Em nome de um turismo “contemporâneo”, cidade restaura relações que marcaram seu passado colonial: expulsa, segrega e devasta. Em vez de caravelas, o conquistador vem nas plataformas do capital imobiliário internacional
Por Eleonora Albano
Este ensaio analisa a ordem sociopolítica vigente na cidade do Rio de Janeiro à luz do conceito de colonialidade do poder, proposto pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano para explicar o fato de que, mesmo séculos após sua independência, as colônias europeias continuem a reproduzir indefinidamente os padrões de comportamento dos colonizadores.
Procuro demonstrar, com este exemplo, que os traços de racismo, patriarcalismo, eurocentrismo e hierarquização étnica e de gênero, através dos quais o autor caracteriza as sociedades colonizadas, podem adquirir manifestações locais específicas conforme a geografia e a história do território invadido.
O argumento é de que a facilidade de navegação na Baía de Guanabara, a beleza e a riqueza de recursos do entorno, a abundância de mão de obra escravizada e a ineficiência e violência da governança portuguesa criaram um paradoxo vivido pelo Rio até hoje: ainda que declarado patrimônio da humanidade e decantado em prosa e em verso, não conseguiu se manter na lista dos 100 destinos mais visitados do mundo. É que a perda da capitalidade, em 1960, aprofundou a herança colonial, impedindo inovações potenciais.
Em resumo, não há hoje um lastro cosmopolita que permita ao Rio exercer plenamente a sua vocação turística. Faltam-lhe segurança, mão de obra qualificada, estrutura de serviços adequada e, sobretudo, lideranças capazes de conceber e implementar políticas públicas que resgatem a convivialidade da antiga capital.
Em 1° de março último, a cidade festejou 461 anos. São, portanto, quase cinco séculos de replicação de um padrão de espoliação de terras e gentes introduzido pelos portugueses.
A pesada herança do Cais do Valongo — o maior porto de tráfico negreiro do mundo — ainda se faz sentir na distribuição racializada das moradias e postos de trabalho da cidade: a população afrodescendente concentra-se nos morros desmatados ou nas cidades satélites da Baixada Fluminense. Vive de prestar serviços subalternos aos residentes abastados dos bairros nobres, especialmente os da Zona Sul.
Além da mão-de-obra barata, outros fatores históricos favoreceram o crescimento da construção civil e dos negócios imobiliários na cidade.
O primeiro, logo percebido pelos portugueses, é a conveniência da geografia local para abrigar um aparato de defesa contra invasões corsárias ou estrangeiras. Haja vista os fortes construídos no entorno entre os séculos XVI e XVIIIiii, que somam seis, se incluídos o do Leme e o de Copacabana. O segundo é a baixa espessura e a relativa infertilidade do solo, que logo se exauriu com o plantio do café. O terceiro é a extensão e a habitabilidade das planícies entre os areais e as montanhas. O quarto é a fragilidade das leis da colônia, que facilitaram a invasão de terras e a sua regularização por grilagem, dando lugar a latifúndios loteáveis conforme o crescimento da população.
Assim, a especulação imobiliária local prospera, alimentando-se de modismos que duram apenas o suficiente para gerar recursos a serem investidos em novos projetos expansionistas, geralmente seguidos de abandono paulatino e crescente, o que deixa, não raro, um rastro de terra arrasada nas áreas afetadas.
Praticamente toda a Zona Sul passou por esse processo, que começou na orla do Centro e se transferiu paulatinamente às praias oceânicas.
Tendo atingido primeiro o Leme e Copacabana, ele logo chegou a Ipanema, que é o foco desta análise por ser o território que melhor conheço: é não só meu berço, mas também meu local de residência. Antes de deixar o Rio em meados da década de 1970, vivi intensamente a Ipanema dos anos 1950-60.
