sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Réquiem por um sonho

“Aprendam a lição... (porque) muito mais cedo do que tarde, se abrirão novamente as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor... Tenho a certeza que meu sacrifício não será em vão.”

Salvador Allende, às 9,30 horas da manhã do dia 11 de setembro de 1973.
  
 O golpe militar, a morte de Salvador Allende e o fim do governo da Unidade Popular, na manhã nublada, fria e melancólica de Santiago do Chile, daquele 11 de setembro de 1973, foi um momento trágico da história politica da esquerda latino-americana, e foi também um momento de mudança irreversível do pensamento crítico e progressista do continente.

  Nos anos 60, e até o início da década de 70, do século passado, América Latina viveu um momento de intensa criatividade intelectual e politica. Foi o período áureo da revolução cubana e de sua influencia sobre os movimentos de luta armada do continente, em particular, no Brasil, Uruguay e Argentina, e um pouco mais tarde, na América Central. Foi o tempo do reformismo militar de Velasco Alvarado, no Peru, e de Juan Jose Torres, na Bolívia; da volta do peronismo e da e da vitória de Juan Domingos Peron, na Argentina; da primeira experiência reformista democrata-cristã, na Venezuela, e acima de tudo, do “reformismo cepalino”, de Eduardo Frei, e do “socialismo democrático”, de Salvador Allende, no Chile. Tendo como pano de fundo, como desafio político e intelectual, o “milagre econômico” do regime militar brasileiro. Neste período, Santiago transformou-se no ponto de encontro de intelectuais de todo mundo, e virou o epicentro do que talvez tenha sido o período mais criativo da história politicas e intelectual latino-americana, do século XX. Revolucionários e reformistas, democrata-cristãos, socialistas, comunistas e radicais, tecnocratas e intelectuais, líderes sindicais, sacerdotes, artistas e estudantes discutiam – a todas as horas e em todos os cantos da cidade - sobre a revolução e o socialismo, mas também, sobre o desenvolvimento, a industrialização e a reforma agrária, sobre a democracia e as reformas sociais, e sobre a própria especificidade histórica e a inserção internacional do capitalismo latino-americano, dentro do sistema internacional.

  Por que Santiago? Porque o Chile foi o único país do continente onde se tentou – de fato - combinar democracia com socialismo, nacionalizações com capitalismo privado, e desenvolvimentismo com reforma agrária, durante o período da Frente Popular, entre 1938 e 1947, e durante o governo da Unidade Popular, entre 1970 e 1973, mas também, de certa forma, durante o governo democrata-cristão, de Eduardo Frei, entre 1964 e 1970. Mas foi só o governo da Unidade Popular propôs explicitamente um projeto de “transição democrática para o socialismo”, como estratégia de desenvolvimento e sem destruição da economia capitalista. Pois bem, este projeto absolutamente original de “transição democrática para o socialismo”, do governo da Unidade Popular foi interrompido pelo golpe militar do general Pinochet, com apoio decisivo dos EUA e do governo militar brasileiro.

 Mas como previu Salvador Allende, no seu último discurso, “muito mais cedo do que tarde”, o Partido Socialista voltou ao governo do Chile, em 1989, aliado com os democrata-cristãos. Só que naquele momento, os socialistas chilenos já haviam aderido ao consenso neoliberal, hegemônico durante a década de 90, e haviam deixado de lado os seus sonhos socialistas. Uma década depois, entretanto, no início do século XXI, a esquerda avançou muito mais e conquistou o governo de quase todos os países da América do Sul. E nesta hora, um grande numero de jovens das décadas de 60 e 70, que escutaram as últimas palavras de Allende, no Palacio de la Moneda, foram chamados a governar. Por todo lado, em vários pontos da América do Sul, a esquerda voltou a discutir sobre o socialismo, o desenvolvimentismo, a igualdade e as novas estratégias de transformação social, para o século XXI. Mas depois de uma década, a esquerda latino-americana se deu conta que a palavra “socialismo’ hoje tem conotações absolutamente diferentes nas Montanhas Andinas, nas Grandes Metrópoles, nos pequenos povoados, ou nos vastos campos ocupados pelo sucesso exportador do agrobusiness; que o “desenvolvimentismo” se transformou num projeto anódino e tecnocrático, desprovido de qualquer horizonte utópico; que defender a “indústria” ou a “re-industrialização”, virou um lugar comum da imprensa, que pode significar qualquer coisa segundo o economista de turno; e o “reformismo social” foi dissolvido num conjunto de politicas e programas desconexos originários do Banco Mundial, mais preocupado com o seu “custo-efetividade” do que com a luta pela igualdade social.

