sábado, 14 de março de 2026

O afogado mais bonito do mundo




Os primeiros meninos que viram o volume escuro e silencioso que se aproximava pelo mar imaginaram que era um barco inimigo. Depois viram que não trazia bandeiras nem mastreação, e pensaram que fosse uma baleia. Quando, porém, encalhou na praia, tiraram-lhe os matos de sargaços, os filamentos de medusas e os restos de cardumes e naufrágios que trazia por cima, e só então descobriram que era um afogado.

Tinham brincado com ele toda a tarde, enterrando-o e o desenterrando na areia, quando alguém os viu por acaso e deu o alarme no povoado. Os homens que o carregaram à casa mais próxima notaram que pesava mais que todos os mortos conhecidos, quase tanto quanto um cavalo, e disseram que talvez tivesse estado muito tempo à deriva e a água penetrara-lhe os ossos. Quando o estenderam no chão viram que fora muito maior que todos os homens, pois mal cabia na casa, mas pensaram que talvez a capacidade de continuar crescendo depois da morte estava na natureza de certos afogados. Tinha o cheiro do mar e só a forma permitia supor que fosse o cadáver de um ser humano, porque sua pele estava revestida de uma couraça de rêmora e de lodo. Não tiveram que limpar seu rosto para saber que era um morto estranho. O povoado tinha apenas umas vinte casas de tábuas, com pátios de pedra sem flores, dispostas no fim de um cabo desértico. A terra era tão escassa que as mães andavam sempre com medo de que o vento levasse os meninos, e os poucos mortos que os anos iam causando tinham que atirar das escarpas. Mas o mar era manso e pródigo, e todos os homens cabiam em sete botes. Assim, quando encontraram o afogado, bastou-lhes olhar uns aos outros para perceber que nenhum faltava. Naquela noite não foram trabalhar no mar.


Arte de Joaquín Sorolla

Enquanto os homens verificavam se não faltava alguém nos povoados vizinhos, as mulheres foram cuidando do afogado. Tiraram-lhe o lodo com escovas de esparto, desembaraçaram-lhe os cabelos dos abrolhos submarinos e rasparam a rêmora com ferros de descamar peixes. À medida que o faziam, notaram que a vegetação era de oceanos remotos e de águas profundas; e que suas roupas estavam em frangalhos, como se houvesse navegado entre labirintos de corais. Notaram também que carregava a morte com altivez, pois não tinha o semblante solitário dos outros afogados do mar, nem tampouco a catadura sórdida e indigente dos afogados dos rios. Somente, porém, quando acabaram de limpá-lo tiveram consciência da classe de homens que era, e então ficaram sem respiração. Não era só o mais alto, o mais forte, o mais viril e o mais bem servido que jamais tinham visto, senão que, embora o estivessem vendo, não lhes cabia na imaginação.

Não encontraram no povoado uma cama bastante grande para estendê-lo, nem uma mesa bastante sólida para velá-lo. Não lhe serviram as calças de festa dos homens mais altos, nem as camisas de domingo dos mais corpulentos, nem os sapatos do maior tamanho. Fascinadas por sua desproporção e sua beleza, as mulheres decidiram então fazer-lhe umas calças com um bom pedaço de vela carangueja e uma camisa de cretone de noiva, para que pudesse continuar sua morte com dignidade.

Enquanto costuravam, sentadas em círculo, contemplando o cadáver entre ponto e ponto, parecia-lhes que o vento não fora nunca tão tenaz nem o Caribe estivera tão ansioso quanto naquela noite, e supunham que essas mudanças tinham algo a ver com o morto. Pensavam que, se aquele homem magnífico tivesse vivido no povoado, sua casa teria as portas mais largas, o teto mais alto e o piso mais firme, e o estrado de sua cama seria de cavernas mestras com pernas de ferro, e sua mulher seria a mais feliz. Pensavam que tivera tanta autoridade que poderia tirar os peixes do mar só os chamando por seus nomes, e pusera tanto empenho no trabalho que fizera brotar mananciais entre as pedras mais áridas, e semear flores nas escarpas. Compararam-no, em segredo, com seus homens, pensando que não seriam capazes de fazer, em toda uma vida, o que aquele era capaz de fazer numa noite, e acabaram por repudiá-los, no fundo de seus corações, como os seres mais fracos e mesquinhos da terra. Andavam perdidas por esses labirintos de fantasia, quando a mais velha das mulheres, que por ser a mais velha contemplara o afogado com menos paixão que compaixão, suspirou:


— Tem cara de se chamar Estêvão.


Era verdade. À maioria bastou olhá-lo outra vez para compreender que não podia ter outro nome. As mais teimosas, que eram as mais jovens, mantiveram-se com a ilusão de que, ao vesti-lo, estendido entre flores e com uns sapatos de verniz, pudesse chamar-se Lautaro. Mas foi uma ilusão vã. O lençol ficou curto, mal cortadas e pior costuradas, ficaram apertadas e as forças ocultas de seu coração faziam saltar os botões da camisa. Depois da meia noite diminuíram os assobios do vento e o mar caiu na sonolência da quarta feira. O silêncio pôs fim às últimas dúvidas:era Estêvão. As mulheres que o vestiram, as que o pentearam, as que lhe cortaram as unhas e barbearam não puderam reprimir um estremecimento de compaixão quando tiveram de resignar-se a deixá-lo estendido no chão. Foi então quando compreenderam quanto devia ter sido infeliz com aquele corpo descomunal, se até depois de morto o estorvava. Viram-no condenado em vida a passar de lado pelas portas, a ferir-se nos tetos, a permanecer de pé nas visitas, sem fazer o que fazer com suas ternas e rosadas mãos de boi marinho, enquanto a dona da casa procurava a cadeira mais resistente e suplicava-lhe, morta de medo, sente-se aqui Estêvão, faça-me o favor, e ele encostado nas paredes, sorrindo, não se preocupe senhora, estou bem assim, com os calcanhares em carne viva e as costas abrasando de tanto repetir o mesmo, em todas as visitas,não se preocupe senhora, estou bem assim, só para não passar pela vergonha de destruir a cadeira, e talvez sem ter sabido nunca que aquele que lhe diziam não se vá, Estêvão, espere pelo menos até que aqueça o café, eram os mesmos que, depois, sussurravam já se foi o bobo grande, que bom, já se foi o bobo bonito. Isto pensavam as mulheres diante do cadáver um pouco antes do amanhecer.

Mais tarde, quando lhe cobriram o rosto com um lenço para que não o maltratasse a luz, viram-no tão morto para sempre, tão indefeso, tão parecido com seus homens, que se abriram as primeiras gretas de lágrimas nos seus corações. Foi uma das mais jovens que começou a soluçar. As outras, consolando-se entre si, passaram dos suspiros aos lamentos, e enquanto mais soluçavam, mais vontade sentiam de chorar, porque o afogado estava se tornando cada vez mais Estevão, até que o choraram tanto que ficou sendo o homem mais desvalido da Terra, o mais manso, o mais serviçal, o pobre Estêvão. Assim que, quando os homens voltaram com a notícia de que o afogado também não era dos povoados vizinhos, elas sentiram um vazio de júbilo entre as lágrimas. — Bendito seja Deus — suspiraram: — é nosso! Os homens acreditaram que aqueles exageros não eram mais que frivolidades de mulher. Cansados das demoradas averiguações da noite, a única coisa que queriam era descartar-se deuma vez do estorvo do intruso, antes que acendesse o sol bravo daquele dia árido e sem vento. Improvisaram umas padiolas com restos de traquetes e espichas, e as amarraram com carlingas de altura, para que resistissem ao peso do corpo até as escarpas. Quiseram prender-lhe aos tornozelos uma ancora de navio mercante para que ancorasse, sem tropeços, nos mares mais profundos, onde os peixes são cegos e os búzios morrem de saudade, de modo que as más correntes não o devolvessem à margem, como acontecera com outros corpos. Porém, quanto mais se apressavam, mais coisas as mulheres lembraram para perder tempo.


