sábado, 27 de dezembro de 2014

Feliz 2015...


bicho do mato





salvo da selva
de pedra a relva
que se eleva
sobre troncos
sobe barrancos
tece redes verdes
cresce e floresce
alimentando a sede
a fome de milhões de seres.

salvo da selva de pedra
é o verso que me tece
e me enreda na rede
de naturais tapetes
fazendo de mim relva.
na selva em que habito
mudei de hábito
e sutilmente
imperceptivelmente
me tornei bicho do mato.


J Estanislau Filho

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

AS COISAS




Seu sorriso de prata rompeu a tranca
do meu coração enferrujado
e as coisas ganharam vida.
Os chapeus se desprenderam da chapeleira
e dançaram pela casa.
Chaveiros vaso de porcelana cadeados
martelo talheres foram respirar o ar lá fora.
A velha cadeira abandonada caminhou pelo quintal
sob o olhar compassivo das grades combalidas.
O sofá colocou-me no colo e alçou voo
sobre a copa das árvores.
As coisas ficaram em movimento ante
seu sorriso de prata.



J Estanislau Filho

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Toda Nudez Será Castigada




     
Nascemos nus.

     Quando menos se espera lá vem a bronca:
     - Menino(a) sem vergonha, vá se vestir!
     - Menina fecha esta perna senão vai apanhar!
     Repito: nascemos nus, inocentes. Depois de abraços e carícias, inclusive em nossos órgãos genitais, nos ensinam rudemente que a nudez é feia. É preciso esconder o corpo.
     Vergonha + Medo = culpa
     Assim vamos crescendo e compreendendo a lógica dos adultos e da educação. Reprimidos nos tornamos inseguros e em algos casos, promíscuos - vertente perversa da repressão. Cheio de sentimentos de culpa e medo, estamos preparados para o convívio social: subjugados, anulados. 
     Nascemos nus. Na medida em que crescemos, cobrimos e nos cobrem com as mais estranhas vestes até o fim de nossos dias, quando nos cobrem com o paletó de madeira.


J Estanislau Filho.
Do livro Crônicas do Cotidiano Popular - Ed. do Autor 2006


Confiteor



Confesso-me papilonácea.
Transparente.
Através das asas,
pode-se ver meu entorno.
Exaurida de ser seguida, 
poso trêmula no lírio aberto,
que tremula também ao vento.
e nos quedamos a fremir juntos .
Contamo-nos das mágoas 
que outrem nos causou.
Trocamos sonho, esperanças e invenções
para alcançar um futuro risonho.
Mas somente eu, poderei ir embora.
Ele está preso às raízes, ao caule.
Refaço-me  da viagem anterior:
ele oferece-me seu pólen, sua seiva.
Minhas asas secaram.

Alço voo.