 Somando e subtraindo, hoje, exatamente quarenta anos depois da morte de Salvador Allende, o balanço é muito claro e desafiador: a geração de esquerda dos anos 60 e 70 chegou finalmente ao poder, mas já não tem mais do seu lado a força do sonho e da utopia que levou Salvador Allende à resistência, ao silencio e à morte, naquela manhã violenta e inesquecível do dia 11 de setembro de 1973, na cidade nublada, fria e melancólica de Santiago do Chile.

11 de setembro de 2013




Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Requiem-por-um-sonho/5/36804




José Luis Fiori

terça-feira, 30 de agosto de 2016

sonho 8 - dualidade










gatos assustados
felinos feridos
uma mulher dual observa
 dividida entre o macho e a fêmea
romper ou submeter-se
à comodidade do conforto do quarto
este conforto desconfortável
guiar uma carroça
ou guiar um automóvel
mover-se na imobilidade
enquanto sob seus pés o chão derrete
a beleza é passageira
e o cavalo arreado à sua espera
agora ela recorda tudo que sonhara
o inconsciente desperta
e a consciência desespera



Da série Sonhos - inéditos














Dois livros em um, por R$25,00 sem mais despesas.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Cegueira e linchamento, um artigo de Raduan Nassar *

Cegueira e linchamento

Por Raduan Nassar

O inglês Robert Fisk, em artigo no jornal londrino "The Independent", afirma que, segundo as duras conclusões do relatório Chilcot sobre a invasão do Iraque, o ex-primeiro ministro Tony Blair e seu comparsa George W. Bush deveriam ser julgados por crimes de guerra, a exemplo de Nuremberg, que se ocupou dos remanescentes nazistas.

O poodle Blair se deslocava a Washington para conspirar com seu colega norte-americano a tomada do Iraque, a pretexto de este país ser detentor de armas de destruição em massa, comprovado depois como mentira, mas invasão levada a cabo com a morte de meio milhão de iraquianos.

Antes, durante o mesmo governo Bush, o brutal regime de sanções causou a morte de 1,7 milhão de civis iraquianos, metade crianças, segundo dados da ONU.

Ao consulado que representava um criminoso de guerra, Bush, o então deputado federal Michel Temer (como de resto nomes expressivos do tucanato) fornecia informações sobre o cenário político brasileiro. "Premonitório", Temer acenava com um candidato de seu partido à Presidência, segundo o site Wikileaks, de Julian Assange.

Não estranhar que o interino Temer, seu cortejo de rabo preso e sabujos afins andem de braços dados com os tucanos, que estariam governando de fato o Brasil ou, uns e outros, fundindo-se em um só corpo, até que o tucanato desfeche contra Temer um novo golpe e nade de braçada com seu projeto de poder -atrelar-se ao neoliberalismo, apesar do atual diagnóstico: segundo publicação da BBC, levantamento da ONG britânica Oxfam, levado ao Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, a riqueza acumulada pelo 1% dos mais ricos do mundo equivale aos recursos dos 99% restantes. Segundo o estudo, a tendência de concentração da riqueza vem aumentando desde 2009.

