terça-feira, 11 de setembro de 2018

Carta ao povo brasileiro







Curitiba, 11 de setembro de 2018

Meus amigos e minhas amigas,

Vocês já devem saber que os tribunais proibiram minha candidatura a presidente da República. Na verdade, proibiram o povo brasileiro de votar livremente para mudar a triste realidade do país.

Nunca aceitei a injustiça nem vou aceitar. Há mais de 40 anos ando junto com o povo, defendendo a igualdade e a transformação do Brasil num país melhor e mais justo. E foi andando pelo nosso país que vi de perto o sofrimento queimando na alma e a esperança brilhando de novo nos olhos da nossa gente. Vi a indignação com as coisas muito erradas que estão acontecendo e a vontade de melhorar de vida outra vez.

Foi para corrigir tantos erros e renovar a esperança no futuro que decidi ser candidato a presidente. E apesar das mentiras e da perseguição, o povo nos abraçou nas ruas e nos levou à liderança disparada em todas as pesquisas.

Há mais de cinco meses estou preso injustamente. Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando os procuradores da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro e o TRF-4 a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crimes que não praticou, por dinheiro que não desviou, por atos indeterminados.

Minha condenação é uma farsa judicial, uma vingança política, sempre usando medidas de exceção contra mim. Eles não querem prender e interditar apenas o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Querem prender e interditar o projeto de Brasil que a maioria aprovou em quatro eleições consecutivas, e que só foi interrompido por um golpe contra uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu crime de responsabilidade, jogando o país no caos.

Vocês me conhecem e sabem que eu jamais desistiria de lutar. Perdi minha companheira Marisa, amargurada com tudo o que aconteceu a nossa família, mas não desisti, até em homenagem a sua memória. Enfrentei as acusações com base na lei e no direito. Denunciei as mentiras e os abusos de autoridade em todos os tribunais, inclusive no Comitê de Direitos Humanos da ONU, que reconheceu meu direito de ser candidato.

A comunidade jurídica, dentro e fora do país, indignou-se com as aberrações cometidas por Sergio Moro e pelo Tribunal de Porto Alegre. Lideranças de todo o mundo denunciaram o atentado à democracia em que meu processo se transformou. A imprensa internacional mostrou ao mundo o que a Globo tentou esconder.

E mesmo assim os tribunais brasileiros me negaram o direito que é garantido pela Constituição a qualquer cidadão, desde que não se chame Luiz Inácio Lula da Silva. Negaram a decisão da ONU, desrespeitando o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos que o Brasil assinou soberanamente.

Por ação, omissão e protelação, o Judiciário brasileiro privou o país de um processo eleitoral com a presença de todas as forças políticas. Cassaram o direito do povo de votar livremente. Agora querem me proibir de falar ao povo e até de aparecer na televisão. Me censuram, como na época da ditadura.

Talvez nada disso tivesse acontecido se eu não liderasse todas as pesquisas de intenção de votos. Talvez eu não estivesse preso se aceitasse abrir mão da minha candidatura. Mas eu jamais trocaria a minha dignidade pela minha liberdade, pelo compromisso que tenho com o povo brasileiro.

Fui incluído artificialmente na Lei da Ficha Limpa para ser arbitrariamente arrancado da disputa eleitoral, mas não deixarei que façam disto pretexto para aprisionar o futuro do Brasil.

É diante dessas circunstâncias que tenho de tomar uma decisão, no prazo que foi imposto de forma arbitrária. Estou indicando ao PT e à Coligação “O Povo Feliz de Novo” a substituição da minha candidatura pela do companheiro Fernando Haddad, que até este momento desempenhou com extrema lealdade a posição de candidato a vice-presidente.

Fernando Haddad, ministro da Educação em meu governo, foi responsável por uma das mais importantes transformações em nosso país. Juntos, abrimos as portas da Universidade para quase 4 milhões de alunos de escolas públicas, negros, indígenas, filhos de trabalhadores que nunca tiveram antes esta oportunidade. Juntos criamos o Prouni, o novo Fies, as cotas, o Fundeb, o Enem, o Plano Nacional de Educação, o Pronatec e fizemos quatro vezes mais escolas técnicas do que fizeram antes em cem anos. Criamos o futuro.

Haddad é o coordenador do nosso Plano de Governo para tirar o país da crise, recebendo contribuições de milhares de pessoas e discutindo cada ponto comigo. Ele será meu representante nessa batalha para retomarmos o rumo do desenvolvimento e da justiça social.

Se querem calar nossa voz e derrotar nosso projeto para o País, estão muito enganados. Nós continuamos vivos, no coração e na memória do povo. E o nosso nome agora é Haddad.

Ao lado dele, como candidata a vice-presidente, teremos a companheira Manuela D’Ávila, confirmando nossa aliança histórica com o PCdoB, e que também conta com outras forças, como o PROS, setores do PSB, lideranças de outros partidos e, principalmente, com os movimentos sociais, trabalhadores da cidade e do campo, expoentes das forças democráticas e populares.

A nossa lealdade, minha, do Haddad e da Manuela, é com o povo em primeiro lugar. É com os sonhos de quem quer viver outra vez num país em que todos tenham comida na mesa, em que haja emprego, salário digno e proteção da lei para quem trabalha; em que as crianças tenham escola e os jovens tenham futuro; em que as famílias possam comprar o carro, a casa e continuar sonhando e realizando cada vez mais. Um país em que todos tenham oportunidades e ninguém tenha privilégios.

Eu sei que um dia a verdadeira Justiça será feita e será reconhecida minha inocência. E nesse dia eu estarei junto com o Haddad para fazer o governo do povo e da esperança. Nós todos estaremos lá, juntos, para fazer o Brasil feliz de novo.

Quero agradecer a solidariedade dos que me enviam mensagens e cartas, fazem orações e atos públicos pela minha liberdade, que protestam no mundo inteiro contra a perseguição e pela democracia, e especialmente aos que me acompanham diariamente na vigília em frente ao lugar onde estou.

Um homem pode ser injustamente preso, mas as suas ideias, não. Nenhum opressor pode ser maior que o povo. Por isso, nossas ideias vão chegar a todo mundo pela voz do povo, mais alta e mais forte que as mentiras da Globo.

Por isso, quero pedir, de coração, a todos que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad para Presidente da República. E peço que votem nos nossos candidatos a governador, deputado e senador para construirmos um país mais democrático, com soberania, sem a privatização das empresas públicas, com mais justiça social, mais educação, cultura, ciência e tecnologia, com mais segurança, moradia e saúde, com mais emprego, salario digno e reforma agrária.

Nós já somos milhões de Lulas e, de hoje em diante, Fernando Haddad será Lula para milhões de brasileiros.

Até breve, meus amigos e minhas amigas. Até a vitória!