Clevane Pessoa.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

As Rosas Falam



No momento em que eu secava o suor da testa, depois de preparar as dezoito covas, para o plantio das dezoito mudas de rosas vermelhas, brancas, rosas compradas na Flora Jardins do Éden, Débora arrumava as malas.
     No momento em que eu terminava de plantar a última rosa, um mensageiro me entregou um envelope com uma mensagem de Débora, que li após beber um copo de água cristalina e limpar novamente o suor da testa com um lenço de papel. Na pressa de saber o conteúdo, fiz uma leitura dinâmica. Como o meu coração parecia querer sair pela boca, respirei e li pausadamente cada palavra. Olhei as rosas, e, por um instante tive a impressão de ver lágrimas escorrerem das pétalas.
     Débora era assim: para certos assuntos preferia as cartas manuscritas, seladas e enviadas de forma tradicional, em vez de usar o correio eletrônico ou o celular.Acontecia de pagar um mensageiro, quando o assunto era urgente.
     Quando me sugeriu, quase em tom de súplica, o plantio das dezoito rosas enfileiradas, que nos conduziriam ao limiar da porta de entrada de nossa nova casa, cujos ambientes foram pintados de acordo com as cores das rosas, Débora disse, após beijar-me sensualmente, que éramos o casal mais feliz do mundo. Ela quis o nosso quarto cor de rosa rosa; eu pintei a sala e a copa de branco, enquanto ela pintava a biblioteca de vermelho. A maior parte da pintura foi eu em quem realizou, mas as pinturas de Débora ficaram primorosas. Na parte externa distribuímos as três cores e fizemos o mesmo com as grades e o portão. Nós a chamávamos de A Casa das Três Cores, que daria um novo alento ao nosso amor, que nos três dos dezoito anos de casados caíra em uma rotina tediosa.
     Plantei-as intercalando as cores como Débora pediu-me. Na verdade, os pedidos dela eram exigências. Eu não contrapunha, pois ela tinha um senso estético extraordinário. A casa estava bonita. Só faltavam os móveis. Combinamos botar fora os antigos, para apagarmos as boas e más lembranças deste período. Vida nova, dizíamos entre beijos e abraços.
     No momento em que refletia sobre o nosso novo projeto de vida, Débora pegava um táxi e se dirigia ao aeroporto internacional, rumo à França, onde faria pós-graduação de arquitetura na Universidade de Paris. Débora detestava despedidas.
     Quando fui ao Jardins do Éden escolher as rosas, o florista orientou-me como tratá-las: Rosas são frágeis como o amor. Se não cuidar com zelo elas morrem.
     Escolhi uma a uma, as mais viçosas. Eu as queria homogêneas e esplendorosas, para formar uma linda passarela. Comecei a andar em círculos, refletindo sobre a mensagem de Débora, quando reparei que havia algo mais dentro do envelope. Era um pequeno  envelope de papel crepom lilás. Ao abri-lo, levei um baque: lá estavam as alianças destinadas a selar os nossos compromissos e o anel de brilhante que eu lhe dera ao completarmos três anos de casados. Todas as noites, ao me deitar, adquiri o estranho hábito de retirar a aliança e depositá-la sobre o criado. Acontecia de esquecer de colocá-la no dedo ao me levantar e ir para o trabalho. Débora não se conformava.
     Dentro do envelope havia um bilhete em um minúsculo papel, com as letras miúdas de Débora, obrigando-me a colocar óculos, para ler. Débora pedia para que enterrasse as alianças na primeira rosa vermelha e o anel na primeira rosa branca. Na primeira rosa cor de rosa eu deveria plastificar o bilhete e enterrá-lo.
   Tive dificuldades de ler a última frase: "Compre alianças grossas do mais puro ouro e me surpreenda com um novo anel. Até breve, beijos daquela que te ama muito.
      Fiquei um longo tempo admirando as rosas enfileiradas, ouvindo-as dizendo entre si: Isso é amor!


J Estanislau Filho - do livo Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros -Editora Protexto.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Heráclito



O segundo crepúsculo.
A noite que mergulha no sono.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo.
A manhã que foi a aurora.
O dia que foi a manhã.
O dia numeroso que será a tarde gasta.
O segundo crepúsculo.
Esse outro hábito do tempo, a noite.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo...
A aurora sigilosa e na aurora
o soçobro do grego.
Que trama é esta
do será, do é e do foi?
Que rio é este
por onde corre o Ganges?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou o rio.
De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra
surjam, fatais e ilusórios, os dias.

Jorge Luis Borges

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Retrospectiva 2014 - segundo J Estanislau Filho.






Em 2014 tudo, ou quase tudo ficou mais transparente. Verdades e mentiras; amor e ódio; alegrias e tristezas; vida e morte. Situação e oposição. Tudo se espalhou com uma velocidade nunca antes imaginada.

     O Imagina na Copa bombardeava corações e mentes. A copa não se realizaria e mostraria ao mundo a incompetência do governo federal. Houve manifestações, vaias. Máscaras caíram. Fora o vexame da nossa seleção, a copa foi um sucesso. A vaia planejada veio da área vip. Um ódio longamente construído pelos donos das grandes empresas de comunicação. 

