quinta-feira, 26 de maio de 2016

Senilidade.




Um ancião atormentado pela memória fugidia encontrava-se parado diante do caixa eletrônico do banco. Olhava a máquina como quem olha um ser vivo, pois dizia algo a ela. Uma moça bonita como um anjo, vestida de azul-celeste, que a identificava como funcionária da agência, disse: posso ajudá-lo? Ele recusou-se peremptoriamente. Disse não ser um débil mental, e mais: Passei a minha vida pegando boi pelos chifres, portanto, não tenho medo deste bicho insignificante. Atrás dele a fila crescia impacientemente. Alguém disse, tire este velho daqui. A assistente insistiu em ajudá-lo a se decidir, segurando-o pela mão educadamente. Os impacientes procuraram outro caixa, acompanhados por todos e a fila se desfez. O ancião tornou-se usuário exclusivo do equipamento, com o qual continuava um monólogo inverossímil . Algumas pessoas de boa vontade tentaram uma solução, como procurar se havia nas imediações algum parente; outros procuraram a gerência, pois entendiam ser de responsabilidade da empresa um tratamento adequado às pessoas portadoras de necessidades especiais. Quem seria ele? Os mais curiosos ouviam com atenção o que ele dizia com voz rouca: Pau que nasce torto em casa de ferreiro, antes eu fosse marceneiro, mas o pai dizia que o futuro era a forja; profissão boa é a que oferece oportunidade de emprego, filho! Alguém, irritado, chamou a funcionária do banco: socorre aqui meu bem, senão a fila não anda! Novos usuários incautos formavam nova fila no caixa monopolizado. E o idoso continuava conversando com a máquina de vomitar dinheiro. Pernas bambas, trôpegas, falando mesmo com quem? Na rua seria que enxergava semáforos, faróis, calçadas, plantas, carros? Leria letras miúdas das embalagens? Apertou as teclas da máquina e sorriu ao ver a tela mudar de cor. Usou todos os dedos tocando as teclas com delicadeza. Seriam teclas de piano? Acordeom? Seria ele um músico? Senha, a senha! Esqueci. Perdi o sonho, perdi o sono. Moço, o ônibus cento e dois b passou? Eu não enxergo de longe, o motorista não para. Moro na rua Flamboyant. Fica no bairro Eldorado. Ele não sabe, a rua mudou de nome, agora se chama Gilda Maria. Um momento, senhor, vou ajudá-lo a atravessar a Av. João César. Aqui da Caixa até lá é perto, podemos ir a pé, mas moça, todos sabem, idoso não paga passagem, preciso ir buscar a senha. Honestamente achei que ele zombava de mim. Como o senhor se chama, perguntei. Getúlio Vargas foi o melhor presidente, pai dos pobres. Esse aí, o Brizola, não voto nele. Não será igual ao Getúlio, porque... a minha mulher saiu de casa e não voltou. Tenho uma filha nos Estados Unidos. O senhor me conhece? Pediu-me para marcar uma audiência com Getúlio Vargas. Tive ímpetos de dizer-lhe que a agenda do céu estava esgotada. Disse-lhe então, que tanto Getúlio quanto Brizola, morreram. O Presidente da República é o Lula, disse-lhe ao pé do ouvido. Quem é Lula? Falava de coisas passadas. De quando pegava bois pelos chifres; de subir em pés de jatobás; pegar filhotes de pássaro-preto; guiar carros-de-bois, fazer farinha e rapadura. A mulher cuidando da casa, preparando o almoço para os trabalhadores no eito. Na labuta, preparando a terra, para semear os grãos. Moço, o senhor não sabe, mas fiz de tudo nesta vida: Plantei lavoura de toda qualidade: arroz, feijão, café, cana, fumo...(pausa). O fumo, veja só que ironia, foi a minha salvação e de minha família. Eu que nem fumar , fumo. Ainda tive tempo de virar metalúrgico, coisa que eu não queria. Fiz greve, participei de piquetes. Agora eu fico reparando as coisas. O Carlos Lacerda não presta, mas o Alcino, pistoleiro a serviço de Tenório Cavalcanti, não fez o serviço direito. Como pode mirar o peito e acertar o pé? Um ancião longe do presente. Aquele homem, dizia apontando para um lugar qualquer, está de tocaia para me matar. Fiquei pensando como alguém deixa um ancião sair sozinho. Será que tem filhos mesmo?. Agarrou-me pelo braço e pediu-me proteção contra o assassino imaginário. O que fazer? Eu estava atrasado para o trabalho. Enfiei a mão em seu bolso e encontrei alguns documentos embrulhados em papel-plástico: um cartão magnético da Caixa, apagado, título de eleitor e identidade ilegíveis. Procurava o número de um telefone. Avisar algum parente do paradeiro do idoso. Que situação! Olhei de um lado a outro, nenhum sinal de alguém que o conhecesse. Melhor chamar a polícia. Não, por enquanto não. A polícia está sobrecarregada, ganhando mal. O que eu tenho com isso? O velho decidiu não soltar o meu braço. Pedia: aquele homem quer me matar, vamos embora pra casa. Onde o senhor mora? Perguntei por perguntar. Já sei, rua Flamboyant. Mas e o número? O jeito é ir à rua e bater de porta em porta. Ela não é tão grande. Agora sim, perdi o compromisso. Com todo respeito à polícia, eu mesmo vou resolver esse caso. Não posso deixá-lo aqui. Vamos pensar: ligo e cancelo o compromisso? Como é mesmo o nome do senhor? Ah meu filho! É Zé. Não consigo ler, José Fr...co d. Ican... Preciso do nome completo. Ela se chamava Maria Madalena, era linda, uma cigana... Quando soube que eu era casado, ela se desatinou. Porque eu era danado, um rabo-de-saia, mas abandonar minha Filó, nem pensar, só a morte nos separaria e Madá não teve forças de suportar o tranco. Foi triste. Estava toda desfigurada, não era a minha cigana fogosa, ainda assim, tinha brilho os seus olhos. Na hora do enterro fiquei firme, segurei a dor, mas no terceiro dia, montei no meu alazão e o deixei ir aonde quisesse. Conhecedor de minha tristeza, ele me levou ao local mais solitário que podia existir: O Vale das Lágrimas. Lá eu chorei lágrimas de sangue, porque a ausência de Madalena acabou comigo. Era e ainda é uma dor difícil de avaliar. Se é que o senhor entende a dor da perda de um grande amor. Madalena queria que eu largasse Filomena e isso eu não podia, por causa dos compromissos feito com Deus, com as bençãos do Padre Josué.