Um abraço do companheiro de sempre,

Luiz Inácio Lula da Silva




quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Filhos da Terra: Capítulos 9 - As Revelações de Zenaide - 10 - Na Redação


                                                                    Imagem: Eliana


                                                     9 - As Revelações de Zenaide

Depois do lanche, Elói chamou Zenaide, para que lhe contasse o que estava acontecendo. A garota tentou escapar, dizendo tratar-se de "coisa boba", mas ele percebeu que havia algo de grave. Continuava sem saber de nada, pois não costumava ler, apesar de jornalista, nem ouvir e nem ver os noticiários da mídia empresarial. O motorista do jornal o trouxera em casa, portanto não fizer nenhum contato com os vizinhos. Zenaide mantinha a cabeça baixa, como se envergonhada. Ele levou a mão sob o queixo dela, obrigando-a, delicadamente a erguer a cabeça. Ao vê-la de olhos marejados, abraçou-a, com ternura. Então ela desabou num choro convulsivo. Elói ficou agitado, especialmente por conta de uma súbita excitação em hora imprópria: -  Minha gatinha, chore, chore bastante e depois me conte - dizia acariciando-lhe os cabelos - mas conte tudo, desabafe, pois sou seu amigo, pode confiar em mim, está bem? Depois de alguns minutos, ela se acalmou e olhava envergonhada para ele: - Ah, meu amigo, eu sou um fracasso, minha família é um fracasso, sinto muito, mas eu te decepcionei. - Como assim? Do que está falando?, perguntou Elói. - Você não sabe? Não acredito - disse Zenaide, novamente caindo em prantos. Elói buscou um copo com água e açúcar e disse com firmeza: - Como é que é? Vai bancar a garotinha mimada? Conte-me logo o que aconteceu, você completa quinze anos hoje. Puxa vida, estava me esquecendo, por favor, desculpa, porque você não está em casa, para a festa de aniversário? Oh, meu amor!, desculpa, mil desculpas, ando tão ocupado, que esqueci o seu aniversário, esqueci de comprar o presente. É por isso que está triste? Zenaide olhou-o com tristeza: - O meu aniversário de quinze anos ficará na lembrança como o dia mais triste de minha vida. Quem dera se fosse apenas não poder comemorá-lo!
     Ficaram alguns longos segundos em silêncio, olhando-se mutuamente. Elói quebrou, do silêncio:
     - Seja lá o que for diga logo e tire este peso de seu coração. Vou dividi-lo com você.
     - Tudo de muito ruim aconteceu - disse Zenaide, enxugando os olhos com as mãos, substituídas por um guardanapo estendido pelo amigo - de só vez. Wallace matou um rapaz da Vila do Sossego e está foragido.
     - Puxa vida, as coisas acontecendo bem debaixo do nariz de todos! - exclamou o jornalista, com desânimo.
     - Pois é, ele comprando coisas, alimento e a gente se iludindo. Ultimamente não faltava praticamente nada dentro de casa. A favor de Wallace é que ele não é usuário de drogas. Não sei bem o que ele estava aprontando, mas está ligado a drogas ou a roubos. Quando a política chegou, saí vazada e até agora não voltei, minha mãe deve estar preocupada comigo.
     - Acho bom você ir logo pra casa. Tem notícias de seu irmão?
     - Eu não, talvez já tenha chegado alguma notícia lá em casa, não sei - respondeu, limpando os olhos com o guardanapo ensopado. 
     - Zenaide, Wallace é menor. Este caso vai parar no Juizado da Infância e da Juventude e ele poderá ficar livre em breve. É melhor ele aparecer e se apresentar à justiça, para a sua própria segurança. Solto poderá ser alvo de vingança. Há tempo de desviá-lo deste caminho. Vamos para a sua casa, vou com você, sua mãe deve estar louca.
     Zenaide estava paralisada, como se recusasse a sair dali. Sentia-se segura na presença do amigo, mas parecia querer dizer-lhe algo mais e não tinha coragem. Elói olhou-a com olhar inquiridor e ela falou de cabeça baixa: - Fazem dois meses que a minha menstruação não vem. - Ah me poupe, garota, isso você terá de dizer pra sua mãe! - respondeu com raiva -, menos hoje, é lógico, senão vai matá-la do coração - completou, pegando-a pelo braço com tanta força, que ela gritou: - Ai, você está me machucando! - São os mais agitados quinze anos que já vi na vida, nem para usar camisinha em tempos de AIDS, porque uma gravidez numa idade imprópria, vá lá, dá-se um jeito, mas já imaginou se você estiver infectada? Não acredito em tamanha falta de responsabilidade! - monologava Elói, abrindo a porta e ganhando a rua, de mãos dadas com a garota que planejara brilhar nas passarelas. 
     Não suportou ver a família aos prantos e a única coisa que conseguiu, foi chorar também. 



10 - Na Redação

Ao chegar na redação no dia seguinte, os colegas comentavam a repercussão da matéria e a operação fracassada da polícia, para prender o menor infrator. O repórter policial Renato Barros encontrava-se diante da tela do computador, preparando um texto, que seria publicado na edição do dia seguinte. Ninguém sabia das relações de Elói com a família de Wallace. Assim que entrou na sala de redação, Renato Barros interrompeu o trabalho, para cumprimentar o colega: - Bom dia, velho guerreiro - Renato sempre se dirigia a Elói dessa forma -, preparado para mais um dia de trabalho? - Quem é do front é você, Renato, o melhor repórter policial do estado - respondeu Elói, entregando-lhe uma xícara de café -, eu atuo em áreas menos conturbadas - completou. - Não sei o que é pior - Retrucou Barros -, cobrir conflitos entre policiais e bandidos ou os crimes ambientais praticados pela especulação imobiliária e invasões de áreas e prédios, por sem-tetos. - Renato, não são invasões, trata-se de ocupações - corrigiu Elói. - Ocupação ou invasão acabam dando no mesmo, o fato é que o pau corre solto e você corre tanto perigo quanto eu. E por falar em perigo, você viu? Um meninos de apenas treze anos cometeu um assassinato e está foragido. É lá do seu bairro. - Estou sabendo - respondeu Elói fazendo um gesto de tristeza - estive ontem com a família, são meus amigos. Lembra da garota bonita da televisão? A que vive me pedindo para ajudá-la a ser modelo? - Lembro sim, você até me mostrou algumas fotos, inclusive pedindo-me ajuda. E daí? - Pois é, o garoto foragido é irmão dela - informou Elói. - Puxa, que pena! Então, por favor, quero que me ajude nessa matéria, já que conhece o garoto. - Posso passar-lhe algumas informações, mas no geral é isso: apenas mais um garoto pobre aliciado por traficantes. Na verdade sei pouco ou nada das atividades dele, aliás, todos foram pegos de surpresa, inclusive a família, por sinal gente boa. Mas havia algo óbvio, que nem o meu faro de jornalista percebeu: o garoto andava ganhando uma grana razoável, para a sua idade e para os parâmetros da família. Tinha até adquirido om tv de vinte e nove polegadas, DVD, muitos CD's, além de alguns móveis, eletrodomésticos, roupas para toda a família e se alimentavam relativamente bem. Ele saía cedo de casa e só retornava à noite e a família acreditava em sua versão, que trabalhava como vendedor ambulante, vendendo artesanatos de vidro. De fato ele saía com essas peças diariamente, mas parece que era tudo fachada. O que me espanta é como um garoto, nessa idade... Puva vida, é muito triste! Afinal, que país é esse? Concluiu Elói indignado. 
     - É o país da infância roubada, da juventude desnorteada e de idosos desrespeitados - respondeu Renato Barros.
     - É a herança maldita que FHC deixou nestes oito anos - disse Elói. 
     - Não seja reducionista, Elói. Concordo que foram oito anos terríveis, mas atribuir as mazelas ao Fernando Henrique é desconhecer a história. Isso vem de longa data, mas para não voltarmos a um passado distante, os últimos vinte e cinco anos oram de instabilidade e estagnação, isso sim, deixou uma herança maldita. O conflito social no Brasil não é difícil de entender e já virou clichê: a riqueza acumulada em poucas mãos. Abrir estas poucas mãos recheadas e fazer um pouco desta riqueza chegar a milhões de mãos vazias é o desafio do seu presidente.
     - Meu? Porquê meu? Você não votou nele? Nem no segundo turno?
     - No primeiro turno você sabe em quem votei, no segundo anulei - respondeu Renato.
     - Não acredito, você, um cara consciente... - retrucou Elói. 
     - Calma aí, Elói, porque você acha que quem não votou em Lula não é consciente? Eu não acredito nele, acho-o um populista, não tem formação...
     - Você quer dizer um diploma universitário...
     - E porque não? Lula é quase um analfabeto, vai ser ludibriado, espero estar enganado, mas governar um país é difícil! - disse Renato, exaltado.
     - A sua fala me faz lembrar um poema de Bertold Brecht, que diz "governar só é difícil porque a mentira e a exploração são coisas que custam a aprender". Os acadêmicos, que governaram o Brasil não foram competentes o suficiente para nos tirar do atraso. Que sabe, agora, um ex-torneiro mecânico, pau-de-arara nordestino consiga fazer o que os acadêmicos não conseguiram em quinhentos anos. Apesar de Lula ter transigido com a agiotagem nacional e internacional e com o neoliberalismo, acredito que promoverá mudanças...
     - Lenta, gradual e segura, como a proposta de redemocratização do país, feita pelos militares - interrompeu Barros, com ironia.
     - Renato, vamos fazer um pacto: não pré-julgar um governo, para o bem ou para o mal, que ainda não montou sua equipe. Ao final do mandato, e, obviamente, não sugerindo passividade, a gente faz um balanço, para saber se o país melhorou ou piorou, então a gente conversa. Particularmente não acredito em rupturas, mas se o governo conseguir diminuir as desigualdades sociais e acabar com a fome dos brasileiros, proposta do Programa Fome Zero, já é um avanço, porque para mim, não há nada mais degradante que a fome. Eu não consigo entender como ainda tem gente morrendo de fome e de doenças causadas pela desnutrição e pela falta alimento. Ir à lua tornou-se um passeio, no entanto não se consegue solucionar problemas simples, como a fome, água tratada e moradias. Se conseguir pôr um fim à corrupção ou pelo menos reduzi-la, vai ter mais recursos para as políticas públicas. Vamos trabalhar, porque senão, a sua matéria não ficará pronta, nem a minha. 
     - Está bem, velho guerreiro, vamos à luta, mas depois quero saber daquela garota bonita, se rolou alguma coisa entre vocês...
     - Ah nem me fale, mais problemas à vista! Não gosto de ninfetas; prefiro as experientes. Você, hein! A família no maior sofrimento e você pensando bobagens. Ao trabalho, porque mente ociosa dá nisso - retrucou com humor.