Andavam como galinhas assustadas, bicando amuletos do mar nas arcas, umas estorvando aqui porque queriam pôr no afogado os escapulários do bom vento, outras estorvando lá para abotoar-lhe uma pulseira de orientação; e depois de tanto sai daí mulher, ponha-se onde não estorve, olhe que quase me faz cair sobre o defunto, aos fígados dos homens subiram as suspeitas e eles começaram a resmungar, para que tanta bugiganga de altar-mor para um forasteiro, se por muitos cravos e caldeirinhas que levasse em cima os tubarões iam mastigá-lo, mas elas continuavam ensacando suas relíquias de quinquilharia, levando e trazendo, tropeçando, enquanto gastavam em suspiros o que poupavam em lágrimas, tanto que os homens acabaram por se zangar, desde quando aqui semelhante alvoroço por um morto ao léu, um afogado de nada, um presunto de merda. Uma das mulheres, mortificada por tanta insensibilidade, tirou o lenço do rosto do cadáver e também os homens perderam a respiração. Era Estêvão. Não foi preciso repeti-lo para que o reconhecessem. Se lhe tivessem chamado SirWalter Raleigh, talvez, até eles ter-se-iam impressionado com seu sotaque de gringo, com sua arara no ombro, com seu arcabuz de matar canibais, mas Estêvão só podia ser único no mundo e ali estava atirado, como um peixe inútil, sem polainas, com umas calças que não lhe cabiam e umas unhas cheias de barro, que só se podia cortar à faca. Bastou que lhe tirassem o lenço do rosto para perceber que estavam envergonhado, de que não tinha culpa de ser tão grande, nem tão pesado, nem tão bonito, e se soubesse que isso ia acontecer, teria procurado um lugar mais discreto para afogar-se, de verdade, me amarraria eu mesmo uma âncora de galeão no pescoço e teria tropeçado como quem não que nada nas escarpas, para não andar agora estorvando comeste morto de quarta-feira, como vocês chamam, para não molestar ninguém com esta porcaria de presunto que nada tem a ver comigo. Havia tanta verdade no seu modo de estar que até os homens mais desconfiados, os que achavam amargas as longas noites no mar, temendo que suas mulheres se cansassem de sonhar com eles para sonhar com os afogados, até esses, e outros mais empedernidos, estremeceram até a medula com a sinceridade de Estêvão.


Foi por isso que lhe fizeram os funerais mais esplêndidos que se podiam conceber para um afogado considerado enjeitado. Algumas mulheres, que tinham ido buscar flores nos povoados vizinhos, voltaram com outras que não acreditavam no que lhes contavam, e estas foram buscar mais flores quando viram o morto, e levaram mais e mais, até que houve tantas flores e tanta gente que mal se podia caminhar. Na última hora, doeu-lhes devolvê-lo órfão às águas, e lhe deram um pai e uma mãe dentre os melhores, e outros se fizerem seus irmãos, tios e primos, de tal forma que, através dele, todos os habitantes do povoado acabaram por ser parentes entre si. Alguns marinheiros que ouviram o choro à distância perderam a segurança do rumo, e se soube de que um se fez amarrar ao mastro maior, recordando antigas fábulas de sereias.

Enquanto se disputavam o privilégio de carregá-lo nos ombros, pelo declive íngreme das escarpas, homens e mulheres perceberam, pela primeira vez, a desolação de suas ruas, a aridez de seus pátios, a estreiteza de seus sonhos, diante do esplendor e da beleza do seu afogado. Jogaram-no sem âncora, para que voltasse se quisesse, e quando o quisesse, e todos prenderam a respiração durante a fração de séculos que demorou a queda do corpo até o abismo. Não tiveram necessidade de olhar-se uns aos outros para perceber que já não estavam todos, nem voltariam a estar jamais. Mas também sabiam que tudo seria diferente desde então, que suas casas teriam as portas mais largas, os tetos mais altos, os pisos mais firmes, para que a lembrança de Estevão pudesse andar por toda parte, sem bater nas traves, e que ninguém se atrevesse a sussurrar no futuro já morreu o bobo grande, que pena, já morreu o bobo bonito, porque eles iam pintar as fachadas de cores alegres para eternizar a memória de Estêvão, e iriam quebrar a espinha  cavando mananciais nas pedras e semeando flores nas escarpas para que, nas auroras dos anos venturosos, os passageiros dos grandes navios despertassem sufocados por um perfume de jardins em alto-mar, e o capitão tivesse que baixar do seu castelo de proa, em uniforme de gala, astrolábio, estrela polar e sua enfiada de medalhas de guerra, e, apontando o promontório de rosas no horizonte do Caribe, dissesse em catorze línguas, olhem lá, onde o vento é agora tão manso que dorme debaixo das camas, lá, onde o sol brilha tanto que os girassóis não sabem para onde girar, sim, lá é o povoado de Estêvão.


Quem foi Gabriel García Márquez?




Gabriel García Márquez, também conhecido por Gabo, nasceu em 6 de março de 1928, na cidade de Aracataca, Colômbia. Logo depois que García Márquez nasceu, seu pai se tornou um farmacêutico. Em janeiro de 1929, seus pais se mudaram para Barranquilla, enquanto García Marquez permaneceu em Aracataca. Foi criado por seus avós maternos, Doña Tranquilina Iguarán e o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía. Quando ele tinha oito anos, seu avô morreu, e ele se mudou para a casa de seus pais em Barranquilla, onde seu pai era proprietário de uma farmácia.


Seu avô materno Nicolás Márquez, que era um veterano da Guerra dos Mil Dias, cujas histórias encantavam o menino, e sua avó materna Tranquilina Iguarán, exerceram forte influência nas histórias do autor. Um exemplo são os personagens de Cem Anos de Solidão.


Gabriel estudou em Barranquilla e no Liceu Nacional de Zipaquirá. Passou a juventude ouvindo contos das Mil e Uma Noites; sua adolescência foi marcada por livros, em especial A Metamorfose, de Franz Kafka. Ao ler a primeira frase do livro, “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”, pensou “então eu posso fazer isso com as personagens? Criar situações impossíveis?”.







sábado, 21 de fevereiro de 2026

Nunca antes lavaram tanto dinheiro da direita



Imagem: Google


Por Moisés Mendes 


Essas quatro informações sobre lavagem de dinheiro, com envolvimento de gente da direita, estão nas capas dos jornais dessa sexta-feira. Quem quiser, pode procurar mais que irá achar.


1. O vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (PSD), e sua esposa, Vanessa, estão sendo investigados por suspeita de lavagem de dinheiro em Andorra, um principado europeu tradicionalmente conhecido por ser um paraíso fiscal. Com informações do Metrópoles.


2. Rubens Menin, dono do canal CNN Brasil e da Rádio Itatiaia de Minas Gerais, é sócio do banqueiro Daniel Vorcaro desde 2023 na SAF (Sociedade Anônima de Futebol) do Atlético Mineiro. O Atlético está sob suspeita de lavagem de dinheiro. Menin, como chefe do conselho administrativo e maior acionista da empresa que controla o clube de Belo Horizonte, foi quem levou o proprietário do já liquidado Banco Master para ser um dos donos da controladora do time.


3. A Polícia Federal prendeu Victor Aielo, proprietário da concessionária de luxo Aielo Motors, de São Paulo, acusado de ser operador de lavagem de dinheiro de uma organização criminosa investigada por fraudes financeiras. A empresa movimentava dinheiro sujo com a venda de carros teria feito transações que somam mais de R$ 11 milhões com o Antônio Carlos Camilo Antunes, o famoso Careca do INSS.


4. A influenciadora e musa da escola de samba Gaviões da Fiel, Natacha Horana Silva, foi denunciada pelo Ministério Público de São Paulo por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que atuava na Faria Lima com fintechs do mercado financeiro.


Fonte: https://www.blogdomoisesmendes.com.br/nunca-antes-lavaram-tanto-dinheiro-da-direita/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Será que vai chover?



Acordei ao som do alarme do celular às seis, com o coração batendo sossegado.  A paz invadira os meus sentidos. Abri a janela e vi o sol,  que surgia. O dia prometia calor intenso. Meus pensamentos voltaram para os meus parentes e pessoas queridas. Apesar da distância, que nos separa, os vínculos não foram rompidos.  Vez em quando a gente se fala pela câmera. Aos mais íntimos não falta uma mensagem de bom dia. Até com os conservadores,  tem um olá, tudo bem?  Na verdade, com alguns é uma reaproximação. Nos afastamos por divergências ideológicas,  assim que a extrema direita chegou ao poder da república. O distanciamento, pelo menos num primeiro momento, foi inevitável.  As conversas ficaram tensas.  Agora as coisas estão começando a fluir, numa distensão. O campo progressista, majoritário, dialoga com os conservadores, com cautela.  



     Acordei assim, disposto ao amor e ao perdão. Desisti de entender porque pessoas tão próximas, que pensava conhecer, tornaram-se raivosas. Feitas as exceções de praxe, parentes, amigas e amigos não são racistas, homofóbicos, nazistas, menos ainda. Tempos atrás tentei trazê-los à realidade, mas me diziam que o cego era eu. Contrapunham com argumentos sofistas, numa inversão de valores. Para preservar a relação, a opção foi não falarmos de política, coisa difícil, pois tudo é política, inclusive não falar. Em nossos encontros a gente conversa sobre temas irrelevantes, cantamos parabéns, bebemos e comemos.  E quando o assunto acaba, a gente olha para o céu e pergunta: Será que vai chover?





