domingo, 11 de janeiro de 2026

Venezuela: o Império ameaça — e está nu




Ao sequestrar Maduro e escancarar o projeto de submissão da América Latina, Trump revela força e fraqueza. EUA expõem sua condição de opressores. Agora é prioritário afastar sua enorme influência, em particular no Brasil. Há caminhos para isso Por Antonio Martins | Imagem: Jonathan Crow


A Venezuela não é para principiantes. No último sábado (3/1), um ataque militar maciço dos Estados Unidos, que concentram no Caribe a maior força naval agressora já reunida nas Américas, sequestrou Nicolás Maduro e decapitou o governo do país. Desde então, Donald Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, têm multiplicado ameaças. Falaram num “segundo ataque”. Alardearam que “qualquer integrante do governo ou das forças armadas” pode sofrer o mesmo que impuseram a Maduro. Acrescentaram que Delcy Rodriguez, a vice-presidente agora em exercício, pode defrontar-se com “algo pior”. Na vociferação mais recente, o próprio Trump “assegurou” num post em rede social, em 6/1, que Washington exigirá de Caracas de 30 a 50 milhões de barris de petróleo (dois meses de produção), cuja receita seria administrada por ele em pessoa…


No mesmo dia em que esta última intimidação foi proferida, Delcy Rodriguez fez sua primeira aparição nas ruas de Caracas, na condição de presidenta interina. Escolheu como cenário um local simbólico: a Comuna Socialista José Félix Ribas, parte do projeto chavista (retomado apenas recentemente por Maduro) de criar instituições de poder e de iniciativa econômica popular. Foi categórica: “aqui governa o povo, aqui há poder constitucional”. Denunciou a ação de Trump como “agressão armada unilateral”. Exigiu que “cessem o assédio à Venezuela e a agressão ao povo de Bolívar”, e que o presidente seja libertado.

6/1 – Delcy Rodriguez vai à Comuna

Ainda estão rolando os dados — na Venezuela e em toda a América Latina. A ação militar fulminante dos Estados Unidos e as falas de Trump desde então marcam uma guinada nas relações entre Washington e a região. O direito internacional foi violado de múltiplas maneiras; e de forma indisfarçada. A Casa Branca anuncia a volta da Doutrina Monroe e da estratégia do Big Stick, agora em versão piorada (a “Doutrina Donroe”). Mas o exame mais profundo dos fatos, que se fará a seguir, revela que seu poder tem limites.

Eles aparecem nas próprias decisões de Trump. Apesar do imenso poder bélico que reúne, e de seu esforço para concentrá-lo nas Américas (o “hemisfério ocidental” da Doutrina Monroe), o presidente não pode lançar uma invasão em larga escala, como fizeram seus antecessores recentes no Iraque e Afeganistão. Em decorrência disso, também refugou diante do passo que pareceria natural, após o sucesso do ataque: ir adiante. E tentar a mudança de regime.


A contradição entre os planos e os poderes reais de Trump abre uma brecha, e o objetivo principal deste texto é explorá-la. A América Latina, e em particular o Brasil, já não podem manter com os Estados Unidos as mesmas relações de antes — mas os governos e a opinião pública demoram a dar-se conta disso.


Não se trata de emitir declarações de protesto (as que o Brasil patrocinou ou firmou até o momento são razoáveis). A Doutrina Donroe, o ataque pioneiro à Venezuela e as ameaças subsequentes de Trump a outros países da região constituem, em conjunto, uma declaração permanente de guerra. Nesse sentido, o império está nu — pois despiu-se da roupagem que o associava, no passado, à “democracia”, à “liberdade” ou ao “Estado de direito”.


Mas o poder potencialmente agressor tira proveito de duas ordens de vulnerabilidade. A primeira, de fundo, é a ausência prolongada de projetos nacionais. Foco principal da aplicação do neoliberalismo, a maior parte dos países da América Latina continua submissa — mesmo agora, quando esta ideologia está em farrapos — à crença nas “soluções de mercado”. O Brasil é parte do grupo.

A segunda debilidade é mais específica, porém mais urgente. Por isso mesmo, sugere um ponto de partida para a ação. As brechas diante do poder da Casa Branca são especialmente graves em três dimensões: a) as tecnologias de informação, as plataformas de comunicação em rede e a inteligência artificial, onde as big techs norte-americanas, associadas à ultradireita, exercem pleno domínio; b) as Forças Armadas, cujo armamento, comunicação e logística estão subordinados aos Estados Unidos; c) a diplomacia, que permanece incapaz de enxergar — e, muito menos, de explorar — as novas possibilidades abertas pelo declínio da ordem eurocêntrica. Segue cega, em especial, como se verá, aos acenos múltiplos lançados pela China.


Certos riscos são também oportunidades. Há três décadas, a esquerda brasileira vive um processo de institucionalização que a afastou de pensar — e projetar para a população — um horizonte histórico. Há agora um estridente sinal de alerta. Ele ajudará a despertar da letargia?


I. O assalto

Não saia à caça de traidores. Uma desigualdade brutal de forças tornou o sequestro possível

Poucas horas separam dois fatos surpreendentes — um dependente do outro. Por volta das duas da madrugada de sábado (3/1), após meses de preparativos, o peso das forças militares mais poderosas do planeta abateu-se como um raio sobre Caracas. Começava a operação Decisão Absoluta (“Absolute Resolve”), que se desenrolaria em pouco mais de duas horas. Os pilotos de 150 aviões, estacionados em bases aéreas e em embarcações de guerra deslocadas para o Caribe, receberam enfim a ordem de iniciar a missão ensaiada exaustivamente ao longo de meses.


Em poucos minutos, quatro alvos estratégicos para a defesa da Venezuela foram arrasados — o que colocou o país de joelhos, conforme relata Carla Ferreira: o Forte Tiúna, principal instalação militar do país, sede do Ministério da Defesa e do Comando Estratégico da Força Armada; a Base Aérea de La Carlota, núcleo logístico de proteção da capital; o Comando Geral da Milícia Bolivariana, cérebro das forças de resistência civil armada, muito próximo ao Palácio Presidencial de Miraflores e o Porto de La Guaira, que abastece a capital com suprimentos médicos, bens de consumo e manufaturados. Foram destroçadas igualmente as baterias antiaéreas que deveriam proteger Caracas.


Ao se deslocarem, os aviões — entre eles, poderosos F-18, F-22 e F-35 — abriram um corredor letal. Um ataque eletrônico, produzido pelos especializados Boeing Growler, colocou a Venezuela em blecaute e sob “apagão cibernético”, e ampliou a blindagem, ao bloquear as possibilidades de interceptação. Pela grande fresta penetraram, voando a altitudes muito baixas e invisíveis aos radares, os helicópteros Chinook. Em seu interior estavam centenas de soldados da Força Delta, de elite. Haviam sido informados — por agentes da CIA, drones de espionagem e possivelmente informantes no aparato de segurança venezuelano — sobre o local preciso (o Forte Tiúna) em que se encontravam, naquela noite, Nicolás Maduro e Cilia Flores, sua esposa. Conheciam em detalhes seu interior, após haverem simulado a operação em cenários que o reproduziam, em escala 1:1, no Comando Conjunto das Operações Especiais, no estado norte-americano de Kentucky.

A fase final durou pouco mais de meia hora. Maduro e Cilia foram sequestrados, algemados e conduzidos ao mini-porta-aviões USS Iwo Jima, de onde partiram para a base naval de Guantánamo e de lá, por helicóptero, a Nova York. Cerca de oitenta integrantes da segurança de Maduro — entre os quais, 32 cubanos — foram assassinados pelos invasores. Nenhum soldado norte-americano morreu, diz o Pentágono[1]. O orçamento de guerra dos Estados Unidos, que ultrapassará 1 trilhão de dólares em 2026, é o maior do mundo e superior ao dos dez países que se seguem no quesito, somados. Equivale ao PIB da Colômbia ou ao da Bélgica. Do ponto de vista militar, a operação foi um sucesso.