O maravilhamento que inspirou poemas e canções
A criadora da expressão Cidade Maravilhosa foi a escritora francesa Jane Catulle Mendès, que visitou o Rio na Belle Époque, apaixonando-se por sua beleza e lhe dedicando um livro de poemasiv, o primeiro dos quais é transcrito abaixo (e traduzido em nota):
Le fabuleux jardin étaiet si romanesque
L’ âme des palmiers, ses frissons, ses bambous
Le faisaient si divin, si terrestre et si doux
Que j’étais étourdie et que je pleurais presquev
A alcunha caiu no gosto ufanista e não tardou a inspirar o hino da cidade. É uma unanimidade entre nativos e visitantes. De fato, a metrópole fluminense deslumbra por ser “a única que não conseguiu enxotar a natureza”, como disse Paul Claudel ao visitá-la em missão diplomáticavi em 1917. Além do hino, a música popular, das batucadas ao samba e à bossa nova, não poupa louvores à sua beleza.
Fulgores imobiliários efêmeros: o caso de Ipanema
Ipanema festejou 132 anos em 26 de abril de 2026. Seu marco de fundação é a aquisição de um extenso terreno à beira-mar por um fazendeiro paulista que se estabelecera como comerciante no centro do Rio de Janeiro em meados do século XIX.
A praia até hoje deslumbra, pelo bege dourado das areias, o verde da crista das ilhas e o azul cambiante do mar revolto, cuja espuma branca invade o calçadão em dias de ressaca. Ao redor, angulosas e imponentes paredes de granito ostentam florestas e matagais a ornar intrigantes seres míticos.
Não admira, pois, que esse vasto areal outrora deserto tenha sido muito cedo cobiçado pelos colonizadores. Não fosse a ocupação dos morros por trabalhadores descendentes de escravizados, teria sido monopolizado pelos latifundiários, que, de início, o disputaram ferozmente com os nativos e, depois, com os pescadores e pequenos comerciantes locais.
O fundador paulista, José Antônio Moreira — o Barão de Ipanema —, era um hábil especulador imobiliário. O título, que lhe fora outorgado por D. Pedro II, remete à Fábrica de Ferro de Ipanema, de sua propriedade, na região de Sorocaba. O nome significa ‘charco podre’ em tupi, e se refere à água fétida de um alagadiço local.
Lembremos que a praia, atração turística há mais de um século, permaneceu praticamente desconhecida dos próprios cariocas até que a vizinha Copacabana se tornasse plenamente acessível, através da construção de dois túneis: o Velho, datado de 1892, e o Novo, datado de 1906. Um terceiro acesso, o Corte do Cantagalo, embora tenha sido aberto em 1916, foi concluído apenas em 1928. A razão é que o terreno era demasiadamente instável: passou por várias contenções até a década de 1960, quando as obras de fixação foram consideradas satisfatórias. Como ocorre em toda a Serra do Mar, os solos ali são rasos e têm alto índice de erosão — agravada pela pluviosidade.
Já os acessos pela via hoje denominada “Humaitá” só se iniciaram por volta de 1870, com o advento dos bondes puxados a burro. Ali terminavam as ruas São Clemente e Voluntários da Pátria, a primeira abrigando os palacetes da nobreza, e a segunda franqueando serviços à população em geral.
O barão sorocabano — promovido depois a conde — deu o tom à especulação imobiliária que até hoje perdura em Ipanema e adjacências: glebas inicialmente restritas à elite foram loteadas à média burguesia enquanto o proletariado se achegava, matizando e diversificando a paisagem. Com o tempo e a expansão, os casarões foram derrubados em prol de espigões cada vez mais altos e rentáveis, destinados não só aos ricos, pelas belas vistas, mas também aos médios, pelo prestígio e a oferta de serviços.
Em pouco tempo, a ocupação desregrada cumulou a região problemas sanitários, poluindo os córregos que desaguam na praia e na lagoa Sacopenapãvii, hoje Rodrigo de Freitas. A solução, vislumbrada por sanitaristas desde o início do século XX, só se concretizou em 1975, quando da inauguração do emissário submarino de Ipanema. Mas o risco de contaminação ainda não foi superado, pois as correntes marítimas podem trazer de volta o esgoto tratado, mas não inteiramente estéril, lançado ao mar a cerca de 4,5 km.
O deslumbramento suscitado pelas praias da Cidade Maravilhosa alimentou desde cedo a cobiça dos forasteiros, bem como dos nativos aculturados. Assim, a história da urbanização praieira envolve toda a polissemia do termo alienaçãoviii: terras são constantemente alienadas de seus habitantes, dos povos originários ao operariado migrante; da mesma forma, a fauna e a flora são constantemente arrancadas de seus habitats pela sanha irrefreável dos aterros e demolições. Além disso, mentes são constantemente sequestradas pelo mito da grandeza da antiga capital — mito que, aliás, lhe rendeu, sintomaticamente, a alcunha de “Paris Tropical”.