A seguir:


11 - Tenório e Edileuza Decidem se Casar
12 - Um Corpo no Matagal


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Eu estive com Luis Inácio



Queria escrever algo sobre Lula, mas não sabia como começar. Falar de sua biografia? Não, isso é do conhecimento geral. Sobre o legado de seus dois mandatos? Também não, basta uma pesquisa, que se encontra tudo. Como ajudou a eleger e reeleger Dilma? Da perseguição jurídico-midiática, que o levou a ser um preso político? Uma poesia? Ah, não. Já se falou de Lula, bem e mal, de todas as maneiras. Ora, vou falar de como o conheci desde a segunda metade da década de setenta. Século 20. De forma sucinta. Sim, eu estive frente a frente com ele, mas nunca tirei uma foto ao seu lado.
     Em 1976 iniciei a minha militância no movimento sindical metalúrgico. Foram apenas quatro anos, pois em 1980, por estar desempregado, saí da categoria. Mas já estava envolvido no movimento cultural e na construção do Partido dos Trabalhadores. Meu primeiro contato com ele foi em 1979, quando ele esteve no município em que eu morava e militava. Na grande greve dos metalúrgicos de Contagem, que participei ativamente. Lula passou rapidamente, para uma reunião sobre a criação do PT. Apenas o vi, não falei com ele, nem tirei uma foto, como tantos fizeram, para registrar o encontro. Eu tinha muitas dúvidas quanto a construção do partido. Se se seria um partido de massa, ou de quadros. Mas isso é outra história.
     Depois me lembro de tê-lo visto no palanque das Diretas-já, em Belo Horizonte, em 1984. No palanque, além dele, estavam vários políticos e artistas: Leonel Brizola; Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Fagner, Gonzaguinha, entre outros.
     Em 1989 ele voltou a Contagem e uma fila enorme se fez, para tirar foto com ele. Mais uma vez não fiz meu registro fotográfico. Depois explico porque.
     Voltei a ficar frete a frente com aquele que seria o melhor presidente da história do Brasil, em 1997, numa manifestação em Brasília, pelo "fora FHC". De novo, não tirei uma foto ao seu lado. Se bem, nesse dia, fosse difícil. Lula estava à frente da caminhada rumo a Esplanada dos Ministérios, de mãos dadas com outras lideranças políticas, sindicais e sociais.
      Em 1989 fizemos uma campanha emocionante. O movimento sindical me deu consciência de classe. As leituras de intelectuais e filósofos como Karl Marx, Engels, Jean-Paul Sartre, Florestan Fernandes, Marilena Chauí, entre outros e outras, além do cinema, me deram a consciência política. E Lula com sua garra, ânimo, amor ao povo e a certeza de que um outro Brasil era possível. Acho que é assim com todas as pessoas: quando a consciência política aflora, não nos larga mais. Ela é abrangente. Lula é, sem dúvida, o político que mais influenciou o engajamento político de minha geração. E isso não é fácil para os conservadores, mesmo com seu aparato jurídico e midiático, destruir. Meu filho e minha ex sempre votaram no Lula e nos candidatos que eu indicava. Pois é, dizem que santo de casa não faz milagres. Não que eu exigisse, era mais por conta de suas formações. Em nossa casa tinha uma pequena biblioteca, com livros de literatura, política, economia. De Fernando Pessoa a Drummond; de Lênin a John Reed; de Gabriel Garcia Marquez a Machado de Assis; de Eric Hobsbawm a  Sartre; Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e por aí vai. Além dos jornais: Opinião, Pasquim, De Fato, O Companheiro. Não havia internet, óbvio. Em nossa pequena biblioteca, com cerca de mil livros, tínhamos poster de Lula e Che Guevara. Falávamos muito de política e de que o Partido dos Trabalhadores, sob a liderança de Lula, chegaria a Presidência. Em 1989, como já disse acima, quase chegamos lá. Se tivesse a internet, talvez teríamos chegado. Mas a força da Globo, influenciou (todos sabem da manipulação do último debate) e o Collor se elegeu. Com o mesmo discurso dos golpistas atuais: combate à corrupção.
    Uma noite, não me lembro o ano, creio em 1982, o Lula foi à minha casa. De novo não registrei em foto. Calma, logo logo explico. Chegou e saiu rapidamente. Deu-nos um abraço e me chamou de companheiro. E se foi.
      Lula passou a ser uma referência política em minha vida, mas jamais um ídolo. Em 1994 a campanha não foi emocionante como a de 1989. Com o processo de profissionalização do partido, a ligação com a base social se distanciou. Os núcleos deixaram de existir. O Plano Real conquistara o eleitorado. Em 1998, FHC, com a compra de deputados, aprova a emenda da reeleição, elegendo-se novamente. Em 2002, depois de perder três eleições presidenciais e uma ao governo de São Paulo, Lula se elege e implanta um programa de governo que mudou a minha vida e de minha família. Pela primeira vez viajo de avião; compro um carro e até uma chacarazinha.  A minha vida, como de tantas outras se transforma. Para melhor. O resto da história, todos sabem.
      Para finalizar, explico porque não tirei uma foto com o Lula e de sua visita em minha casa. Sempre fui arredio a líderes. Pensava e ainda penso, que cada um deve ter a sua consciência política; ser capaz de interpretar as conjunturas, sem a necessidade de um guia. Político ou espiritual. Ou seja, que a sociedade civil, coletivamente, tenha a capacidade de discernimento, para que nenhum aventureiro retire direitos, explore.  Um cenário em que "o líder" não seja necessário. É que o líder é e sempre será alvo de ataques do sistema. Ao cortar-lhe a cabeça, os liderados ficam sem rumo. Uma sociedade democraticamente sólida se constrói com indivíduos politicamente conscientes, não sujeitos à manipulação. Por isso, não registrei em foto os encontros que tive com o melhor presidente que o Brasil já teve. Quanto a visita dele em minha casa, acordei muito feliz, pois fora um sonho.
     Não direi que não estou triste com a perseguição implacável que a classe dominante, por meio de seus porta-vozes (Globo, empresários e judiciário) fizeram com o Lula, para tirá-lo da disputa presidencial. Como não ficar triste de saber que ele se encontra numa cela (diga-se de passagem, injustamente), sem poder fazer o que sempre fez: defender o povo brasileiro, em especial os mais pobres. Por isso continua na sendo o preferido.  Sim, eu votaria num condenado, dependendo de quem e da forma em que foi condenado.