     O preconceito acentuou com o programa mais médicos. Com seus jalecos, a máfia de branco destilou ódio sobre os médicos estrangeiros. De forma ainda mais sórdida sobre os médicos cubanos. Os negros foram os que mais sentiram na pele o ódio e a falta de ética de parte da elite de jaleco branco. "Elas têm cara de domésticas". De uma tacada, ofenderam domésticas, médicos negros e negras cubanos. Outro argumento muito utilizado pelos reacionários foi a construção do porto de Mariel em Cuba em detrimento da saúde e da educação. Ecoava o grito de "vai pra Cuba".

     Nova derrota imposta aos destiladores de ódio. O mais médicos, embora não tenha resolvido os problemas da saúde, atenuou muito, em especial ao dos usuários de comunidades de difíceis acessos.

     As organizações Globo (que sonegaram 615 milhões de impostos), em conluio com a revista Veja, Folha, enfim, com os grandes veículos de comunicação, incluindo as rádios, que receberam a alcunha de PIG (Partido da Imprensa Golpista) não davam (e não dão) tréguas à situação e protege a oposição. Se fatos não existiam, inventavam factoides. Os coxinhas se assanhavam. Pseudo-líderes nasciam como capim tiririca e tinham seus segundos de fama na telinha. Um se destacou nas redes sociais: Lobão, um entre outros olavetes, reinaldetes.
     
     Ano de eleições, o projeto da oposição de voltar ao poder, com apoio aberto e escarrado dos barões da mídia não logrou êxito. Dilma disparava na preferência do eleitor. Inicialmente apostaram em Marina Silva, que não conseguiu o registro de seu partido, a Rede Sustentabilidade. Filia-se ao PSB e vê suas chances de conquistar a presidência com a morte trágica (até hoje mal explicada) de Eduardo Campos. Marina encosta em Dilma, segundo as pesquisas. Aécio Neves despenca. Enquanto isto a Comissão Nacional da Verdade busca documentos sobre o período da ditadura militar.

     Quando tudo indicava um segundo turno entre Dilma e Marina, uma viagem da ex senadora aos Estados Unidos,  muda o cenário e Aécio Neves sobe nas pesquisas, ultrapassa Marina. Euforia no sistema financeiro; neoliberais privatistas se assanham. Os conservadores mostram suas garras. Surgem as primeiras denúncias de corrupção na Petrobrás, que por meio da Polícia Federal e da Operação Lava Jato (ainda em processo de investigação) leva à cadeia vários empresários envolvidos. 
     Depois de uma campanha despolitizada, de ataques e ausência de propostas concretas (programas de governo), Dilma se reelege. Se a oposição tinha a Globo & Cia, Dilma tinha Lula e a militância, agora com a força das redes sociais. Aécio é derrotado em seus dois estados: Minas, onde fez carreira política e no Rio de Janeiro, seu lar. Findada as eleições alguns internautas se dizem de luto. Do outro lado alguém diz "aceita que doi menos". Luciana Genro aparece como alternativa à esquerda. 

     Três notícias ruins para o candidato Aécio Neves teve pouca repercussão na mídia empresarial: 1 - o helicóptero com 450 kg de pasta de cocaína, pertencente aos aliados, Senador Zezé Perrella e seu filho, o Deputado Gustavo Perrella. 2 - A construção do Aeroporto de Cláudio-MG, construído com dinheiro público em benefício da família de de seus apaniguados. 3 - A liberação de dinheiro público para as rádios e tv's de propriedade do candidato tucano.