Mas as belas vistas marinhas do Rio atraíram também cabeças críticas e desejosas de se inspirar na sua policromia e refletir sobre seus paradoxos, a fim de contribuir para a construção das artes e da cultura brasileiras. Nas décadas de 1950/60, à medida que os passeios à beira-mar caíam no gosto dos intelectuais, seu contingente ipanemense se multiplicava. Ali circulavam figuras proeminentes como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Jaguar, Lucio Cardoso, Rubem Braga, Millôr Fernandes, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Foi essa plêiade de mentes afiadas que transformou o bairro num centro de resistência à ditadura militar, cognominado República de Ipanema.
Hoje, infelizmente, os moradores famosos nada mais têm a ver com esses intelectuais: são modelos, artistas pop, autores de textos televisivos e empresárias/os da moda. As grifes de luxo de roupas e joias ocupam um espaço significativo na principal artéria, a Rua Visconde de Pirajá, que, há sessenta anos, abrigava apenas pequenos comércios, tais como bares, depósitos, mercados, farmácias e armarinhos.
Este texto é um esforço pessoal, apoiado na leitura de cronistas vários da cena carioca, de compreender Ipanema como um sintoma privilegiado da violência colonial implantada na Cidade Maravilhosa antes mesmo da sua fundação.
À luz do histórico traçado por Carlos Lessa no seu memorável O Rio de Todos os Brasisix (2000), tento mostrar como Ipanema capturou, no século XX, o condão do maravilhamento que toca quem quer que contemple a paisagem guanabarina desde o século XVI. Inseparável dele é, todavia, o servilismo colonial que reina na população local de quaisquer extratos sociais.
Apesar da sua incapacidade de imitar a ousadia dos rebeldes da sua famosa República, o bairro tem tentado se manter na vanguarda em algumas frentes. Mas seu engajamento recaiu, sobretudo, sobre causas identitárias que não passam de fachada, pois a luta contra a desigualdade socioeconômica e de gênero jamais decolou na cidade. É que, desde o início, um grande contingente militar e miliciano nela se instalou, se espraiando por todos os seus bairros e subúrbios, e espalhando violência econômica e simbólica contra a classe operária.
Era uma vez uma restinga
Mapas quinhentistas e relatos de navegantes franceses indicam que Sacopenapã tinha comunicação direta com o mar. O trecho correspondente a Ipanema era uma restinga que terminava onde hoje é o Leblon. A praia do Leblon é, portanto, um aterro, assim como o terreno em torno do “Real Horto” — hoje Jardim Botânico —, fundado por D. João VI em 1808. Ambos os espaços foram criados com pedras, areia e argila das encostas próximas, além do que sobrara da derrubada dos morros de São Bento e Castelo — depois de aterrada a Baía de Guanabara para formar os bairros da Glória e da Urca.
O genocídio indígena era praticado sem reservas pelos colonizadores portugueses. Antes mesmo da fundação da cidade, os tupinambás foram totalmente dizimados no fogo cruzado entre portugueses e franceses. Os europeus lhes atribuíam alta periculosidade — intimidados por alguns de seus rituais de guerra, que envolviam canibalismo.
Com base em relatos de exploradores da época, o historiador e jornalista Rafael Freitas da Silvax fez uma cuidadosa reconstrução do ambiente da Baía de Guanabara antes de 1565. Os tupinambás, senhores absolutos do território desde tempos imemoriais, malgrado a sua astúcia e sofisticação guerreiras, foram derrotados pela pólvora e a truculência dos europeus.
Assim, não surpreende que uma vasta comunidade de tamoios, subgrupo dos tupinambás que oferecera forte resistência aos portuguesesxi, tenha perecido numa guerra biológica empreendida a sangue frio pelo primeiro governador da capitania do Rio de Janeiro, Antonio Salema. Ele simplesmente mandou espalhar roupas usadas por doentes de varíola ao longo das margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, pois sabia o quão letais eram para os nativos os micróbios vindos de fora.