J Estanislau Filho

                                                                 Imagem: Google

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Terceirização: STF é anti-trabalhador. Seremos todos "UBER"



Por Fernando Brito
A regra do nosso Judiciário é a regra da selva: o poder dos mais fortes não tem contraste.
Por sete votos a quatro, o Supremo Tribunal Federal aprovou a farsa ampla, geral e irrestrita da terceirização.
De agora em diante, todos os trabalhadores de um empresa poderão ser “alugados” de outra.
Não mais, limpeza, vigilância, reparos e outras atividades que não sejam a principal.
Se a Volkswagen ou uma rede de supermercados quiser, não terá um empregado sequer.
Basta contratar a empresa de um mercador de seres humanos e pagar pelos serviços.
Como despesa operacional, claro, abatida em seus impostos.
Em tese, é solidariamente responsável pelo pagamento de salários e encargos sociais dos “subtrabalhadores” que vão lhes prestar serviços, mas qualquer um que já tenha tido contato com estas empresas sabe como isso é duvidoso.
E como a Justiça do Trabalho já não é gratuita para o trabalhador, muitos vão deixar de procurar seus direitos, por não terem meios para isso.
Da mesma forma que enfraquece os trabalhadores, que passam a ser de duas “categorias”, embora fazendo o mesmo trabalho. Adivinhe quem vai ganhar menos…
Dizem que vai “baratear” o custo da mão de obra. e os encargos sociais foram pagos tal como seriam na contratação direta, não há forma de que seja, senão pagando salários menores.
A terceirização é especialmente cruel com os empregados de mais idade. Sem vínculo com a empresa, é fácil dizer “não quero essa velha por lá”. O “fornecedor de gente” vai discutir, dizer que ela é experiente, capaz, etc?
“Dona Fulana, infelizmente vamos ter de descontinuar os seus serviços”…
Vai para o lixo.
Alegam que isso é vital para a “recuperação econômica”.  Cármem Lúcia chegou a dizer que  proibindo a terceirização generalizada as empresas deixariam “de criar postos de trabalho” aumentariam “a condição de não emprego”.
Lula, que os ministros odeiam tanto, criou 15 milhões de empregos sem terceirização assim.
O retrocesso que o Brasil vive, patrocinado pela mídia, pelo governo do golpe e pelo Judiciário não fica só na política, desde ao mundo do trabalho de milhões de brasileiros.
Temos ministros sórdidos ao ponto de, 24 horas após terem aumentado os salários de seus gordos e vitalícios cargos, praticar esta crueldade com gente humilde.
Estão nos empurrando para uma selva semi-escravocrata do trabalho precário que começamos a superar há mais de 70 anos, com a CLT.
Por eles, logo seremos todos motoristas de Uber.
E pior,  em um país tão pobre que, salvo uma casta de privilegiados em que nem sequer poderá pagar a corrida.




Fonte: http://www.tijolaco.com.br/blog/terceirizacao-stf-e-antitrabalhador-seremos-todos-uber/

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Filhos da Terra Capítulos: 7 - O Tempo Passa Rápido - 8 - Meu Guri


                                                                     Imagem: jef




Rapidinho: 

Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor. 
Capa: Berzé; Ilustrações do miolo: Eliana; editoração eletrônica: Fernando Estanislau; impressão: Editora O Lutador - 2009, primeira edição. 
Agradeço pela leitura e peço a quem encontrar algum erro de gramática ou digitação, por favor, me avise.