J Estanislau Filho  



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Memórias De Uma Tarde De Chuva

Imagem: Google


Ele era feito de terra e silêncio. Mãos grossas, pele queimada pelo sol, corpo viril marcado pelo peso dos dias, olhos tristes trazendo a solidão das madrugadas. Trazia o cheiro do mato, mãos rudes e fortes, sorriso largo, boca sensual. Não se podia supor a delicadeza que se escondia em seus sentimentos, o fogo contido, o coração que ardia de amor em segredo
Ela, mulher linda e delicada, criada entre varandas largas, janelas altas, finas sedas e ornada com joias. O coração inquieto se sentia atraído pelo que não lhe pertencia. Trazia nos olhos uma fome antiga, inexplicável. Quando o via passar, chapéu na cabeça, roupas rudes, passos firmes, sentia o corpo estremecer num desejo sem lógica e sem razão.
Naquela tarde a chuva veio de repente. Ela, que amava a chuva, saiu pelo campo. Parecia que algo a chamava, que precisava ir de encontro ao seu destino. Ele vinha por ali sem nem saber o porquê. Caminhava sem rumo. Um chamado pulsava nele.
A chuva caía fina, quase um sussurro do céu. O campo se abria diante deles como um altar verde. A relva se curvava exalando um perfume úmido e antigo. Parecia que todo aquele cenário tinha sido criado para aquele instante. Ele vinha com passos firmes, ela surgia entre os arbustos atendendo a um misterioso chamado.
Pararam a poucos passos um do outro. O silêncio pulsava. A água escorria pelos cabelos dela e desenhava caminhos na pele. A blusa fina colada ao corpo a tornava  irresistivelmente sensual. O olhar dele era denso, carregado de desejo contido por muito tempo. Ela olhava seu corpo viril e definido e estremecia de sutis vontades. Parecia haver entre eles algo mais profundo, um reconhecimento que atravessava a carne e tocava a alma.
Ele se aproximou devagar para não quebrar o encanto. A mão dele tocou o rosto dela e um arrepio lhe percorreu o corpo. A pele eriçou e ele sentiu. Ela fechou os olhos permitindo e o corpo tocou o dele. A chuva os envolvia formando um invisível véu. As bocas se encontraram num beijo quente, profundo e demorado. Era fome e reverência, pecado e oração.
Seus corpos responderam e se entregaram sentindo o mundo desaparecer e tornando-se o centro do universo. As mãos dele deslizavam com firmeza e cuidado, explorando curvas, caminhando territórios encantados. Ela se achegou ao corpo dele implorando em silêncio. A respiração se tornou descompasso, o coração pulava no peito. A chuva escorria entre os dois misturando-se ao calor que emanava deles. Frio e fogo. Céu e carne.
Ele a puxou para si, corpos colados. A força de seus braços a deixava refém daquele momento. Ela sentiu-se tomada, cercada, desejada. O encontro era pleno, elétrico, íntimo. Cada movimento era um convite, cada toque uma vertigem. Ele beijou seu pescoço e ela gemeu baixo e era quase uma oração. Ela se deixou conduzir afagando os cabelos dele, pedindo mais, pedindo tudo e muito mais. O mundo parou para olhar aquele momento que valia uma vida.
E ali no meio do campo encharcado, sob a chuva mansa eles se entregaram obedecendo a uma força maior. Não era apenas desejo. Era memória, espírito. Os corpos se entendiam com uma linguagem que dispensava palavras. Cada toque de pele era um selo, cada suspiro soava como um juramento. Eles dançavam a dança do amor sem pressa, mas com firmeza e uma vontade delirante. Ela sentia-se atravessada por algo divino e profano. Ele sentia-se escolhido O tempo não existia. A terra os sustentava, o céu os testemunhava, a chuva os consagrava.
Ao se entregarem um ao outro com urgência e devoção sentiram que dois mundos se tocavam, o da carne e o do invisível. O amor ali era intenso, sagrado, infinito e inevitável. E quando enfim repousaram abraçados,  a chuva continuava a cair, mansa constante, cúmplice. Como se os abençoasse.
Muito mais tarde se despediram, deram as costas e voltaram para casa.
Seguiram suas vidas. Tomaram seus rumos. Viveram o que lhe cabia nesta vida.
Nas tardes de chuva, os dois, cada um em seu canto, ativavam suas memórias de pele e de alma e se lembravam daquele dia em que tiveram um encontro de corpo e alma que valeu por toda uma vida…
Quem sabe um dia em outro mundo, em outra vida, em outra dimensão se reencontrariam para sempre?

 

Nádia Gonçalves 



domingo, 11 de janeiro de 2026

Venezuela: o Império ameaça — e está nu




Ao sequestrar Maduro e escancarar o projeto de submissão da América Latina, Trump revela força e fraqueza. EUA expõem sua condição de opressores. Agora é prioritário afastar sua enorme influência, em particular no Brasil. Há caminhos para isso Por Antonio Martins | Imagem: Jonathan Crow


A Venezuela não é para principiantes. No último sábado (3/1), um ataque militar maciço dos Estados Unidos, que concentram no Caribe a maior força naval agressora já reunida nas Américas, sequestrou Nicolás Maduro e decapitou o governo do país. Desde então, Donald Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, têm multiplicado ameaças. Falaram num “segundo ataque”. Alardearam que “qualquer integrante do governo ou das forças armadas” pode sofrer o mesmo que impuseram a Maduro. Acrescentaram que Delcy Rodriguez, a vice-presidente agora em exercício, pode defrontar-se com “algo pior”. Na vociferação mais recente, o próprio Trump “assegurou” num post em rede social, em 6/1, que Washington exigirá de Caracas de 30 a 50 milhões de barris de petróleo (dois meses de produção), cuja receita seria administrada por ele em pessoa…


No mesmo dia em que esta última intimidação foi proferida, Delcy Rodriguez fez sua primeira aparição nas ruas de Caracas, na condição de presidenta interina. Escolheu como cenário um local simbólico: a Comuna Socialista José Félix Ribas, parte do projeto chavista (retomado apenas recentemente por Maduro) de criar instituições de poder e de iniciativa econômica popular. Foi categórica: “aqui governa o povo, aqui há poder constitucional”. Denunciou a ação de Trump como “agressão armada unilateral”. Exigiu que “cessem o assédio à Venezuela e a agressão ao povo de Bolívar”, e que o presidente seja libertado.

6/1 – Delcy Rodriguez vai à Comuna

Ainda estão rolando os dados — na Venezuela e em toda a América Latina. A ação militar fulminante dos Estados Unidos e as falas de Trump desde então marcam uma guinada nas relações entre Washington e a região. O direito internacional foi violado de múltiplas maneiras; e de forma indisfarçada. A Casa Branca anuncia a volta da Doutrina Monroe e da estratégia do Big Stick, agora em versão piorada (a “Doutrina Donroe”). Mas o exame mais profundo dos fatos, que se fará a seguir, revela que seu poder tem limites.

Eles aparecem nas próprias decisões de Trump. Apesar do imenso poder bélico que reúne, e de seu esforço para concentrá-lo nas Américas (o “hemisfério ocidental” da Doutrina Monroe), o presidente não pode lançar uma invasão em larga escala, como fizeram seus antecessores recentes no Iraque e Afeganistão. Em decorrência disso, também refugou diante do passo que pareceria natural, após o sucesso do ataque: ir adiante. E tentar a mudança de regime.


A contradição entre os planos e os poderes reais de Trump abre uma brecha, e o objetivo principal deste texto é explorá-la. A América Latina, e em particular o Brasil, já não podem manter com os Estados Unidos as mesmas relações de antes — mas os governos e a opinião pública demoram a dar-se conta disso.


Não se trata de emitir declarações de protesto (as que o Brasil patrocinou ou firmou até o momento são razoáveis). A Doutrina Donroe, o ataque pioneiro à Venezuela e as ameaças subsequentes de Trump a outros países da região constituem, em conjunto, uma declaração permanente de guerra. Nesse sentido, o império está nu — pois despiu-se da roupagem que o associava, no passado, à “democracia”, à “liberdade” ou ao “Estado de direito”.


Mas o poder potencialmente agressor tira proveito de duas ordens de vulnerabilidade. A primeira, de fundo, é a ausência prolongada de projetos nacionais. Foco principal da aplicação do neoliberalismo, a maior parte dos países da América Latina continua submissa — mesmo agora, quando esta ideologia está em farrapos — à crença nas “soluções de mercado”. O Brasil é parte do grupo.