   Nesta altura eu estava decidido e até sossegado. O dia prometia. Peguei-o pelo braço e saímos andando pela Av. João César de Oliveira, ele falando da cigana, de Filomena, de tocaias. Eu me sentia cansado da rotina de compromissos inúteis, infeliz em um trabalho de Sísifo. À merda tudo isso. Tirei o dia para ficar por conta do velho e de suas histórias inverossímeis. Chegamos ao Parque Ecológico Eldorado, ele olhando como se nada daquilo constituísse novidades. Tentei contar-lhe como o povo se mobilizara para transformar aquela área degradada em um parque, falei do Conviverde, de ambientalistas, do conselho de meio ambiente, mas ele não me ouviu. Sabe meu filho, certa noite eu acordei com um barulho esquisito vindo do curral. Peguei a lanterna, o revólver e saí para ver o que era. Os bezerros estavam agitados, as galinhas também. Mas nada que suspeitasse de onça pintada. Porque se fosse onça, o barulho no chiqueiro seria enorme. Desconfiei de ladrão de cavalo. O Zé Marcolino tinha sido preso várias vezes por roubo de cavalo. A polícia e os bate-paus não tinham piedade. Havia denúncia de roubo de cavalo, Zé Marcolino caía no couro. Às vezes nem era ele. Mas sabe como é: fez fama, ganhou a cama. O ancião só retomava o rumo da história, depois de eu dizer-lhe que o causo carecia de um final. - Aí eu fui até o pasto, não vejo a mula ruana e ouço passos leves: era ela sendo levada. Vou seguindo aquele pisar que conheço bem, quando dou de frente com o ladrão. Aponto o revólver e digo solta esta mula, porque ela tem dono e você está preso, em nome da lei! Nesta hora, não sei o que me deu, quando vi tinha apertado o gatilho. Notei que eu não tinha preparo para essas coisas. Polícia e bate-pau não perdem o controle. Quando disparei a arma, o estranho saiu correndo. Não era o Zé Marcolino, porque ele eu conheço bem. Até fez uns serviços para mim. Recuperei, mas a dor de ter tirado a vida de alguém não me deu sossego, mesmo sendo um ladrão. Não sei se morreu, nem sei quem era. Conheço os mandamentos e não matarás é o terceiro. Não dei conta de viver naquele mudéu de tanta tristeza e vim pra cidade grande. Ser metalúrgico era o desejo de todos. Trabalhar na Mannesmann ou na Belgo-Mineira era como ganhar na loteria. Eu sou contra esse trem de greve, mas não ia trair meus companheiros. Isso nunca. Você viu meu filho por aí? Não, respondi, como ele se chama? Seu Zé entrou em novos devaneios. A pior coisa, no meu modo de entender é a ingratidão. Quando tomo meu café de manhã, agradeço a Deus e às pessoas que trabalharam sol-a-sol, para eu me alimentar. No almoço e no jantar eu agradeço. Ao dormir agradeço os carpinteiros que fizeram a cama, os fabricantes de colchões e cobertores. A vida é uma dádiva, entretanto, como tem gente que reclama de tudo. Olha esta beleza! Como não agradecer a quem construiu este banco? As flores, maravilhas da natureza. Não quero saber de violência. Pode haver ingratidão maior, que a prática de violência? Vamos falar de coisas lindas, tem tanta gente fazendo o bem! Não sou nenhum santo, também fiz as minhas maldades... Nesse momento o idoso parou de falar. Respeitei o seu silêncio, imaginando o que ele estaria pensando. Também me pus a pensar em minhas crueldades. Magoei muitas pessoas. Jurei não colocar filhos no mundo. Para quê? Para vê-los sofrer? Só vejo violência e ódio. Competição, sadismo. Estou aqui ouvindo a lenga-lenga deste velho, vai ver foi um grande filho da puta. Fiquei sem saber o que fazer ao vê-lo se debulhando em lágrimas. Acariciei os seus cabelos, em seguida pousei sua cabeça sobre meu ombro.
   Decidi, como planejara, ir à R. Gilda Maria e bater de porta em porta. Não demoramos muito encontrar a casa de "seu"..., até porque ele era bastante conhecido na rua. Depois dos agradecimentos e das apresentações, fui convidado a tomar um café. Pedro, o filho, contou-me que o pai passa a maior parte do tempo no Sítio Paraíso, um pedacinho de terra que temos em Taquaraçu de Minas. É viúvo e às vezes a gente precisa trazê-lo em Contagem, para passear, ir ao médico e ele desaparece. Por falar nisso, preciso ligar pra polícia, avisando que o encontramos. Não sabemos como agradecê-lo, disse-me Clara, esposa de Pedro. Respondi ter sido um prazer, afinal aprendi muito com ele e acabei conhecendo pessoas interessantes.
   Antes de me despedir trocamos o número de nossos celulares, endereços eletrônicos, para nos comunicarmos e estreitarmos os laços de amizade. Alguns meses depois eles me convidaram a um passeio ao Sítio Paraíso.
   Eu estava levando a vida muito a sério, rigoroso demais comigo, muitas cobranças, um peso enorme nas costas. As visitas ao sítio e os causos de Seu Zé Francisco me acalmavam. Em um dia de lucidez ele me disse: Vou ser sincero com você, meu filho, tenho momentos de muita tristeza, sim! Solidão não presta; amei e fui amado; ainda penso arranjar um novo amor, para passar o resto de meus dias cuidando de orquídeas, bromélias e uma horta de couves, cebolinhas e uns pés de alface. Só para passar o tempo, quero saber de trabalho não. Carreguei muitos fardos. Fui jogando tudo fora, carrego apenas a roupa do corpo. Vamos deixar de lado as preocupações, a raiva, a mágoa, os rancores. Assim a vida fica mais leve. O dia está tão bonito. Aposto que você trabalha obrigado, enfrentando uma rotina chata.
Fiquei pensando em suas palavras. Pouco tempo depois pedi demissão da empresa e comprei uma chácara ao lado do Paraíso. Pude então realizar um sonho antigo: Pintar as minhas telas e vendê-las. Havia tempo para ouvir os causos do cada vez mais senil, o Seu Zé Francisco. Às vezes o via andando com passos trôpegos pelo sítio, apalpando folhas e flores e as levando próximas aos olhos. Ele me inspirou uma tela, que não está à venda e estes singelos versos:



o coração não bate
com o mesmo vigor
a face tem outra cor

ao erguer-se da cadeira
contorce-se de dor

a visão está turva
não separa folha da flor

seus direitos fundamentais
tornaram-se banais

não se humilha mais
com seus atos fecais

os pruridos morais
ficaram para trás

os pés não movem
com a antiga pressa
há rugas espessas...




Esta crônica está em meu livro Filhos da Terra - Edição do Autor - 2009 - Esgotado

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sábado, 21 de maio de 2016

A morte como companheira


                                Imagem: Engenho Século XVIII - Cel. Xavier Chaves-MG



                       Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência




Não há quem, pelo menos uma vez na vida, não tenha refletido sobre a morte. Parece tenebroso, agourento, mas faz parte da vida
     A gente nasce, cresce, fica velho e morre. É inevitável. Feliz quem chegou à velhice, passando por todas as etapas da vida, experimentou o mel e o fel, cresceu e evoluiu com as intempéries e as calmarias. Alguns não tiveram esta oportunidade. Foram vítimas precoces de balas perdidas, desnutrição e fome. Contudo, se alguns morressem cedo, ninguém lamentaria.
      Chico da Cruz viveu cento e dezenove anos, quatro meses e onze dias. Foi encontrado dentro de uma vala que ele próprio cavara, debaixo da mangueira que ele mesmo plantara na infância e onde queria ser enterrado. Morreu no último dia de fevereiro do ano bissexto de 19... Quando o filho mais velho, que não se casara e viveu na fazenda fazendo o trabalho duro e completaria cento e um anos, percebeu o cachorro jogando terra com as patas sobre a vala, ciscando como galinha, soube que o pai deixara a vida. Interrompeu o trabalho do cão, para que ele esperasse a família se reunir e dar o último adeus ao patriarca.
      Eram oito horas de uma manhã ofuscada pela forte cerração e confusa pela algaravia das aves e dos animais domésticos. Somente às dezoito horas em ponto, hora do ângelus e do tanger do sino da pequena capela da Fazenda Nossa Senhora do Rosário, foi que Francisco da Cruz Filho conseguiu juntar os vinte e um irmãos, duzentos e quinze netos, noventa e seis bisnetos, dezenove tataranetos e três filhos de um tataraneto. A razão de extensa prole era pelo fato de Chico da Cruz não admitir o uso de contraceptivos proibidos pelo Papa. Não fossem os três que nasceram mortos, um que se desviou dos caminhos de Deus e fora assassinado por um marido ciumento e outro, que morrera de varíola, o velho Chico da Cruz e Dona Manuela teriam ao todo vinte e seis filhos.
       Dona Manuela era bem mais nova que Chico da Cruz. Ao chegar à beira da cova, reagiu de um modo, que deixou seus descendentes com um misto de medo e satisfação: cuspiu no rosto do defunto e praguejou: - Bosta do demônio, ao seu lado eu fui a mulher mais infeliz do mundo, você nunca soube como odiava o seu bafo de cachaça, suas mãos ásperas e seu corpo asqueroso tremendo em cima de mim. Nem mesmo os filhos que me deu, pude partilhar alegria, pois você os tratava pior que os seus porcos que chafurdam na lama. Como rezei para que morresse, seu desgraçado, filho do cão. O terço que nos obrigava a rezar antes de deitar, as penitências que fazíamos, pedindo chuva em tempos de seca, carregando pedra na cabeça até o cruzeiro lá no alto do morro podem ter lhe dado vida longa, mas não evitarão que você queime no inferno. Você cometeu perjúrio, teve filhos bastardos, dormiu com criadas, deflorou meninas desamparadas, estuprou e até em éguas, mulas, cabras e porcas você enfiou este pinto nojento. Que a morte lhe traga sofrimentos, para pagar todo o mal que fez à humanidade! Podem jogar terra e vamos todos à sala comemorar, não há razão para tristezas e orações. Morreu tarde!
     Após o breve discurso, Dona Manuela se dirigiu para dentro de casa, amparada pelo bisneto, o Dr. José Luis da Cruz de Almeida Cunha, médico otorrinolaringologista, que morava na capital federal e viera em seu helicóptero para o enterro e atestar o óbito.
   O Dr. José Luis, Zezé para os familiares, não ficou para a festa de comemoração da morte do bisavô, pois precisava retornar à capital federal, para participar de um congresso de otorrinolaringologia, para o qual fora honrado com o convite de fazer a cerimônia de abertura ainda naquela noite. A Fazenda Nossa Senhora do Rosário não era distante da capital, portanto, em menos de uma hora chegaria para a cerimônia, com um ligeiro atraso, aliás, planejado, pois julgava que assim criaria um clima de expectativa. Ao contrário do bisavô, que não temia a morte, o bisneto sentia-se próximo dela. Antes de entrar no avião, colocava sal grosso nos bolsos e enfiava uma folha de arruda ou guiné na orelha esquerda; na hora de deitar-se media a pressão; auscultava o peito com estetoscópio, para ouvir o batimento cardíaco; engolia uma dúzia de comprimidos e colocava uma venda nos olhos, para aplacar a luminosidade da lâmpada e ia dormir com ela acesa, pois receava morrer no escuro, tendo o cuidado de verificar se o telefone estava funcionando, para o caso de chamar o Dr. Epaminondas, um médico amigo, especialista em cuidar de pacientes com síndrome de pânico e de doenças da alma.
   
