvão só podia ser único no mundo e ali estava atirado, como um peixe inútil, sem polainas, com umas calças que não lhe cabiam e umas unhas cheias de barro, que só se podia cortar à faca. Bastou que lhe tirassem o lenço do rosto para perceber que estavam envergonhado, de que não tinha culpa de ser tão grande, nem tão pesado, nem tão bonito, e se soubesse que isso ia acontecer, teria procurado um lugar mais discreto para afogar-se, de verdade, me amarraria eu mesmo uma âncora de galeão no pescoço e teria tropeçado como quem não que nada nas escarpas, para não andar agora estorvando comeste morto de quarta-feira, como vocês chamam, para não molestar ninguém com esta porcaria de presunto que nada tem a ver comigo. Havia tanta verdade no seu modo de estar que até os homens mais desconfiados, os que achavam amargas as longas noites no mar, temendo que suas mulheres se cansassem de sonhar com eles para sonhar com os afogados, até esses, e outros mais empedernidos, estremeceram até a medula com a sinceridade de Estêvão.


Foi por isso que lhe fizeram os funerais mais esplêndidos que se podiam conceber para um afogado considerado enjeitado. Algumas mulheres, que tinham ido buscar flores nos povoados vizinhos, voltaram com outras que não acreditavam no que lhes contavam, e estas foram buscar mais flores quando viram o morto, e levaram mais e mais, até que houve tantas flores e tanta gente que mal se podia caminhar. Na última hora, doeu-lhes devolvê-lo órfão às águas, e lhe deram um pai e uma mãe dentre os melhores, e outros se fizerem seus irmãos, tios e primos, de tal forma que, através dele, todos os habitantes do povoado acabaram por ser parentes entre si. Alguns marinheiros que ouviram o choro à distância perderam a segurança do rumo, e se soube de que um se fez amarrar ao mastro maior, recordando antigas fábulas de sereias.

Enquanto se disputavam o privilégio de carregá-lo nos ombros, pelo declive íngreme das escarpas, homens e mulheres perceberam, pela primeira vez, a desolação de suas ruas, a aridez de seus pátios, a estreiteza de seus sonhos, diante do esplendor e da beleza do seu afogado. Jogaram-no sem âncora, para que voltasse se quisesse, e quando o quisesse, e todos prenderam a respiração durante a fração de séculos que demorou a queda do corpo até o abismo. Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outros para perceber que já não estavam todos, nem voltariam a estar jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente desde então, que suas casas teriam as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Estevão pudesse andar por toda parte, sem bater nas traves, e que ninguém se atrevesse a sussurrar no futuro já morreu o bobo grande, que pena, já morreu o bobo bonito, porque eles iam pintar as fachadas de cores alegres para eternizar a memória de Estêvão, e iriam quebrar a espinha  cavando mananciais nas pedras e semeando flores nas escarpas para que, nas auroras dos anos venturosos, os passageiros dos grandes navios despertassem sufocados por um perfume de jardins em alto-mar, e o capitão tivesse que baixar do seu castelo de proa, em uniforme de gala, astrolábio, estrela polar e sua enfiada de medalhas de guerra, e, apontando o promontório de rosas no horizonte do Caribe, dissesse em catorze línguas, olhem lá, onde o vento é agora tão manso que dorme debaixo das camas, lá, onde o sol brilha tanto que os girassóis não sabem para onde girar, sim, lá é o povoado de Estêvão.


Quem foi Gabriel García Márquez?




Gabriel García Márquez, também conhecido por Gabo, nasceu em 6 de março de 1928, na cidade de Aracataca, Colômbia. Logo depois que García Márquez nasceu, seu pai se tornou um farmacêutico. Em janeiro de 1929, seus pais se mudaram para Barranquilla, enquanto García Marquez permaneceu em Aracataca. Foi criado por seus avós maternos, Doña Tranquilina Iguarán e o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía. Quando ele tinha oito anos, seu avô morreu, e ele se mudou para a casa de seus pais em Barranquilla, onde seu pai era proprietário de uma farmácia.


Seu avô materno Nicolás Márquez, que era um veterano da Guerra dos Mil Dias, cujas histórias encantavam o menino, e sua avó materna Tranquilina Iguarán, exerceram forte influência nas histórias do autor. Um exemplo são os personagens de Cem Anos de Solidão.