Rodrigo de Freitas, imigrante português que deu nome à lagoa, nada fez pelas terras pertencentes à herdeira que viera desposar, bisneta do terceiro proprietário da gleba. As margens, que os tamoios chamavam Piraguá, i.e., enseada dos peixes, já sofriam açoreamento por falta de escoadouro; e estavam, portanto, se tornando improdutivas e insalubres. A chegada da família real só agravou o problema, pois D. João desapropriou um longo trecho entre a lagoa e a Gávea para construir uma fábrica de pólvora e o “Real Horto Botânico”.
Somente as comemorações do centenário da independência trouxeram uma proposta concreta de dragagem e abertura de canal — onde hoje se encontra o Jardim de Alah. A terra removida deu origem à Ilha do Piraquê, que hoje abriga o clube de mesmo nome.
Nessa época, a cidade, que fora assolada por doenças tais como a malária, a febre amarela, a peste bubônica, a varíola e a doença de Chagas, já estava sob os cuidados do Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, fundado e dirigido pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. Ele criou uma brigada de agentes públicos chamados mata-mosquitos que percorriam as residências da cidade para identificar e eliminar possíveis focos de doenças transmitidas por insetos.
Os cariocas aceitaram pacificamente essas medidas, que tiveram sucesso contra as referidas doenças. Já a vacinação obrigatória contra a varíola foi recebida com desconfiança e revolta. Em 1904, o descontentamento da população explodiu num levante que o governo só conseguiu conter decretando estado de sítio.
As águas: das cristalinas às “fétidas”
É irônico que o mau cheiro do charco sorocabano tenha, mais tarde, ecoado onde antes só havia as águas cristalinas de Piraguá. É que elas foram contaminadas até se tornarem inóspitas aos próprios peixes. Isso deveu-se ao esgoto ilegal, que propiciava a proliferação de algas que sequestram oxigênio. Assim, até 2019, a mortandade de peixes assolava a lagoa durante todo o verão. Era necessário retirar toneladas de peixes mortos para livrar o entorno das exalações malsãs.
A mobilização reiterada dos moradores levou, finalmente, a uma parceria entre as instituições responsáveis pelas águas e os esgotos. Recentemente, elas uniram forças para produzir estudos que demonstraram que o açoreamento causado pelos aterros havia destruído os manguezais nativos, indispensáveis ao ecossistema local.
Contudo, para que o replantio tivesse sucesso, foi necessário construir a chamada galeria de cintura, i.e., um cinturão de concreto que bloqueia a descarga do esgoto, captando-a e enviando-a ao emissário submarino. Pouco a pouco, finalmente, a colônia de pesca voltou a funcionar e a fauna voltou a abrigar seus espécimes originais, tais como os caranguejos, as garças, os quero-queros e os martins-pescadores.
Ainda assim, o escoadouro do canal do Jardim de Alah tornou-se ineficiente, gerando insalubridade. O parque, que um dia fora um centro de lazer, passou um bom tempo abandonado. Os jardins, onde antes havia caramanchões, pedalinhos e esculturas ao ar livre, tornaram-se cada vez mais ermos, com árvores condenadas, e um canal incapaz de regular a troca de águas entre a lagoa e o mar.
Depois de uma disputa judicial em que o Ministério Público do Rio de Janeiro embargou uma obra que previa a construção de um shopping no terreno, foi finalmente aprovado um projeto de revitalização do parque, com significativas melhorias nos jardins e a construção de uma área comercial de piso único, com lojas e quiosques, na margem que beira o Leblon. Estão também previstas a despoluição do canal e a construção de pontes para pedestres e ciclistas.
Os morros: das florestas tropicais às comunidades
Engana-se quem pensa que as comunidades que vivem nos morros cariocas destruíram a floresta. Os desmatadores foram os latifundiários, que ali plantaram café entre os séculos XVIII e XIX. A mata de morros como o da Tijuca e o do Corcovado foi derrubada e queimada para produzir carvão e plantar café. D. João VI, protegido de Napoleão pelo oceano Atlântico, convidou nobres portugueses e franceses para se estabelecerem no clima ameno dos morros cariocas e cultivarem café para exportação.