A segunda debilidade é mais específica, porém mais urgente. Por isso mesmo, sugere um ponto de partida para a ação. As brechas diante do poder da Casa Branca são especialmente graves em três dimensões: a) as tecnologias de informação, as plataformas de comunicação em rede e a inteligência artificial, onde as big techs norte-americanas, associadas à ultradireita, exercem pleno domínio; b) as Forças Armadas, cujo armamento, comunicação e logística estão subordinados aos Estados Unidos; c) a diplomacia, que permanece incapaz de enxergar — e, muito menos, de explorar — as novas possibilidades abertas pelo declínio da ordem eurocêntrica. Segue cega, em especial, como se verá, aos acenos múltiplos lançados pela China.


Certos riscos são também oportunidades. Há três décadas, a esquerda brasileira vive um processo de institucionalização que a afastou de pensar — e projetar para a população — um horizonte histórico. Há agora um estridente sinal de alerta. Ele ajudará a despertar da letargia?


I. O assalto

Não saia à caça de traidores. Uma desigualdade brutal de forças tornou o sequestro possível

Poucas horas separam dois fatos surpreendentes — um dependente do outro. Por volta das duas da madrugada de sábado (3/1), após meses de preparativos, o peso das forças militares mais poderosas do planeta abateu-se como um raio sobre Caracas. Começava a operação Decisão Absoluta (“Absolute Resolve”), que se desenrolaria em pouco mais de duas horas. Os pilotos de 150 aviões, estacionados em bases aéreas e em embarcações de guerra deslocadas para o Caribe, receberam enfim a ordem de iniciar a missão ensaiada exaustivamente ao longo de meses.


Em poucos minutos, quatro alvos estratégicos para a defesa da Venezuela foram arrasados — o que colocou o país de joelhos, conforme relata Carla Ferreira: o Forte Tiúna, principal instalação militar do país, sede do Ministério da Defesa e do Comando Estratégico da Força Armada; a Base Aérea de La Carlota, núcleo logístico de proteção da capital; o Comando Geral da Milícia Bolivariana, cérebro das forças de resistência civil armada, muito próximo ao Palácio Presidencial de Miraflores e o Porto de La Guaira, que abastece a capital com suprimentos médicos, bens de consumo e manufaturados. Foram destroçadas igualmente as baterias antiaéreas que deveriam proteger Caracas.


Ao se deslocarem, os aviões — entre eles, poderosos F-18, F-22 e F-35 — abriram um corredor letal. Um ataque eletrônico, produzido pelos especializados Boeing Growler, colocou a Venezuela em blecaute e sob “apagão cibernético”, e ampliou a blindagem, ao bloquear as possibilidades de interceptação. Pela grande fresta penetraram, voando a altitudes muito baixas e invisíveis aos radares, os helicópteros Chinook. Em seu interior estavam centenas de soldados da Força Delta, de elite. Haviam sido informados — por agentes da CIA, drones de espionagem e possivelmente informantes no aparato de segurança venezuelano — sobre o local preciso (o Forte Tiúna) em que se encontravam, naquela noite, Nicolás Maduro e Cilia Flores, sua esposa. Conheciam em detalhes seu interior, após haverem simulado a operação em cenários que o reproduziam, em escala 1:1, no Comando Conjunto das Operações Especiais, no estado norte-americano de Kentucky.

A fase final durou pouco mais de meia hora. Maduro e Cilia foram sequestrados, algemados e conduzidos ao mini-porta-aviões USS Iwo Jima, de onde partiram para a base naval de Guantánamo e de lá, por helicóptero, a Nova York. Cerca de oitenta integrantes da segurança de Maduro — entre os quais, 32 cubanos — foram assassinados pelos invasores. Nenhum soldado norte-americano morreu, diz o Pentágono[1]. O orçamento de guerra dos Estados Unidos, que ultrapassará 1 trilhão de dólares em 2026, é o maior do mundo e superior ao dos dez países que se seguem no quesito, somados. Equivale ao PIB da Colômbia ou ao da Bélgica. Do ponto de vista militar, a operação foi um sucesso.


II. A boca nervosa

Toda a América Latina está agora sob ameaça, anuncia Trump


Mais tortuosos e complexos são os caminhos da política. Eram cerca de 13h30 do mesmo sábado (3/1) quando Donald Trump falou pela primeira vez à imprensa, em sua mansão na Flórida, sobre o sequestro de Maduro. Como defender a invasão e bombardeio de um país soberano — que jamais atacou ou ameaçou os Estados Unidos — e o sequestro do seu chefe de Estado? Além da dificuldade natural do problema, havia agravantes. A hipótese de que a Venezuela abastece de cocaína os Estados Unidos é inverossímil, segundo as próprias agências de inteligência norte-americanas. Os Estados Unidos jamais apresentaram, no Conselho de Segurança da ONU ou na Corte Internacional de Justiça, qualquer queixa a respeito. E, por interesse geopolítico e partidário, o próprio Trump acaba de tirar da prisão o traficante internacional Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, sentenciado a 45 anos num tribunal de Nova York após extradição e devido processo legal.


A resposta enunciada por Trump continuará a marcar as relações internacionais muito depois que a ação espetaculosa da Força Delta em Caracas tenha se perdido na poeira do tempo. Em 3 e 4/1, em declarações sucessivas de seus governantes, os Estados Unidos anunciaram que tentarão impor, em toda a América, uma versão agravada da Doutrina Monroe (de 1823) e da Ideologia do Grande Porrete [Big Stick Ideology] (de 1904). A ameaça estava explícita, em teoria, na nova Estratégia de Segurança Nacional tornada pública pela Casa Branca em dezembro de 2025. Mas a extensão da cobiça de Washington pelas riquezas latino-americanas e a intenção de usurpar a soberania dos Estados do continente seriam expostas com crueza a seguir.


O jorro intimidatório emanou primeiro da garganta do próprio Trump. “A dominação dos Estados Unidos sobre as Américas nunca será questionada de novo. [Isso] não vai acontecer”, disse o presidente aos jornalistas. O sequestro de Maduro foi, previsivelmente, associado a seu suposto envolvimento com a produção de cocaína. Mas, em seguida, ficou claro tratar-se apenas de um pretexto, porque o presidente passou a descrever o destino que pretende dar… ao petróleo venezuelano. “Vamos manejá-lo profissionalmente, temos as maiores empresas petroleiras do planeta. Investiremos bilhões e bilhões de dólares”. Para assegurar este controle, sob a nova estratégia, Trump disse não descartar a hipótese de uma invasão militar (botas no chão, boots on the ground) [embora tema muito desencadeá-la, como se verá].


Logo, ficaria explícito que o alvo da Casa Branca abrange muito mais que a Venezuela. No domingo (4/1) pela manhã, ao falar à Fox News, Trump estenderia a ameaça à presidente mexicana Claudia Sheinbaum. Indagado sobre se o ataque a Caracas sugeria algo a Claudia, ele respondeu de pronto: “Ela não está governando seu país — são os cartéis (…) Algo precisa ser feito”. No mesmo dia, em entrevista à revista Atlantic,  as vociferações voltaram-se contra a Groenlândia: “Precisamos dela para nossa Defesa”. E mais tarde, a bordo do avião presidencial, a boca nervosa buscou Gustavo Petro, presidente da Colômbia: o país “também está muito doente, governado por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos — e não vai continuar fazendo isso por muito tempo”…


III. Governo teleguiado?


Trump e Rubio querem controlar a Venezuela à distância


No retrocesso trumpiano à Doutrina Monroe e à Ideologia do Grande Porrete, há uma inovação destacada e paradoxal. Está exposta no ataque à Venezuela. Ao menos até o momento, os Estados Unidos não buscam a mudança de regime [regime change], que perseguiram em todo o mundo por décadas, tanto sob governos do Partido Republicano quanto do Democrata. Exigem a reorientação total da política. Maduro foi sequestrado, mas não morto (ao contrário de Saddam Hussein e Mouamar Khadafi). Além disso — e muito mais importante — Trump e seus assessores disseram oferecer, tanto à vice-presidente venezuelana Delcy Rodriguez, quanto aos integrantes do aparato estatal e militar do país, um consolo. Poderão permanecer em seus postos e desfrutar dos respectivos confortos, desde que… obedeçam aos novos senhores. Nesta tentativa de arranjo, esdrúxula e incerta ao extremo, está uma das chaves para compreender o que se passa agora tanto em Caracas quanto em Washington.