Durante o voo o dr. Zé refletia sobre a barafunda que fora a existência do bisavô. Não compartilhava o ódio descomunal de Dona Manuela, afinal, Chico da Cruz nunca deixou faltar nada aos filhos, ajudou netos e bisnetos a encontrar um rumo na vida. Ele mesmo se formara graças à ajuda dele, que pagara todas as despesas, que o pai negara, pois o queria padre. O pai contrariado jurou nunca mais conversar com o avô e só compareceu à cerimônia do enterro por causa da avó, balançando a cabeça afirmativamente quando ela rogara-lhe as pragas terríveis. Quanto ao filho, que ousara desobedecer-lhe, protegendo-se nas asas do bisavô, apenas depois de alguns anos concedera-lhe o perdão, atendendo ao pedido da esposa e do próprio Zé Luis. Lembrando o comportamento tresloucado do patriarca, esboçou um sorriso, que chamou a atenção do piloto: - O senhor acaba de sair do enterro do velho e me parece tranquilo. - Estou rindo de uns acontecimentos envolvendo meu bisavô e não há motivos para choro com a sua morte, ao contrário, é para comemorar, pois são raros os que chegam na idade dele. Sabe Paulo César, a existência é um enigma. Meu bisavô levou uma vida atabalhoada, rodeada de perigos, bebeu cachaça que nem bezerro e em sua autossuficiência não incomodou ninguém, nem na hora da morte. Dona Manuela sofreu na mão dele, é verdade, mas só agora revelou a extensão de sua raiva. Fico pensando como alguém consegue guardar a sete chaves tanto rancor por tanto tempo e não morrer. Acho que o ódio, assim como o amor, prolonga a vida. Eu não viverei tanto, porque não trago ódio, nem amor no coração, logo, tenho a morte como companheira. Apesar das precauções, tenho mais medo da terra do que suspenso nessa geringonça. Mas estava pensando no velho Chico da Cruz, lembrando alguns momentos engraçados, porque os eventos ocorridos com ele, mesmo trágicos, parecem comédias. A vida, meu caro Paulo, é uma tragicomédia.
      Meu bisavô ia a cavalo à cidade todas as quartas e sextas à tardinha, sempre bêbado. Respeitava os domingos, indo à missa com a família, não bebia, não blasfemava e não respondia às agressões verbais de minha bisavó. Voltava bêbado da cidade, montado em seu alazão. Este cavalo era o seu fiel companheiro, jamais o deixava na mão. Chico da Cruz vinha balançando o corpo, ora para a esquerda, ora para a direita, pra frente e pra trás. Muitas vezes acontecia de inclinar o corpo pra frente, deitando-se de bruços no pescoço do animal, cochilando. Chegava em casa são e salvo. Acontecia de ele cair e ficar por muito tempo no solo. O cavalo parava imediatamente e esperava o Chico da Cruz acordar. Ele ficou rico fabricando cachaça. No começo era um alambique imundo. Não chamava de cachaça ou aguardente, era arrebenta-peito, água-que-passarinho-não-bebe, sinhaninha, esquenta-por-dentro, água-benta, filha-de-senhor-de-engenho e outros nomes engraçadas. No processo de fermentação encontrava-se até rato morto no tanque. Somente a terceira geração introduziu modernas tecnologias, aumentou a produção e o patrimônio cresceu. Hoje a famosa Água-Benta do Chico da Cruz é exportada para a Europa e é a base do patrimônio da família. Açúcar e álcool vieram bem depois, mas o sucesso pertence a Água-Benta. Outro fato interessante é que o velho não se embebedava com a sua cachaça, pois ele acreditava que isso traria azar. Gostava era de pinga desdobrada, pinga ruim de boteco fuleiro, copo-sujo. Segundo as más línguas ele era um pervertido sexual, que emprenhou muitas meninas. Sinceramente não sei se é verdade. Alguns causos são verdadeiros, pois presenciei.
     Dr José Luis faz uma pausa, para observar as nuvens. Em seguida prossegue: - A mania que ele tinha de não amolar as pessoas, levou-o a usar um penico para as suas necessidades. Depois de urinar e defecar, isto já em idade avançada, ele o lavava, para beber água e até se alimentar. Bisavó Manuela ficava horrorizada e dizia "eita bicho porco". Não gostava de usar o sanitário. Fazia suas necessidades no penico ou no mato. Preferia banhar-se na cachoeira e na bica. Jamais quis saber de morar na cidade. Não foi fácil convencê-lo a se mudar para a nova sede da fazenda, queria ficar na casa antiga, sem conforto.
    - Mesmo depois de ter ficado rico, ele manteve a mania de defecar em penico? Perguntou o piloto, preparando-se para a aterrissagem.
     - Esta mania ele adquiriu quando ainda era jovem, lá pelos sessenta anos - respondeu o médico, sorrindo - e já estava numa situação econômica confortável. Depois ele jogou o velho penico de esmalte fora e mandou fabricar um sob medida, folheado a ouro. Eu o trouxe com medo de Dona Manuela sumir com ele. Fico me perguntando porque o velho Chico viveu tantos anos? Bebendo pinga como ele bebia... A minha bisavó, que nunca tomou uma dose de álcool, também é uma fortaleza! Ela chegará aos cem brevemente com uma vitalidade de fazer inveja a muitos jovens. Pariu vinte e seis filhos, assim, sem assistência médica adequada, aliás, os onze primeiros assistidos por parteiras, sem higiene, com ausência total de profilaxia. Poucos morreram e os que viveram cresceram com vitalidade.
O helicóptero pousou suavemente e o Dr. José Luis fez o sinal da cruz antes de pisar em terra firme.
     Na abertura do XXII Congresso de Otorrinolaringologia extrapolou o tempo programado com uma oratória recheada de latim de trinta e dois minutos a mais, irritando muitos presentes, em especial aos que vão a congressos e seminários apenas na abertura, para cair de boca sobre o bufê. Por motivos antagônicos, todos ficaram felizes com o fim da intervenção do Dr. José Luis, ovacionado pelo público. Este mesmo público, à exceção do Dr. Epaminondas Hipócrates Soares, médico especializado no tratamento de pessoas com a síndrome de pânico, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno afetivo bipolar, não percebeu a saída silenciosa do Dr. José Luis. Epaminondas o seguia à distância com o olhar e o viu entrar no carro, deixando o local do evento. Dr. Hipócrates retornou ao auditório, pensando se deveria ligar para o amigo, ele, que muitas vezes fizera o papel de conselheiro e psicólogo de Zé Luis, que nos últimos tempos dizia ver a morte como companheira. Pressentia a sua presença. Nestas horas sentia arrepios pelo corpo, o coração disparava. - Hipócrates, meu amigo, eu me comunico com ela. Ah, sinto frio, entro em transe e em êxtase - contava, emocionado, ao amigo. O Dr. Epaminondas diagnosticava ansiedade, angústia, taquicardia, pró-lapso da válvula mitral e, ultimamente, insanidade mental, mas esse diagnóstico guardava para si. Aconselhava o amigo a se casar, arranjar uma companheira, a construir uma família, mas Zé Luis retrucava, dizendo que era um ser solitário e que só se casaria ao encontrar sua alma gêmea e que o amigo não se preocupasse, pois o que tinha de ser será, completava em tom premonitório: A minha hora vai chegar. Repetia esta frase, quando desejava encerrar a polêmica. Ao se lembrar disso, Dr. Epaminondas decidiu esquecer o amigo e foi participar do coquetel.
     Enquanto isso o Dr. José Luis chegava em casa. Lentamente subiu a longa escada, que conduzia ao seu quarto. Colocou o pijama negro de cetim, que comprara recentemente, para ser usado em uma ocasião especial. Nessa noite decidira romper o medo e sentou-se na cadeira de vime, com as luzes apagadas. Minutos depois, sentido-se sonolento, entrou em estado de vigília. Viu o rosto de Chico da Cruz na cova e o cachorro ganindo de tristeza, viu a alma do bisavô saindo do corpo e se esvaindo. Em seguida um barulho de passos ritmados na escada, que ele sabia quem era. Sim, era ela chegando conforme previra. Epaminondas não se surpreendeu de tê-la, finalmente encontrado. Sua esplêndida alma gêmea. Em êxtase contava e cantava em silêncio os passos suaves subindo a escada:

Ouço passos na escada...
É noite e há silêncio.
Fico quieto ouvindo os passos ritmados
subindo a escada.
É uma mulher que vem
com sapatos de salto ato.

No silêncio noturno meu coração
bate batidas aceleradas.
Na noite silenciosa estou só.
A vela bruxuleia sobre a mesa
em cúmplice solidão.

Ouço passos na escada,
prenúncio de minha
derradeira noite de espera...
É ela que vem para pôr fim
aos meus dias solitários...

Reconheço seus passos decididos.
Vem com seu vestido negro
balançando os quadris
com uma expressão de amor.

Espero a campainha tocar.
Sei que é ela chegando
com seus cabelos longos
ligeiramente encaracolados
com um sorriso suave
para me acalmar.

Continuo paralisado
atendo aos leves passos
subindo a escada
na noite silenciosa e fria.

A minha hora se aproxima
mas os passos dela subindo a escada
parecem não ter fim.
Sei que vem com lábios de carmim
olhos meigos
elegante e sedutora.
Deixarei que ela me conduza
ao quarto e me coloque
sobre a cama com candura.

Meus tristes dias logo logo
terão fim
pois ouço o toque de seus passos
ecoando na escada.
É ela finalmente vindo a mim
e quando ela me tocar
meu coração deixará de bater descompassado.
Quando ela pousar seus doces lábios
sobre os meus
meu coração silenciará.

É ela sim...
Reconheço bem seus passos na escada.
É ela que vem
meu pássaro noturno.


Esta crônica está em meu livro Filhos da Terra - Edição do Autor - 2009



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domingo, 15 de maio de 2016

Oferta















ofereço a ti amor
o meu olhar sonhador
que enxerga luz na escuridão

ofereço as paisagens
de minhas retinas
as maravilhosas nuvens
que desanuviam o teu coração

ofereço-te a minha poesia
meu afeto e a alegria da partilha
de um menino inquieto
que se desatina com a injustiça
e atiça tuas fantasias

ofereço-te meu coração
e meu ouvido atentos
para enxergar e ouvir teus sonhos
ofereço a ti amor
na alegria e na tristeza
palavras e gestos de alento...




Imagem: JEF - por do sol em São Tomé das Letras.










Dois livros em um por R$25,00 (Frete incluso). Interessados, façam contato com o autor