O senador Aloysio Nunes foi às pressas a Washington no dia seguinte à votação do impeachment de Dilma Rousseff na exótica Câmara dos Deputados, como primeiro arranque para entregar o país ao neoliberalismo norte-americano.

Foi secundado por seu comparsa tucano, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também interino-itinerante que, num giro mais amplo, articula "flexibilizar" Mercosul, Brics, Unasul e sabe-se lá mais o quê.

Além de comprometer a soberania brasileira, Serra atira ao lixo o protagonismo que o país tinha conseguido no plano internacional com a diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, retomando uma política exterior de vira-lata (que me perdoem os cães dessa espécie; reconheço que, na escala animal, estão acima de certos similares humanos).

A propósito, o tucano, com imenso bico devorador, é ave predadora, atacando filhotes indefesos em seus ninhos. Estamos bem providos em nossa fauna: tucano, vira-lata, gato angorá e ratazanas a dar com pau...

Episódio exemplar do mencionado protagonismo alcançado pelo Brasil aconteceu em Berlim (2009), quando, em tribunas lado a lado, a então poderosa Angela Merkel, depois de criticar duramente o programa nuclear do Irã, recebeu a resposta de Lula: os detentores de armas nucleares, ao não desativá-las, não têm autoridade moral para impor condições àquele país. Lula silenciou literalmente a chanceler alemã.

Vale também lembrar o pronunciamento de Lula de quase uma hora em Hamburgo (2009), em linguagem precisa, quando, interrompido várias vezes por aplausos de empresários alemães e brasileiros, foi ovacionado no final.

Que se passe à Lava Jato e a seus méritos, embora supostos, por se conduzirem em mão única, quando não na contramão, o que beira a obsessão. Espera-se que o juiz Serio Moro venha a se ocupar também de certos políticos "limpinhos e cheirosos", apesar da mão grande do inefável ministro do STF Gilmar Mendes.

Por sinal, seu discípulo, o senador Antonio Anastasia, reproduz a mão prestidigitadora do mestre: culpa Dilma e esconde suas exorbitantes pedaladas, quando governador de Minas Gerais.

Traços do perfil de Moro foram esboçados por Luiz Moniz Bandeira, professor universitário, cientista político e historiador, vivendo há anos na Alemanha. Em entrevista ao jornal argentino "Página/12", revela: Moro esteve em duas ocasiões nos EUA, recebendo treinamento. Em uma delas, participou de cursos no Departamento de Estado; em outra, na Universidade Harvard.

Segundo o Wikileaks, juízes (incluindo Moro), promotores e policiais federais receberam formação em 2009, promovida pela embaixada norte-americana no Rio.

Em 8 de maio, Janio de Freitas, com seu habitual rigor crítico, afirmou nesta Folha que "Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador, talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo".

Lula não assumiu a Casa Civil, foi rechaçado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Gilmar Mendes, um goleirão sem rival na seleção e, no álbum, figurinha assim carimabda por um de seus pares, Joaquim Barbosa, popstar da época e hoje estrela cadente: "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro... Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar".

Sugiro a eventuais leitores, mas não aos facciosos que, nos aeroportos, torciam o nariz ao ver gente simples que embarcava calçando sandálias Havaianas, que acessem o site Instituto Lula - o Brasil da Mudança.

Poderão dar conta de espantosas e incontestes realizações. Limito-me a destacar o programa Luz para Todos, que tirou mais de 15 milhões de brasileiros da escuridão, sobretudo nos casebres do sertão nordestino e da região amazônica. E sugiro o amparo do adágio popular: pior cego é aquele que não quer ver.

A não esquecer: Lula abriu as portas do Planalto aos catadores de matérias recicláveis, profissionalizando-os, sancionou a Lei Maria da Penha, fundamental à proteção das mulheres, e o Estatuto da Igualdade Racial, que tem como objetivo políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e combate à discriminação.

