terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Coronel Xavier Chaves

Imagem: jef




Enquanto ouço Led Zeppelin nesta tarde quente de janeiro de dois mil e dezenove, penso em Coronel Xavier Chaves (também conhecida por Coroas), onde decidi fincar raízes. Estou mais para ave de arribação do que árvore. Em outras palavras, se o vento vier com força, pode acontecer da árvore alçar voo, levando consigo lembranças das paisagens, pessoas e pedras.
      Se ainda não fiz muito amigos  é mais por conta da minha natureza arredia, que encontrou aqui gente igual a mim. Não citarei nomes, para não correr o risco de esquecer alguns, algumas. Quanto as paisagens, já disse em outras crônicas, estão num projeto de um livro de minicontos, Outras Espécies, que não sei se será impresso, pois estes três anos e alguns dias de governo Bolsonaro*, aprofundaram a crise econômica, social, ambiental e cultural, praticamente inviabilizando a edição e publicação de livros em edições alternativas. Digo praticamente, porque somos teimosos, damos murros em pontas de facas; navegamos contra a maré. Num contexto de Estado de Exceção, é um desafio, como diz a canção de Milton Nascimento, "o artista ir aonde o povo está".
      Voltando a Coronel Xavier Chaves, pequeno e sossegado município, dormir é tudo de bom. Pura tranquilidade. Nestes mais de quatro anos em que aqui moro, não presenciei um assalto, um assassinato. Informaram-me que há cerca de vinte anos não há boletim de ocorrência (BO) de assassinato ou lesão corporal. A polícia, no máximo, coloca panos quentes em brigas de casais.
       Se quero um pouco de barulho e serviços, num pulo vou  a São João del Rei ou a Barbacena; se prefiro cultura, arte e culinária (que também é arte, tem aqui), outro pulinho a Tiradentes, a Bichinho e Prados. Tapeçaria é em Resende Costa. Móveis rústicos encontram-se em Santa Cruz de Minas; mas se desejo uma ducha, nada melhor que as dezenas de cachoeiras de Carrancas ou no Jaburu em Ritápolis. Saborosos biscoitos a gente encontra em São Tiago. Não sei a quantas andas, mas tem um projeto intermunicipal de criar o caminho de São Tiago.
   Falar de minha cidade é lembrar de seu entorno, inclusive os povoados: São Caetano, Água Limpa, Cachoeira (que não tem cachoeira), Invernada, Pinheiros, entre outras. Como já disse, estes pontos turísticos estão em outras crônicas ou em poesias; também em Outras Espécies. E quem sabe um dia no hino da cidade? Disse lá atrás, que não citaria nomes, mas não posso deixar de lembrar o meu bom amigo e professor de bateria, Alexandre Marcos, que nos deixou no auge de seus vinte e dois anos de idade. Ele me contou muito sobre a cidade e seus mistérios. Ao me lembrar dele, me vem à mente a bateria Unidos do Sapo Caiu, em que ele comandava pelo repenique e no apito. Disseram-me, ao pé do ouvido, como é costume de parte significativa dos moradores, que não teremos nesse ano o que seria, se não me engano, o vigésimo terceiro Carnaxachaça, portanto, sem o som do Sapo Caiu e da Chapa Quente, outra bateria que despontava. Informaram-me extraoficialmente, que haverá carnaval, mas ao estilo da família tradicional e a banda Santa Cecília (formanda majoritariamente por crianças) será uma das atrações.
    É uma cidade de paz e tranquilidade. Quando aqui cheguei, era olhado de lado. Um forasteiro. Fiquei conhecido por "o escritor", para uns, "poeta", para muitos e muitas. Há quem me chame de Seu Zé, de José, Estanislau também. Agradeço muito a cidade e aos moradores, que me deram a chance de ocupar meu tempo com duas coisas que amo: escrever e ler. Além de participar da oficina de teatro; aprender a tocar um instrumento musical; jogar futebol, tendo como adversárias, belas e talentosas atletas. Não tenho a agilidade dos meus dezesseis anos, mas dou as minhas caneladas. Falei para uma atacante, rápida e habilidosa: - voltei aos meus tempo de zagueiro em que a bola passava, mas o atleta não!. Ela me respondeu com um olhar enigmático: -estou vendo! E eu retruquei: - não venha com graça pra cima de mim.  E de fato ela parou de tentar me dar canetas.