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Lembranças Amarrotadas










Passaram-se quase quarenta anos para que eu retornasse a Jampruca, pequeno município incrustado no Vale do Rio Doce, banhado pelas águas do Rio Itambacuri, onde eu me afoguei e vi a morte por um triz...
  Na verdade, em Jampruca, vi a morte por dois trizes: a primeira, como já disse, ao me afogar nas águas do rio; a segunda quando vi o cano do revólver do Delegado Matias apontado para a minha cabeça, eu que me encontrava caído no chão após levar um chute no traseiro, desferido pelo Cabo Adão, com sua bota de couro.
  Era o início de minha adolescência e por conta dessa idade inconsequente, quis assistir ao jogo do Atlético de Jampruca contra um time de Governador Valadares, de cima da charrete, para não pagar o ingresso. Durante muitos anos não entendi porque Boné, meu ídolo e o melhor zagueiro do Vale do Rio Doce e do Vale do Mucuri, que gostava de jogar sem chuteiras, protegido apenas pelo meião, ordenou peremptoriamente aos dois policiais, na verdade pistoleiros a serviço da elite local, para me expulsar da proximidade da cerca de lascas de madeira do campo de futebol, enquanto Alaor assistia tranquilamente, trepado nela.
  Não sei de onde o meu pai ( o Zé Pascoalim, católico praticante, construtor da bela igreja de Jampruca) surgira, para me proteger e teve o revólver do Delegado apontado para ele, enquanto eu permanecia no chão, encharcado de xixi. A humilhação que meu pai sentira não lhe deixou alternativa, senão a de vender o sítio com porteiras fechadas e mudarmos.
  Isto fora o resultado da participação política do Seu Zé Pascoalim, no período bravo do coronelismo dos anos 60. Fico pensando como seria a minha vida, ou a vida de todos lá de casa se esse evento não tivesse acontecido. Talvez eu fosse um pequeno proprietário de terras férteis de Jampruca ou teria me transformado em um latifundiário, assassino de sem-terras, dono de gado e gente, casado com Terezinha, ter tido muitos filhos, ou ter sido prefeito, ou ainda, titular absoluto na zaga central do Atlético de Jampruca. Quem sabe, motivo de orgulho de Dona Bertine e da minha professora primária Dejanira ou da doce Iracema, outra paixão reprimida.
  Quarenta anos, convenhamos, é um tempo longo para manter viva as lembranças. Meu retorno se deu após a morte de meu pai, que também, jamais voltaria lá, e, quando percebi que a mágoa tinha passado e as feridas cicatrizadas.
  A infância e a adolescência são fases de descobertas e seria bom se só lembrássemos dos momentos felizes. Obviamente que tenho boas recordações do que se poderia chamar de meu torrão natal. Nasci em São João do Oriente, mas de lá só me lembro da viagem na carroceria do caminhão, quando nos mudamos para Jampruca. Quantos anos tinha? Talvez quatro. Portanto Jampruca é a minha terra natal. Durante os anos magoados, reneguei-a. Recordo com nitidez a minha primeira experiência sexual com a prostituta Lurdinha, no casqueiro; a primeira masturbação; a doce paixão por Terezinha, que creio, nunca tomou conhecimento de minhas dores de amor; a maneira como Omar, motorista do caminhão de leite da Barbosa & Marques me tratava. Com ele eu me sentia adulto. Sempre levava umas laranjas do nosso pomar para ele e para a sua bela esposa, cujo nome me escapa. Não me perdoo por esquecer o nome dela, que sempre me oferecia um almoço, um café. Assim como não me perdoo por esquecer o nome de sua sedutora cunhada, de pele da cor de jambo maduro. Lembro-me de Dona Terezinha; de Seu Zé Brandão; de Seu Bruno e de Dona Fia. E como esquecer das brincadeiras com o pau-de-bosta?
  A brincadeira consistia em irmos à noite, em meio à penumbra, ao campo de futebol e simularmos uma briga, para chamar a atenção dos garotos, que se encontravam próximos do campo e atraí-los ao local da contenda. Aos berros ameaçávamos quebrar a cara um do outro. Ouvindo os gritos, a garotada corria até ao campo, para apreciar o espetáculo. - Vem se você é homem, vem - ameaçava um. O outro respondia: - Solte este pau e vem na mão, filho da puta! Esse era o mote. Então, o que estava com o pau-de-bosta, pedia para alguém segurá-lo. Quem tinha caído na armadilha, esperava o resultado em silêncio, para em seguida cair na gargalhada. O infeliz, ao segurar o pau, lambuzava a mão de bosta. Era assim: enfiávamos a ponta de um pau numa fossa, pois nestes tempos não havia interceptores de esgoto, só pelo prazer de ver alguém com as mãos fedidas. Azar daquele que queria se alegrar da desgraça alheia; das brigas.
  Ainda me lembro, vagamente, do Risadinha lendo o jornal de cabeça para baixo e urrar feito lobisomem quando davam-lhe cachaça; lembro-me do bar do Seu Beque, onde eu jogava sinuca com o dinheiro da venda de um cento de laranja. Tanto a venda do cento de laranja, reserva que julgava ter direito, quanto ao jogo eram feitos às escondidas de meu pai, em conluio com o dono e os frequentadores do bar. Um dia, quando tinha tudo para ganhar do Paulo Alfaiate, o melhor jogador de sinuca da cidade ( a verdade é que ele me dera algumas bolas de vantagem e jogava só com uma mão), o meu pai entrou de supetão no bar. Fiquei pálido, larguei o taco e abandonei o jogo. Montei na charrete e zarpei para a Boleirinha, para o sítio em que moramos a maior parte dos anos vividos em Jampruca. Felizmente não houve desdobramentos. Uma semana depois voltei ao jogo, mas antes tendo a certeza de que meu pai não se encontrava na rua.
  Outra lembrança, não tão amarrotada era de que em Jampruca muita gente era assassinada. Não entendia a razão de tantas mortes em um pequeno lugarejo em que todos se conheciam e se cumprimentavam; onde os beatos e outros nem tanto, frequentavam a igreja. Após a missa das dezoito horas, celebrada pelo Padre Franco, alguns rapazes fogosos corriam ao casqueiro a fim de se acalmarem dos tormentos da libido.
  Na década de 60 quando o mundo passava por transformações, sobre nós, brasileiros, o conservadorismo aprofundava seus tentáculos, com o golpe militar de 1964. Eu, como muitos de minha geração, vivendo naquele "fim de mundo", não estava preocupado em entender este fenômeno. Hoje, depois que aprendi a fazer análise de conjuntura, sei das consequências de se viver sob o peso do autoritarismo, dos regimes de exceção. No cubículo os pobres-diabos eram espancados por roubar galinhas.