Esse cultivo recorria a queimadas e enfileirava as mudas praticamente na vertical, destruindo a serrapilheira e, portanto, obstruindo os escoadouros das minas. Na primeira metade do século XIX, isso provocou sucessivas secas. Alarmadas com a frequência dos incêndios, as autoridades locais basearam-se em exemplos europeus para incentivar o reflorestamento nas décadas seguintes. A atual floresta da Tijuca é produto dessa política. Foi reconstruída por onze escravizados que plantavam mudas de árvores nativas percorrendo a região no lombo de jumentos.
Entretanto, a ocupação cada vez maior de Copacabana e Ipanema por uma classe média necessitada de serviços domésticos, entre outros, não permitiu o reflorestamento dos morros do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Ali se instalou uma comunidade, composta por descendentes de escravizados e migrantes de várias regiões, que constituiu um vasto operariado, em parte empregado pelo comércio local e em parte absorvido, ainda que precariamente, pelas demandas de serviços nas residências, ruas, praias e parques.
Segundo a Wikipedia, essa população conta, atualmente, com cerca de 5.000 habitantes. Malgrado desfrutem vistas deslumbrantes do mar e dos morros, os moradores enfrentam todos os problemas sociais típicos das favelas, a saber: a pobreza, a violência, o tráfico de drogas e a presença do crime organizado e suas infiltrações na força policial.
Há projetos governamentais bem como de ONGs que tentam amenizar essa situação pelo estímulo ao potencial criativo dos moradores. Além dos governos federal e estadual, colaboram a UNESCO, o Instituto Moreira Salles e várias organizações ligadas às artes e à literatura, tais como o Cirque du Soleil, o Grupo Cultural AfroReggae e o Projeto Mulheres em Ações Literárias.
O Colégio Municipal Presidente João Goulart oferece à comunidade, além do currículo de primeiro e segundo graus, várias atividades abertas ao público, tais como oficinas de cidadania e cursos de formação em informática, circo, costura, capoeira, boxe e dança.
Há, ainda, uma UPS, um funicular e uma UPP, além do Complexo Rubem Braga — duas torres, um mirante e um elevador público ligando o alto das favelas à estação de metrô General Osório.
O Museu da Favela — MUF — foi criado em 2008 por lideranças comunitárias e culturais, residentes, na maioria, dos morros do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho. Propiciado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), foi lançado em fevereiro de 2009.
Cabe lembrar que se trata de um museu de território, i.e., a céu aberto, cujo acervo é constituído pelos próprios moradores, através das suas residências, memória e estilo de vida. Incorpora também, naturalmente, o patrimônio da Mata Atlântica e praias circundantes, oferecendo vistas panorâmicas de Ipanema, Lagoa e Copacabana.
Assim, precisa de uma base fixa para realizar exposições e demais eventos. Depois de funcionar itinerantemente, instalou-se, em 2019, no quarto andar do edifício do Colégio Presidente João Goulart. Esse espaço tem abrigado exposições montadas não só pelo MUF mas também por museus e ONGs parceiras, nacionais e internacionais.
Seja como for, essas tentativas de combate à herança colonial são apenas paliativas, senão cosméticas. Abaixo abordo brevemente, à guisa de conclusão, dois dos fatores que mais contribuem para alimentar esse status quo.
O primeiro é a associação entre o crime organizado e o aparato policial do Estado. O segundo é o papel de empresas estrangeiras nos negócios imobiliários locais, fazendo da cidade um centro de especulação imobiliária transnacional.
A presença inexpugnável do crime
Mesmo antes da sua fundação em 1565, os portugueses compreenderam que o território do Rio de Janeiro demandava defesa, devido à navegabilidade e à vocação portuária da Baía de Guanabara — que a expunha à cobiça de outros invasores europeus.
Assim, com o aval da coroa portuguesa, recrutaram-se brigadas de defesa entre os próprios habitantes, que passaram a agir autonomamente com extrema violência. Esses grupos de milicianos foram depois assimilados às Tropas Auxiliares, escalão mais baixo da força militar portuguesa, e passaram a colaborar com as Tropas de Primeira Linha e as Companhias de Ordenanças na vigilância do porto, principal escoadouro de riquezas — o que se intensificou a partir de 1693, com o início do ciclo do ouro em Minas Gerais.