O experimento começou a ser ensaiado na entrevista de sábado, em Palm Beach. Um Trump imperial manifestou a intenção da Casa Branca de “dirigir o país” [we’re going to run the country]. Mas descartou, para espanto e decepção de muitos, a hipótese de instalar no poder a opositora Maria Corina Machado. Identificada com a ultradireita internacional, ela possui algum capital político e tentara, pouco antes, cortejar as corporações norte-americanas com a promessa de “privatização maciça” do petróleo, ouro e infraestrutura venezuelanas. Em suas próprias palavras, “uma oportunidade de 1,9 trilhão de dólares”…


Trump preferiu apostar na vice-presidente de Maduro, Delcy Rodriguez, que segundo suas palavras, governará em condições especialíssimas. “Marco [Rubio, secretário de Estado] está trabalhando nisso diretamente e acaba de conversar com ela. No essencial, está disposta a fazer o que julgo necessário para tornar a Venezuela grande de novo”… Porém, ameaçou: “Estamos prontos para realizar um segundo ataque, muito maior, se necessário”. Foi além: “Todas as figuras políticas e militares na Venezuela deveriam entender que o que se passou com Maduro pode ocorrer também com elas”. E deixou claro que a situação perdurará até que os Estados Unidos possam “organizar uma transição segura”.


Poucas horas depois, ao pronunciar-se na TV estatal, Delcy sugeriu outro rumo. Classificou a intervenção de Washington como “bárbara”, reafirmou que Maduro é “o único presidente do país”, denunciou seu “sequestro” (empregando o termo preciso) e pediu sua libertação. Foi o que bastou para que Trump e seus assessores voltassem à carga. No domingo pela manhã, o secretário Marco Rubio anunciou, em entrevista, que os Estados Unidos continuarão bloqueando as exportações de petróleo venezuelano até que a empresa estatal que explora a maior parte das jazidas (PDVSA) abra-se ao investimento externo — em especial norte-americano. “[O bloqueio] vai permanecer até que vejamos mudanças, não apenas para favorecer o interesse nacional dos Estados Unidos, que é o objetivo número um, mas também para promover um melhor futuro para o povo”.


Horas mais tarde, o próprio presidente voltou ao tema, em outro contato com jornalistas. Indagado sobre o petróleo, respondeu de pronto: “Precisamos de acesso total. Ao petróleo e a outras coisas no país”. E a respeito de quem exerce o poder em Caracas, garantiu: “Estamos lidando com quem tomou posse. Não me pergunte quem está no comando [in charge], porque eu responderei, e isso pode ser muito controverso”. O repórter insistiu: “O que isso significa?”. “Significa que nós estamos no comando”, respondeu Trump.


A repetição muito reiterada de uma ameaça pode revelar dúvida sobre a capacidade de cumpri-la.


IV. Os limites


Ao contrário do que tenta fazer crer, o imperador não pode tudo


Invadir um país soberano, sequestrar seu presidente e retirar-se. Renunciar à “mudança de regime”. Desfazer-se de uma aliada como Maria Corina Machado. Crer no controle de um governo por meio de arreganhos. O que terá levado Trump a seguir, na operação contra a Venezuela, um padrão tão distinto dos empregados normalmente nas intervenções praticadas pelos Estados Unidos? Os fatos são recentes e estão em desenvolvimento. Para respostas seguras, será preciso mais tempo. Porém, com base no exame de acontecimentos e tendências objetivas, é possível ensaiar boas hipóteses.


A primeira remete a um dos aspectos do declínio do poder norte-americano: a quebra do consenso social necessário para as guerras. Trump captou este sentimento. Um dos pontos-chave de seu discurso, na disputa pela Casa Branca, foi a denúncia das intervenções no exterior. Ao condená-las, apontou-as como produto da ação do establishment. Referiu-se com insistência ao custo que elas impuseram aos norte-americanos, a quanto beneficiaram o complexo industrial-militar e desviaram recursos que, segundo ele, poderiam “fazer os Estados Unidos grandes de novo” (MAGA). A narrativa tornou-se hegemônica. Em dezembro de 2025, segundo pesquisas citadas pelo site The Conversation, 63% dos eleitores norte-americanos rejeitavam uma ação militar contra a Venezuela.



É esta, provavelmente, a razão principal para o descarte de Maria Corina. Colocá-la no poder significaria uma enorme provocação para os partidários do chavismo. O país mergulharia em instabilidade — o pior cenário possível para os enormes investimentos necessários à indústria petroleira e para suas instalações vulneráveis. Tendo-a instalado no Palácio Miraflores, os Estados Unidos precisariam defendê-la. Trump se chocaria tanto com uma ampla maioria do eleitorado quanto com seu próprio discurso.


A segunda hipótese liga-se às opções particulares de Trump para tentar fazer frente ao declínio. Ele não admite recorrer às instituições internacionais construídas no pós-II Guerra para sustentar o hegemonismo norte-americano. Chama-as de “globalistas”. Nas relações bilaterais com outros países, projeta ao máximo a força econômica e militar dos Estados Unidos para arrancar concessões. (Vale relembrar suas relevantes vitórias nos acordos comerciais com a União Europeia e Japão, após impor o “tarifaço”). Busca acrescentar a esta força sua brutalidade pessoal: o ímpeto supremacista, o assédio constante, os xingamentos, o uso contumaz da mentira e da falsificação. Está obcecado em restaurar o poderio das corporações norte-americanas. Não são exatamente estes os elementos centrais de sua agressão à Venezuela e de sua tentativa de teleguiar seus governantes?


* * *


A receita será eficaz na Venezuela? É, evidentemente, muito cedo para saber. A demonstração de força dos Estados Unidos foi impressionante e arrasadora. O sequestro de Nicolás Maduro deixa o chavismo desprovido de seu principal líder popular e do ponto de unidade entre todas as suas vertentes. A burocratização, notória, de parte de seus membros com postos no Estado tende a tornar tentadora a proposta abjeta de Trump. A pressão será ampliada pelo bloqueio dos carregamentos de petróleo venezuelano, que os Estados Unidos não relaxaram e que priva o país de sua principal fonte de divisas.


Mas há outra face do chavismo. A que se constituiu nas batalhas históricas do comandante. A que se inspirou no projeto antiimperialista e de redistribuição ampla da riqueza petroleira. A que participou de processos como a Constituinte popular de 1999 e as múltiplas tentativas de inventar uma democracia popular, capaz de superar os limites das instituições liberais. A que se entusiasmou com os esforços de Maduro para reanimar as “comunas populares”, após o vexame nas eleições presidenciais de 2024. Diferentemente do que ocorreu nas ditaduras militares patrocinadas por Washington, durante a Guerra Fria, esta tradição não está sendo arrasada — e dificilmente o será, enquanto Delcy Rodriguez permanecer à frente do governo. O projeto de Trump, como se viu, é outro.


O que ocorrerá quando ambas as faces desta moeda — a tentativa de obrigar o chavismo a agir contra o que o constituiu; e a permanência, no poder, de um movimento cujas origens rebeldes não se perderam — tornarem-se incompatíveis? A intervenção de Trump colocou de novo a Venezuela no centro do cenário geopolítico global. Tudo o que ocorrer por lá terá repercussão. Trump ordenará a Delcy Rodriguez executar seu projeto? Ela aquiescerá? Caso o faça, haverá revolta? O que ocorrerá, então?


O enorme espanto provocado pela ação fulminante dos Estados Unidos, no sábado, pode ter levado alguns a pensar que um capítulo da história da América Latina estava se fechando. Na Venezuela, ao contrário, uma nova página da disputa pelo futuro do país — extremamente difícil e árdua, mas não perdida — pode estar se abrindo.


Mas e no conjunto da América Latina, e em particular no Brasil?


V. A oportunidade


Diante da Doutrina Donroe, ou a América Latina e o Brasil se curvam, ou se reinventam


Em maio de 2025, uma vasta matéria da revista digital Defesanet  revelou que integrantes do governo Trump cobiçavam as infraestruturas de Fernando de Noronha e a Base Aérea de Natal (RN). A nova Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca estava em elaboração. A publicação apurou que diplomatas do “entorno de Trump” haviam suscitado o tema em contatos com políticos e militares brasileiros. Pretendiam instalar nos dois locais estruturas (equipamentos e aeroportos) de vigilância e projeção de poder sobre o Atlântico Sul, o que naturalmente exigiria constituição de enclaves operacionais, blindados às autoridades brasileiras. Esgrimiam, como argumento, um esdrúxulo “direito funcional de reúso estratégico” — o mesmo que a Casa Branca tem usado para tentar recuperar o controle do Canal do Panamá. A própria Defesanet considerou: “o nome disso é colônia”…


O episódio revela, quase na forma de caricatura, uma nova realidade. Diante da Doutrina Donroe, e do que ela já produziu na Venezuela, os governos e sociedades da América Latina têm duas alternativas. Caso se curvem ou se omitam, aprofundarão a letargia e o sentimento de impotência que se espalharam pela região há três décadas, quando se tornou hegemônico o projeto neoliberal. Os impasses estruturais — desigualdade, regressão produtiva, atraso tecnológico, devastação da natureza, instituições alienadas da vida real e tantos outros — continuarão não enfrentados. Os países serão vassalos de uma potência em declínio, condenados às misérias do capitalismo tardio e à condição periférica.