Gabriel estudou em Barranquilla e no Liceu Nacional de Zipaquirá. Passou a juventude ouvindo contos das Mil e Uma Noites; sua adolescência foi marcada por livros, em especial A Metamorfose, de Franz Kafka. Ao ler a primeira frase do livro, “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”, pensou “então eu posso fazer isso com as personagens? Criar situações impossíveis?”.







sábado, 21 de fevereiro de 2026

Nunca antes lavaram tanto dinheiro da direita



Imagem: Google


Por Moisés Mendes 


Essas quatro informações sobre lavagem de dinheiro, com envolvimento de gente da direita, estão nas capas dos jornais dessa sexta-feira. Quem quiser, pode procurar mais que irá achar.


1. O vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD), e sua esposa, Vanessa, estão sendo investigados por suspeita de lavagem de dinheiro em Andorra, um principado europeu tradicionalmente conhecido por ser um paraíso fiscal. Com informações do Metrópoles.


2. Rubens Menin, dono do canal CNN Brasil e da Rádio Itatiaia de Minas Gerais, é sócio do banqueiro Daniel Vorcaro desde 2023 na SAF (Sociedade Anônima de Futebol) do Atlético Mineiro. O Atlético está sob suspeita de lavagem de dinheiro. Menin, como chefe do conselho administrativo e maior acionista da empresa que controla o clube de Belo Horizonte, foi quem levou o proprietário do já liquidado Banco Master para ser um dos donos da controladora do time.


3. A Polícia Federal prendeu Victor Aielo, proprietário da concessionária de luxo Aielo Motors, de São Paulo, acusado de ser operador de lavagem de dinheiro de uma organização criminosa investigada por fraudes financeiras. A empresa movimentava dinheiro sujo com a venda de carros teria feito transações que somam mais de R$ 11 milhões com o Antônio Carlos Camilo Antunes, o famoso Careca do INSS.


4. A influenciadora e musa da escola de samba Gaviões da Fiel, Natacha Horana Silva, foi denunciada pelo Ministério Público de São Paulo por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que atuava na Faria Lima com fintechs do mercado financeiro.


Fonte: https://www.blogdomoisesmendes.com.br/nunca-antes-lavaram-tanto-dinheiro-da-direita/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Será que vai chover?



Acordei ao som do alarme do celular às seis, com o coração batendo sossegado.  A paz invadira os meus sentidos. Abri a janela e vi o sol,  que surgia. O dia prometia calor intenso. Meus pensamentos voltaram para os meus parentes e pessoas queridas. Apesar da distância, que nos separa, os vínculos não foram rompidos.  Vez em quando a gente se fala pela câmera. Aos mais íntimos não falta uma mensagem de bom dia. Até com os conservadores,  tem um olá, tudo bem?  Na verdade, com alguns é uma reaproximação. Nos afastamos por divergências ideológicas,  assim que a extrema direita chegou ao poder da república. O distanciamento, pelo menos num primeiro momento, foi inevitável.  As conversas ficaram tensas.  Agora as coisas estão começando a fluir, numa distensão. O campo progressista, majoritário, dialoga com os conservadores, com cautela.  



     Acordei assim, disposto ao amor e ao perdão. Desisti de entender porque pessoas tão próximas, que pensava conhecer, tornaram-se raivosas. Feitas as exceções de praxe, parentes, amigas e amigos não são racistas, homofóbicos, nazistas, menos ainda. Tempos atrás tentei trazê-los à realidade, mas me diziam que o cego era eu. Contrapunham com argumentos sofistas, numa inversão de valores. Para preservar a relação, a opção foi não falarmos de política, coisa difícil, pois tudo é política, inclusive não falar. Em nossos encontros a gente conversa sobre temas irrelevantes, cantamos parabéns, bebemos e comemos.  E quando o assunto acaba, a gente olha para o céu e pergunta: Será que vai chover?