7 - O Tempo Passa Rápido

O sonho de Elói de sair da camisa-de-foça da mídia empresarial se desmoronou. Acabou por assimilar essa realidade e seguir em frente, tentando driblar as armadilhas ideológicas dominantes, no esforço de manter-se coerente. Felizmente sedimentara uma relação de confiança com as lideranças dos movimentos sociais, importantes fontes de suas reportagens, embora elas continuassem passando pelo crivo do chefe de redação. Acreditava estar cumprindo um importante papel na divulgação correta dos fatos produzidos pelos dois mundos antagônicos da sociedade, o de poucos que muito possuem e os de muitos que pouco ou nada possuem. Sentia-se feliz com o trabalho desenvolvido na comunidade. O jornal da associação era uma ferramenta importante na organização das lutas pelas melhorias do bairro e na integração dos moradores; a sua contribuição fora decisiva. Agora raramente pediam-lhe ajuda, pois caminhavam com as próprias pernas. A amizade com os vizinhos solidificara-se, gostavam dele sinceramente e conversavam de igual para igual. Alguns não conseguiam romper com o servilismo, outros continuavam desconfiados, mas no geral, era bom. "Paciência revolucionária, ensinou Lênin", dizia para si. Quase dois anos se passaram e não tinha planos de sair do bairro operário. Muita coisa mudara: umas para melhor, outras para pior. Embora menos assíduo, continuava frequentando a casa de Dona Sônia. Zenaide estava a cada dia mais linda, desfilara no Minas Mostra Mulher; Edileuza abandonara a igreja e frequentava o forró da associação, quase sempre acompanhada de Tenório. Estava mais bonita, pois se livrara da rigidez da doutrina religiosa. Tão ou mais bela que, a irmã, mulher no melhor sentido da palavra. Tinha por volta de vinte e cinco anos de idade, continuava responsável e sedutora. Marcelo não tinha jeito: a cachaça o estava destruindo. Dona Sônia continuava a mãezona de sempre, vigilante, uma matriarca liberal. A nota triste era Wallace. Transformara-se em menor infrator e com fortes indícios de que fora cooptado por narcotraficantes. Tinha dúvidas quanto ao futuro de Zenaide. Primeiro por causa da realidade social; segundo por não levar a sério os estudos, vivendo no mundo da lua, sonhando com a fama e se dedicando pouco de realizá-lo. Ultimamente andava enrabichada com alguns homens bem mais velhos. Iria completar quinze anos e ele queria ir à festa de aniversário. "Meu Deus", pensava Elói, "não sou nenhum salvador da pátria, mas como quero tanto que esta menina não sucumba, quero ajudá-la e não sei como. Vou conversar mais com ela, intimá-la a dar um rumo. Não pode se perder...". 
     Pousou o copo de uísque sobre a mesa ao ouvir a batida na porta. Reconheceu o toque de Zenaide e correu para abrir. Assustou-se ao vê-la em prantos: - Oi, o que aconteceu? Pegou água com açúcar e ela bebeu, com as lágrimas caindo dentro do copo. Após conduzi-la até a sala, deitou-a na poltrona, com a cabeça em seu colo. Acariciou seus cabelos com ternura e cantou uma canção até ela adormecer.
     Olhando-a em seu sono inocente, o jornalista começou a pensar sobre a juventude atual e a comparar com a sua geração. Aos treze anos participava ativamente da luta pela redemocratização do país, pelo socialismo e continuava engajado por transformações sociais. Entretanto, apesar de continuar acreditando que o melhor modelo de organização social ainda fosse o socialismo, via-o como algo distante. Estudou com afinco a ascensão do neoliberalismo no mundo, desde Margareth Teacher e Ronald Reagan na década de setenta do século 20 até a sua introdução tardia na América Latina. Acompanhou, confuso, a queda do socialismo no leste europeu e do muro de Berlim; não se julgava herói da resistência, mas contribuíra para pôr abaixo a ditadura militar brasileira, quando ela dava sinais de esgotamento, durante o governo do ditador Ernesto Geisel e ouviu João Batista de Figueiredo dizer que daria um tiro no coco se ganhasse um salário mínimo; sentiu na pele como é duro viver sob as botas do autoritarismo, sem liberdade de expressão e organização; chorou a morte de Henfil e foi testemunha ocular da proliferação da AIDS; lembrou-se das manifestações estudantis e operárias, com as ruas e praças tomadas pelo povo, exigindo diretas-já. Fora protagonista de alguns momentos históricos. Participou ativamente  da primeira eleição presidencial, depois dos longos anos de ditadura; carregou faixas, fez passeatas, organizou comitês eleitorais, colocou adesivos e botons do seu candidato em todo o corpo, transformando-se em um outdoor móvel; viu o seu candidato ser batido por um jovem oriundo da elite; assistiu ao seu impeachment e a eleição e reeleição de um ex-professor, intelectual sofista; acompanhou, pela imprensa, com indignação, jovens da classe média de Brasília incendiar o índio Gaudino. Na esfera internacional, aplaudiu a eleição de candidatos de esquerda na América Latina; a resistência do povo cubano; viu pela tv a guerra imperialista estadunidense no Golfo Pérsico; a humilhação imposta pelos sionistas de Israel ao líder palestino Yasser Arafat; o eterno conflito entre judeus e palestinos; o desmoronamento das torres gêmeas em onze de setembro; a invasão do Afeganistão e do Iraque; os ataques na Faixa de Gaza; o aumento da poluição e do aquecimento global; das desigualdades sociais; do terrorismo  e do narcotráfico. 
     Observando a garota mais linda do bairro dormindo na poltrona, perguntava sobre os sonhos da juventude atual. Concluiu que a ditadura militar fora substituída pela ditadura econômica; a censura governamental da ditadura sobre os veículos de comunicação dera lugar à censura patronal e a autocensura; uma parcela de bons e aguerridos companheiros de lutas por transformações sociais ocupavam cargos no primeiro escalão do novo governo. O metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva, após três derrotas, finalmente chegara à Presidência. Participara dessa eleição, sem o entusiasmo das anteriores. Depois da publicação da Carta aos Brasileiros, tinha dúvidas sobre os rumos do governo que ajudara a se eleger e de como a população, especialmente a jovem se comportaria diante da nova conjuntura. De qualquer maneira, um operário no governo federal e a elite em polvorosa significava um avanço. Pensava no futuro daquela garota pobre e bonita, dormindo um sono profundo no sofá. O novo governo conseguiria promover as mudanças necessárias, para transformar esta realidade cruel, que exclui milhões de cidadãos a uma vida digna? Nessas horas a figura patética de Lech Valessa, esperança dos trabalhadores poloneses surgia, como um fantasma em seu imaginário.
     Suas reflexões foram interrompidas quando Zenaide acordou. Olhou para ela com carinho e perguntou: - Quer fazer um lanche? Como uma criança que para de chorar e se distrai com um brinquedo, ela acenou que sim, com um sorriso devastador. 
     - Pois então, vamos preparar um sanduíche da hora e depois quero que me conte as novidades, porque estava chorando...