Mas a intimidação de Trump e seu desejo de apertar o garrote da colonização podem, paradoxalmente, soar o toque de despertar. Nesta hipótese, a consciência de que há risco de submissão mais profunda leva a identificar as vulnerabilidades. E o esforço por saná-las desencadeia uma mobilização nacional capaz de reavivar ideias hoje adormecidas: como projeto país, reconstrução e horizonte político.


Nesse movimento, três objetivos podem ser estratégicos: a) Soberania Digital; b) revisão da Política Nacional de Defesa e c) política externa voltada à construção de uma ordem pós-eurocêntrica e a parcerias com o Sul Global. São desafiadores. Exigirão construção persistente e prolongada. Contudo, são claros, capazes de mobilizar e de gerar efeitos secundários positivos.


A luta pela Soberania Digital é, das três, a mais crucial, urgente e complexa. Mas talvez seja a que mais pode libertar energias políticas e econômicas hoje contidas. O cenário atual é contraditório. Em alguns aspectos, a dependência frente aos Estados Unidos é dramática: o Brasil encontra-se rendido a suas big techs. Um estudo realizado em 2025 pelos pesquisadores Sérgio Amadeu e Jeff Xiong demonstrou que o país hospeda em servidores de corporações norte-americanas a quase totalidade dos dados estratégicos que gera. Estão nestas condições os dados das universidades brasileiras, dos centros de pesquisa e tecnologia, do SUS, do IBGE, da Receita Federal, dos tribunais superiores (inclusive o STF e o TSE), por exemplo.


Na mesma situação submissa encontra-se o desenvolvimento de software básico — a ponto, por exemplo, de “Google e Microsoft hospedarem os e-mails e os repositórios de dados (drive) de 154 universidades públicas brasileiras”. Também são estrangeiras as plataformas usadas quase universalmente no país para pesquisa na internet (Google), comunicação pessoal por mensagens (WhatsApp-Meta), redes sociais (Facebook e Instagram-Meta ou TikTok-Bytedance), ou para serviços de transporte pessoal, de entregas, de hospedagem, de contratação pontual de serviços e muitos outros. Todas elas capturam, processam, distribuem  por meio de algoritmos e monetizam e comercializam tanto a comunicação gerada conscientemente pela população (uma postagem de texto ou vídeo em rede social, por exemplo) quanto os dados gerados de forma involuntária (como um formulário qualquer preenchido online). A programação algorítmica, agora reforçada por inteligência artificial, tem enorme poder de influir sobre comportamentos — inclusive eleitorais. E o alinhamento das big techs com políticas de ultradireita tornou-se declarado desde a posse de Trump.

Em contrapartida, o país tem duas enormes potencialidades no mesmo campo: um grande contingente de programadores e desenvolvedores muito bem formados (que hoje, por falta de alternativas, trabalham principalmente para as big techs) e movimentos sociais informados, criativos e capazes de formular política para a área. Se a luta pela soberania digital tornar-se prioridade de Estado, a superação da vulnerabilidade poderá avançar de forma consistente e relativamente rápida.


Em 2025, o hacktivista Uirá Porã traçou, em entrevista a Outras Palavras, um possível roteiro: 1. Construir, a partir das universidades, uma rede brasileira de data centers públicos; 2. Recuperar as duas empresas estatais do setor (Dataprev e Serpro), hoje enredadas em parcerias submissas com as big techs dos Estados Unidos; 3. Articular, nestas empresas e ligadas regionalmente aos data centers universitários, equipes de desenvolvedores dispostos a produzir aplicativos para municípios, outros entes públicos, empresas e sociedade civil. Neste desenho, a Soberania Digital deixa de ser apenas um objetivo estratégico de Estado e passa a se desdobrar em serviços à sociedade, estímulo à formação em massa de profissionais qualificados e espaço de desenvolvimento de consciência e reinvenção social.


* * *


A revisão da Política Nacional de Defesa é necessária para enfrentar uma debilidade ainda mais escancarada. A própria orientação de parte das fragatas da Marinha nos oceanos depende hoje… do Starlink de Elon Musk. Mas não só. O historiador Manuel Domingos, que estuda em profundidade as Forças Armadas brasileiras, lembra, num texto recente, que as Forças Armadas brasileiras vivem, desde o Barão do Rio Branco, o fetiche da dependência pela tecnologia comprada das potências ocidentais. Não se compreende a Defesa como ação orgânica da sociedade brasileira — o que poderia levar ao desenvolvimento tecnológico autônomo. Adquirem-se pacotes — os caças suecos Gripen ou submarinos franceses, por exemplo — que submetem o país a múltiplas dependências.


Em junho de 2024, por exemplo, o Departamento de Justiça dos EUA  solicitou à Saab, fabricante dos caças Gripen vendidos ao Brasil, que fornecesse “esclarecimentos” sobre a operação. A revista Sociedade Militar advertiu, à época: “O movimento levanta suspeitas sobre possíveis interferências que visam, na verdade, manter o Brasil em um estado de dependência em relação aos Estados Unidos (…) O Gripen, apesar de ser um caça moderno, depende de uma cadeia de fornecedores internacionais: o motor é americano, o sistema de ejeção é britânico, e vários outros componentes vêm de diferentes partes do mundo. Isso significa que, se em algum momento Estados Unidos ou Reino Unido decidirem colocar o pé no freio, por questões políticas ou comerciais, esses caças ficariam no chão. E não é só teoria — a história já mostrou isso em diversos episódios”…


Livrar o país de tal dependência, para evitar que o próprio equipamento das Forças Armadas  esteja sob risco de bloqueio, pode ser um projeto compreensível e politizador. Mas, assim como no caso da Soberania Digital, vai além dos interesses de Estado. Manuel Domingos sustenta, em seu texto, que a Política de Defesa Nacional, publicada em maio de 2024, “fez-se pó na madrugada do último sábado”, quando os Estados Unidos demonstraram a que estão dispostos. Mas lembra que uma revisão poderia, além da autonomia tecnológica, colocar em debate outros pontos igualmente importantes para um projeto de país. Entre eles, orientar as Forças Armadas para seu papel de Defesa do território (colocando em xeque as tendências a voltá-las contra “inimigos internos”) e pensar, também no campo militar, uma política de  integração da América do Sul — inclusive para ter mais força contra as ameaças reais…


A ameaça Trump, como se vê, pode levar o Brasil a refletir sobre si mesmo. Mas num tempo de desafios globais — como as desigualdades crescentes, os riscos de colapso ambiental e as ameaças constantes de guerra — não é preciso repensar também as alianças geopolíticas?


VI. As alianças


Para enfrentar os EUA, a América Latina precisa de aliados. A China está se apresentando 


Uma terceira debilidade salta aos olhos ao se analisarem as condições para a América Latina e o Brasil enfrentarem a nova atitude ameaçadora dos Estados Unidos. Em especial no governo Lula 3, a política externa tornou-se tímida, convencional e incapaz de imaginar construções e parcerias fora da ordem eurocêntrica.


Foram-se os tempos do chanceler Celso Amorim e de suas iniciativas ousadas e surpreendentes — a participação central na criação dos Brics, a realização de uma reunião de cúpula entre América do Sul e países árabes (que sobressaltou Washington) ou a tentativa (com a Turquia) de costurar um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã (sabotada por Hillary Clinton). Sob Mauro Vieira, prevalece no Itamaraty o que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. chamou, com ironia mordaz, de “turma do visto permanente nos Estados Unidos”. São os diplomatas que temem (mesmo a partir do governo Trump) qualquer gesto que incomode os Estados Unidos — em especial as aproximações estratégicas com os BRICS e a China.


Embora os chineses sejam, há muito, os principais parceiros comerciais do Brasil, o país estabeleceu com eles uma relação que reproduz sua vocação colonial e sua regressão produtiva. Exporta produtos primários — em especial soja e minério de ferro. Importa bens e serviços tecnológicos. Duas proposições de Beijing, lançadas nos últimos meses — Iniciativa de Governança Global, de setembro de 2025, e o Documento sobre a Política para a América Latina, de dezembro — sugerem que a agenda bilateral poderia ser muito distinta.