J Estanislau Filho


* O governo Bolsonaro é continuidade do governo Temer.



Na aula de bateria no estúdio de Alexandre Marcos. Imagem: am


Imagem: jef

domingo, 13 de janeiro de 2019

Não desistam da poesia

Imagem: Rainha Maria





"Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar".

Betold Brecht


Vivemos dias obscuros. Obscenos.
Corações plúmbeos. Pulando obstáculos,
para não cair nas garras do ódio!
Correr atrás do pão de cada dia.
A prioridade é alimentar o corpo.
Mas como saciar a fome e a sede da alma?
Poesia não enche barriga,
dizem os de barriga cheia.
Não desistam da poesia. Ela é uma barricada contra
a fome dos bárbaros,
que não a vê com bons olhos.
Sem poesia a alma seca,
os desejos, mesmo os mais humildes não se manifestam.
Aos humilhados o que resta é a servidão.
As sobras das sobras dos banquetes de gente perversa,
que é a sobra do que sobrou dos capatazes da elite.
Não desistam da poesia. Ela é companheira
dos indignados. O alimento necessário à luta por transformações.
Não desistam, pois é isso que um por cento da população quer,
apoiada por seu séquito de capachos.
Está ouvindo tiros? Ouve o grito dos desesperados?
Quem morre e quem vive, eis a questão.
Quem ganha e quem perde nestes dias sombrios...

J Estanislau Filho







Imagem: Catarina Fernandes e João Porfírio



sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Marcelo Zero: Não há método na burrice, Brasil foi assaltado por uma legião de oligofrênicos

        No dia da posse de Bolsonaro como presidente, o carro em que estava foi, na contramão, da catedral de Brasília para o Congresso. Aí, há um trecho com grama. Bolsonaro saudou-a
V



Nã há método na burrice 

por Marcelo Zero

O grande Goethe já nos advertia que “não há nada mais terrível que uma ignorância ativa” (Es ist nichts schreklicher als eine tätige Unwissenheit).

Obviamente, Goethe não teve o prazer de conhecer Bolsonaro e sua preclara equipe de fundamentalistas cristãos e sumidades emergidas das redes sociais.

Se tivesse, teria acrescentado que não há nada mais desastroso que a ignorância ativa que chega ao poder.

Com efeito, mal começou e o governo do capitão exibe a um mundo estarrecido um festival tragicômico de declarações brutais e estapafúrdias e de decisões beócias e cretinas, seguidas invariavelmente por apressados e canhestros desmentidos.

Ornamenta esse festival de obtusidades as seguidas desautorizações dos zurros presidenciais.

Com o novo mandato, instaurou-se a mais completa anomia. Ninguém sabe direito que decisões serão concretizadas e quem, de fato, manda no governo, sé é que há alguém que manda.

Há a incômoda sensação de se estar em num barco à deriva, que ruma impotente rumo ao Maelstrom, sob o olhar impassível do Jesus da Goiabeira, que não ora por nós.




Há alguns, no entanto, que veem essa algazarra trágica como um plano mefistofélico, destinado a distrair a opinião pública das “verdadeiras intenções” do governo fascistoide, que quer entregar os destinos da Nação a desinteressados agentes do capital internacional.

É possível. Afinal, nada mais funcional a esses interesses que um presidente que fez da ignorância e da boçalidade a sua raison d’être.

Um presidente que não entende nada, não manda nada, e que está disposto a bater continência até para o Rin Tin Tin, pastor alemão que serve galhardamente ao Exército dos EUA.

Como diziam os antigos gregos, aqueles a quem os deuses querem destruir primeiro enlouquecem. Portanto, é possível que haja alguma funcionalidade oculta, bem oculta, nesse enredo giocoso de ópera bufa. Alguma coisa cuja lógica seja acessível apenas aos deuses.

Suspeito, contudo, usando a Navalha de Occam, que a verdade seja, como soe acontecer, mais simples e mais brutal: o Brasil foi assaltado por uma legião de oligofrênicos que não tem a menor ideia de como governar o país.

Mesmo o insigne “Posto Ipiranga”, sumidade gestada na Escola de Chicago, que respirou os ares impolutos de Santiago de Chile, parece desconhecer fatos básicos sobre o Brasil, como, por exemplo, o de que o orçamento de um ano tem de ser aprovado no ano anterior, informação acessível até mesmo a mortais comuns medianamente letrados.