J Estanislau Filho  



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Memórias De Uma Tarde De Chuva

Imagem: Google


Ele era feito de terra e silêncio. Mãos grossas, pele queimada pelo sol, corpo viril marcado pelo peso dos dias, olhos tristes trazendo a solidão das madrugadas. Trazia o cheiro do mato, mãos rudes e fortes, sorriso largo, boca sensual. Não se podia supor a delicadeza que se escondia em seus sentimentos, o fogo contido, o coração que ardia de amor em segredo
Ela, mulher linda e delicada, criada entre varandas largas, janelas altas, finas sedas e ornada com joias. O coração inquieto se sentia atraído pelo que não lhe pertencia. Trazia nos olhos uma fome antiga, inexplicável. Quando o via passar, chapéu na cabeça, roupas rudes, passos firmes, sentia o corpo estremecer num desejo sem lógica e sem razão.
Naquela tarde a chuva veio de repente. Ela, que amava a chuva, saiu pelo campo. Parecia que algo a chamava, que precisava ir de encontro ao seu destino. Ele vinha por ali sem nem saber o porquê. Caminhava sem rumo. Um chamado pulsava nele.
A chuva caía fina, quase um sussurro do céu. O campo se abria diante deles como um altar verde. A relva se curvava exalando um perfume úmido e antigo. Parecia que todo aquele cenário tinha sido criado para aquele instante. Ele vinha com passos firmes, ela surgia entre os arbustos atendendo a um misterioso chamado.
Pararam a poucos passos um do outro. O silêncio pulsava. A água escorria pelos cabelos dela e desenhava caminhos na pele. A blusa fina colada ao corpo a tornava  irresistivelmente sensual. O olhar dele era denso, carregado de desejo contido por muito tempo. Ela olhava seu corpo viril e definido e estremecia de sutis vontades. Parecia haver entre eles algo mais profundo, um reconhecimento que atravessava a carne e tocava a alma.
Ele se aproximou devagar para não quebrar o encanto. A mão dele tocou o rosto dela e um arrepio lhe percorreu o corpo. A pele eriçou e ele sentiu. Ela fechou os olhos permitindo e o corpo tocou o dele. A chuva os envolvia formando um invisível véu. As bocas se encontraram num beijo quente, profundo e demorado. Era fome e reverência, pecado e oração.
Seus corpos responderam e se entregaram sentindo o mundo desaparecer e tornando-se o centro do universo. As mãos dele deslizavam com firmeza e cuidado, explorando curvas, caminhando territórios encantados. Ela se achegou ao corpo dele implorando em silêncio. A respiração se tornou descompasso, o coração pulava no peito. A chuva escorria entre os dois misturando-se ao calor que emanava deles. Frio e fogo. Céu e carne.
Ele a puxou para si, corpos colados. A força de seus braços a deixava refém daquele momento. Ela sentiu-se tomada, cercada, desejada. O encontro era pleno, elétrico, íntimo. Cada movimento era um convite, cada toque uma vertigem. Ele beijou seu pescoço e ela gemeu baixo e era quase uma oração. Ela se deixou conduzir afagando os cabelos dele, pedindo mais, pedindo tudo e muito mais. O mundo parou para olhar aquele momento que valia uma vida.
E ali no meio do campo encharcado, sob a chuva mansa eles se entregaram obedecendo a uma força maior. Não era apenas desejo. Era memória, espírito. Os corpos se entendiam com uma linguagem que dispensava palavras. Cada toque de pele era um selo, cada suspiro soava como um juramento. Eles dançavam a dança do amor sem pressa, mas com firmeza e uma vontade delirante. Ela sentia-se atravessada por algo divino e profano. Ele sentia-se escolhido O tempo não existia. A terra os sustentava, o céu os testemunhava, a chuva os consagrava.
Ao se entregarem um ao outro com urgência e devoção sentiram que dois mundos se tocavam, o da carne e o do invisível. O amor ali era intenso, sagrado, infinito e inevitável. E quando enfim repousaram abraçados,  a chuva continuava a cair, mansa constante, cúmplice. Como se os abençoasse.
Muito mais tarde se despediram, deram as costas e voltaram para casa.
Seguiram suas vidas. Tomaram seus rumos. Viveram o que lhe cabia nesta vida.
Nas tardes de chuva, os dois, cada um em seu canto, ativavam suas memórias de pele e de alma e se lembravam daquele dia em que tiveram um encontro de corpo e alma que valeu por toda uma vida…
Quem sabe um dia em outro mundo, em outra vida, em outra dimensão se reencontrariam para sempre?

 

Nádia Gonçalves