                                                                                             Imagem: Google


8 - Meu Guri

A notícia caiu como uma bomba na vizinhança: Wallace, de apenas treze anos tornara-se um assassino. Muitos desconfiavam e até mesmo sabiam de sua atividade, agora confirmada. As pessoas se perguntavam como isso aconteceu e não encontravam uma resposta. É verdade que ele era uma criança de pouca conversa, mas não muito diferente das outras. Gostava de jogar "peladas" na rua; brincar com carrinho de rolimã e jogar fincas em períodos chuvosos; comer cachorro-quente no carrinho de Dona Geralda e até frequentava as aulas regularmente. A rua ficou fervilhada de policiais armados até os dentes. Todos foram pegos de surpresa. Dona Sônia gritava, dizendo que seu filho era trabalhador e estudante dedicado, Marcelo dizia coisas desconexas; Edileuza estava no trabalho e Zenaide evaporou-se.
     Na redação do jornal os repórteres policiais saíram às pressas, para cobrir a ação da polícia. Elói estava nas realizando uma reportagem sobre a ocupação, por sem-tetos ligados à Central de Movimentos Populares, de uma área de terreno irregular e só viria a tomar conhecimento do ocorrido à noite, por meio de Zenaide. Além dos policiais, uma multidão de repórteres e de curiosos se aglomeraram na rua, para assistir ao espetáculo. Dona Sônia, entre anestesiada e incrédula com o que via, não para de repetir que Wallace era um bom menino, seu filhinho querido, responsável. "Justo agora que ele estava feliz com a televisão de vinte e nove polegadas e com o DVD", lamentava-se. Algumas amigas chegaram para consolá-la e ela não parava com o refrão sobre as qualidades de seu guri. Mas a polícia não conseguiu prendê-lo e ninguém sabia informar o seu paradeiro; assim como chegaram, policiais e repórteres deixaram o local. Dona Sônia fora intimada a comparecer na delegacia a fim de prestar esclarecimentos. 
     O município de Contagem ocupa um lugar de destaque em matéria de violência entre os municípios que integram a região da capital mineira. Mas foi em Betim, município vizinho de Contagem, que o traficante Fernando Beira Mar se estabelecera por um tempo, para expandir seus negócios. Não se tem um estudo da influência de Beira Mar no aumento da violência na região, mas a distribuição e o consumo de drogas aumentaram muito depois de sua estadia. Nas escolas, professores e alunos estão sempre assustados; nos bairros, vilas e favelas acontecem o mesmo. A violência urbana é o assunto discutido em algaravias por todos os cantos. Cada um tem a sua tese. Seu Adão, policial aposentado é categórico: "Beira Mar plantou aqui as sementes da droga, aliciando e municiando um exército de delinquentes juvenis, que hoje espalha o terror". Para Maria Lituana, vizinha de Dona Sônia é "a falta de temor a Deus, que leva à violência", enquanto seus Osvaldo culpa os políticos, que "só sabem roubar e enganar o povo, é preciso acabar com os políticos
, todo mundo deveria anular o voto", concluía com os olhos esbugalhados. A mística Tereza Singela anunciava que "em 2012 o mundo irá passar por uma mudança de paradigma com a chegada do Messias, que virá para salvar o mundo da catástrofe". O jovem carismático Izak, seguidor do Padre Marcelo, concordava com Maria, enquanto a evangélica pentecostal Neuza de Paula afirmava que "só quem aceitar Jesus e passar pelas águas, estará protegido das tentações do corpo e da alma". Geraldo Bernardes, comunista de carteirinha, dizia que "a causa da violência é o modelo capitalista, egoísta e concentrador de riquezas, que leva o povo à fome, sem alternavas de sobrevivência, conduzindo-o à criminalidade e à alienação, ao invés da participação política consciente, para promover as mudanças necessárias", argumento prontamente rebatido por Amâncio, proprietário da Padaria Pão Nosso, assaltado diversas vezes, com a tese de que "não é nada disso, o que acontece é que estes malandros não querem trabalhar, a solução é diminuir a maioridade penal e estabelecer a pena de morte, aí vocês vão ver a violência acabar, porque pra mim é olho por olho, dente por dente, lugar de malandro é debaixo da terra, de preferência em pé, para não ocupar espaço, porque não dá pra ficar bancando vagabundo em cadeia, quem paga as contas são as pessoas de bem, assunto encerrado". "Encerrado pra você - vociferou o grafiteiro Maisena, que detestava os arroubos autoritários de Amâncio -, concordo em parte com o Geraldo, na parte em que ele falou da concentração de riquezas nas mãos de poucos. Quanto a participação política não acredito nisso não. Primeiro que são meia-dúzia de gatos pingados, segundo porque esta meia dúzia passa a maior parte do tempo em reuniões  chatas, corporativas e intermináveis, dão muitas idéias aos mandam-chuva. É preciso detonar os caras, botar pra foder, seja com ações coletivas ou individuais, derrubar a ordem estabelecida na bazuca, amedrontar os figurões, dizer que seus dias de fartura vão acabar". Geraldo Bernardes balançava a cabeça negativamente, afirmando que "isso é anarquia. Assim continuava a algaravia, algumas vezes encerrada aos tapas ou em cerveja no boteco do Nestor. 

Leiam no próximo capítulo: 



9 - As Revelações de Zenaide


Breve autobiografia

Sou J Estanislau Filho, mineiro de São João do Oriente-MG, autor de nove livros de crônicas, contos, novelas e poesias. Um escritor marginal, auto-didata e leitor compulsivo. Assim que aprendi a ler, minhas primeiras leituras foram: foto-novelas, quadrinhos e livros faroestes. Por meio dos clubes de leituras tive contato com a poesia de Castro Alves, Cecília Meireles, Fagundes Varela, Raimundo Correa, Olavo Bilac, entre outros, na Escola Municipal Cel. Antonio Lopes em Jampruca-MG. Estão vivas em minha memória as professoras Dejanira, Dona Bertinha e Iracema. Aos 13 anos de idade, li Guerra e Paz de Tolstoi, em seguida quase toda obra de Shakespeare, José Alencar, Machado Assis e iniciei estudos filosóficos, com a leitura de alguns pré-socráticos. Em seguida li O Ateneu de Raul Pompéia; O Bom Crioulo de Adolfo Caminha; livros de psicologia, resenhas literárias. Em Engenheiro Caldas, em 1968 completei o ensino fundamental, para, em seguida, em regime de internato completar o antigo ginasial, no Ginásio Agrícola de Colatina-ES. Com a chegada do homem à lua, minha redação sobre o tema, foi elogiada e lida pelo meu professor de Língua Portuguesa. Neste período rabiscara meus primeiros versos em um diário. Terminado o curso ginasial, impossibilitado de seguir os estudos, mudei-me para a capital mineira, em busca de trabalho. Continuava lendo de tudo: de literatura a filosofia, passando por psicologia. Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, R. D. Line, Mayacovisky, Bertold Brecht, Lygia Fagundes Telles, Karl Marx, Dostoiévisky, Kafka, José J Veiga, Murilo Rubião, Virginia Wolf, Verlaine, Fernando Arrabal, Jean Genet; Willian Faulkner; Gabriel Garcia Marquez; Dalton Trevisan, Fausto Wolf, João Antonio... Por meio dos cine-clubes, em especial o Cine Clube da Face, conheci e lia O Pasquim, Opinião, Movimento, enfim a chamada imprensa alternativa ou, nanica. Até que, em 1984, lancei meu primeiro livro de poemas, semi-artesanal, Nas Águas do Arrudas em que se percebe o choque cultural, entre o urbano e rural. Também em 1984, participei da antologia: Poetas Gerais das Minas, com prefácio de Dom Pedro Casaldáliga e um estudo de Frei Beto sobre os quatro séculos da poesia mineira. Em 1987 e 1991 lancei: Três Estações e O Comedor de Livros. Em 2006 publiquei - Edição do Autor - meu primeiro livro de crônicas: Crônicas do Cotidiano Popular. Em 2009 um duplo lançamento: Filhos da Terra (contos, crônicas, uma novela, alguns textos com fecho poético) e Todos os Dias são Úteis - poesias. Em 2011 sai o Palavras de Amor (Biblioteca 24 horas); em 2012 Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros (Editora Protexto). Em novembro de 2015 lançei A Moça do Violoncelo-Estrelas, dois livros em um. No prelo o romance A Construção da Estrada de Ferro, iniciado em 1979 e concluído em 2014; As Aventuras de Raul (Infanto-Juvenil); Outras Espécies (contos). Não tenho uma escola literária, no sentido acadêmico. Aprendi, com Górky, na universidade da vida. Peguei gosto pela crônica, lendo Rubem Braga.


                                   Na trilha da Cava Amarela - Cel. Xavier Chaves - MG
                                                                      Imagem: ma


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A Quadrilha de Vila Mendes


                                                                      Imagem: jef


Calma aí. Vou logo avisando que esta quadrilha é da fuzarca.  Rouba, e como rouba o coração da gente. Até pensei colocar o título de Ladrões de Corações. Quem mora em Coronel Xavier Chaves conhece demais estes ladrões. Pulam, dançam e se divertem divertindo-nos. Presenciei algumas apresentações: No Sumidouro, São Caetano, em Lagoa Dourada, em Coroas. Fotografei, fiz vídeos e me diverti. Moro aqui em Coroas  (gosto desse nome de antes da emancipação) há quatro anos.  A nossa querida Coronel Xavier Chaves. Aqui eu escolhi para viver, até, quem sabe, a morte me separe. Pois bem, conversei com o Rosney, o idealizador da quadrilha, sobre fazermos um registro da trajetória desta turma da fuzarca, a sua história. Vamos conversar, quem sabe colher depoimento dos integrantes, postar fotos, etc. Nada acadêmico. Informação com diversão. Afinal é esse o propósito da quadrilha. Pela conversa inicial com o Rosinei, vocês irão se surpreender com esta galera da Vila Mendes, que tem integrantes de toda a cidade, incluindo a zona rural. Mas isso é assunto para outra conversa. As violas, os violeiros, os sanfoneiros, os casais... Coisa linda. Os troféus. A luta para manter viva a tradição. Tenho pensado, também, falar sobre a banda de música, as baterias... Ah, tem também um grupo de oficina de teatro. Já escrevi sobre a trilha da Cava Amarela e o maior jequitibá do mundo. Do mundo, sim! A serra do Retiro. A linha do trem e uma série de minicontos (surpresa), que tem como cenário, boa parte de Coronel. Quem tiver sugestão, sugiram.  O projeto agora é A Quadrilha da Vila Mendes. Aguardem. 