II. A boca nervosa

Toda a América Latina está agora sob ameaça, anuncia Trump


Mais tortuosos e complexos são os caminhos da política. Eram cerca de 13h30 do mesmo sábado (3/1) quando Donald Trump falou pela primeira vez à imprensa, em sua mansão na Flórida, sobre o sequestro de Maduro. Como defender a invasão e bombardeio de um país soberano — que jamais atacou ou ameaçou os Estados Unidos — e o sequestro do seu chefe de Estado? Além da dificuldade natural do problema, havia agravantes. A hipótese de que a Venezuela abastece de cocaína os Estados Unidos é inverossímil, segundo as próprias agências de inteligência norte-americanas. Os Estados Unidos jamais apresentaram, no Conselho de Segurança da ONU ou na Corte Internacional de Justiça, qualquer queixa a respeito. E, por interesse geopolítico e partidário, o próprio Trump acaba de tirar da prisão o traficante internacional Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, sentenciado a 45 anos num tribunal de Nova York após extradição e devido processo legal.


A resposta enunciada por Trump continuará a marcar as relações internacionais muito depois que a ação espetaculosa da Força Delta em Caracas tenha se perdido na poeira do tempo. Em 3 e 4/1, em declarações sucessivas de seus governantes, os Estados Unidos anunciaram que tentarão impor, em toda a América, uma versão agravada da Doutrina Monroe (de 1823) e da Ideologia do Grande Porrete [Big Stick Ideology] (de 1904). A ameaça estava explícita, em teoria, na nova Estratégia de Segurança Nacional tornada pública pela Casa Branca em dezembro de 2025. Mas a extensão da cobiça de Washington pelas riquezas latino-americanas e a intenção de usurpar a soberania dos Estados do continente seriam expostas com crueza a seguir.


O jorro intimidatório emanou primeiro da garganta do próprio Trump. “A dominação dos Estados Unidos sobre as Américas nunca será questionada de novo. [Isso] não vai acontecer”, disse o presidente aos jornalistas. O sequestro de Maduro foi, previsivelmente, associado a seu suposto envolvimento com a produção de cocaína. Mas, em seguida, ficou claro tratar-se apenas de um pretexto, porque o presidente passou a descrever o destino que pretende dar… ao petróleo venezuelano. “Vamos manejá-lo profissionalmente, temos as maiores empresas petroleiras do planeta. Investiremos bilhões e bilhões de dólares”. Para assegurar este controle, sob a nova estratégia, Trump disse não descartar a hipótese de uma invasão militar (botas no chão, boots on the ground) [embora tema muito desencadeá-la, como se verá].


Logo, ficaria explícito que o alvo da Casa Branca abrange muito mais que a Venezuela. No domingo (4/1) pela manhã, ao falar à Fox News, Trump estenderia a ameaça à presidente mexicana Claudia Sheinbaum. Indagado sobre se o ataque a Caracas sugeria algo a Claudia, ele respondeu de pronto: “Ela não está governando seu país — são os cartéis (…) Algo precisa ser feito”. No mesmo dia, em entrevista à revista Atlantic,  as vociferações voltaram-se contra a Groenlândia: “Precisamos dela para nossa Defesa”. E mais tarde, a bordo do avião presidencial, a boca nervosa buscou Gustavo Petro, presidente da Colômbia: o país “também está muito doente, governado por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos — e não vai continuar fazendo isso por muito tempo”…


III. Governo teleguiado?


Trump e Rubio querem controlar a Venezuela à distância


No retrocesso trumpiano à Doutrina Monroe e à Ideologia do Grande Porrete, há uma inovação destacada e paradoxal. Está exposta no ataque à Venezuela. Ao menos até o momento, os Estados Unidos não buscam a mudança de regime [regime change], que perseguiram em todo o mundo por décadas, tanto sob governos do Partido Republicano quanto do Democrata. Exigem a reorientação total da política. Maduro foi sequestrado, mas não morto (ao contrário de Saddam Hussein e Mouamar Khadafi). Além disso — e muito mais importante — Trump e seus assessores disseram oferecer, tanto à vice-presidente venezuelana Delcy Rodriguez, quanto aos integrantes do aparato estatal e militar do país, um consolo. Poderão permanecer em seus postos e desfrutar dos respectivos confortos, desde que… obedeçam aos novos senhores. Nesta tentativa de arranjo, esdrúxula e incerta ao extremo, está uma das chaves para compreender o que se passa agora tanto em Caracas quanto em Washington.


O experimento começou a ser ensaiado na entrevista de sábado, em Palm Beach. Um Trump imperial manifestou a intenção da Casa Branca de “dirigir o país” [we’re going to run the country]. Mas descartou, para espanto e decepção de muitos, a hipótese de instalar no poder a opositora Maria Corina Machado. Identificada com a ultradireita internacional, ela possui algum capital político e tentara, pouco antes, cortejar as corporações norte-americanas com a promessa de “privatização maciça” do petróleo, ouro e infraestrutura venezuelanas. Em suas próprias palavras, “uma oportunidade de 1,9 trilhão de dólares”…


Trump preferiu apostar na vice-presidente de Maduro, Delcy Rodriguez, que segundo suas palavras, governará em condições especialíssimas. “Marco [Rubio, secretário de Estado] está trabalhando nisso diretamente e acaba de conversar com ela. No essencial, está disposta a fazer o que julgo necessário para tornar a Venezuela grande de novo”… Porém, ameaçou: “Estamos prontos para realizar um segundo ataque, muito maior, se necessário”. Foi além: “Todas as figuras políticas e militares na Venezuela deveriam entender que o que se passou com Maduro pode ocorrer também com elas”. E deixou claro que a situação perdurará até que os Estados Unidos possam “organizar uma transição segura”.


Poucas horas depois, ao pronunciar-se na TV estatal, Delcy sugeriu outro rumo. Classificou a intervenção de Washington como “bárbara”, reafirmou que Maduro é “o único presidente do país”, denunciou seu “sequestro” (empregando o termo preciso) e pediu sua libertação. Foi o que bastou para que Trump e seus assessores voltassem à carga. No domingo pela manhã, o secretário Marco Rubio anunciou, em entrevista, que os Estados Unidos continuarão bloqueando as exportações de petróleo venezuelano até que a empresa estatal que explora a maior parte das jazidas (PDVSA) abra-se ao investimento externo — em especial norte-americano. “[O bloqueio] vai permanecer até que vejamos mudanças, não apenas para favorecer o interesse nacional dos Estados Unidos, que é o objetivo número um, mas também para promover um melhor futuro para o povo”.


Horas mais tarde, o próprio presidente voltou ao tema, em outro contato com jornalistas. Indagado sobre o petróleo, respondeu de pronto: “Precisamos de acesso total. Ao petróleo e a outras coisas no país”. E a respeito de quem exerce o poder em Caracas, garantiu: “Estamos lidando com quem tomou posse. Não me pergunte quem está no comando [in charge], porque eu responderei, e isso pode ser muito controverso”. O repórter insistiu: “O que isso significa?”. “Significa que nós estamos no comando”, respondeu Trump.


A repetição muito reiterada de uma ameaça pode revelar dúvida sobre a capacidade de cumpri-la.


IV. Os limites


Ao contrário do que tenta fazer crer, o imperador não pode tudo


Invadir um país soberano, sequestrar seu presidente e retirar-se. Renunciar à “mudança de regime”. Desfazer-se de uma aliada como Maria Corina Machado. Crer no controle de um governo por meio de arreganhos. O que terá levado Trump a seguir, na operação contra a Venezuela, um padrão tão distinto dos empregados normalmente nas intervenções praticadas pelos Estados Unidos? Os fatos são recentes e estão em desenvolvimento. Para respostas seguras, será preciso mais tempo. Porém, com base no exame de acontecimentos e tendências objetivas, é possível ensaiar boas hipóteses.


A primeira remete a um dos aspectos do declínio do poder norte-americano: a quebra do consenso social necessário para as guerras. Trump captou este sentimento. Um dos pontos-chave de seu discurso, na disputa pela Casa Branca, foi a denúncia das intervenções no exterior. Ao condená-las, apontou-as como produto da ação do establishment. Referiu-se com insistência ao custo que elas impuseram aos norte-americanos, a quanto beneficiaram o complexo industrial-militar e desviaram recursos que, segundo ele, poderiam “fazer os Estados Unidos grandes de novo” (MAGA). A narrativa tornou-se hegemônica. Em dezembro de 2025, segundo pesquisas citadas pelo site The Conversation, 63% dos eleitores norte-americanos rejeitavam uma ação militar contra a Venezuela.