O Itamaraty, que já nos legou quadros extraordinários, à esquerda e à direita, agora nos brinda Ernesto Araújo, um diplomata, por assim dizer, intelectualmente muito original, até mesmo surpreendente. Suas animadas arengas demonstram, em vários idiomas, uma mente muito atrás de seu tempo.

Já o grande círculo militar do poder parece ter faltado a algumas aulas na Escola Superior de Guerra e não ter se empenhado muito na leitura das obras de Golbery. Isso explicaria as misteriosas referências à Terceira Guerra Mundial, provavelmente desencadeada contra o kit gay, aliado da mamadeira de piroca, bem como a total ausência de rigor geopolítico em suas soi disant “análises”.

Não creio que haja funcionalidade política nessa grotesca barafunda. Qualquer governo, mesmo aquele que não tem compromisso com os interesses do país e do seu povo, precisa de credibilidade e legitimidade para administrar.

No entanto, o desgoverno do capitão parece obstinadamente empenhado em queimar rapidamente todo o seu capital político, laboriosamente amealhado em anos de fake news e de ódio a tudo que cheire a progresso.

Muito provavelmente, a legião de acéfalos que se apossou do Estado achava que governar seria tão fácil quanto disseminar mentiras pelo Twitter e pelo Facebook, ou como operar “milagres” numa igreja neopentecostal.

Infelizmente, não é. Governar exige profundo conhecimento do país, do mundo e da máquina pública.

É tarefa muito complexa e difícil, que deveria ser atribuída, segundo Platão, apenas a homens sábios.

Sabedoria que não pode ser identificada com conhecimento acadêmico, mas que não pode dispensar visão racional do mundo, coisa que o capitão e sua voluntarista armada Bolsoleone evidentemente não têm.

No governo, fé não move montanhas. Competência, sim.

Assim sendo, não parece haver método na burrice e plano na improvisação.

Conta a história que Leon Trotsky, exasperado com as posições irrefletidas do escritor e político norte-americano Dwight Macdonald, teria afirmado: “Todo homem tem o direito de ser ocasionalmente estúpido, mas o companheiro Macdonald abusa desse privilégio”.

Como Goethe, Trotsky não conheceu Bolsonaro. 





     


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Fonte:
https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/marcelo-zero-brasil-foi-assaltado-por-uma-legiao-de-oligofrenicos-que-nao-tem-a-menor-ideia-de-como-governar-o-pais.html?utm_medium=popup&utm_source=notification&utm_campaign=site

sábado, 5 de janeiro de 2019

Uma flor




Eu a chamo de flor, simplesmente. Ela se abre uma vez ao ano. Ganhei a batata, ou tubérculo, de uma amiga lá em Esmeraldas, onde nós tínhamos uma chácara. Ainda lá ela se abriu por dois ou três anos, se bem me lembro. Quando vendemos a chácara, arranquei a batata e a trouxe comigo. Como voltei a morar na cidade, planteia-a em um vaso com terra adubada. Ela me acompanha há uns anos. Em novembro ela começa a sair debaixo da terra, para contemplar a vida aqui fora, respirar e exibir suas vestes vermelhas pontiagudas. Ela forma uma bola vermelha cheia de pontas, agulhas macias.  As flores se abrem e se fecham, sem culpas; sem pressa.  Enquanto para nós, humanos, o tempo é um inimigo sórdido a ser batido. As flores não têm a preocupação com seu tempo de vida. Nascem, dão flores e morrem naturalmente. Espalham sementes e brotos, para manter viva a espécie. enquanto nós, humanos, travamos uma batalha de Pirro contra a morte.  A nossa relação com a vida é distópica. Destruímos as nossas flores internas. Vida e morte caminham lado a lado e podem viver em harmonia, como esta flor que morre e renasce uma vez ao ano, cujo nome, segundo informações colhidas por aí, é: Coroa Imperial. Apesar de eu não ter a mínima admiração por impérios, apaixonei-me por ela. A natureza não está preocupada com isso.  Mas nós queremos um nome; até brigamos por um. Tem uma cena em Cem Anos de Solidão, do genial Gabriel Garcia Marquez, em que uma comunidade perde a memória e esquece o nome das coisas. Os nomes são invertidos, como flor não é flor, passa a ser nomeada de :minério, por exemplo; uma porta não é mais porta; porteira vira bacia, algo assim.  Sabemos, graças à biologia, o nome de várias espécies.  E de como cuidar delas.
  Pois é: a Coroa Imperial fulorô...



