sábado, 27 de junho de 2026

a novidade




depois de longa ausência

      ela voltou

com a mesma elegância


com o brilho nos olhos

     toda contente

chegou com uma novidade


um sorriso confiante

      que a idade

suavizou seu semblante


afugentou dores e medos

      a felicidade

é o seu nome sem arremedo


J Estanislau Filho


domingo, 21 de junho de 2026

CONTO DE AMOR



Quando servi o Exército eu me tornei especialista em bombas. Sei fabricar qualquer tipo de bomba portátil, muito usada por terroristas. A bomba que eu estava fazendo tinha que ter efeito fulminante, para que a vítima nada sofresse. E antes da explosão, era necessário que fosse emitido um feixe de luz radiante que fizesse a vítima perceber a iminência da explosão.

A pessoa que eu queria matar era o meu filho João.

Minha mulher Jane estava grávida quando fui enviado ao exterior com um contingente do Exército a serviço das Nações Unidas. Fiquei ausente cerca de dois anos. Escrevia constantemente para Jane e ela respondia. Quando o meu filho nasceu e recebeu o nome de João, as cartas de Jane ficaram bem estranhas. Ela dizia que precisava falar comigo uma coisa muito séria, mas não sabia como. Eu respondia impaciente para ela dizer de qualquer maneira, mas ela persistia na falta de clareza, que cada vez piorava mais. Afinal, Jane deixou de responder minhas cartas.
Quando voltei da missão da ONU, corri para casa assim que desembarquei no aeroporto.

Jane abriu a porta para mim. Seu aspecto me surpreendeu. Estava envelhecida, pálida, parecia doente.

“Onde está o João?”, perguntei. Jane começou a chorar convulsivamente, apontando a porta do quarto onde ele estava.

Entrei no quarto, seguido de Jane.

João estava deitado no berço, um menino lindo, que ao me ver deu um sorriso. Peguei-o no colo. Então, tive uma surpresa que me deixou atônito. João só tinha uma perna e um braço, eram os únicos membros que possuía.

Jane estendeu-me um papel, todo amassado, uma receita médica onde estava escrito: esta criança sofre de focomelia, uma anomalia congênita que impede a formação de braços e pernas. Jane cuidava do João com o maior cuidado e com grande carinho. Mas ela definhava cada vez mais e morreu quando João tinha seis anos. Eu dei baixa no Exército para poder cuidar do meu filho. Quando eu perguntava se ele queria alguma coisa, ele dizia “Eu quero ir para a guerra”.

Sua deficiência física se agravava com a idade. Ele tinha 15 anos, mas não podia andar, estava impossibilitado de exercer as mínimas atividades físicas.

“Eu quero ir para a guerra, papai”, ele pediu mais uma vez.

Então decidi que ele iria à guerra. Foi quando preparei a bomba.

Com a bomba na mão eu disse: “Meu filho, você foi convocado para ir à guerra.”

“Obrigado, meu pai querido, eu te amo muito.”

Eu o amava mais ainda.

Coloquei a bomba na sua mão.

“Essa bomba vai explodir. É a guerra”, eu disse.

“É a guerra”, ele repetiu feliz.

Saí do quarto onde estava. Pouco depois vi o clarão.

João também viu esse clarão, feliz, antes da bomba explodir, matando-o.

Eu amava o meu filho.


 


Rubem Fonseca nasceu em 1925 e é um dos maiores escritores contemporâneos de língua portuguesa. Autor de 27 livros, entre suas principais obras estão as coletâneas de contos Lúcia McCartney e Feliz ano novo, além dos romances A grande arte e Agosto. A história publicada pelo Cândido faz parte do novo livro de contos do autor, Amálgama, que a editora Nova Fronteira lança este mês. O escritor vive no Rio de Janeiro (RJ).


Ilustração: André Ducci


Fonte: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Conto-Rubem-Fonseca

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Que Viagem!...

 


Por J Estanislau Filho



I


Antonia, apressada, começou arrumar as malas uns quinze dias antes da viagem. Três malas, uma maior e duas de mão, além de duas mochilas, para levarmos nas costas. Passaríamos dez dias no Perú, entre estradas e estadias. Mas foi Larissa quem acabou organizando, nos mínimos detalhes. Malas prontas. No dia da partida, Ricardo colocou as bagagens na caminhonete e rumamos ao aeroporto de Salvador, onde nos juntaríamos ao grupo. De Salvador, rumo a Guarulhos e Lima, no Perú. Tudo correu como planejado. 