J Estanislau Filho
Escritor e poeta


                                                                    Imagem: jef

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Filhos da Terra: Capítulo 5 - Wallace Surpreende - Capítulo 6 - Medo e Desejo




Rapidinho: 

Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor. 
Capa: Berzé; Ilustrações do miolo: Eliana; editoração eletrônica: Fernando Estanislau; impressão: Editora O Lutador - 2009, primeira edição

Agradeço pela leitura e peço a quem encontrar algum erro de gramática ou digitação, por favor, me avise.



5 - Wallace Surpreende

Na realidade, o que aconteceu com o taciturno Wallace não revelava nenhuma surpresa. Muitas vezes ele dera mostra do seu caráter arredio. Os familiares não acreditavam nos comentários dos vizinhos, julgando-os maledicentes. Um belo dia ele chega em casa e entrega à mãe uma quantia significativa de grana, dizendo: - Mãe, essa grana eu consegui fazendo um biscate aqui, outro ali, fui juntando. É para a senhora comprar umas coisinhas pra casa. E foi se retirando. - Vem cá, meu filho - chamou Dona Sônia com firmeza delicada -, aqui tem bastante dinheiro, quero saber de tudo, direitinho. Wallace parou e olhou a mãe no fundo dos olhos: - Eu já sei o que a senhora está pensando... Não roubei não, mãe, tenho trabalhado duro, não estou vendendo drogas, fique sossegada. Por acaso tenho faltado às aulas?
     Dona Sônia ficou satisfeita com a resposta e acreditou no filho. Wallace entrou no quarto sem reboco, arredou um pequeno guarda-roupas e em seguida tirou o boné, e do fundo dele retirou um pacote, escondendo-o no buraco do tijolo. Quando ele recolocava o guarda-roupas no lugar, Dono Sônia entrou de repente. - O que você está fazendo? - perguntou desconfiada. - Puxa vida, mãe - respondeu irritado - a senhora não sai da cola! Esse caco de guarda-roupas está mancando, estou tentando dar um jeito. - Está bem, não precisa se irritar - respondeu a mãe, acariciando a face do filho. - Só vim saber se quer que eu compre alguma coisa para você, umas roupas, um tênis, pois o dinheiro que me deu dá para fazer umas boas compras na feira do Paraguai, além de abastecer a cozinha. Ó meu filho, meu querido! Todo mundo te criticando porque desaparece sem avisar... Vem cá, deixa a mamãe te dar um abraço! Hoje à noite quero todo mundo em casa, para um jantar grã-fino. Vou fazer um frango à milanesa, daquele que você adora - dizia enquanto passava carinhosamente a mão na cabeça do filho. Wallace desvencilhou-se dos braços da mãe, disse que não precisava que lhe comprasse nada, mas que desse uma grana pra Zenaide comprar roupas bonitas e uma bíblia de capa de couro para Edileuza. - E para a senhora - disse com ternura - um vestido longo, um sapato de bico fino, corrente e brinco folheado a ouro. - Não tem dinheiro para tanto e precisamos economizar, porque em primeiro lugar está o estômago e a saúde - disse sorrindo. - Não se preocupe, vou trabalhar e trazer mais - respondeu o filho, convicto. 
     A mãe saiu para providenciar as compras, enquanto Wallace ligava o som, para ouvir funk.
     À noite, reunidos em volta da mesa, Dona Sônia serviu um jantar, regado a refresco de uma, o preferido de Wallace. Todos exibiam roupas novas. Marcelo estava elegante em sua jaqueta jeans; a mãe exibia o vestido longo com estampas de flores, um colar de pérolas falsas, brincos e anéis de prata, e não folheados a ouro, conforme pedira o filho. - Uai mãe, cadê os folheados a ouro? Perguntou Wallace. - Eu sonhava com um colar de pérolas, para combinar com ele, achei melhor usar brincos e anel de prata - respondeu com um piscar cúmplice. 
     - Mãe, a senhora devia ter deixado eu ir às compras com a senhora! Reclamou Zenaide. - Vocês são bregas, não entendem de moda - completou, fazendo um breve desfile na pequena cozinha, mostrando a nova coloração dos cabelos - cor de caju, segundo ela - e um vestido curto, magenta, com decote nas costas. Sapatos e bijuterias combinavam bem. E para surpresa geral, Edileuza veio com uma calça de laycra justa, uma blusa branca, que deixava à mostra uma pequena parte do quadril. Nádegas empinadas, seios pontiagudos, batom suave e cabelos soltos. 
     - Mas quanta modificação! Exclamou Zenaide. - Cadê os complementos? Colar, pulseiras, brincos e anéis? Puxa maninha, você está um pedaço de mau caminho, deste jeito você vai levar os pastores da igreja ao pecado! Edileuza ficou vermelha, desviando o rumo da conversa: - Quer que ajude a servir, mãe?
     - Não filha, não precisa. Você está linda, a evangélica mais linda e hoje eu sirvo o jantar, recolho as vasilhas. Esse jantar e todos estes presentes são frutos do trabalho do meu guri. Obrigado, amore mio! Dona Sônia gostava de se gabar de sua origem italiana. Segundo ela, seus avós vieram de Torino e pertenciam a uma família abastada. O jantar teria transcorrido em clima de paz e harmonia se Marcelo, após o terceiro copo de cerveja, não tivesse colocado em dúvida a origem do dinheiro de Wallace. 
     - Fale a verdade - disse com ar provocativo -, como foi que você conseguiu esta grana? Não me diga que foi trabalhando...
     - Mãe - respondeu Wallace -, dá um jeito neste bebum!
     - Marcelo - interveio Dona Sônia -, você sabe que eu não gosto de briga na família, temos de estar unidos. Faça o favor de pedir desculpas ao seu irmão!
     - Eu pedir desculpas pra este pivete? Nunca - respondeu Marcelo, deixando o copo tombar ligeiramente, molhando a toalha. 
     - Não dá ideia pra ele, gente, basta um golezinho e ele começa com a baixaria - gritou Zenaide.
     Wallace caiu no seu mutismo habitual e não houve consequências. Em seguida Zenaide começou a falar de seu projeto:
     - Tenho novidades. Parou para observar a reação da família e criar um clima de suspense.
     - Espero, em nome de Jesus, que sejam boas novidades - disse Edileuza com as mãos sobre a bíblia de capa de couro.
     - Vamos menina, desembucha, conta logo a novidade - completou Dona Sônia.
     - Esta minha irmã vai fazer sucesso - disse Wallace, saindo do silêncio.
     - É o seguinte... - fez um breve silêncio, para criar um clima de suspense -, a Tânia Mara me disse hoje que vai me apresentar ao dono de uma grife, para que eu possa desfilar no Minas Mostra Mulher. 
     - Faço ideia - interrompeu Edileuza -, deve ser um desfile de peitos e bundas. 
     - Peito, bunda e coragem não me faltam. Você, Edileuza, bem que poderia participar, mas passou da idade - retrucou com ironia.
     - Explica isso direitinho - disse Dona Sônia, sem parar de recolher os talheres -, porque filha minha não vai pôr a bunda de fora, "na-na-ni-não"! Basta o pilantra que queria te enganar, dizendo conhecer estilistas, parando o carrão em nossa porta... Safado!
     - Bunda de fora? Eu também quero ver - resmungou Marcelo.
     - Mais respeito - advertiu a mãe -, estamos falando de sua irmã.
     - Gente, o que é isso? Vocês não flagram nada de nada. Trata-se de um desfile de modas! Respondeu Zenaide, rindo com ar superior.
     - E quanto você vai ganhar? Perguntou a mãe, esfregando as mãos.
     - Calma, não é assim! É uma oportunidade, para eu mostrar os meus dotes...
     - Que dotes - disse novamente Marcelo, meio dormindo.
     - Se for para a sua felicidade, filha, eu apoio. De mais a mais, Deus escreve certo por linhas tortas - disse Dona Sônia, atirando um beijo à filha.
     - Não tem nada garantido. A Tânia Mara, vocês sabem, é puro gogó, mas ela costura para uma marca famosa, é do ramo. Estou esperançosa, tenho acompanhado os acontecimentos, tenho treinado no quarto. Preciso de umas aulas de passarelas, mas como? O desgraçado do Elói, jornalista de merda, promete, promete e nada!
     - Por falar nele, porque não veio ao jantar? Perguntou Edileuza. 
     - Fui à casa dele várias vezes, mas não o encontrei. Parece que está viajando a serviço do jornal ou de uma ong. Para quem não sabe, ong é uma organização não governamental - informal Zenaide, com ar de entendida. 
     - Maninha, você vai fazer sucesso na passarela - incentivou Wallace. 
     - Enquanto isso, vai sonhando. Mas agora a festa acabou, quero ver a minha novela - disse Dona Sônia, saindo da cozinha. 
     Marcelo dormia e roncava, Edileuza abriu a bíblia, Wallace foi para o quarto ouvir funk. Zenaide, com ar sonhador, ficou diante do espelho um longo tempo, consertando os cabelos com as pontas dos dedos, enquanto Dona Sônia suspirava diante da tv com o Antonio Fagundes.