Que o PT tenha cometido erros, alguns até graves (quem não os comete?), mas menos que Fernando Henrique Cardoso, que recorria ao "Engavetador Geral da República", à privataria e a muitos outros expedientes, como a aventada compra de votos para sua reeleição.




* Raduan Nassar é escritor, autor de "Lavoura Arcaica" e "Um Copo de Cólera", e vencedor
                                         


                                                           do Prêmio Camões 2016.

fonte: www.lula.com.br

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CÍRIOS






Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira –
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige os seu aspecto.
Aflige-me lembrar a sua luz de outrora.
Contemplo, adiante, os meus círios acesos.

Não quero olhar para trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.


Konstantinos Kaváfis

entre quatro paredes



entre quatro paredes

o grito foi
de prazer talvez
não sei


ouvi seu gemido
senti seu espasmo
seria orgasmo?

sei da cor dos olhos
vermelhos vermelhos
tristeza quem sabe

pediu copo d’água
sorriu enigmática
demos uma trégua

lençol molhado
no chão a toalha
silêncio calha

frente a frente
lado a lado
petrificados

daí a pouco
o som rouco
eriça os pelos

finda o marasmo
molambos criam
zoeira e orgasmo.




Poema do livro Palavras de Amor - página 98 - Editora 24 horas


No ar o meu mais recente lançamento:

Dois livros em um, pelo preço de um: R$25,00

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Uma carta aberta ao jornalista Flávio Freire, que escreveu uma matéria no O Globo sobre a saída da minha mãe hoje (01 de agosto de 2016):

Ela sorri. Ela sorri sempre. Ela ri até quando chora. Ela sorriu desmedidamente até no dia que eu fui visitar ela numa penitenciária de segurança máxima, onde ela ficou 45 dias. Me deixaram vê-la depois de 30 dias que ela passou em período de "triagem", onde só podia tomar banho de sol 3 vezes por semana, passava todo o resto do tempo trancada numa cela de 2 metros. Ficou as primeiras 48 horas seguidas nessa mesma cela, sem luz nenhuma. Sem saber que horas eram, sem poder pedir pra que os seus advogados trouxessem uma lâmpada, afinal, eram regras do presídio. Sem acesso a uma caneta pra escrever uma carta pros filhos dela. Com as costelas machucadas porque estava dormindo num colchão fino que fazia com que ralasse as costas a noite toda. Ah, ela estava na ala das prisioneiras do PCC, umas das mais perigosas do país.

Não, ela não tinha sido condenada... Sequer julgada... Mas aí estava. Cada vez que ela tinha que ver um advogado, o que acontecia diariamente, ela precisava fazer aquela revista humilhante, sem roupa alguma.. Mas sabe o que ela fez nessas 3 horas que permitiram que eu ficasse com ela? Ela sorriu. Riu, deu gargalhada de cada história que contei. Sorriu com a alma mesmo, riu de chorar.

Desculpe, se te incomoda muito, Flávio. Mas é o jeito que a minha mãe sabe viver. Eu sei que você e muitas pessoas preferiam que ela estivesse triste e cabisbaixa no pior momento da vida dela.

Mas a minha mãe é assim: ela sorri. O que você chama de não demonstrar fragilidade, é apenas uma felicidade interna que injustiça nenhuma desse mundo vai tirar dela. E eu só posso agradecer ao universo por isso. Sei que pra você não é nada pessoal, é só mais uma matéria lixo que você acha que vai ter alguma audiência ou alguns amigos vão compartilhar no Facebook. Mas pra mim não, pra mim é a minha vida toda, é a mulher que eu mais amo no mundo sendo retratada como uma pessoa sem sentimentos.

Eu espero, de coração, que você tenha alguém na sua vida como a minha mãe: que ri e sorri mesmo
quando as coisas não vão nada bem.