     Nas redes sociais os amigos virtuais apresentam suas posições. Alguns se agridem e se excluem. Surgem fakes, robôs a serviço de seus candidatos. Tudo fica mais nítido. Outros tantos não saem dos muros; outros dizem que odeiam política. Impossível, diante das tensões, manterem-se neutros. Os argumentos são sofistas. E há quem peça o retorno dos militares. Ah, os poetas, alguns conseguem ficar de fora do debate. "Não, só quero fazer poesia".

    A seca atingiu em cheio o sistema Cantareira. Os paulistas tiveram de recorrer ao carro-pipa, aos baldes. E o governador avançou sobre o volume morto.

    A economia mundial patina. Desemprego em alta. Estados Unidos, Europa. A Espanha passa dos 26% da população economicamente ativa desempregada. O gigante chinês desacelera. Conflitos étnicos e religiosos continuaram provocando guerras. Israel bombardeia a Faixa de Gaza, num conflito ad infinitum.

     Ainda no plano internacional, Estados Unidos e Cuba se reaproximam após 50 anos de bloqueio econômico. O governo brasileiro teve papel importante na costura do acordo. E o porto de Mariel, duramente atacado pelos conservadores, agora é considerado estrategicamente um sucesso, pelos mesmos que condenavam.

     Se no futebol as coisas não foram boas para a seleção brasileira, o ano foi ótimo para os mineiros. Cruzeiro sagrou-se campeão brasileiro e o Atlético levantou, pela primeira vez a taça da Copa do Brasil.

     Faleceram em 2014, além do político do PSB, Eduardo Campos, Roberto Bolaños, mexicano pai do Chaves, Seu Madruga, entre outros; Marly Marley; Eduardo Coutinho; Paulo Goulart; Canarinho; José Wilker; o escritor, autor de Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez; o locutor esportivo Luciano do Valle; Mãe Dináh; Jair Rodrigues; o jogador de futebol Fernandão; Robin Willians; Ariano Suassuna, entre outros.

     O Deputado Jair Bolsonaro diz não estuprar a Deputada Maria do rosário, porque ela não merece.

     No plano pessoal, terminei de escrever dois livros: O romance (ou novela) A Construção da Estrada de Ferro, iniciado pelos idos de 1978; A Moça do Violoncelo e Estrelas - dois livros em um.


J Estanislau Filho

Desejo às amigas e aos amigos, leitores e leitoras um feliz 2015.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

DEUS SEGUNDO SPINOZA



“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade
fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo
o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem,
no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos,
de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar
a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar,
que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida,
que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar.
Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada,
terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste,
se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias
teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui,
que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.


Baruch Spinoza



Baruch (Benedictus, em latim) Spinoza era de família judia de origem portuguesa. Seu pai era um comerciante abastado. Criado dentro do judaísmo, Baruch estudou a Bíblia Sagrada e o Talmude, o livro dos ensinamentos rabínicos. Entre os anos de 1654 e 1656, dirigiu os negócios de sua família, mas, em junho desse ano, foi acusado de heresia e excomungado, tendo de abandonar a comunidade judaica. Mudou-se, então, para Leyden e depois para Haia, onde passou a viver de seu trabalho como polidor de lentes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VERSOS AVESSOS




é poeta de rima pobre
pois a tristeza o cobre
por levar vida vulgar


não plantou árvores
não escreveu livros
sequer soube amar


é pedra de mármore
não consegue ser livre
é prisão o seu lugar


um homem sem brilho
não viu crescer os filhos
nem viu noites de luar


é o contraponto do amor
poeta pífio incolor
sem lágrimas a derramar


não gosta de diálogo
nem de monólogo
mal sabe resmungar


um sujeito inepto
pra lá de inapto
só sabe reclamar

é um pobre na chuva
niilista minimalista
deixando-se molhar


come bunda de tanajura
seus versos vãos prolixo
seus versos vão pro lixo


é aquele que deus esconjura
é satã em plena fúria
a fustigar a loucura


adolescente era o cão
chupando mangas do chão
matava pássaros por nada


diz ter levado porrada
pois nunca foi príncipe
é mendigo nas escadas...