É esta, provavelmente, a razão principal para o descarte de Maria Corina. Colocá-la no poder significaria uma enorme provocação para os partidários do chavismo. O país mergulharia em instabilidade — o pior cenário possível para os enormes investimentos necessários à indústria petroleira e para suas instalações vulneráveis. Tendo-a instalado no Palácio Miraflores, os Estados Unidos precisariam defendê-la. Trump se chocaria tanto com uma ampla maioria do eleitorado quanto com seu próprio discurso.


A segunda hipótese liga-se às opções particulares de Trump para tentar fazer frente ao declínio. Ele não admite recorrer às instituições internacionais construídas no pós-II Guerra para sustentar o hegemonismo norte-americano. Chama-as de “globalistas”. Nas relações bilaterais com outros países, projeta ao máximo a força econômica e militar dos Estados Unidos para arrancar concessões. (Vale relembrar suas relevantes vitórias nos acordos comerciais com a União Europeia e Japão, após impor o “tarifaço”). Busca acrescentar a esta força sua brutalidade pessoal: o ímpeto supremacista, o assédio constante, os xingamentos, o uso contumaz da mentira e da falsificação. Está obcecado em restaurar o poderio das corporações norte-americanas. Não são exatamente estes os elementos centrais de sua agressão à Venezuela e de sua tentativa de teleguiar seus governantes?


* * *


A receita será eficaz na Venezuela? É, evidentemente, muito cedo para saber. A demonstração de força dos Estados Unidos foi impressionante e arrasadora. O sequestro de Nicolás Maduro deixa o chavismo desprovido de seu principal líder popular e do ponto de unidade entre todas as suas vertentes. A burocratização, notória, de parte de seus membros com postos no Estado tende a tornar tentadora a proposta abjeta de Trump. A pressão será ampliada pelo bloqueio dos carregamentos de petróleo venezuelano, que os Estados Unidos não relaxaram e que priva o país de sua principal fonte de divisas.


Mas há outra face do chavismo. A que se constituiu nas batalhas históricas do comandante. A que se inspirou no projeto antiimperialista e de redistribuição ampla da riqueza petroleira. A que participou de processos como a Constituinte popular de 1999 e as múltiplas tentativas de inventar uma democracia popular, capaz de superar os limites das instituições liberais. A que se entusiasmou com os esforços de Maduro para reanimar as “comunas populares”, após o vexame nas eleições presidenciais de 2024. Diferentemente do que ocorreu nas ditaduras militares patrocinadas por Washington, durante a Guerra Fria, esta tradição não está sendo arrasada — e dificilmente o será, enquanto Delcy Rodriguez permanecer à frente do governo. O projeto de Trump, como se viu, é outro.


O que ocorrerá quando ambas as faces desta moeda — a tentativa de obrigar o chavismo a agir contra o que o constituiu; e a permanência, no poder, de um movimento cujas origens rebeldes não se perderam — tornarem-se incompatíveis? A intervenção de Trump colocou de novo a Venezuela no centro do cenário geopolítico global. Tudo o que ocorrer por lá terá repercussão. Trump ordenará a Delcy Rodriguez executar seu projeto? Ela aquiescerá? Caso o faça, haverá revolta? O que ocorrerá, então?


O enorme espanto provocado pela ação fulminante dos Estados Unidos, no sábado, pode ter levado alguns a pensar que um capítulo da história da América Latina estava se fechando. Na Venezuela, ao contrário, uma nova página da disputa pelo futuro do país — extremamente difícil e árdua, mas não perdida — pode estar se abrindo.


Mas e no conjunto da América Latina, e em particular no Brasil?


V. A oportunidade


Diante da Doutrina Donroe, ou a América Latina e o Brasil se curvam, ou se reinventam


Em maio de 2025, uma vasta matéria da revista digital Defesanet  revelou que integrantes do governo Trump cobiçavam as infraestruturas de Fernando de Noronha e a Base Aérea de Natal (RN). A nova Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca estava em elaboração. A publicação apurou que diplomatas do “entorno de Trump” haviam suscitado o tema em contatos com políticos e militares brasileiros. Pretendiam instalar nos dois locais estruturas (equipamentos e aeroportos) de vigilância e projeção de poder sobre o Atlântico Sul, o que naturalmente exigiria constituição de enclaves operacionais, blindados às autoridades brasileiras. Esgrimiam, como argumento, um esdrúxulo “direito funcional de reúso estratégico” — o mesmo que a Casa Branca tem usado para tentar recuperar o controle do Canal do Panamá. A própria Defesanet considerou: “o nome disso é colônia”…


O episódio revela, quase na forma de caricatura, uma nova realidade. Diante da Doutrina Donroe, e do que ela já produziu na Venezuela, os governos e sociedades da América Latina têm duas alternativas. Caso se curvem ou se omitam, aprofundarão a letargia e o sentimento de impotência que se espalharam pela região há três décadas, quando se tornou hegemônico o projeto neoliberal. Os impasses estruturais — desigualdade, regressão produtiva, atraso tecnológico, devastação da natureza, instituições alienadas da vida real e tantos outros — continuarão não enfrentados. Os países serão vassalos de uma potência em declínio, condenados às misérias do capitalismo tardio e à condição periférica.


Mas a intimidação de Trump e seu desejo de apertar o garrote da colonização podem, paradoxalmente, soar o toque de despertar. Nesta hipótese, a consciência de que há risco de submissão mais profunda leva a identificar as vulnerabilidades. E o esforço por saná-las desencadeia uma mobilização nacional capaz de reavivar ideias hoje adormecidas: como projeto país, reconstrução e horizonte político.


Nesse movimento, três objetivos podem ser estratégicos: a) Soberania Digital; b) revisão da Política Nacional de Defesa e c) política externa voltada à construção de uma ordem pós-eurocêntrica e a parcerias com o Sul Global. São desafiadores. Exigirão construção persistente e prolongada. Contudo, são claros, capazes de mobilizar e de gerar efeitos secundários positivos.


A luta pela Soberania Digital é, das três, a mais crucial, urgente e complexa. Mas talvez seja a que mais pode libertar energias políticas e econômicas hoje contidas. O cenário atual é contraditório. Em alguns aspectos, a dependência frente aos Estados Unidos é dramática: o Brasil encontra-se rendido a suas big techs. Um estudo realizado em 2025 pelos pesquisadores Sérgio Amadeu e Jeff Xiong demonstrou que o país hospeda em servidores de corporações norte-americanas a quase totalidade dos dados estratégicos que gera. Estão nestas condições os dados das universidades brasileiras, dos centros de pesquisa e tecnologia, do SUS, do IBGE, da Receita Federal, dos tribunais superiores (inclusive o STF e o TSE), por exemplo.


Na mesma situação submissa encontra-se o desenvolvimento de software básico — a ponto, por exemplo, de “Google e Microsoft hospedarem os e-mails e os repositórios de dados (drive) de 154 universidades públicas brasileiras”. Também são estrangeiras as plataformas usadas quase universalmente no país para pesquisa na internet (Google), comunicação pessoal por mensagens (WhatsApp-Meta), redes sociais (Facebook e Instagram-Meta ou TikTok-Bytedance), ou para serviços de transporte pessoal, de entregas, de hospedagem, de contratação pontual de serviços e muitos outros. Todas elas capturam, processam, distribuem  por meio de algoritmos e monetizam e comercializam tanto a comunicação gerada conscientemente pela população (uma postagem de texto ou vídeo em rede social, por exemplo) quanto os dados gerados de forma involuntária (como um formulário qualquer preenchido online). A programação algorítmica, agora reforçada por inteligência artificial, tem enorme poder de influir sobre comportamentos — inclusive eleitorais. E o alinhamento das big techs com políticas de ultradireita tornou-se declarado desde a posse de Trump.

Em contrapartida, o país tem duas enormes potencialidades no mesmo campo: um grande contingente de programadores e desenvolvedores muito bem formados (que hoje, por falta de alternativas, trabalham principalmente para as big techs) e movimentos sociais informados, criativos e capazes de formular política para a área. Se a luta pela soberania digital tornar-se prioridade de Estado, a superação da vulnerabilidade poderá avançar de forma consistente e relativamente rápida.


Em 2025, o hacktivista Uirá Porã traçou, em entrevista a Outras Palavras, um possível roteiro: 1. Construir, a partir das universidades, uma rede brasileira de data centers públicos; 2. Recuperar as duas empresas estatais do setor (Dataprev e Serpro), hoje enredadas em parcerias submissas com as big techs dos Estados Unidos; 3. Articular, nestas empresas e ligadas regionalmente aos data centers universitários, equipes de desenvolvedores dispostos a produzir aplicativos para municípios, outros entes públicos, empresas e sociedade civil. Neste desenho, a Soberania Digital deixa de ser apenas um objetivo estratégico de Estado e passa a se desdobrar em serviços à sociedade, estímulo à formação em massa de profissionais qualificados e espaço de desenvolvimento de consciência e reinvenção social.