Por Alice Requião no Facebook



terça-feira, 19 de julho de 2016

NÃO ME PERGUNTES








Não me perguntes sobre as cores daquela tarde chuvosa
em que segurei tuas mãos desfalecidas.
Não me perguntes onde estão as flores oprimidas por teus olhos áridos.
Vi teus lábios se contorcerem naquela manhã apática, mas meus olhos,
envoltos por nuvens escuras enxergavam luminosidade leniente,
enquanto tu eras presságio, peça sem costura.

E quando diante do espelho vi uma imagem distorcida,
olhar oblíquo, não te reconheci.
Fescenina e réproba, tua melopéia feriram meus tímpanos,
ímpetos de evadir se apossaram dos meus sentidos,
todavia, os membros arrefecidos, não obedeceram ao comando
desse coração singular.

Então não me perguntes mais sobre meu silêncio apartado,
sei que tuas lágrimas não movem nada móvel
e não comovem as fímbrias das tenras flores do jardim prometido.
Os grilhões desse ajoujo não são de hoje, vem de épocas remotas,
apanágio atávico em estágio de mutação.
Portanto não me perguntes mais em que paisagem meu coração se desviou,
a incerteza é minha companheira nessas horas desmedidas.



Este é o primeiro poema do livro Estrelas.

Que tem ainda A Moça do Violoncelo (contos de mistérios), formando dois livros em um, com duas capas em papel laminado, 176 páginas R$25,00 sem mais despesas.

sábado, 9 de julho de 2016

Cão sem Dono











Ninguém sabia quem era o dono daquele cachorro branco de pintas pretas, uma mistura de dálmata com vira-latas, que vivia perambulando pelas estradas empoeiradas de Tropeiros. As pessoas ficavam incomodadas, curiosas e algumas até mesmo irritadas com a liberdade daquele cão, que entrava e saia das chácaras, ora em busca de uma sobra de alimento, ora para satisfazer o seu apetite sexual em uma cadela no cio. Sumia por algum tempo, sem deixar pistas do seu paradeiro.
     Ele era meigo e manso, contudo não exagerava nas brincadeiras. Gostava de manter uma certa distância, não querendo se envolver em muitas intimidades, quem sabe, com receios de se apegar a alguém e de criar raízes em terreiros, tornando-se prisioneiro de sobras de alimento e afeto. Preferia ir para onde o nariz apontasse, pois, confiava mesmo em seu instinto, em seu faro. Cadelas no cio não lhe faltava. Cadelas de diferentes raças, pelos e cores.Todas que cruzaram seu caminho, ele cruzou, espalhando o seu DNA.
        Cão sem dono. Dono de ninguém. Livre.
       Algumas pessoas manifestavam seus pontos de vistas sobre este cão andarilho, nômade, que não respeitava cercas. Conseguira pular sobre a tela de uma chácara e engravidar duas dálmatas legítimas, que deram crias a doze filhotes, para desespero dos donos das cadelas, que juraram dar um fim naquele cão sem dono.Mas, com o passar do tempo, esqueceram a vingança, mas antes, exterminaram os filhotes.
    Quando ele era visto cruzando com uma cadela bem no meio da rua havia quem o apedrejasse, horrorizado com tamanha falta de pudor e de respeito, como se fazer sexo fosse algo abominável. No fundo era a inveja se manifestando.A cultura de que o sexo é pecado ainda está enraizada nos corações e mentes de muitos adultos. Os adolescentes, ao contrário, assistiam a tudo excitados.
     Contudo, havia quem o defendesse e mesmo tentasse, sem sucesso, mantê-lo no espaço limitado da chácara.
      Um dia, algumas pessoas infelizes, prisioneiras da impotência, planejaram exterminá-lo. Não tanto por ódio a ele, muito mais para levar sofrimento e irritação a uma senhora idosa e solitária, que muitas vezes fazia do cão a sua companhia. Todavia, eles não conseguiam se entender sobre os métodos a serem utilizados. Sovinas, nenhum deles desejava gastar dinheiro com veneno e um pedaço de carne.A pauladas era a melhor alternativa, contudo, esbarravam na consciência hipócrita e na dificuldade de apanhá-lo, pois, percebendo o perigo, ele fugia. Precisava de algo que não sujasse as mãos. Uma coisa era certa: depois de morto o cão, seria jogado no quintal da velhinha, para vê-la blasfemar contra a maldade humana. Esta era a parte divertida do plano.
     Enquanto isso o cão continuava percorrendo livremente as ruas empoeiradas das chácaras do cerrado, despreocupado e feliz.
     Os assassinos finalmente chegaram a um consenso: o cão sem dono seria estraçalhado por um pittbull. Descobriram como prendê-lo: quando estivesse montado em alguma cadela. Em seguida seria levado até a chácara de um conhecido, dono da fera, que também detestava a liberdade alheia e o pittbull faria o resto. Depois, era só levar o cão morto e sorrateiramente atirá-lo no do quintal da velhinha e assistir ao espetáculo á distância, satisfazendo seus instintos maldosos.
      Tudo isso deveria ser feito sem despertar a atenção dos vizinhos, pois ali bem próximo havia uma senhora que recolhia cães abandonados e os mantinha sob seus cuidados com a ajuda da sociedade protetora dos animais, que poderia denunciá-los às autoridades.Ela tentara levar o cão sem dono para o seu canil, mas ele sempre dava um jeito de escapar.
      Aliás, esta senhora era alvo de deboche, pois, segundo comentários de alguns, como poderia alguém dar proteção a animais com tantas crianças passando fome. Caminhão lotado com sacos de ração seguia todo mês ao local. Ela era uma senhora herdeira de uma fortuna e segundo diziam, não tinha filho, por isso, destinava suas economias cuidando dos animais abandonados. Quando era questionada, respondia: “cachorro também é gente e o dinheiro é meu, ninguém tem nada com isso e são os meus empregados que cuidam dos meus amores, são bem remunerados e vão cuidar das suas vidas, que da minha e dos meus cães, cuido eu”.
    Eles prenderam o cão e o levaram ao pittbull. E não acreditaram no que viram: os dois se deram muito bem. Protegido pela fera, ninguém ousou aproximar-se, para retirar o cão sem dono da companhia do seu novo amigo. Pelo que se conta na região, os dois vivem em perfeita harmonia, trocando carícias.