J Estanislau Filho

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Árvore de Natal




Em novembro, uma chuva mansa veio anunciar que viria para ficar por tempo indeterminado. Contudo, um sol oportunista aproveitava a distração das nuvens e se abria em esplendor tímido, momento propício, para sairmos de casa, deixando os móveis e utensílios domésticos inconformados, com pratos e panelas caindo desesperados dos armários, cadeiras se arrastando pela casa em sinal de protesto, livros dialogando na estante, escovas de dentes e creme dental lamentando beijos adiados, portas que batiam e eram trancadas por mãos invisíveis.
     O aguaceiro de novembro parecia não ter fim. Instalado no quarto, folheando um livro de Patativa do Assaré eu ouvia Les Quatre Sainsons de Vivaldi, pensando nas festas de Natal que se aproximavam. Nas casas, as árvores sendo montadas, cobertas de bolinhas coloridas, com pisca-piscas multicolores. Embora visse mais razões comerciais nas festas natalinas, ficava encantado com a criatividade das famílias. Até neve de isopor cobriam as árvores em um país onde não há neve. Pensei em Sebastião Benevides e em Dona Maria, católicos praticantes, velhos amigos e antigos vizinhos, que o acaso e motivos destrambelhados  decidiram interpor em nossos caminhos. Quando nos encontramos, depois de alguns anos sem nos vermos, percebemos como o tempo é implacável. Através deles notei o meu envelhecimento. Falamos pouco, faltava assunto. Decidi por não entabular assunto corriqueiro, como até quando esta chuva vai continuar, e os meninos, como estão?. Não queria pedi-lo para tocar seu violão e cantar as antigas modinhas que embalavam nossas tardes felizes no bairro Lindéia, porque não suportaria remexer o baú da memória, trazendo à tona lembranças amarrotadas. Porém, ele não se mancou, pegou o violão e com voz rouca deu início à cantoria. Seus dedos se perdiam nas cordas do violão e suas cordas vocais extraviavam desvairadamente. Mais uma vez percebi que as modificações processadas pelos anos estão mais no outro que em nós. Perguntei se notara diferença em minha voz e ele respondeu, talvez para não me machucar, que eu estava em boa forma. Sebastião Benevides e Dona Maria mantinham a tradição de todo Natal decorar a casa, comer peru assado e se dar ao prazer de beber um vinho. A árvore de natal era sagrada. Às vésperas do ano novo faziam questão de visitar antigos amigos, perdoar as ofensas recebidas e desejar  um próspero ano novo a todos. Nesta época do ano eles surgem em meu pensamento, obrigando-me a recordações que julgava esquecidas.
     Neste ano, eu estava em nossa chácara, rodeado por árvores insofismáveis e pássaros, com pena e cantar interminável. Para ali eu sempre ia quando queria me refugiar do som e da fúria urbana. O casal de sabiá fizera seu ninho sobre uma pilastra da varanda, a fêmea botara dois ovinhos e os chocava sem se incomodar com o meu vai e vem. Acompanhei tudo desde o início, quando o casal começou a construção do ninho. Engana-se quem pensa que só um zela pelas crias. Não param de trazer insetos para os famintos filhotes. Depois de criarem penas, vi-os treinando para o primeiro voo. Batiam as asas sucessivamente para se ver se podiam pular do ninho. Os pais observavam à distância quando eles decidiram ganhar vida própria, construir seus destinos. E quando se foram o casal iniciou um novo ciclo para trazer ao mundo mais sabiás.
     Debruçado sobre o peitoril da janela percebi que a árvore próxima à entrada da casa estava coberta de flores. As trepadeiras, brincos de princesas, tuberjas e lágrimas de cristo enroscaram-se no tronco e
subiram pelos galhos e coloriram a árvore com suas flores. A natureza cuidara de montar a mais bela árvore de natal que eu já vira. E bem na minha porta. 