Maio de 2025: Gustavo Petro e Xi Jinping anunciam a entrada da Colômbia nas Novas Rotas da Seda

O primeiro enuncia cinco proposições aparentemente genéricas, mas que se chocam de frente com o “direito imperial à intervenção” enunciado por Trump. Três deles se destacam: a) a “soberania igualitária” (“todos os países, independentemente de tamanho, força ou riqueza, terão sua soberania e dignidade respeitadas, seus assuntos internos livres de interferência externa e o direito de escolher de forma independente seu sistema social e nível de desenvolvimento”), b) o respeito ao direito internacional e às instâncias da ONU; c) uma “abordagem centrada nos povos” (“o bem-estar das populações é o propósito máximo da governança global”). O segundo, mais longo e detalhado, formula propostas específicas de colaboração, abrangendo, entre outros, áreas e temas que soam relevantes ao Brasil: (re)industrialização, preservação da natureza, energias limpas, ciência e tecnologia (incluindo internet e IA), intercâmbio militar e outros.

Nenhum dos documentos recebeu destaque nas mídias convencionais brasileiras. Ambos merecem ser examinados com atenção. Não se trata de propor um “alinhamento à China”, como às vezes alardeiam, em tom pejorativo, os que são contrários à parceria. Mas de perceber que, enquanto Washington anuncia de forma clara uma postura imperialista e agressiva, há um aceno de outra natureza. Quem o faz é um país do Sul Global, que sofreu um “século de humilhações” das potências eurocêntricas — mas recuperou-se numa revolução popular, construiu um socialismo heterodoxo, tornou-se a maior economia, a grande fábrica do mundo e, nos últimos anos, um polo de desenvolvimento de alta tecnologia.


Há razões objetivas para acreditar que o gesto é de boa-fé. Não apenas porque a China afirma, com insistência, sua opção pelo Sul Global, mas também porque, num certo sentido, necessita fazê-la. A polarização que marcou a Guerra Fria está se armando outra vez. Trump vê Beijing como seu alvo número um. A Europa curva-se aos Estados Unidos, mesmo desprezada. Barreiras comerciais e ideológicas contra a China estão sendo erguidas de ambos os lados do Atlântico Norte. A opção pelo antigo “terceiro mundo” é, além de tudo, pragmática.


Em que condições poderia se dar a parceria? No caso brasileiro, este artigo sonda possibilidades. Envolvem Amazônia em pé, internet, superação do dólar, indústria e defesa, entre outros pontos. Mas é, em essência, um convite a incluir este tema na pauta de debates do país. Desde a II Guerra Mundial, as alianças com Washington são vistas, no Brasil, como naturais e quase incontornáveis. Haverá algum mal em cogitar outros caminhos, agora que a Doutrina Donroe pesa sobre nós? Adotaremos a mesma postura da “turma do visto permanente”?


* * *


Ao invadir a Venezuela com imenso aparato, sequestrar seu presidente e anunciar o desejo de controle absoluto sobre a América Latina, Donald Trump fez um lance de arrogância máxima — mas altíssimo risco. Para a região respirar, é preciso que a aposta naufrague. Este texto visa ajudar a construir tal alívio. 


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Fonte: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/venezuela-o-imperio-ameaca-esta-nu/

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Uma vela pra Deus, outra pro Diabo (a vingança dos super-ricos)


Imagem: Google


Silva saiu do interior em busca de uma vida melhor na capital. Chegou com uma mão na frente e a outra atrás.

     Dois anos depois conseguiu comprar um fusca de segunda mão. Quase todo mundo gostava de Silva. Cabra tranquilo, evitava contenda, sempre concordava com os argumentos dos colegas, mesmo os antagônicos. Que diferença faz? Perguntava para si. Se um colega dizia que pau é pedra, ele concordava; se outro dizia o contrário, também concordava. Polemizar pra quê?, melhor ficar bem com todos. João, colega de saídas nos dias de folga, foi franco, Silva, você acende uma vela pra Deus e outra pro Diabo. Silva concordou, ao responder, como um mantra, que diferença faz? Melhor conviver numa boa com todos. Sabe, meu caro João, aprendi, na prática, que o muro é o lugar mais seguro, completava com sinceridade.

     Certa dia, no centro da capital, Silva procurava uma vaga, para estacionar seu fusquinha. João o acompanhava. Iriam ao mercado central comer um tira-gosto e tomar uma gelada. Olha uma vaga ali, Silva, entra rápido antes que alguém a ocupe. Numa manobra rápida estacionou, sem atentar que um BMW estava com a seta ligada, para fazer o mesmo. O dono do carrão, xingou o Silva por ter ocupado a vaga. Silva, talvez cansado de concordar com todo mundo, respondeu que o mundo é dos espertos. Ah é assim? perguntou o dono do BMW, sem esperar resposta, deu uma marcha à ré, atingindo o fusquinha com violência, deixando-o amassado, em seguida colocou a cara pra fora e gritou, o mundo é dos ricos, babaca, agora vai reclamar com o bispo!

     Conto esse caso, para cocluir, sobre a impossibilidade de se manter neutro, especialmente em tempos de crise. Como diz a sentença, atribuída a Dante de que "no inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise".  

     2026 começa com os Estados Unidos invadindo a Venezuela. A maior potência capitalista está em crise. Dívida pública nas alturas, perda de influência num mundo multipolar, o dólar não é mais a moeda, que dita a regras das finanças global. A Europa sem alternativas. China e outros países negociam com moedas própria. A vingança dos super-ricos, com a precarização do trabalho, com a uberização da economia, a concentração das riquezas nas mãos de poucos e as guerras sem fim, são um tiro no pé do sistema em seus últmos estertores. O infocapitalismo esperneia. Impossível permanecer em cima do muro. 


imagem: Google


J Estanislau Filho


domingo, 21 de dezembro de 2025

Não é por falta de assunto

Imagem: acervo do autor


Faz tempo não escrevo. Pensava sobre, enquanto o sono não vinha. Isso acontece geralmente à noite. Imagino vários enredos, que se perdem quando o sono chega.  Não é por falta de assunto. Podia escrever sobre os últimos acontecimentos da Câmara dos Deputados, ao que muito indica, Hugo Motta e seus parceiros tentam um golpe parlamentar, pois estão acossados por investigações da Polícia Federal; poderia falar do vídeo de Mirosmar, atacando as filhas de Silvio Santos, por ter convidado Lula e Xandão, para o lançamento do SBT News; poderia escrever sobre futebol, sobre guerras, Trump e o avanço do fascismo. Enquanto o sono não chegava meu pensamento andava solto. Terminei a leitura de dois ótimos livros: Coração Sem Medo, de Itamar Vieira, autor do clássico Torto Arado e Pequenos Sertões, histórias em quadrinhos do meu amigo talentoso, Berzé.  Falar de nossa amizade, por si só, dá um livro. Poderia escrever, também, sobre injustiça e exclusão social. Mudanças climáticas. Ou do último livro de Jessé Souza, Por que a esquerda morreu?, mas esse só li as primeiras páginas. Faz tempo não crio algo que possa ser chamado de novidade, embora criar coisas novas, como um poema, por exemplo, depois de tudo que já foi escrito, não seja simples.  Crônicas  salvam os escritores, quando a criatividade está em baixa. É uma saída digna e necessária. Há um porém. As crônicas são como um folhetim do dia a dia. O dia passou, elas envelhecem. Principalmente agora, com a internet. É tudo muito rápido, um assunto abafando o outro. Falar da lambança de Zezé di Camargo já é passado. O agro não é mais pop, é de gente pra gente. No momento temos as ameaças de invasão, pelos Estados Unidos à Venezuela. As eleições presidenciais de 2026, com o bolsonarismo tentando se manter vivo, com Flávio Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas? O Sistema procura um nome, que chamam de terceira via, que possa derrotar o Lula. Política é sempre um prato cheio. Ou vazio. Depende do candidato. E a Zambelle, alguém se lembra dela? Cassaram Dudu Bananinha e o Ramagem, pegaram o Sóstenes Cavalcanti. Tô dizendo, política é um assunto, que tento evitar e não consigo. Ah, o amor, esse é bom de se falar, escrever. Estou de novo amor. Apaixonei, pode isso, na minha idade?   Acho que a fonte de inspiração segura  é o amor. Ele nos rejuvenesce, humaniza e inspira.  Além de nos deixar bem humorados. Já repararam,  as pessoas de caras amarradas, mal humoradas, são infelizes e semeiam o ódio? Cria assassinos, psicopatas. Gente desbocada.  O amor é paz!  E para encerrar a crônica, pois as pessoas não estão com paciência com textos longos, deixo um recado:

Imagem: Raul Estanislau

FELIZ 2026!

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Povo em Poema: A Era das Indignações

 

Foto: Bryan Smith/ZUMA Press/Corbis


Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Jornadas de Junho… Poemas sobre as praças do século XXI – e aqueles que desejam esmagá-las. “A indignação,/ como pedra lançada na água,/ gera ondas”, dizem os versos. Mas a fúria só ganha sentido quando ajuda a criar uma Era da Consciência


1 Era da indignação

Era da Indignação,
do grito, da fúria,
da praça tomada,
do punho cerrado.
E do nada.