Esta crônica integra o livro Crônicas do Cotidiano Popular - Edição do autor - 2006 - Esgotada. Editoração eletrônica: Fernando Estanislau - Capa/Ilustrações: Maizena.



Está no ar o meu último livro: A Moça do Violoncelo (contos de suspense e mistério) - Estrelas (poesias). Dois livros com capa dupla, orelhas em papel laminado, 176 páginas, 4x4 cores, por R$25,00 sem mais despesas. Peça o seu diretamente com o autor. Seja um mecenas da cultura popular.





   LIVRO, UM PRESENTE INTELIGENTE!!!

sexta-feira, 8 de julho de 2016

nudez




Vê-la nua corpo em chamas
Lábios e boca abertos ao beijo
Contorcendo desejos sobre a cama...

Doce menina sedenta de prazer
Mulher plena em plenilúnio
Etílico corrompendo meu ser...

Navegarei em teu dorso como quiseres
Eu marinheiro de versos e mares
Serei teu guia se tu me guiares
Por esses labirintos quereres
[seios pênis clitóris orgasmos]
Subir contigo aos ares
Depois quedarmo-nos
Em diversos marasmos.




O poema acima está em meu último livro Estrelas (poesias), que junto com a Moça do Violoncelo (contos de mistério e suspense) formam dois livros em um, com duas capas, orelhas e papel laminado, 4x4 cores, 176 páginas, que pode ser adquirido, fazendo contato com o autor. Custa R$25,00. Sem mais despesas.