* * *


A revisão da Política Nacional de Defesa é necessária para enfrentar uma debilidade ainda mais escancarada. A própria orientação de parte das fragatas da Marinha nos oceanos depende hoje… do Starlink de Elon Musk. Mas não só. O historiador Manuel Domingos, que estuda em profundidade as Forças Armadas brasileiras, lembra, num texto recente, que as Forças Armadas brasileiras vivem, desde o Barão do Rio Branco, o fetiche da dependência pela tecnologia comprada das potências ocidentais. Não se compreende a Defesa como ação orgânica da sociedade brasileira — o que poderia levar ao desenvolvimento tecnológico autônomo. Adquirem-se pacotes — os caças suecos Gripen ou submarinos franceses, por exemplo — que submetem o país a múltiplas dependências.


Em junho de 2024, por exemplo, o Departamento de Justiça dos EUA  solicitou à Saab, fabricante dos caças Gripen vendidos ao Brasil, que fornecesse “esclarecimentos” sobre a operação. A revista Sociedade Militar advertiu, à época: “O movimento levanta suspeitas sobre possíveis interferências que visam, na verdade, manter o Brasil em um estado de dependência em relação aos Estados Unidos (…) O Gripen, apesar de ser um caça moderno, depende de uma cadeia de fornecedores internacionais: o motor é americano, o sistema de ejeção é britânico, e vários outros componentes vêm de diferentes partes do mundo. Isso significa que, se em algum momento Estados Unidos ou Reino Unido decidirem colocar o pé no freio, por questões políticas ou comerciais, esses caças ficariam no chão. E não é só teoria — a história já mostrou isso em diversos episódios”…


Livrar o país de tal dependência, para evitar que o próprio equipamento das Forças Armadas  esteja sob risco de bloqueio, pode ser um projeto compreensível e politizador. Mas, assim como no caso da Soberania Digital, vai além dos interesses de Estado. Manuel Domingos sustenta, em seu texto, que a Política de Defesa Nacional, publicada em maio de 2024, “fez-se pó na madrugada do último sábado”, quando os Estados Unidos demonstraram a que estão dispostos. Mas lembra que uma revisão poderia, além da autonomia tecnológica, colocar em debate outros pontos igualmente importantes para um projeto de país. Entre eles, orientar as Forças Armadas para seu papel de Defesa do território (colocando em xeque as tendências a voltá-las contra “inimigos internos”) e pensar, também no campo militar, uma política de  integração da América do Sul — inclusive para ter mais força contra as ameaças reais…


A ameaça Trump, como se vê, pode levar o Brasil a refletir sobre si mesmo. Mas num tempo de desafios globais — como as desigualdades crescentes, os riscos de colapso ambiental e as ameaças constantes de guerra — não é preciso repensar também as alianças geopolíticas?


VI. As alianças


Para enfrentar os EUA, a América Latina precisa de aliados. A China está se apresentando 


Uma terceira debilidade salta aos olhos ao se analisarem as condições para a América Latina e o Brasil enfrentarem a nova atitude ameaçadora dos Estados Unidos. Em especial no governo Lula 3, a política externa tornou-se tímida, convencional e incapaz de imaginar construções e parcerias fora da ordem eurocêntrica.


Foram-se os tempos do chanceler Celso Amorim e de suas iniciativas ousadas e surpreendentes — a participação central na criação dos Brics, a realização de uma reunião de cúpula entre América do Sul e países árabes (que sobressaltou Washington) ou a tentativa (com a Turquia) de costurar um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã (sabotada por Hillary Clinton). Sob Mauro Vieira, prevalece no Itamaraty o que o economista Paulo Nogueira Batista Jr. chamou, com ironia mordaz, de “turma do visto permanente nos Estados Unidos”. São os diplomatas que temem (mesmo a partir do governo Trump) qualquer gesto que incomode os Estados Unidos — em especial as aproximações estratégicas com os BRICS e a China.


Embora os chineses sejam, há muito, os principais parceiros comerciais do Brasil, o país estabeleceu com eles uma relação que reproduz sua vocação colonial e sua regressão produtiva. Exporta produtos primários — em especial soja e minério de ferro. Importa bens e serviços tecnológicos. Duas proposições de Beijing, lançadas nos últimos meses — Iniciativa de Governança Global, de setembro de 2025, e o Documento sobre a Política para a América Latina, de dezembro — sugerem que a agenda bilateral poderia ser muito distinta.

Maio de 2025: Gustavo Petro e Xi Jinping anunciam a entrada da Colômbia nas Novas Rotas da Seda

O primeiro enuncia cinco proposições aparentemente genéricas, mas que se chocam de frente com o “direito imperial à intervenção” enunciado por Trump. Três deles se destacam: a) a “soberania igualitária” (“todos os países, independentemente de tamanho, força ou riqueza, terão sua soberania e dignidade respeitadas, seus assuntos internos livres de interferência externa e o direito de escolher de forma independente seu sistema social e nível de desenvolvimento”), b) o respeito ao direito internacional e às instâncias da ONU; c) uma “abordagem centrada nos povos” (“o bem-estar das populações é o propósito máximo da governança global”). O segundo, mais longo e detalhado, formula propostas específicas de colaboração, abrangendo, entre outros, áreas e temas que soam relevantes ao Brasil: (re)industrialização, preservação da natureza, energias limpas, ciência e tecnologia (incluindo internet e IA), intercâmbio militar e outros.

Nenhum dos documentos recebeu destaque nas mídias convencionais brasileiras. Ambos merecem ser examinados com atenção. Não se trata de propor um “alinhamento à China”, como às vezes alardeiam, em tom pejorativo, os que são contrários à parceria. Mas de perceber que, enquanto Washington anuncia de forma clara uma postura imperialista e agressiva, há um aceno de outra natureza. Quem o faz é um país do Sul Global, que sofreu um “século de humilhações” das potências eurocêntricas — mas recuperou-se numa revolução popular, construiu um socialismo heterodoxo, tornou-se a maior economia, a grande fábrica do mundo e, nos últimos anos, um polo de desenvolvimento de alta tecnologia.


Há razões objetivas para acreditar que o gesto é de boa-fé. Não apenas porque a China afirma, com insistência, sua opção pelo Sul Global, mas também porque, num certo sentido, necessita fazê-la. A polarização que marcou a Guerra Fria está se armando outra vez. Trump vê Beijing como seu alvo número um. A Europa curva-se aos Estados Unidos, mesmo desprezada. Barreiras comerciais e ideológicas contra a China estão sendo erguidas de ambos os lados do Atlântico Norte. A opção pelo antigo “terceiro mundo” é, além de tudo, pragmática.


Em que condições poderia se dar a parceria? No caso brasileiro, este artigo sonda possibilidades. Envolvem Amazônia em pé, internet, superação do dólar, indústria e defesa, entre outros pontos. Mas é, em essência, um convite a incluir este tema na pauta de debates do país. Desde a II Guerra Mundial, as alianças com Washington são vistas, no Brasil, como naturais e quase incontornáveis. Haverá algum mal em cogitar outros caminhos, agora que a Doutrina Donroe pesa sobre nós? Adotaremos a mesma postura da “turma do visto permanente”?


* * *


Ao invadir a Venezuela com imenso aparato, sequestrar seu presidente e anunciar o desejo de controle absoluto sobre a América Latina, Donald Trump fez um lance de arrogância máxima — mas altíssimo risco. Para a região respirar, é preciso que a aposta naufrague. Este texto visa ajudar a construir tal alívio. 


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Fonte: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/venezuela-o-imperio-ameaca-esta-nu/

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Uma vela pra Deus, outra pro Diabo (a vingança dos super-ricos)


Imagem: Google


Silva saiu do interior em busca de uma vida melhor na capital. Chegou com uma mão na frente e a outra atrás.