       Imagem: jef


J Estanislau Filho



sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

rumo



"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"


Friedrich Nietzsche




não é falta de rumo
nem falta de assunto ou cansaço
é preguiça mesmo de falar pras paredes
nas redes que de sociais apenas o nome
mais consome energia
algoritmo semântico
da luta de classes

não é falta de rumo
em resumo é o barco à deriva
com fanáticos verde-oliva no timão
e as mentiras deslavadas
de quem não lava nada
é o fim do mundo não
pois o mundo dá voltas
ora em coma
ora em festa
em terra plana
plena de seu retorno

há que se ter nervos de aço
de assumir compromisso
com a verdade dos fatos
não é falta de rumo
é para onde vamos
[alguns poucos não]
com os corpos mutilados
num abraço de afogados



J Estanislau Filho




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Retrospectiva 2018 e um poema de fim de ano

Três imagens que marcaram 2018




Lula cercado pela multidão Francisco Proner Ramos
Leonardo Boff na sede da PF em Curitiba

Jair Bolsonaro - imagem reproduzida pela tv


Outra imagem que marca 2018:
Povo abraça a guantânamo de Moro em que Lula se mantém como preso político. 



Tráfico


Um dos heróis da Polícia Militar do Acre foi preso sob acusação de trabalhar para o Comando Vermelho, na proteção à distribuição de droga.
É o tenente Josemar Barbosa de Farias, o segundo na hierarquia do Batalhão de Operações Especiais, o Bope. É uma versão acreana do “Capitão Nascimento”, o da fictícia Tropa de Elite


MEIO AMBIENTE*


Imagem: Trabalhadores do carvão (agência Ecclesia)

Desde a Conferência Climática de Copenhague, a COP 15 em 2009, muito se discutiu e passo a passo foi se chegando ao consenso do perigo representado pelas mudanças climáticas até se chegar ao Acordo de Paris estabelecido em 2015. O documento contou com a chancela de 195 países e tudo fazia crer que entraríamos num processo sério e efetivo no combate ao aquecimento global.
"(...) Eis que Estados Unidos e a Arábia Saudita usaram Conferência Climática na Polônia para elogiar e reforçar o uso do carvão como, vejam bem, “fonte limpa de energia”, um verdadeiro escárnio às informações que cada vez mais colocam os combustíveis fósseis como os grandes vilões do aquecimento global (...)
(...) Eis que nacionalismos limítrofes comandados pelo governo norte-americano de Trump passaram a questionar o acordo e até mesmo a existência irrefutável do aquecimento do planeta (...)". 

* Fonte: Carta Capital

CULTURA

Cinema

Os cortes de verbas na cultura repercutiram no cinema. Entre os filmes lançados, destaco:

* Aos Teus Olhos (Carolina Jabor)
* Quase Memória (Ruy Guerra)
* Construindo Pontes ( Heloísa Passos)
* Em 97 era assim (Zeca Brito)
* João de Deus - O Silêncio é Uma Prece (Candé Salles).
Depois dos supostos escândalos de assédio sexual, a produtora Paris Filmes suspendeu a distribuição, informa o Estadão. 


Música:

O cenário musical brasileiro continua dominado pelos sertanejos, universitários ou não. A grande mídia e gravadoras continuaram suas apostas neste gênero, além do funk, pagode. Pouco espaço para a MPB de qualidade. A passagem do roqueiro Roger Watters repercutiu na política, com o #elenão. 



Literatura:

O destaque, no meu ponto de vista, vai para  A Classe Média no Espelho, do escritor Jessé Souza. Uma análise profunda do comportamento da classe média no contexto político, que remete à escravidão. A classe média como capataz da elite.



Blogs:

Para fazer o contraponto das notícias falsas espalhadas, tanto nas redes sociais, quanto na mídia empresarial, e não contribuir em sua  disseminação, foram de extrema valia os seguintes blogs e sites:

Tijolaço, com artigos lúcidos de Fernando Brito; Diário do Centro do Mundo, Nocaute, Conversa Afiada, Viomundo, 247, Blog da Cidadania, Kennedy Alencar,  além da youtuber Ana Roxo e Reinaldo Azevedo, Forum e Carta Capital.