J Estanislau Filho - do livro Crônicas do Cotidiano Popular - Edição do Autor - 2006-Esgotado

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Serra do Cipó




Perto do céu, falando com Deus,
coração aberto, alma lavada,
distante da fúria urbana,
rosto colado nas nuvens,
um homem contempla a paisagem
no topo da Serra do Cipó.

Onde Deus não é ranzinza,
não outorga ideias caretas,
onde Deus é a Natureza
: cachoeiras, flores arrebentando nas pedras,
explodindo cores,
Deus é o relâmpago, o trovão, a chuva,
o sol, a lua, estrelas,
onde o tempo se manifesta de forma indelével
e o homem vale tanto quanto a mais tenra planta.

A borboleta, que antes era uma crisálida
voa lépida de um lado ao outro
compondo o cenário.

A água brota da terra e escorre,
cai sobre montanhas de pedras,
vira cachoeiras e por onde passa
deixa um rastro de beleza,
que se torna ainda mais bela com o desfile de três mulheres nuas
de cabelos enfeitados por flores do cerrado.


J Estanislau Filho - do livro Todos os Dias são Úteis - Edição do Autor - 2009 - esgotado.

sábado, 6 de dezembro de 2014

VALE

A Vale,
outrora do Rio Doce
era nossa.
Hoje só vale
promessa nos comerciais.
Vale,
vala comum
de lucros colossais.
Vale,
vela volátil
valha-me Deus,
muitas velas para poucos uns
breu e bruma para muitos alguns.
Vale,
verso versátil...
não vale a pena verso
para vale adverso
valeria se vale fosse
do Rio Doce.
Fosse nossa
não seria vale de lágrimas.
Vale cada vez mais
verde covarde
amarelo sangue_
suga os recursos naturais.


J Estanislau Filho

Do livro Palavras de Amor, que pode ser adquirido na Livraria Leitura
www.livrarialeitura.com.br 

LUGAREJO DISTANTE





        Existe uma estrada estreita, empoeirada, que leva a um lugarejo distante. Siga esta estrada, porque não há outra que o leve a este lugarejo. Depois de andar um longo tempo, corpo suado, com sede, surgem à sua frente várias estradas. Olha e observa qual delas o levará ao lugarejo distante. Escolha a que lhe parece mais apropriada. O caminhante está feliz e lembra as palavras do avô: "Todas as estradas que conduzem a lugarejos distantes são armadilhas sutis da natureza". O caminhante não desiste da empreitada. Ele chegará ao lugarejo distante, e mesmo que não chegue, o que é impossível, as pedras gritarão. Sob o sol abrasador avista uma cachoeira. Ruma para lá.


J Estanislau Filho - do livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros

Acesse www.protexto.com.br e adquira.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Crônica do Amor Virtual 2