     Dois anos depois conseguiu comprar um fusca de segunda mão. Quase todo mundo gostava de Silva. Cabra tranquilo, evitava contenda, sempre concordava com os argumentos dos colegas, mesmo os antagônicos. Que diferença faz? Perguntava para si. Se um colega dizia que pau é pedra, ele concordava; se outro dizia o contrário, também concordava. Polemizar pra quê?, melhor ficar bem com todos. João, colega de saídas nos dias de folga, foi franco, Silva, você acende uma vela pra Deus e outra pro Diabo. Silva concordou, ao responder, como um mantra, que diferença faz? Melhor conviver numa boa com todos. Sabe, meu caro João, aprendi, na prática, que o muro é o lugar mais seguro, completava com sinceridade.

     Certa dia, no centro da capital, Silva procurava uma vaga, para estacionar seu fusquinha. João o acompanhava. Iriam ao mercado central comer um tira-gosto e tomar uma gelada. Olha uma vaga ali, Silva, entra rápido antes que alguém a ocupe. Numa manobra rápida estacionou, sem atentar que um BMW estava com a seta ligada, para fazer o mesmo. O dono do carrão, xingou o Silva por ter ocupado a vaga. Silva, talvez cansado de concordar com todo mundo, respondeu que o mundo é dos espertos. Ah é assim? perguntou o dono do BMW, sem esperar resposta, deu uma marcha à ré, atingindo o fusquinha com violência, deixando-o amassado, em seguida colocou a cara pra fora e gritou, o mundo é dos ricos, babaca, agora vai reclamar com o bispo!

     Conto esse caso, para cocluir, sobre a impossibilidade de se manter neutro, especialmente em tempos de crise. Como diz a sentença, atribuída a Dante de que "no inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise".  

     2026 começa com os Estados Unidos invadindo a Venezuela. A maior potência capitalista está em crise. Dívida pública nas alturas, perda de influência num mundo multipolar, o dólar não é mais a moeda, que dita a regras das finanças global. A Europa sem alternativas. China e outros países negociam com moedas própria. A vingança dos super-ricos, com a precarização do trabalho, com a uberização da economia, a concentração das riquezas nas mãos de poucos e as guerras sem fim, são um tiro no pé do sistema em seus últmos estertores. O infocapitalismo esperneia. Impossível permanecer em cima do muro. 


imagem: Google


J Estanislau Filho


domingo, 21 de dezembro de 2025

Não é por falta de assunto

Imagem: acervo do autor


Faz tempo não escrevo. Pensava sobre, enquanto o sono não vinha. Isso acontece geralmente à noite. Imagino vários enredos, que se perdem quando o sono chega.  Não é por falta de assunto. Podia escrever sobre os últimos acontecimentos da Câmara dos Deputados, ao que muito indica, Hugo Motta e seus parceiros tentam um golpe parlamentar, pois estão acossados por investigações da Polícia Federal; poderia falar do vídeo de Mirosmar, atacando as filhas de Silvio Santos, por ter convidado Lula e Xandão, para o lançamento do SBT News; poderia escrever sobre futebol, sobre guerras, Trump e o avanço do fascismo. Enquanto o sono não chegava meu pensamento andava solto. Terminei a leitura de dois ótimos livros: Coração Sem Medo, de Itamar Vieira, autor do clássico Torto Arado e Pequenos Sertões, histórias em quadrinhos do meu amigo talentoso, Berzé.  Falar de nossa amizade, por si só, dá um livro. Poderia escrever, também, sobre injustiça e exclusão social. Mudanças climáticas. Ou do último livro de Jessé Souza, Por que a esquerda morreu?, mas esse só li as primeiras páginas. Faz tempo não crio algo que possa ser chamado de novidade, embora criar coisas novas, como um poema, por exemplo, depois de tudo que já foi escrito, não seja simples.  Crônicas  salvam os escritores, quando a criatividade está em baixa. É uma saída digna e necessária. Há um porém. As crônicas são como um folhetim do dia a dia. O dia passou, elas envelhecem. Principalmente agora, com a internet. É tudo muito rápido, um assunto abafando o outro. Falar da lambança de Zezé di Camargo já é passado. O agro não é mais pop, é de gente pra gente. No momento temos as ameaças de invasão, pelos Estados Unidos à Venezuela. As eleições presidenciais de 2026, com o bolsonarismo tentando se manter vivo, com Flávio Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas? O Sistema procura um nome, que chamam de terceira via, que possa derrotar o Lula. Política é sempre um prato cheio. Ou vazio. Depende do candidato. E a Zambelle, alguém se lembra dela? Cassaram Dudu Bananinha e o Ramagem, pegaram o Sóstenes Cavalcanti. Tô dizendo, política é um assunto, que tento evitar e não consigo. Ah, o amor, esse é bom de se falar, escrever. Estou de novo amor. Apaixonei, pode isso, na minha idade?   Acho que a fonte de inspiração segura  é o amor. Ele nos rejuvenesce, humaniza e inspira.  Além de nos deixar bem humorados. Já repararam,  as pessoas de caras amarradas, mal humoradas, são infelizes e semeiam o ódio? Cria assassinos, psicopatas. Gente desbocada.  O amor é paz!  E para encerrar a crônica, pois as pessoas não estão com paciência com textos longos, deixo um recado:

Imagem: Raul Estanislau

FELIZ 2026!

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Povo em Poema: A Era das Indignações

 

Foto: Bryan Smith/ZUMA Press/Corbis


Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Jornadas de Junho… Poemas sobre as praças do século XXI – e aqueles que desejam esmagá-las. “A indignação,/ como pedra lançada na água,/ gera ondas”, dizem os versos. Mas a fúria só ganha sentido quando ajuda a criar uma Era da Consciência


1 Era da indignação

Era da Indignação,
do grito, da fúria,
da praça tomada,
do punho cerrado.
E do nada.


As massas tomaram as ruas,
contra reis, emires,
ditadores e presidentes,
contra políticos,
contra os bancos,
contra corruptos,
contra a Casta,
contra o Sistema,
contra tudo e contra todos;
por tanta coisa.


2 Primavera Árabe

Na Praça Tahir, em Túnis,
na Síria, no Líbano, Bahrein…,
clamaram por liberdade,
fizeram a primavera das multidões
enfrentaram bombas e balas
de exércitos e polícias.

Dez anos passados o que sobrou
do que teria sido a primavera da esperança?
Fundamentalismo, sombras da religião,
intolerância, conformismo e medo.
E os irmãos na praça tornaram-se inimigos.

3 Porta do Sol

Em Madrid, na Porta do Sol,
tendas ergueram-se.
“- Democracia Real Já!”,
por toda Espanha
e Grécia e Europa Mediterrânea,
tantos ergueram-se em indignação.
Parecia que seria dessa vez.
Mas as palavras de democracia real
sem bem saber o sentido
criaram um o rei sem coroa,
sem cetro, sem rosto.
Da indignação ao demagogo vazio
a falar sobre moral,
inventar culpados
(sempre os mais fracos),
desviar atenção…
Dos indignados,
parte deles ao menos,
mãos que ergueram as tendas
passaram a saudar o braço em riste.


4 No coração da fera

Ocuparam o coração da fera,
Wall Street:
“– Somos os 99%!”
Mas o touro desgovernado
e suas ventas em notas verdes
não caiu;
ao contrário,
um milionário alaranjado
vestiu-se de Messias,
mestre e aprendiz,
fez do povo ressentido e indignado,
base para a autocracia
e espetáculo de intolerância.

Entre muros e deportações,
ódio e mentiras,
tanta infelicidade mais que virá por aí
(já veio, está vindo e virá mais).


5 Pelos cantos do Brasil

Pelos cantos do Brasil
“– É tanta coisa que não cabe em um cartaz!”
Começou por vinte centavos, luta justa,
e virou cão desgovernado.
De Curitiba ecoou o latido:
“- Basta de corrupção!”
Mas quem acusou,
quem incentivou,
quem julgou
sob a toga imunda
servia ao capital
e aos bandidos de sempre.
Houve mais corrupção
e manipulação.
Heróis de barro,
tornaram-se verdugos.
Dos escombros ergueram-se monstros.
Um capitão sem farda,
que pregava Deus com pistola na mão
e falava de família
enquanto vendia a pátria,
se fez falsificação.
Pelos cantos do Brasil
amontoaram-se os mortos na pandemia,
queimaram-se as florestas,
apagaram-se os sonhos.