Essa espécie de promiscuidade entre o Estado e as milícias locais está, portanto, enraizada na cidade e constitui a base da atual relação entre a polícia e o crime organizado, que culminou no chamado massacre da Vila da Penha, que dizimou cerca de 130 jovens moradores dos complexos da Penha e do Alemão em 28 de outubro de 2025. É sintomática a declaração do então governador Claudio Castro de que essa havia sido a mais bem sucedida ação da sua gestão contra o crime organizado. É uma mera cópia do discurso da violência de estado racializada usado antes nas chacinas de Acari, Candelária, Vigário Geral e Jacarezinho.
Vale a pena transcrever um trecho da nota emitida uma semana depois pelo Laboratório de Estudos de Política e Criminologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp:
“Também repudiamos o uso político do massacre, claramente feito pelo governador Cláudio Castro, mas encampado também pelo Governo Federal, que em suas manifestações sobre o ocorrido tem se limitado a defender as suas próprias ações contra o crime organizado como mais ‘inteligentes’, reproduzindo o discurso de guerra que sustenta esse tipo de operação, e escusando-se de denunciar a violência policial, defender os direitos humanos e demandar e agir para uma apuração rigorosa dos fatos e das responsabilidades pelas mais de 120 mortos na Operação Contenção.”xii
A propósito, a jornalista investigativa Cecília Olliveiraxiii publicou um livro muito esclarecedor sobre a captura da Polícia Militar pelo crime organizado no Estado do Rio. Trata-se de uma reconstituição, com base em documentos e depoimentos, do caso do Cabo Bené, policial militar que se tornou líder miliciano até ser executado numa operação policial. A autora mostra, através desse exemplo e suas ramificações, como o Comando Vermelho cresceu dentro do Estado e se espraiou para todo o Brasil, tendo também atravessado fronteiras interamericanas e mesmo oceânicas.
Hoje a organização é a principal responsável pela logística da exportação de cocaína da América do Sul para a África e para a Europa. Tem também elos com a sua análoga paulista, o Primeiro Comando da Capital, com a qual, desde 2025, tenta superar a rivalidade a fim de colaborar no tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e aquisição de armamentos pesados.
Recentemente, revelou-se uma nova vertente da presença do crime no aparelho do Estado do Rio: uma operação conjunta da Polícia Federal e da Receita Federal, deflagrada em fins de abril próximo passado, desvendou um esquema de corrupção voltado a facilitar o contrabando na alfândega do Porto do Rio de Janeiro. Ele movimentou não menos que R$ 86 bilhões em mercadorias irregulares entre julho de 2021 e março de 2026.
Como indicaram os criminólogos da Unicamp, não há como derrotar esse esquema sem uma intervenção federal planejada e soberana, que, junto com os demais países atingidos, desmonte a malha criminosa sem cair no engodo de equipará-la ao terrorismo — o que atende unicamente aos interesses intervencionistas estadunidenses.
A maior dificuldade de alcançar esse objetivo reside no fato de o executivo e o legislativo estaduais estarem significativamente infiltrados de criminosos. A esse respeito, vale a pena citar um artigo recente do sociólogo Gerson Almeidaxiv, que comenta o balanço consolidado das atividades do Ministério Público do Rio de Janeiro em 2025: “Os números foram expressivos: 767 denúncias ajuizadas contra o crime organizado; 120 agentes públicos denunciados por corrupção; 260 policiais militares denunciados pela Justiça Militar; R$ 900 milhões em bens e ativos bloqueados.”
Almeida aborda, ainda, a participação ativa nesse esquema de políticos eleitos para o legislativo e o executivo, com foco especial na família Bolsonaro.
Os novos ciclos coloniais
A vocação turística do Rio atraiu empresas estrangeiras ligadas não só aos serviços propriamente turísticos, mas também — e principalmente — à especulação imobiliária. Existem várias imobiliárias especializadas em vendas e/ou locações a estrangeiros, sejam eles turistas ou investidores.
A mais conhecida, estabelecida e disseminada é a Airbnb, que costuma postar, em média, em torno de 30 mil anúncios de locações temporárias. Enquanto outras empresas internacionais fomentam a venda a investidores, a Airbnb impulsiona a locação de imóveis situados principalmente na Zona Sul, especialmente em Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca.