ESPORTES:

Judô: A gaúcha Maria Portela conquistou a medalha de ouro na Rússia




Futebol:

A seleção brasileira foi derrotada e eliminada pela Bélgica. 
O Palmeiras conquista seu décimo campeonato brasileiro. O Cruzeiro é campeão da Copa do Brasil e o Atlético Paranaense, da Sul-Americana. 






                                              Política






2018 foi o ano em que o roteiro do golpe, iniciado nas jornadas de 2013, implementada pelo conluio da grande mídia,  com o parlamento e judiciário, em 2016, fecha o ciclo com a prisão sem provas do ex-presidente Lula e a eleição de Jair Bolsonaro. Foi o ano em que as notícias falsas (fake news), como kit gay, mamadeira erótica, entre outras, foram impulsionadas ao ponto de decidir as eleições. Os mesmos métodos utilizados no Estados Unidos, que elegeram Donald Trump. A facada de Adélio em Bolsonaro continua uma incógnita. Ano em que a lava jato, como em anos anteriores, continuou a tarefa de destruir o Brasil, sob a cortina de fumaça do combate à corrupção, com seu agente maior, Sérgio Moro, sendo indicado como super ministro da Justiça, por Bolsonaro. Também o ano em que o sistema judiciário brasileiro, com a anuência de sua instância máxima, o SUPREMO, rasgou a Constituição. Sempre combinado com a grande mídia, sob a liderança da TV Globo, em defesa dos interesses da elite. Em 2018, assim como em 2017, as panelas continuaram em silêncio nos armários.

Jair Bolsonaro: 55,13% dos votos válidos

Fernando Haddad: 44,87% dos votos válidos

Brancos: 2,14%

Nulos: 7,43%


Abstenções: 21,30%

Governadores eleitos por partidos e estados: 

PSL: RO, RR e SC
PSDB: RS, MS e SP
PP: AC
PSD: PR e SE
DEM: GO e MT
PSC: AM e  RJ
NOVO: MG
MDB: AL, PA e DF
PHS: TO
PSB: ES, PB e  PE
PCdoB: MA
PDT: AP
PT: BA, CE, PI e RN 



Quem nos deixou em 2018


Tônia Carrero: atriz, 96 anos

Marielle Franco: vereadora, 39 anos



Dona Ivone Lara: cantora e compositora, 96 anos

Nelson Pereira dos Santos: cineasta, 90 anos

Waldir Pires: político, 92 anos


Joaquim Roriz: político, 82 anos

Daniel Alves: jogador de futebol


Carta aberta ao presidente Lula



Lula, meu caro, faz tempo que estou querendo te escrever. Esse pessoal do meio carcerário tem uma espécie de tara por proibir as coisas, então não sabia se minha carta ia chegar a ti, já que muita gente importante sequer conseguiu entrar para trocar umas palavras 

Cara, eu sei que tu não és santo, nem eu sou, nem ninguém é, então todos nós temos um monte de culpa por aí, mas o crime que tu cometeste realmente ninguém sabe até agora qual foi. Bem, você sabe disso, você já disse que aceitaria a pena tranquilamente se te mostrassem provas de um crime, só estou repetindo porque a carta será publicada e porque quero ressaltar uma coisa.

Hoje em dia com tanta culpa por aí, já nem precisa de crime para se condenar uma pessoa, basta querer condenar alguém que todo mundo já acha esse alguém culpado. É como um juiz me falou certa vez, que ele não sabia porque estava condenando o cidadão, mas o cidadão sabia porque estava sendo condenado. É mais ou menos assim que estamos vivendo, e é cada um por si.

No teu caso, um recibo de pedágio, a tua visita a um apartamento, mais dois ou três presos dedos-duros loucos para ganhar a liberdade, e pronto, está formada a prova necessária para a tua condenação, mesmo que ninguém diga onde está o teu dinheiro, onde está o benefício que tu tiveste nisso tudo, ninguém diz. E ninguém quer saber.