  Uma recordação feliz era assistir aos filmes no cinema do Heleno. O Último dos Moicanos e muitos outros em que os mocinhos matavam índios, búfalos e se matavam em duelos ao pôr-do-sol; Boca de Ouro com Jece Valadão; Bonitinha, mas Ordinária, com Odete Lara, filmes de Mazzaropi... São alguns que fazem parte dessas lembranças amarrotadas.
  Depois de quase quarenta anos retornei a Jampruca em companhia do meu irmão Lalá. Aliás, o Lalá me lembra a cidade de minha infância. Segundo dizem, eu era um rebelde necessitado de uns corretivos. Ele era rigoroso nos castigos: colocava-me para rezar o terço sob ameaças de construir uma cabana no alto do morro, no meio da mata e me fazer morar lá; corria atrás de mim, a pedido de minha mãe, que queria me aplicar uma surra. O Lalá fazia muito teatro, mas nunca me bateu. Mas eu ficava apavorado com as encenações. Aliás, um sonho que não se realizou para o meu irmão, foi o de se tornar ator-comediante. Ainda hoje ele conta algumas piadas, imita o Mazzaropi, por sinal, muito bem.
  Quando chegamos em Jampruca, fomos direto para o hotel. Tomamos banho, descansamos da viagem e, em seguida, fomos dar uma volta. Nossa primeira visita foi a cerâmica de Seu Aristides, que não fabrica mais telhas inglesas (não seriam francesas?), mas tijolos. As fornalhas fumegavam sob a queima de frondosos troncos de árvores. Fiquei pensando em desastre ambiental, em aquecimento global. Afugentei esses pensamentos, afinal, estava a passeio. Mas a ida à cerâmica foi um álibi para eu dar uma olhada no casqueiro, ver as prostitutas. Só então o Lalá percebeu o meu interesse. Fui informado de que ali agora moram "famílias de bem". Andamos pelas ruas, conversamos com as pessoas. Alguém nos disse que "o Seu Zé Pascoalim nunca foi esquecido". Pensei em sugerir que alguém, pedisse aos vereadores para apresentarem uma moção, um projeto de lei, alguma coisa em homenagem ao meu pai. Quem sabe, o nome de uma rua, de uma praça. Não sugeri. Tiramos fotos. A ponte do rio Itambacuri, que divide a cidade ao meio e criava uma rivalidade com os que "moravam do lado de lá contra os do lado de cá, decepcionou-me. Em minhas lembranças era uma ponte enorme. Agora estava ali diante de uma ponte de nada. É engraçado, mas da infância até a pré-adolescência temos uma visão ampliada das coisas. Tudo parece muito grande. Assim como a ponte, as coxas da negra Dona Geralda, ajudante de minha mãe, eram muito grossas. Hoje fico imaginando se não seriam uns cambitos. Também era enorme a ladeira que dá acesso à Igreja. Para o meu desencanto é quase plana.
  Passeamos pela cidade e visitamos alguns velhos conhecidos. Tudo isso no primeiro dia. No seguinte pegamos a estrada empoeirada e fomos, à pé, a Boleirinha, o sítio, que para alguns era uma fazenda, local onde vários eventos marcaram a minha vida, como a lembrança do Odete, moça simples e educada, que também ajudava a minha mãe nas tarefas domésticas. Era considerada da família. Depois ela se casou com Aureliano, compadre do meu pai.
O Tó, posteriormente o Antenor foram vaqueiros de meu pai, dois trabalhadores honestos, que me trazem lembranças dolorosas. Por causa de minha arrogância de filho de patrão, o Antenor pediu demissão. Eles nunca souberam, mas chorei quando nos deixaram.
O córrego em que tomávamos banho e pescávamos secara. Tudo estava mudado: a casa em que passei a minha infância não existe mais; a casa de Seu Carlos e o terreiro, que em minhas lembranças eram enormes, desapareceram. Neste terreiro eu fui feliz jogando bola com o Juarez, Zé, Milton e Geraldo; conversando com Fábio, Pedro, Maria, Iria, Dona Jaíra; me diverti nas fogueiras de São João, comendo broa de fubá com café com leite; com as garotas roceiras em brincadeiras de passar aliança, ou à direita está vaga. Com elas manifestaram em mim as primeiras emoções vindas do coração.
  Ao ver aquele ambiente despovoado, senti um aperto no peito, que passou logo. Afinal agora sou um adulto, com os pés na realidade. Tudo muda, tudo se transforma. A casa de Seu Tatão estava de pé, velha, protegida pela sombra da mangueira centenária. Como de pé estava o antigo mourão da porteira, que dá entrada ao sítio, embora sem a companhia da porteira e da zoeira das batidas e dos gritos das crianças, que nela empoleiravam. O pomar não existe mais, como não existe o curral, os abacateiros e o açude das tilápias. A lavoura de café onde o Carlos, meu irmão, armava arapucas, para pegar rolinhas e juritis e comê-las fritas, também não existe. A minha sensibilidade de defender o meio-ambiente se manifestara nesta época, quando eu destruía as arapucas armadas por ele. Carlos era impiedoso: algumas dezenas de rolinhas e juritis caíam nas armadilhas e ele pegava uma a uma, dando paulada em suas cabeças. Pobres pássaros. Eu me recusava comê-las Talvez por remorso de ter vitimado tantos pássaros foi o que o levou a formar-se em veterinária.
  Nesse ambiente só se ouvia o silêncio de um passado distante. Confesso que o aperto no peito fora por conta da nostalgia. Não me surpreendi com a condição do local: tudo se transformara em capim de gado, em latifúndio. Naquelas terras férteis em que meu pai plantara de quase tudo: café, arroz, feijão, milho, laranja, abacaxi, abacate, mandioca e, principalmente amor, só restavam capim e silêncio. Ali que fora um reboliço de gente, de tropas e cantorias, só restava a desolação. O Dê e o Lalá chegaram a formar uma dupla caipira, compondo e cantando modas de viola. De repente, cansado e decepcionado, após tirar algumas fotos, chamei o padrinho e mano Lalá, para irmos embora, com a promessa de voltarmos em breve, de carro, para uma visita mais atenta.
  Retornamos a Jampruca da mesma forma que viemos: à pé. O que me causou um tristeza de partir o coração foi ao passarmos pelas terras do João Gino e constar que o local onde existia uma mata de árvores esplêndidas, que exalavam perfumes e ofertavam sombras frescas e onde um riacho de águas cristalinas corria mansamente, matando a sede de gente e animais, proporcionando às pessoas um momento de repouso e meditação sob o pé da serra, fora devastada. Retornamos ao hotel. Lalá estranhou o meu silêncio repentino. No dia seguinte voltamos a Belo Horizonte. Durante a viagem de volta lembrei-me de um poema que havia escrito alguns anos antes:

Ele percorria os campos à procura de um vestígio.
De uma pequena referência que o fizesse voltar ao tempo.
A um longo tempo passado.
Observava a vegetação, os animais pastando e ouvia o canto das aves.
A batida de uma porteira.
Ouvia o trote de tropas imaginárias.
Galos cantando nos poleiros.
Buscava em cada som da natureza,
nas montanhas, nas planícies, nos açudes, nas trilhas, nas vertentes e
nos vales, uma lembrança.
Contudo, só sentia aquela sensação de vazio, de algo perdido.
De algo que a memória não conseguia trazer de volta
e que o coração descompassado teimava em buscar.
Em que esconderijo do tempo estaria o que ansiosamente buscava, para torná-lo em paz consigo?
Não conseguia vislumbrar a criança que amassara com os pés o barro da olaria.
Que percorrera as sombras frescas dos cafezais, desarmando arapucas.
O tronco onde costumava sentar-se apodrecera e era contra esse apodrecimento que lutava, para conter as palpitações do coração.
Como compreender essa sensação indelével que o dilacerava?

O curral desaparecera.
Desapareceram as tilápias do açude e o mugido do gado não era mais o mesmo.
Compreendeu então, que ele próprio mudara.
Que era preciso encontrar não o seu passado, mas o presente.
O novo homem que surgia...


J Estanislau Filho - Escrevo também no site Recanto das Letras

Meu último livro, A Moça do Violoncelo - Estrelas encontra-se à venda. Aos interessados, entrem em contato comigo. 


Esta crônica integra o meu livro Filhos da Terra - Edição do Autor - 2009 página 125 - Esgotado.