A esse respeito, os resultados de um estudo de Cerqueiraxv “apontam para uma convergência entre locais com maiores preços de imóveis residenciais, maior número de anúncios no Airbnb e maior presença de amenidades”. Outro estudo, de autoria de Gushikenxvi, aponta que “um maior número de anunciantes ativos no Airbnb gera incremento no preço dos aluguéis residenciais, e este impacto é maior em bairros com maior taxa de moradias próprias. Em um bairro com taxa mediana de moradias próprias, 1% de incremento de anunciantes ativos no Airbnb está associado a 0,08% de aumento no preço dos aluguéis residenciais.”
Isso afeta também as vendas, pois a renda dos aluguéis de temporada tende a cobrir as despesas do imóvel com larga folga, desestimulando a venda. Até recentemente, por equívoco ou má-fé, isso podia provocar evasão fiscal — e até de divisas, caso o proprietário fosse um estrangeiro desconhecedor das suas obrigações para com as leis brasileiras.
Atualmente, as plataformas de locação de curto prazo são obrigadas não só a explicitar as regras fiscais que regem os imóveis que anunciam, como também a fornecer à Receita Federal relatórios detalhados sobre todas as locações efetuadas. Esses dados são cruzados e cotejados com os de anos anteriores, podendo gerar cobrança de multas retroativas. Além disso, a Câmara Municipal está, finalmente, discutindo um Projeto de Lei que visa regulamentar o aluguel por temporada. Esse é alvo de intensa controvérsia, já que interesses divergentes do mercado imobiliário estão representados na vereança.
Os imóveis ociosos capturados nessa trama prejudicam os pequenos negócios do ramo em pelo menos três aspectos.
O primeiro é que desestabilizam a demografia dos bairros envolvidos a ponto de causar um grave problema de segurança. A prefeitura e o governo do Estado diminuem a vigilância fora dos picos de ocupação, tornando as ruas mais perigosas em baixa temporada. São frequentes os arrastões nas praias e ruas adjacentes.
O segundo é que submetem as propriedades de uso intermitente a um mecanismo que, indireta e sutilmente, equivale ao redlining. Como os prédios esvaziados sofrem degradação das fachadas e das instalações elétricas e hidráulicas, os apartamentos são aos poucos adquiridos por grandes empresas de construção civil com ligações internacionais, a fim de viabilizar a modernização ou mesmo a demolição. Os imóveis resultantes passam às mãos de investidores que apostam no médio e no longo prazo. No curto prazo, as mesmas empresas investem na construção de condomínios de luxo ao longo da orla sul, povoando áreas de mangue sem respeito às leis de proteção ambiental.
É que, na década de 1960, as construtoras cariocas dominaram a tecnologia de construção na turfa, solo predominante na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, onde os manguezais eram numerosos. Foi assim que esses bairros se encheram de arranha-céus. Em seguida, a violação do código florestal passou a ser “revertida” por meio de mudanças nas leis e/ou acordos judiciais para a legalização post-hoc das construções.
O terceiro mecanismo que desloca moradores em benefício de especuladores é a gentrificação das moradias populares em favelas em vias de pacificação, tais como o Vidigal. A construção de pousadas de luxo no entorno permitiu que estrangeiros de poder aquisitivo menor que o dos hóspedes do Hotel Sheraton se encantassem com seu acesso fácil, suas vistas panorâmicas e seus preços — mais convidativos que os dos bairros nobres. O resultado é que a alta dos aluguéis e dos serviços tem forçado a saída dos moradores da comunidade, franqueando a aquisição de áreas cada vez maiores a grupos imobiliários internacionais.
Em suma, a vocação turística do Rio é prisioneira de um padrão que replica os vícios quincentenários da gestão colonial: deslocar moradores, arrasar terras, ocupá-las e legalizá-las ex post facto. A maior parte dos recursos assim gerados não é canalizada para os órgãos públicos que poderiam utilizá-los em prol da coletividade. Fica, ao contrário, nas mãos de uma elite econômica privada, nacional e internacional, que investe indefinidamente em novas áreas, alastrando o crescimento predatório da cidade, ao arrepio da legislação ambiental.
Administrações sucessivas, com a conivência das esferas federais, têm investido seguidamente na promoção de megaeventos de música pop que geram arrecadação fácil pela elevação temporária do consumo, graças a visitantes que usam a infraestrutura turística existente.