"Pode ser que digam que há mais coisas no teu processo, pode ser que haja, mas tenho certeza que se houvesse algo tão sério já teria sido divulgado aos quatro ventos, porque uma das coisas que mais se discute aqui fora é justamente a tua culpa, ou não culpa, e até agora só essa tua visita no apartamento que, obviamente, não é teu".

Xará (acabei de me tocar para o fato que temos o mesmo nome…rs…), a coisa tá difícil. Não quero entrar aqui na questão política, se fizeram tudo para te tirar da eleição, se têm ódio de ti porque és nordestino, um nordestino que teria chegado onde incomoda muita gente, e feito outros tantos nordestinos incomodarem mais gente por chegarem onde chegaram, não quero falar dessas questões políticas, quero conversar contigo sobre a tua situação atual.

Tenho trabalhado com presos a vida inteira e sei o quanto é difícil, principalmente em situação de isolamento, o encarceramento. Eu queria inclusive, com esta carta, te mandar uns livros, mas também não sei se chegariam até ti, são meios subversivos, acho que tu tens que ler algumas coisas subversivas, sabe? Tu tens que conhecer o sistema a fundo para entender a tua própria situação de encarcerado.

Um dia Nilo Batista disse que todo preso é um preso político. Pena que a maioria dos presos não sabe disso. O sistema, nele incluído o sistema penal, tem uma função primordial em fazer todos acreditarem, inclusive os próprios presos, que tudo funciona na mais perfeita ordem e, se tu estás preso, é porque devias estar preso.

Aliás, falando em Nilo Batista, e desviando do assunto novamente para a política, esse sim era um nome que tu devias ter nomeado para o Supremo. Poxa, tu não nomeaste nenhum penalista, e agora o que acontece, acontece que a maior parte dos integrantes do Supremo não sabe o que é uma prisão, dá para manter todo mundo preso sem um pingo de peso na consciência, convalidam mandado de busca e apreensão como se fosse um mandado de penhora, permitem condução coercitiva como se fosse uma intimação para depor em juizado, autorizam execução antecipada da pena como se ninguém corresse um grande risco de morrer, assassinado ou por doenças, atrás das grades.

Eu sei, eu sei, tu vais dizer que já percebeste isso, afinal estás preso e muitos dos que te mantiveram preso foram nomeados por ti. Eu também sofri na pele uma medida policial, uma busca e apreensão na minha casa autorizada à Polícia Federal por um magistrado nomeado por ti, mas até agora, pelo menos após a violência da busca, não tenho nada para dizer do juiz, apenas que ele não é da área penal, e ser da área penal é muito importante, porque o direito penal é como uma metralhadora, só serve para provocar dor e mortes. Não basta boa vontade para manusear uma metralhadora.

Qual a justificativa dessa medida contra mim? Alguns presos me elogiavam em interceptações telefônicas. O juiz não pode ser respeitado por preso, juiz deve ser odiado, essa é a imagem com a qual o poder judiciário tem buscado legitimidade frente a uma população sofrida por causa da criminalidade crescente, demonstrando-se rigoroso, mais um temido órgão de repressão. Mas depois eu volto a falar dos presos, dos outros presos.

Olha, esse fato acima parece irrelevante, mas é a prova de que eu podia muito bem achar bem feito o que aconteceu contigo, querer te ver preso, mas não, não quero. Seja pela tua idade, seja pelo que você representou para o Brasil, seja porque prisão não resolve nada, seja porque ainda não vi efetivamente o que tu usufruíste do crime, que também não sei qual é, que te imputam.

O mais interessante é que, e isso deve te deixar louco, tem um monte de gente pega com malas de dinheiro, helicóptero com cocaína, motorista milionário, ou seja, gente com dinheiro de verdade na conta, coisa mais fácil de provar, dinheiro na conta, mas estão todos soltos.
E, pior, nessas horas eles alegam o princípio da presunção de inocência, o devido processo legal, a ampla defesa, essas garantias jurídicas facilmente manuseáveis, principalmente em uma sociedade de memória fraca.

Sabe o que é, Lula, o sistema capitalista é feito de dinheiro, status, aparência e malícia, muita malícia, mas acima de tudo o sistema é feito de instituições, todas funcionando sob a mesma base, a que privilegia o acúmulo de capital, a que privilegia o mercado financeiro, em detrimento dos pobres.