Matusalém decidiu não ficar mais aquém das novidades tecnológicas. Jurou passar por uma transformação radical, tendo como testemunha a própria imagem refletida no espelho do banheiro. Sorriu satisfeito, mandou beijinhos à imagem. Sentiu um breve desconforto, pois teve a impressão de que o Matusalém do espelho esboçou um gesto negativo. Na dúvida mandou novo beijo. Ao ser retribuído sentiu-se aliviado.
     Queria arrancar o rótulo de antissocial, que os colegas de repartição pregaram em sua testa e que machucava o seu coração sensível.
     Aspirava adquirir confiança por meio da internet, onde poderia se proteger por pseudônimos e fotos disfarçadas, conforme ouvira inúmeras vezes relatos de alguns colegas. Com amigas virtuais, quem sabe superaria a timidez. Quiçá encontraria um grande amor.
     Devagar Matusalém, devagar, pois nesse angu tem caroço, alertava seu demônio interior.
     Se não fosse tão tímido teria enxergado Cordélia, colega de repartição, mulata de pernas grossas, bunda arrebitada. A mulata tinha este  nome por ser filha de um autor de literatura de cordel. Jogava as tranças para o songamonga, cruzava e descruzava as pernas, acariciava com os dedos os cabelos longos e lançava olhares de peixe-morto ao distraído burocrata.
     Foi a ousada mulata quem o aconselhou a consultar uma psicóloga, "Matusa, o que há com você? A gente trabalha junto a mais de três anos e continua monossilábico, tem algo de errado nisto"! Cabisbaixo respondeu um "não obrigado" com voz inaudível.
     "O que foi que disse, Matusinho?", perguntou Cordélia, inclinando-se ligeiramente, deixando à mostra o colo esplêndido. "Nada, não disse nada", respondeu Matusalém, desta vez quase aos gritos, atrapalhado em meio a papéis, calculadora e carimbos. "Despudorada", disse ao seus botões.
     Pouquíssimas pessoas sabiam que Matusalém morava e cuidava praticamente sozinho da mãe asmática. Dona Emengarda, vizinha e velha amiga da família, era a rara companhia de sua querida mãe, quando ele ia trabalhar. Em acordo tácito, dava a ela uma polpuda grana todo mês e ela vinha com a mesma latomia "que é isto Matusalém, faço isso pela amizade, não precisa". Mas precisava.
     Certo dia, ao retornar do trabalho encontrou-a, como sempre, sentada em sua cadeira de balanço, localizada na varanda, em frente ao belo jardim que Matusalém trazia sempre bonito. Agradeceu e liberou a vizinha após beijar a mãe na testa. Em seguida foi tomar seu banho. Ao retornar, para conversar um pouco com ela, encontrou-a dormindo. Admirou o jardim, aproveitou para fazer umas podas nas roseiras, arrancou mato com as mãos e refletiu um pouco sobre as mudanças planejadas. Voltou a sentar-se ao lado da mãe. Achou estranho o silêncio. Percebeu que ela não respirava.
     É isto mesmo, Dona Armênia faleceu e para espanto geral, Matusalém reagiu serenamente. Como de praxe, chorou, colocou óculos escuros no dia do enterro e cumpriu as exigências do luto, mas quando alguém o consolava, dizia "é a vida, a gente nasce, cresce, fica velho e morre, amanhã serei eu, você, todos nós". 
     Agora morava inteiramente sozinho em um casa ampla, da qual era o único herdeiro. Carro do ano na garagem, bom salário, solteirão, Matusalém era o que chama de bom partido. Choveria candidatas em sua horta, não fosse tão ensimesmado.
     Mas isto mudaria.
     Em tempos de dvd's continuava com o arcaico vídeo-cassete. Peça de adorno brega, pois não existiam mais fitas vhs's. Sentiu um aperto no peito ao mandar tudo para a reciclagem: vídeo-cassete, fitas cassetes (uma montanha), a velha vitrola e os novecentos e cinquenta e sete  discos de vinil. Nelson Gonçalves uma raridade, Altemar Dutra, Djavan, Maria Bethânia, Paralamas do Sucesso, Elis Regina, Paulinho da Viola... todos os vinis do Rei. Acariciou Zizi Possi, verteu algumas lágrimas para Chico Buarque e Gil. Beijou Nana Cayme, The Beatles, Bee Gees. Fora com tudo! Compraria cd's, devd's, pen-driwes. Fora, vida nova Matusalém!
     Porém precisava reestruturar-se. Comprou tv de plasma. Cinquenta e duas polegadas, tela finíssima, home teacher, dvd, celular com acesso à internet banda larga e, lógico, computador completaço, última geração. Uma potência. Net velocíssima. Mas havia um problema: Não sabia operar a parafernália eletrônica.
     Depois de seis meses de curso intensivo, dominou a máquina, conhecia os aplicativos. Matusalém fazia jus ao nome. Queria ir além. E foi.
     Inscreveu-se em sites de namoro, entrou na rede: Orkut; Facebook, MSN, os cambau. Gostou do pseudônimo: Sol Tímido. Quentíssimo, porém tímido. Louras, negras, galegas, baianas, mineiras, paulistas, adicionou todas até o dia em que conheceu Lua Solitária. Trocaram mensagens, bateram muito papo; conversavam até o dia clarear, pela cam. Abriram os corações, ganharam confiança e revelaram suas verdadeiras identidades. Foi amor à primeira visão virtual. E se encontraram pessoalmente.
     Matusalém Abdoo, chefe de repartição, 46 anos. Ignez Maria, perfil balzaquiana, do lar...Idade? Nem sob tortura. Sol Tímido e Lua Solitária. Encaixe perfeito.
     Depois de um namoro fugaz decidiram se casar. Compraram um par de alianças e-nor-mes.
Sessenta dias, tempo do fluxograma de papeis correrem cartórios...
     Quando Ignez atirou o buquê de flores, foi Cordélia quem o agarrou com mãos firmes. Os colegas de repartição compareceram ao casamento e à recepção.
     Matusalém e Ignez estão felizes. Fazem planos de ter um filho, ou filha, o que vier será bem-vindo. 
     Se ficarão juntos e felizes para sempre só o tempo dirá.