6 A indignação

A indignação,
como pedra lançada na água,
gera ondas,
ondas de raiva,
ondas de medo,
e nem dá tempo
para que se conheçam as causas,
sequer a realidade.
Desconhecer causas,
não compreender a realidade
em profundidade,
são aliados dos tiranos.
Tiranos vestem-se de salvadores,
prometem ordem,
prometem justiça,
prometem prosperidade,
prometem sangue
e entregam ditadura,
desmandos, autocracia
mais corrupção, cleptocracia…
– Muito mais!
Mais horror,
desânimo,
tristeza,
raiva.


7 Na sequência das Eras

Antes da Era das Indignações
houve outra Era, dos Extremos,
foi breve, nem um século,
começou com uma guerra de horror
entre tantas guerras que vieram depois
com igual ou maior horror,
e terminou com um muro ruindo.
Antes dela, uma Era de Impérios
e dominações,
colonizações,
escravizações,
capitalizações.
Antes dela, uma Era de Revoluções,
“– Igualdade, Liberdade, Fraternidade!”
Independências,
contra-revoluções,
restaurações,
proletariado fabril,
máquinas a vapor.


8 A Era da indigência de sentido

Na sequência das Eras
depois dos extremos,
a indigência de sentido,
a indignação cega,
a raiva intempestiva.
Essa é a Era de nosso tempo
e não vai levar a lugar algum;
ou vai?
As Eras sempre levam a algum lugar,
o problema é quando o lugar
não é um bom lugar para viver.
Falta razão, falta sentir,
sobra enraivecimento, fúria,
fereza, repulsão,
cólera e danação.
Falta sentido.


9 Alimentando-se da fúria

Na sequência das Eras,
em Paris, Porto Príncipe, Petrogrado…,
o povo aprendeu a erguer barricadas,
isso foi há muito tempo,
séculos XVIII, XIX, XX.
No tempo de agora,
nas praças do século XXI,
erguem-se hashtags,
erguem-se memes,
erguem-se emojis,
erguem-se ódios líquidos
cujas razões esvaem
tão rápido quanto surgem.
E sobra o ódio.
Os algozes de sempre,
os demagogos, manipuladores,
interesseiros e ambiciosos,
os Senhores tecnofeudais,
sabem disso.
Alimentando-se da fúria,
ornamentam-se com a cruz,
com a bandeira sem irmão,
com o medo (e ódio) do outro.
E assim a indignação
vira servidão voluntária,
mais uma vez.


10 Aprende, camarada!

No meio disso tudo,
quando a Era atual parece ser o fim das Eras,
há que lançar um pedido
como tantos que já foram lançados,
alguns aprendidos e outros perdidos:
“– Aprende, camarada!”
A indignação só tem sentido
quando se torna consciência.
– Aprende, camarada!
O inimigo não é o pobre ao seu lado,
o infeliz que julgas menor que ti,
não é o refugiado,
nem o vizinho,
nem o que consideras pecador.


11 A Era da Consciência

– Aprende, camarada!
Da raiva extremista nasce o terror
e você vira engrenagem
para os opressores de sempre.
– Aprende, camarada!
Que a indignação seja o início, não o fim,
que a raiva se torne verbo,
que o grito se torne palavra,
que o medo se torne coragem,
que a mão fechada se abra,
se abra para o outro.
Aprenda
e vamos criar
a Era da Consciência.

Essa sequência poética integra o novo livro de Célio Turino – FIOS DA HISTÓRIA, poemas – pela editora Clóe


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INDIGNAÇÃO POPULAR, JORNADAS DE JUNHO, OCCUPAY WALL STREET, POESIA BRASILEIRA, POVO EM POEMA, PRIMAVERA ÁRABE


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Em busca de uma identidade



Imagem: Google

Estacionou o automóvel seminovo na garagem da casa recém-adquirida num financiamento, colocou as mãos nos bolsos da calça e foi contemplar, de novo,  as dependências. Vagou pelos cômodos com um olhar embevecido, respirou fundo, enquanto relembrava o esforço que fizera até chegar  a esse estágio. Retornou ao quintal, sentou-se no banco da varanda, orgulhoso de si. Vislumbrou o carro e uma lágrima escorreu pela face. Faltava algo mais, para que se sentisse completo. Afugentou o pensamento e voltou a circular pelo ambiente, atento aos detalhes. Banheiros com box, cerâmicas, luminárias, paredes pintadas. Ah, precisava encerar as portas. Chamaria um profissional. O portão de entrada carecia de um motor. Descer do carro, para abri-lo manualmente não combinava com o seu novo estilo de vida. 

     Ligou o carro e saiu, para dar uma volta pela cidade, não a conhecia completamente. Uma cidade pequena, com cerca de três mil habitantes. Encontrou um restaurante caseiro, sentou-se e pediu um almoço. Na mesa ao lado, um casal trocava carícias ao toque das mãos. Conversavam baixinho. Por um momento, ele invejou o casal. Espantou o pensamento, distraindo-se com outro casal de canarinhos chapinhas, que se tocavam no galho de uma árvore,  anexa ao restaurante. Ah,  o amor, que invade os corações no arroubo das paixões. 

     Adquirira o hábito de observar as pessoas e se imaginava sendo observado. Isso o incomodava, era como se estivesse nu, pois era um ser para os outros.  Ser alvo de avaliações alheias o petrificava. O que precisava corrigir, para ser bem avaliado? Talvez a indumentária. Um terno, ou blazer, um óculos escuros.  Precisava da certeza da aprovação das pessoas. Trocar o carro por outro mais possante, provavelmente seria visto com outros olhos. Ah, esses olhares, que o levava a afundar nas cadeiras. O desejo de não ser enxergado na sua pequenez. Queria ser grande. Decidiu então ir a uma loja, comprar roupas das melhores marcas; passar numa agência de veículos e trocar de carro. Não frequentaria mais aquele restaurante em que as pessoas o despia. 

     Abriu o aplicativo do seu banco. O saldo não era compatível com o seu projeto de ser


J Estanislau Filho


Imagem: Google

     

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

O SELO DA GRANDE OBRA

Araguaina TO



Viajo sim, nesse mundo e lá fora
No labor do pequeno ciclo, a vida 
No grande ciclo, história, nossa lida 
Em tudo e em mim permaneci no agora


Cantei minha Picos donde vim, que ora
Ascendeu junto a mim pela subida
Glórias tombadas e a morte iludida
Ajustei os ponteiros com esta hora


Sim a grande obra oculta vos revelo
Semente plantado na consciência
Finda a opinião do feio ou do belo


Habita um Deus em nós que é nossa essência
No sol - metáfora, no homem - o espelho
Foi consumado pela Providência


Marconi Barros





Marconi Barros, Poeta da cidade de Picos PI, radicado em Araguaína TO onde foi membro e presidente eleito da ACALANTO-Academia de Letras de Araguaína TO.


Picos- PI


quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Assim Trump acelera o declínio dos EUA




Presidente exibiu na ONU seu mais novo perfil: ainda mais arrogante, alienado e ameaçador. Por trás desta atitude, arma-se um desastre: cenário econômico é turvo, e perspectivas de longo prazo são piores. Eis a tempestade que se arma





Por Michael Hudson | Tradução: Antonio Martins


Um Trump convertido em metralhadora giratória ocupou nesta manhã (23/9) a tribuna da Assembleia Geral da ONU. Mal avaliado junto aos eleitores (seu déficit de popularidade acaba de atingir 17%), mas beneficiado pela ausência de uma oposição interna consistente, presidente tornou-se, nas últimas semanas, ainda mais agressivo. O assassinato de Charlie Kirk deu-lhe pretexto para perseguir tudo o que se aproxime de esquerda. As razias violentas nos bairros de imigrantes prosseguem. Nas Nações Unidas, a virulência foi a marca de um discurso repleto de inverdades e especialmente feroz contra a justiça social, a solidariedade e a defesa do ambiente.


No texto a seguir, o economista Michael Hudson desenha o cenário devastador que se esconde por trás desta suposta demonstração de força. Trump criou uma crise múltipla para a economia norte-americana. A guerra comercial tirou da agricultura mercados como os da China e Rússia. A indústria sofre aumento expressivo de custos (o aço e alumínio importados têm tarifas de 50%) e desorganização das cadeias produtivas, devido à incertaza e instabilidade em relação aos fornecedores. A inflação está em alta, porque após desovar antigos estoques, e absorver por algum tempo o custo das taxas aduaneiras, o comércio está repassando aos consumidores os preços majorados. Faltam braços na construção e na agricultura, devido à perseguição aos imigrantes. O acesso à habitação tornou-se mais difícil, porque as taxas de juros de longo prazo subiram, devido à instabilidade econômica e aos sinais erráticos do presidente.