II



A nossa guia nos recebeu no aeroporto de Lima e nos conduziu ao hotel em Miraflores, um bairro classe média. O grupo de cinco casais, cada casal com cinco malas grandes, três pequenas e três mochilas, totalizando... Deixa pra lá. Tinha mais malas que gente! Depois de instalados no hotel, saímos para um tour e o almoço. Antes passamos em uma casa de câmbio, para trocarmos alguns reais por soles, a moeda peruana. Muitos não precisavam, pois tinham cartões internacional. Almoçamos num restaurante, de frente para o oceano Pacífico. Antes do almoço, caminhamos pelo Malecón de Miraflores. Ah,  em Lima conhecemos um casal de Montes Claros, Minas Gerais. 


III



No segundo dia em Lima, fomos ao parque El Olivar e contemplamos uma visão panorâmica da Huaca Pucllana, um sítio arqueológico. Curtimos uma atmosfera colonial nos majestosos casarões e edifícios do século XV, e a icônica Plaza de San Martin,  no Centro Histórico. Na Plaza Mayor visitamos o Convento de Santo Domingo.  No terceiro dia visitamos o Parque del Amor. O Parque Kennedy é habitado por dezenas de gatos, que podem ser adotados. 


IV



Eis que é chagado o momento de voarmos  pra Cusco. No hotel, fomos orientados sobre a adaptação ao clima.  Pra início de conversa, um chá de coca foi servido, não aconselhado aos de pressão alta. Descansamos no hotel. Com o tempo livre, alguns e algumas do grupo fizeram breves caminhadas. Sentimos a diferença do clima. Em Cusco fizemos passeios e contemplamos lindas paisagens. Uma parada na fortaleza Sacrayuaman, de pedras gigantes, encaixadas pelos Incas; o Qenqo, labirinto em Quechua, formado por duas galerias subterrâneas, antigamente usadas em sacrifícios e mumificações. Tambomachay  é um local de culto à água. Vimos, por fora, a Fortaleza Vermelha de Pukapukara, de muros e terraços; fomos ao Templo do Sol. Finalizamos o tour conhecendo a Catedral de Cusco, uma das mais belas das Américas! Encerramos o passeio na Plaza de Armas. 


V



Chegou, finalmente, o dia de conhecer o Vale Sagrado dos Incas. O Taray é um mirante com vistas para o Vale. Em Pisac fomos à praça principal, multicolorida, com tecidos e tapetes expostos. Local de gastar uns soles em lembrancinhas. Em Urubamba, um almoço típico da ótima culinária peruana. Encerramos o passeio visitando o sítio arqueológico de Ollantaytabo, com tecnologia e da arquitetura Inca.  Depois de um rápido passeio pela cidade, partimos, de trem para  Águas Calientes, onde pernoitamos. No dia seguinte, a hora do bolo da cereja: Machu Picchu. Num trem panorâmico, com direito a participar, num vagão especial, de danças folclóricas, animado por um grupo local. Ricardo, que não é bobo, dançou ao som da música peruana. 


VI



Uma das 7 Maravilhas do Mundo Moderno, Machu Picchu, sob nossos pés e olhares atentos. Fomos num micro-ônibus por uma estrada em zigue-zague até a cidadela. Por cerca de duas horas nos conectamos nos mistérios desse Patrimônio da Humanidade. As imagens falam por si.


VII



Maras e Moray com Chinchero, nossa primeira parada, famosa por suas tradições têxteis. A jornada continua até as Salineras  de Maras e suas piscinas de sal. Em Moray a incrível engenharia Inca, com terraços agrícolas usados em experimentos avançados,  de onde partimos às 3h50 ao povoado de Llacto a 4.300 metros de altitude, onde tomamos o café da manhã. Quadriciclo e motos nos conduziram ao pé das Montanhas Coloridas, a mais de 5.200 metros de altitude. 













Crédito das imagens do acervo do autor