                                                                 Imagem: Google 


6 - Medo e Desejo

Edileuza continuava passando pelo mesmo itinerário, antes e depois do culto, e quando se aproximava do local em que fora beijada pelo homem misterioso, seu corpo era invadido por um misto de medo e desejo. Na noite sem lua da primeira quarta-feira de abril, ela saiu do templo com a fé abalada, por conta de denúncias de corrupção envolvendo altos dirigentes da igreja. "Na hora de pedir o voto, eles prometem mundos e fundos, dão tapinha nas costas, mas depois de eleitos, desaparecem", dizia indignada. A sua igreja fora se meter em política, ela mesma votara nos candidatos indicados pelo pastor, que foram eleitos com expressivas votações. E foram estes que, apesar da resistência, dera o seu voto, foram acusados de desvio de verbas públicas. O culto desta quarta-feira decisiva nos rumos de sua fé, foi atípico. Pouco se falou das sábias palavras de Jesus, mas de política e de Satanás. O pastor, tendo a bíblia na mão, porém fechada, esbravejava contra o Satanás, que propaga a mentira e injúria, para afastar os homens do caminho do Senhor. Que as denúncias contra os dirigentes, eleitos pela poderosa luz do Espírito Santo, para levar a salvação ao Congresso Nacional, eram obras do espírito das trevas. Edileuza não se conteve, interrompeu o pastor e disse o que pensava: Irmão, eu sempre achei que a igreja não devia mexer com política e só devia cuidar das coisas do Senhor. O povo evangélico vem sendo usado, para eleger pastores há muito tempo e esta não é a primeira vez que políticos evangélicos são acusados de desviarem-se do caminho de Jesus. Eu não voto mais em ninguém, acabou, aleluia - concluiu e se retirou.
     Mal saíra da igreja, distraiu-se seguindo pela rua pouco iluminada. Sempre que passava pelo local, onde fora abordada, parava e olhava com tremores no corpo. Nessa quarta-feira escura, parou e sentou-se sobre o meio-fio, com os pensamentos confusos. Não frequentaria mais a Igreja Nacional do Reino do Amor: "Vou esperar que Espírito Santo me ilumine, para que eu possa enxergar o verdadeiro caminho do Senhor", pensava, olhando as estrelas, suspirando, com o corpo em brasa. "Por onde anda aquele sujeito?" - perguntava para si. "Ele parece um bom sujeito, gostaria de vê-lo novamente, se possível hoje. Tenho quase certeza de que ele me segue... bem podia ser..."
     - Edileuza, desculpe-me, você saiu de repente do templo - disse alguém na penumbra.
     - Quem é você? - perguntou Edileuza, levantando-se, assustada.
  - Sou o Tenório, não está me reconhecendo? Você saiu antes de louvar ao Senhor, fiquei preocupado.
     - Obrigada, mas não precisa se preocupar, quem anda com Jesus não tem medo de assombração - respondeu, com convicção.
      - Você ficou irritada com o culto de hoje, por quê?

    - Ah Tenório, quanta hipocrisia! A praga da corrupção contaminou a nossa igreja, não acredito mais, desisto.

                                                          Imagem: Google

     - Você é uma mulher inteligente, Edileuza. Eu não consigo entender, mas confio demais em você.
    Ela percebeu o nervosismo de Tenório. Há cerca de dois meses, após a abordagem, naquele mesmo local, ele passara a frequentar a igreja. Não tirava os olhos de cima dela e uma vez ofereceu-se para levá-la em casa. A desconfiança sobre as reais intenções de Tenório de frequentar a igreja fora sentida desde o primeiro dia. Havia algo de nebuloso nele, que a amedrontava. Por duas vezes, durante o culto, sentira a presença dele, sentira o roçar de seus braços sobre os seus e a sua respiração sôfrega. A mesma respiração que a desnorteara.
     - Tenório, me diz uma coisa - perguntou de supetão -, você é um psicopata? 
     - O que é isso? - arguiu o singelo Tenório.
     - Uma pessoa desequilibrada, um pervertido!
     - Em nome de Jesus, Edi, não estou entendendo. 
     - Não adianta, você não iria admitir. Bom, preciso ir - disse Edileuza, levantando-se. 
     - Admitir o quê? Espere, vou com você, está escuro, pode ser perigoso - ofereceu Tenório timidamente. 
     - Está bem, então vamos.
   Caminharam com passos lentos, em silêncio. Aquele trecho da rua estava bastante escuro e Edileuza sentiu um calafrio, quando Tenório esbarrou em seu corpo. Pareceu-lhe um esbarrão de propósito. Ambos diminuíram os passos, como se tivessem um acordo tácito de não saírem da penumbra. Mas a iluminação aproximava-se. Subitamente pararam. Tenório avançou em sua direção. Edileuza vislumbrou em seu olhar um estranho brilho. Não teve forças para fugir.


Continua no capítulo 7 - O Tempo Passa Rápido

                                                  Publicações de J Estanislau Filho:

                                                                    Imagem: jef
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