J Estanislau Filho - do livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros. à venda na Editora Protexto: www.protexto.com.br 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Delírios de Rosas

´



Fabrício Valdéz esfregou os olhos com os punhos cerrados, naquela manhã em que o cheiro de rosas brancas invadiu seu valhacouto, serpenteou sob a manta de estampas coloridas, presente dos ciganos, que a cada quatro anos, no verão torrencial, armavam barracas de lonas puídas em suas terras, para vender tachos de cobre aos moradores do vilarejo, cavalos e burros decrépitos como se fossem jovens, graças a artimanha de colori-los com tintas  extraídas de plantas. O cheiro das rosas penetrou em suas narinas, expulsando de vez o sono de uma noite premonitória.
     Sentou-se com dificuldades, tateou o chão com os pés à procura das pantufas de cetim rotas, única lembrança de Catarina Flor, que o abandonara naquela noite de tempestade desmesurada, com as andorinhas em algaravias, e que decidira, para colocar-se a salvo dos tormentos dos remorsos, revelar com quantas mulheres havia se deitado no transcorrer de vida a dois. Pela primeira vez ao longo dos trinta e três anos de solidão, praguejou que merda ao refletir sobre o sentido das palavras de Flor, seu desgraçado, réprobo, porque não carregou esta ignomínia para o túmulo!
     Às vésperas de completar noventa e oito anos, trinta e três de solidão em companhia de bêbados, drogados e prostitutas, não estava certo de alcançar a cocaína que o reanimava desde que Catarina Flor desaparecera naquela noite sob a chuva de granizo, que provocara uma desordem descomunal no vilarejo, matando porcos, cavalos, galinhas, cães e outros seres indefesos, destelhando casas, deixando por vários dias um odor putrefato.
     O cheiro de rosas brancas intensificou-se ao tentar tocar a aldrava e desta vez lamentou que merda, como pude magoar minha prófuga andorinha! Neste instante uma rajada de vento descerrou as janelas e pétalas de rosas, como aves migratórias invadiram o quarto, pousando suavemente sobre sua cama, no chão, nos móveis. Milhões de pétalas foram cobrindo o corpo caquético de Fabrício Valdéz e entre elas identificou Catarina Flor, vestida de branco, dançando com leveza, tendo nos lábios e nos gestos a pureza dos justos. As pétalas foram se amontoando placidamente no valhacouto até alcançar o teto. As que não conseguiram espaço interno foram amontoar-se ao redor da casa sob os olhares diáfanos de lírios, de rosas.



J Estanislau Filho - do livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros

Dedicado à memória de Eno Teodoro Wanke e ao genial Gabriel Garcia Márquez.