O desastre do principal expoente da ultradireita mundial está à vista. As palavras ásperas o encobrirão? (A.M.)


1


2 O Empobrecimento da agricultura norte-mericana

Trump criou uma tempestade perfeita para a agricultura americana. Sua política de Guerra Fria fechou, para os produtores norte-americanos, as chances de vender para China e Rússia. Suas tarifas aduaneiras elevadas bloqueiam importações e, ao fazê-lo, elevam os preços de equipamentos agrícolas e outros insumos. Seus déficits orçamentários produzem inflação, mantêm altas as taxas de juros para empréstimos habitacionais e agrícolas e para a compra de equipamentos. Ao mesmo tempo, mantêm rebaixados os preços das terras agrícolas.


O exemplo mais notório é a soja, a principal exportação agrícola norte-americana para a China. A transformação do comércio exterior dos EUA em arma trata as exportações e importações como ferramentas. Busca privar países estrangeiros de commodities essenciais, como alimentos, petróleo e, mais recentemente, alta tecnologia para chips de computador e equipamentos. Após a revolução de Mao em 1945, os EUA restringiram as exportações norte-americanas de grãos e outros alimentos para a China, na esperança de vencer o novo governo comunista pela fome. O Canadá quebrou esse bloqueio de alimentos – que agora, no entanto, tornou-se um braço da política externa da OTAN.


A transformação do comércio exterior em arma por Trump levou a China a interromper totalmente suas compras antecipadas da safra de soja americana deste ano. A China busca, naturalmente, evitar ser ameaçada por um novo bloqueio de alimentos. Por isso, impôs tarifas de 34% sobre as importações de soja dos EUA. O resultado foi redirecionar suas importações para o Brasil, com zero compras nos Estados Unidos até agora em 2025. É algo traumático para os agricultores norte-americanos, porque quatro décadas de exportações de soja para a China fizeram com que metade da produção de soja dos EUA seja normalmente exportada para a China. No estado de Dakota do Norte, a proporção cheag a 70%.


A transferência, pela China, de suas compras de soja para o Brasil é irreversível. Os agricultores brasileiros ajustaram suas decisões de plantio para atender ao novo cliente. Como membro dos BRICS, especialmente sob a liderança de Lula, o Brasil promete ser um fornecedor muito mais confiável do que os Estados Unidos, cuja política externa passou a tratar a China como um inimigo existencial. Há pouca chance de a China responder a uma promessa dos EUA de restaurar o comércio normal, deslocando suas importações do Brasil. Isso seria traumático para a agricultura brasileira e tornaria a China um parceiro comercial não confiável.


A pergunta é: o que será feito da enorme quantidade de terras agrícolas norte-americanas que foi dedicada à produção de soja? Incapazes de encontrar mercados estrangeiros para substituir a China, os agricultores estão relatando sofrer perdas. A soja está se acumulando além da capacidade de armazenamento de safras. O resultado é a ameaça de execuções hipotecárias e falências de propriedades rurais, o que reduziria os preços das terras agrícolas. E como as taxas de juros permanecem altas para empréstimos de longo prazo, como hipotecas, isso desencoraja os pequenos agricultores de adquirir as propriedades endividadas O resultado é acelerar a concentração de terras agrícolas nas mãos de grandes fundos financeiros absentistas e dos mais ricos.


Essa mudança é irreversível. Apesar da decisão da Suprema Corte, de que as tarifas de Trump são inconstitucionais e portanto ilegais, parece provável que o presidente possa fazer com que a Câmara e e o Senado — bipartidários e anti-China — imponham essas tarifas. De qualquer forma, a nova política norte-americana representa uma mudança radical, um salto quântico na agressividade comercial coercitiva dos EUA.


Há zero chance de o comércio EUA-China de soja, ou de outros produtos importados por Pequim, ser reativado. Nem a China, nem outros países ameaçados pela agressão comercial norte-americana, podem correr o risco de depender do mercado dos EUA.


A pressão sobre custos e a renda na agricultura norte-americana vai, no entanto, muito além das vendas de soja. Os custos de produção também estão aumentando como resultado de dois fatores: as tarifas de Trump, especialmente sobre maquinário agrícola e fertilizantes; e a restrição do crédito, à medida que o risco de inadimplência da dívida agrícola aumenta.



2. As tarifas que aumentam o custos daprodução industrial


A anarquia tarifária de Trump também está causando perdas e demissões. Dois mil funcionários da John Deere and Company, que produzem máquinas agrícolas, foram demitidos. A demanda também caiu para outros fabricantes de equipamentos agrícolas. O problema mais sério é que seus equipamentos de colheita, assim como automóveis e todas as outras máquinas, são feitos de aço e de alumínio. Trump quebrou a lógica básica das tarifas – promover a competitividade da indústria de alto lucro e capital intensivo (especialmente monopólios), em grande parte por meio da minimização do custo das matérias-primas. Aço e alumínio estão entre as mais básicas.


Essas tarifas atingiram a John Deere de duas formas. As vendas de sua produção doméstica estão baixas devido à depressão da renda agrícola descrita acima. As safras de milho e soja cresceram muito este ano, o que produziu uma queda de seus preços e da renda agrícola. Isso limita a capacidade dos agricultores de comprar nova maquinaria.


A Deere importa cerca de 25% dos componentes de seus produtos. O custo foi elevado, em função das tarifas de Trump. As fábricas da Deere na Alemanha foram especialmente atingidas. Trump surpreendeu a empresa ao decretar que, além das tarifas de 15% sobre importações da UE, ele está impondo um imposto de 50% sobre o conteúdo de aço e alumínio dessas importações.


Isso também atinge produtores estrangeiros de equipamentos agrícolas. Levando a novas queixas da União Europeia sobre os “sustos” constantes de Trump, que além disso reivindica “contrapartidas”, em troca de não elevar ainda mais as tarifas sobre importações da UE.


3. Mais dependência do petróleo estrangeiro e mais aquecimento global


Opondo-se a qualquer medida que alivie o aquecimento global, Trump retirou-se do Acordo de Paris e cancelou os subsídios para a energia eólica e o transporte público. Este é um efeito do lobby da indústria petrolífera. A política externa, e também a política econômica interna dos EUA, são dominadas pela tentativa de controlar o petróleo, como chave para transformar as sanções comerciais externas em armas. Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, Los Angeles eliminou seus bondes, forçando os habitantes a aderir à economia do automóvel. O presidente Dwight Eisenhower iniciou um programa de construção de estradas interestaduais para favorecer o transporte automotivo – e, com ele, o consumo de petróleo.


A agricultura norte-ameircana também é assolada por uma escassez de água cada vez mais profunda e pela destruição causada por inundações, secas e outros eventos climáticos. Uma causa é o clima extremo, resultante do aquecimento global. Trump nega o fenômeno, como parte de sua política de apoiar os setores de petróleo e o carvão dos EUA. Ao mesmo tempo, luta incessantemente contra a produção de energia eólica e solar. Por tudo isso, os EUA saíram do Acordo de Paris para descarbonizar a produção mundial.


Os custos dos seguros estão subindo para patamares inacessíveis, em muitas áreas propensas a tempestades e inundações. O custo da habitação disparou em Miami e outras cidades da Flórida e nos estados do sul da fronteira, ameaçados por furacões.


Dois distúrbios paralelos são o aumento do preço da eletricidade e a escassez de água. Foram causados pela demanda crescente, para resfriar os computadores necessários à inteligência artificial e à computação quântica, que o presidente apoia sem limites. A demanda crescente por eletricidade está muito além dos planos de investimento das concessionárias de energia para aumentar sua produção. Esse tipo de planejamento leva muitos anos – e as empresas ficam felizes quando veem a escassez empurrar a demanda para muito acima da oferta, o que permite que os preços da eletricidade sejam um dos principais fatores para o aumento da inflação dos custos de produção.


Trump e seu gabinete zombaram da China por gastar muito dinheiro em seu serviço de trem de alta velocidade. Os cálculos ocidentais de eficiência econômica ignoram os efeitos desse desenvolvimento ferroviário, de importância crucial no balanço de pagamentos. Ele evita forçar os chineses a dirigir carros usando petróleo importado. A China não tem uma indústria petrolífera que domine seu planejamento econômico ou sua política externa. Por isso, seus objetivos de política externa em relação ao comércio de petróleo são opostos aos dos Estados Unidos.