As massas tomaram as ruas,
contra reis, emires,
ditadores e presidentes,
contra políticos,
contra os bancos,
contra corruptos,
contra a Casta,
contra o Sistema,
contra tudo e contra todos;
por tanta coisa.


2 Primavera Árabe

Na Praça Tahir, em Túnis,
na Síria, no Líbano, Bahrein…,
clamaram por liberdade,
fizeram a primavera das multidões
enfrentaram bombas e balas
de exércitos e polícias.

Dez anos passados o que sobrou
do que teria sido a primavera da esperança?
Fundamentalismo, sombras da religião,
intolerância, conformismo e medo.
E os irmãos na praça tornaram-se inimigos.

3 Porta do Sol

Em Madrid, na Porta do Sol,
tendas ergueram-se.
“- Democracia Real Já!”,
por toda Espanha
e Grécia e Europa Mediterrânea,
tantos ergueram-se em indignação.
Parecia que seria dessa vez.
Mas as palavras de democracia real
sem bem saber o sentido
criaram um o rei sem coroa,
sem cetro, sem rosto.
Da indignação ao demagogo vazio
a falar sobre moral,
inventar culpados
(sempre os mais fracos),
desviar atenção…
Dos indignados,
parte deles ao menos,
mãos que ergueram as tendas
passaram a saudar o braço em riste.


4 No coração da fera

Ocuparam o coração da fera,
Wall Street:
“– Somos os 99%!”
Mas o touro desgovernado
e suas ventas em notas verdes
não caiu;
ao contrário,
um milionário alaranjado
vestiu-se de Messias,
mestre e aprendiz,
fez do povo ressentido e indignado,
base para a autocracia
e espetáculo de intolerância.

Entre muros e deportações,
ódio e mentiras,
tanta infelicidade mais que virá por aí
(já veio, está vindo e virá mais).


5 Pelos cantos do Brasil

Pelos cantos do Brasil
“– É tanta coisa que não cabe em um cartaz!”
Começou por vinte centavos, luta justa,
e virou cão desgovernado.
De Curitiba ecoou o latido:
“- Basta de corrupção!”
Mas quem acusou,
quem incentivou,
quem julgou
sob a toga imunda
servia ao capital
e aos bandidos de sempre.
Houve mais corrupção
e manipulação.
Heróis de barro,
tornaram-se verdugos.
Dos escombros ergueram-se monstros.
Um capitão sem farda,
que pregava Deus com pistola na mão
e falava de família
enquanto vendia a pátria,
se fez falsificação.
Pelos cantos do Brasil
amontoaram-se os mortos na pandemia,
queimaram-se as florestas,
apagaram-se os sonhos.


6 A indignação

A indignação,
como pedra lançada na água,
gera ondas,
ondas de raiva,
ondas de medo,
e nem dá tempo
para que se conheçam as causas,
sequer a realidade.
Desconhecer causas,
não compreender a realidade
em profundidade,
são aliados dos tiranos.
Tiranos vestem-se de salvadores,
prometem ordem,
prometem justiça,
prometem prosperidade,
prometem sangue
e entregam ditadura,
desmandos, autocracia
mais corrupção, cleptocracia…
– Muito mais!
Mais horror,
desânimo,
tristeza,
raiva.


7 Na sequência das Eras

Antes da Era das Indignações
houve outra Era, dos Extremos,
foi breve, nem um século,
começou com uma guerra de horror
entre tantas guerras que vieram depois
com igual ou maior horror,
e terminou com um muro ruindo.
Antes dela, uma Era de Impérios
e dominações,
colonizações,
escravizações,
capitalizações.
Antes dela, uma Era de Revoluções,
“– Igualdade, Liberdade, Fraternidade!”
Independências,
contra-revoluções,
restaurações,
proletariado fabril,
máquinas a vapor.


8 A Era da indigência de sentido

Na sequência das Eras
depois dos extremos,
a indigência de sentido,
a indignação cega,
a raiva intempestiva.
Essa é a Era de nosso tempo
e não vai levar a lugar algum;
ou vai?
As Eras sempre levam a algum lugar,
o problema é quando o lugar
não é um bom lugar para viver.
Falta razão, falta sentir,
sobra enraivecimento, fúria,
fereza, repulsão,
cólera e danação.
Falta sentido.


9 Alimentando-se da fúria

Na sequência das Eras,
em Paris, Porto Príncipe, Petrogrado…,
o povo aprendeu a erguer barricadas,
isso foi há muito tempo,
séculos XVIII, XIX, XX.
No tempo de agora,
nas praças do século XXI,
erguem-se hashtags,
erguem-se memes,
erguem-se emojis,
erguem-se ódios líquidos
cujas razões esvaem
tão rápido quanto surgem.
E sobra o ódio.
Os algozes de sempre,
os demagogos, manipuladores,
interesseiros e ambiciosos,
os Senhores tecnofeudais,
sabem disso.
Alimentando-se da fúria,
ornamentam-se com a cruz,
com a bandeira sem irmão,
com o medo (e ódio) do outro.
E assim a indignação
vira servidão voluntária,
mais uma vez.


10 Aprende, camarada!

No meio disso tudo,
quando a Era atual parece ser o fim das Eras,
há que lançar um pedido
como tantos que já foram lançados,
alguns aprendidos e outros perdidos:
“– Aprende, camarada!”
A indignação só tem sentido
quando se torna consciência.
– Aprende, camarada!
O inimigo não é o pobre ao seu lado,
o infeliz que julgas menor que ti,
não é o refugiado,
nem o vizinho,
nem o que consideras pecador.


11 A Era da Consciência

– Aprende, camarada!
Da raiva extremista nasce o terror
e você vira engrenagem
para os opressores de sempre.
– Aprende, camarada!
Que a indignação seja o início, não o fim,
que a raiva se torne verbo,
que o grito se torne palavra,
que o medo se torne coragem,
que a mão fechada se abra,
se abra para o outro.
Aprenda
e vamos criar
a Era da Consciência.

Essa sequência poética integra o novo livro de Célio Turino – FIOS DA HISTÓRIA, poemas – pela editora Clóe


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INDIGNAÇÃO POPULAR, JORNADAS DE JUNHO, OCCUPAY WALL STREET, POESIA BRASILEIRA, POVO EM POEMA, PRIMAVERA ÁRABE


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Em busca de uma identidade



Imagem: Google

Estacionou o automóvel seminovo na garagem da casa recém-adquirida num financiamento, colocou as mãos nos bolsos da calça e foi contemplar, de novo,  as dependências. Vagou pelos cômodos com um olhar embevecido, respirou fundo, enquanto relembrava o esforço que fizera até chegar  a esse estágio. Retornou ao quintal, sentou-se no banco da varanda, orgulhoso de si. Vislumbrou o carro e uma lágrima escorreu pela face. Faltava algo mais, para que se sentisse completo. Afugentou o pensamento e voltou a circular pelo ambiente, atento aos detalhes. Banheiros com box, cerâmicas, luminárias, paredes pintadas. Ah, precisava encerar as portas. Chamaria um profissional. O portão de entrada carecia de um motor. Descer do carro, para abri-lo manualmente não combinava com o seu novo estilo de vida. 

     Ligou o carro e saiu, para dar uma volta pela cidade, não a conhecia completamente. Uma cidade pequena, com cerca de três mil habitantes. Encontrou um restaurante caseiro, sentou-se e pediu um almoço. Na mesa ao lado, um casal trocava carícias ao toque das mãos. Conversavam baixinho. Por um momento, ele invejou o casal. Espantou o pensamento, distraindo-se com outro casal de canarinhos chapinhas, que se tocavam no galho de uma árvore,  anexa ao restaurante. Ah,  o amor, que invade os corações no arroubo das paixões. 

     Adquirira o hábito de observar as pessoas e se imaginava sendo observado. Isso o incomodava, era como se estivesse nu, pois era um ser para os outros.  Ser alvo de avaliações alheias o petrificava. O que precisava corrigir, para ser bem avaliado? Talvez a indumentária. Um terno, ou blazer, um óculos escuros.  Precisava da certeza da aprovação das pessoas. Trocar o carro por outro mais possante, provavelmente seria visto com outros olhos. Ah, esses olhares, que o levava a afundar nas cadeiras. O desejo de não ser enxergado na sua pequenez. Queria ser grande. Decidiu então ir a uma loja, comprar roupas das melhores marcas; passar numa agência de veículos e trocar de carro. Não frequentaria mais aquele restaurante em que as pessoas o despia. 

     Abriu o aplicativo do seu banco. O saldo não era compatível com o seu projeto de ser


J Estanislau Filho


Imagem: Google