Por outro lado, quaisquer melhorias, ainda que ocasionais, restringem-se a áreas privilegiadas dos bairros nobres e/ou a momentos nos quais a cidade sedia grandes eventos esportivos, tais como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Enquanto isso, a propalada hospitalidade a turistas de grupos minoritários vem sendo denunciada como incentivo hipócrita e oportunista à frequência de certos points. Mesmo no tradicional ponto de encontro da comunidade LGBTIA+, a saber, a Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, tem havido taxas alarmantes de agressão a moradores ou visitantes com marcas identitárias. Recentemente, a imprensa noticiou a declaração do dono do Bar Popeye, na esquina das ruas Visconde de Pirajá e Farme de Amoedo, de que os gays não seriam atendidos no seu estabelecimento.
Da mesma forma, é falsa a ideia de que a alta taxa de moradores afrodescendentes da cidade coíbe a agressão racista contra visitantes de mesma origem. Visitantes pretos ou indígenas de várias nacionalidades têm sido submetidos a revistas vexatórias por parte de policiais militares, especialmente em Ipanema e Copacabana.
Enfim, conforme suspeitou Carlos Lessa, a perda da capitalidade sabotou a versatilidade do “Rio de todos os Brasis”, relegando a cidade a uma manipulação ainda maior pela elite econômica sob o pretexto de fomento ao turismo. Cabe a nós, seus amantes, nativos ou não, lutar por uma distribuição mais justa da riqueza gerada pela sua indescritível beleza.
Que o sangue, o suor e as lágrimas dos tupinambás e dos africanos aportados no Cais do Valongo não nos deixem esquecer que devemos aos cariocas das próximas gerações a superação dos rastros hediondos da colonialidade do poder.
Notas:
Texto dedicado à memória de meu pai, Floroaldo Albano (1922-2015), arquiteto, urbanista e sanitarista da Fiocruz.
ii https://www.jb.com.br/rio/2019/12/1020743-rio-de-janeiro-cai-em-ranking-e-deixa-de-ser-uma-das- 100cidades-mais-visitadas-no-mundo.html
iii São eles: São João, Santa Cruz da Barra, São Luiz, Pico, Urca e Copacabana.
iv Mendès, Jane Catulle. – La Ville Merveileuse – Rio de Janeiro – Poèmes. Paris: Bibliothèque Internationale D’Édition, Sandot Cie.,S.d., (circa 1913), primeira edição.
v O fabuloso jardim era tão romanesco/A alma das palmeiras, seus tremores, seus bambus/O tornavam tão divino, tão terrestre e tão doce/Que eu chorava, quase.
vi Como é comum em países colonizadores, tratava-se de convencer as autoridades locais de colaborar numa guerra mundial – a primeira.
vii Em tupi, barulho da revoada dos socós.
viii Ou seja, significados que vão da expropriação ao alheamento.
ix Lessa, Carlos. Rio de todos os Brasis (uma reflexão em busca de auto-estima). Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
x Freitas da Silva, Rafael. O Rio antes do Rio. Relicário Editora. 6ª edição. 2015.
xi Confederação dos Tamoios.
xii https://www.ifch.unicamp.br/noticias/147243
xiii Olliveira, Cecília. Como nasce um miliciano. Rio de Janiro: Editora Bazar do Tempo, 2025.
xiv https://aterraeredonda.com.br/o-principe-do-submundo/
xv Cerqueira, Maria Fizson. Efeitos disruptivos das plataformas da economia compartilhada no mercado imobiliário: a inserção do Airbnb na cidade do Rio de Janeiro. https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFF-2_72ca424fbfd2e4c13b838cef5ad90b77
xvi Gushiken, Igor Yasuo. O impacto do Airbnb nos preços dos aluguéis residenciais na cidade do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado. FGV, 2023. https://repositorio.fgv.br/items/aa4db0aa-14d0-421f-a2d5-829114f26e4d
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Fonte: https://outraspalavras.net/outras-cidades/rio-maravilha-miseria-dos-cartoes-postais/
O Rio continua lindo mas perigoso. É também infeliz na escolha de governadores, a exceção foi.Brizola. dartagnan ferraz
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