4. A tentativa frustrada de transformar as exportações em armas

Tanto Trump quanto o Congresso dos EUA ameaçaram sabotar os switches de computador exportados, convertendo-os em “interruptores de autodestruição” (kill switches) secretos, para desligá-los por decisão norte-americana. Isso levou a China a cancelar suas compras que planejava fazer junto à Nvidia. A empresa alertou que, sem os lucros das exportações para a China, não poderá arcar com a pesquisa e desenvolvimento necessários para manter a competitividade e seu quase-monopólio na fabricação de chips.


Essas políticas comerciais, que reduzem os mercados de exportação e as importações dos EUA, são uma das razões pelas quais o dólar está se enfraquecendo. Mas há outras causas: o declínio do turismo, como resultado de os EUA hostilizarem visitantes – em especial, os estudantes chineses, dos quais as universidades norte-americanas dependiam, por serem os que mais pagam.


Estes movimentos não comerciais do balanço de pagamentos explicam por que a política de altas tarifas de Trump não levou o dólar a se fortalecer, mesmo tendo desencorajado as importações. Normalmente, isso aumentaria o saldo comercial. Mas a guerra de Trump contra todos os outros países (principalmente seus aliados europeus, o Japão e a Coreia) levou-os a rever sua dependência em relação às exportações dos EUA. Isso afeta a soja e produtos contra os quais estes países estão retaliando, para proteger seu próprio balanço de pagamentos. E também resulta em reduções no fluxo de turismo externo para os EUA, na menor presença de estudantes estrangeiros, na redução da dependência de importação de armas dos EUA. Acima de tudo, haverá fuga de capitais financeiros dos EUA, visto que o encolhimento do mercado interno do país deve reduzir os lucros dos investidores e o declínio do dólar reduzirá sua margem de ganho.


Além disso, à medida que os BRICS e outros países realizarem as trocas comerciais em suas próprias moedas, este movimento reduzirá sua necessidade de manter reservas cambiais em dólares. Eles estão migrando para as moedas uns dos outros, e, claro, para o ouro — cujo preço acabou de disparar para mais de US$ 3.500 a onça.


5. O Aumento acentuado dos custos da eletricidade, moradia e produtos industriais


A decisão de Trump de impor tarifas sobre insumos básicos, começando pelo alumínio e aço, está aumentando os preços de todos os produtos industriais feitos a partir desses metais.


E, claro, as tarifas estão elevando os preços em toda a cadeia produtiva, à medida em que se esgota a capacidade das empresas de manter as cotações absorvendo o custo dos impostos e reduzindo suas margens de ganho. Agora, seus estoques de bens produzidos pela China, Índia e outros países se esgotam.


Pior: a deportação de imigrantes por Trump aumentou o custo da construção civil, que dependia amplamente da mão de obra imigrante. O mesmo processo atingiu a agricultura na Califórnia e de outros estados na época da colheita. Não está claro quem, se é que alguém, substituirá essa mão de obra.


Trump exigiu que a Europa e outros “parceiros” comerciais dos EUA direcionassem investimentos ao país. Mas seus atos tornaram o mercado norte-americano muito menos desejável. Ao final, ele acabou oferecendo uma lição objetiva de o que outros países precisam evitar, ao criar regulamentações, regras fiscais e política comercial para minimizar seus custos de produção e se tornar mais competitivos.


6. A política monetária eleva as taxas de juros de longo prazo


As taxas de juros de longo prazo determinam o custo das hipotecas e, portanto, a possibilidade de acesso à habitação. A política inflacionária de Trump também aumentou as taxas de juros para títulos de longo prazo. O efeito é concentrar o endividamento em vencimentos de curto prazo, acumulando os problemas de rolagem da dívida em tempos de crise financeira. Isso prejudica a resiliência da economia.


Muitos bens de consumo importados são comprados pelos ultra-ricos – os 10% da população que, segundo relatos, respondem por 50% dos gastos do consumo. Para eles, preços mais altos apenas aumentam o prestígio de itens de status de consumo compulsivo (incluindo caras iguarias alimentares).


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MICHAEL HUDSON

Presidente do Instituto para Estudo das Tendências Econômicas de Longo Prazo (ISLET). Professor de Economia na Universidade do Missouri. Autor de "J is for Junk Economics" (2017), "Killing the Host" (2015), "The Bubble and Beyond" (2012), "Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (1968 & 2003)", entre outros. Conselheiro econômico de governos e agências econômicas na Islândia, Letônia e China.

domingo, 14 de setembro de 2025

Difícil de explicar





Por J Estanislau Filho


Refletir e entender a conjuntura atual exige contextualização a cada instante. Os fatos se repetem num efeito dominó,  confundido até mesmo os melhores analistas.

    Genocídio em Gaza; guerra entre Rússia e Ucrânia; Trump e suas taxações, sanções e deportações; Europa sem rumo; o cerco a Venezuela; a Argentina em convulsão, com o fascista Milei envolvido em corrupção familiar e derrotado em eleições recente; democracias ameaçadas; guerra híbrida; guerras, guerras...

     No Brasil, a condenação histórica de Bolsonaro e militares de alta patente, por tentativa de golpe de Estado. No Congresso, parlamentares bolsonaristas tentam pautar a anistia aos golpistas e lógico, o voto contraditório de Fux, inocentando o chefe da organização criminosa, quando, em fase anterior do julgamento, condenou os arruaceiros de 8 de janeiro, como Dona Fátima de Tubarão, Condenou o motorista do jipe do golpe fracassado, Mauro Cid, que por ser o delator, recebeu dois anos de prisão em regime aberto. Quer dizer, livre, leve e solto.


Charlie Kirk
O assassino de Charlie Kirk

     De volta ao cenário externo, o influenciador fascista, trumpista, Charlie Kirk, assassinado por um de seus pares, gera mais confusão nos corações e mentes, enquanto Eduardo Bolsonaro, continua conspirando, lá nos Estados Unidos,  contra o Brasil.

     As big techs, empresas de tecnologias e seus algoritmos comandam uma nova forma de influenciar o mundo e as pessoas, nos submetendo ao pensamento único, à sua hegemonia.

     Enquanto tudo isso acontece, Tarcísio, Caiado, Zema e Ratinho Júnior, disputam o espólio político de Bolsonaro. O Pastor Silas Malafaia, um bolsonarista raiz, com as mãos nos ombros de Tarcísio vaticinou, chamando-o de politiqueiro: "Quem fala por Bolsonaro é Michele Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro", aos berros. Ovacionado pela multidão na paulista, agora reduzida a pouco mais de quarenta mil, em desfile com a bandeira dos Estados Unidos, que continua pensando que Brasil é o seu quintal. 

     Em meio a essa desordem, que a extrema direita e suas milícias digitais espalha, Lula vai se equilibrando em meio a um Congresso de maioria conservadora, golpista. Para a decepção dessa turba, bolsonarista, trumpista, nossa economia vai bem, assim como, a nossa soberania. Ditadura, nunca mais!




quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Dois poemas de Noélia Ribeiro




 CINEMASCOPE


assediadores do sonho
propensos ao extermínio
mulheres perfuradas
por acrobacia macabra
interrogações sobrepostas
diante de filhos e filhas
dramaturgia em cinemascope
o choro da plateia
não remenda a sede de atalhos
a paz reside em úteros´



TEMPOS VIS


o verão da escrita
faz voar palavras
folhas verdes

o outono da fala
as faz cair
folhas mortas

em tempos vis
palavras desfolham-se



Sobre a autora




Noélia Ribeiro, poeta pernambucana, nascida em Recife, formou-se em Letras pela UnB (Universidade de Brasília). Participou da exposição Poesia agora, na Caixa Cultural (RJ), e recebeu, da Secretaria de Cultura (DF), o Prêmio Igualdade de Gêneros na Cultura. É membra da Associação Nacional de Escritores (DF) e da União Brasileira de Escritores (RJ). Publicou os livros de poesia Expectativa (1982), Atarantada (Verbis, 2009), Escalafobética (Vidráguas, 2015), Espevitada (Penalux, 2017) e assim não vale (Arribaçã, 2022). Tem poemas publicados em antologias, jornais, revistas eletrônicas. A autora reside atualmente em Brasília (DF).