Lá estou eu falando de política novamente. Nesse assunto, do mercado financeiro, nem quero tocar mesmo, porque seria a única coisa que estragaria esta carta, pois poderia falar coisas mais pesadas, a ponto de te deixar chateado comigo. Fostes muito bom para os bancos, para o mercado financeiro. Bem, deixa pra lá, pode ser que tu não tenhas tido outra saída, pois, afinal, ninguém ajudou mais os pobres do que você.

O fato é que tu és, além de tudo, um cara simpático. Não sei se vou te conhecer pessoalmente um dia, mas se isso acontecer, tenho muito mais coisa para te falar do que permite uma carta, “privada” (na condição em que tu estás nada é privado, e esse é um agravamento da pena, os presos perdem além da liberdade, a privacidade) ou principalmente pública, como essa que escrevo gora.

O que é importante é ter força, cara, as coisas mudam muito rapidamente nesse mundo. Nunca abaixe a cabeça, porque a esperança combina com cabeças erguidas, e há milhares de pessoas que ainda acreditam em ti, estão te esperando aqui fora, e isso deve ser capaz de te dar uma força tremenda.

Já recebi, na vida, milhares de cartas de presos, e em resposta a quase todas eu vou até o presídio e falo pessoalmente com o preso, mas essa é a primeira vez que escrevo a um preso. E não podia encerrar sem te dizer isso, Lula, mesmo que você tivesse cometido o crime mais bárbaro do mundo, todos os presos são seres humanos, todos os presos têm, acima de tudo, direito, se não porque são seres humanos, porque esse direito está na lei e na Constituição, de serem tratados com dignidade.

Espero que saias daí logo, possas voltar a conviver com os teus familiares, teus netos, mas não esqueças nunca essa situação de encarceramento, percebas o que muitas pessoas passam e passam em condições muito mais severas, em celas imundas, lotadas, com ratos e baratas, do que essas que tu estás vivendo.
Falo isso porque tu és, ainda és, um porta-voz do povo, de boa parte do povo, brasileiro, e grande parte desse povo está atrás das grades.

No mais, quero te desejar sorte, muita sorte. Que as pessoas que te odeiam, que também não são poucas, percebam a covardia que é espezinhar de uma pessoa presa, porque, acredite, Lula, não há limites para o ódio à pessoa encarcerada. Sorte, meu caro, não só tu como todos os brasileiros vão precisar neste novo ano de sorte. Não sou um cara religioso, posso até me considerar um ateu, embora essa conceituação não seja lá de muita importância para mim, mas te desejo muita sorte e, ainda com pouca fé, que tu fiques com Deus.

Grande abraço,

Luís Carlos Valois é Juiz de direito no Amazonas, mestre e doutor em direito penal e criminologia pela USP, pós-doutorando em criminologia em Hamburgo – Alemanha, membro da Associação de Juízes para Democracia e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.


Imagem: Google



Poema de fim de ano

O ano termina nos olhos da menina
dos olhos que se revelam luminosos.
Garotos dançam ao som de smartpones
com os fones nos ouvidos...
Na praça passeiam idosas e idosos
sob o sol da manhã
e há quem procure romã
para que ano novo seja de amor e sorte...
Ou a melhor cor de roupa para se vestir
e investir seu capital.
Um ano termina e outro se inicia...

Mas o que muda, afinal?

J Estanislau Filho
Escritor e poeta





terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Afrodite

                                                               Imagem: google



Meu nome é Hefesto. Passava horas em sítios de namoro até a noite em que encontrei Afrodite e inciamos uma amizade virtual, que mudaria o rumo de minha vida. Trocávamos ideias sobre vários assuntos. Afrodite falava sobre tudo com sabedoria. Seu poder de convencimento era desmesurado. Deixava pouco espaço para eu falar, mas não me importava. Gostava mesmo era de ouvi-la narrar suas aventuras amorosas. Não me esqueço de sua primeira confissão sexual com um oficial da marinha mercante. Fizeram sexo em meio a ondas, longe da costa. Ela narrava os mínimos detalhes: de como ele a penetrara, rodeada por tubarões. Esqueci algumas aventuras, por considerá-las banais. Às vezes eu conseguia interrompê-la e trazê-la ao meu mundo. Mas Afrodite fazia ouvidos moucos, para antecipar outras aventuras com homens do sítio de namoro. Perguntei-lhe várias vezes se fizera amor com mulheres ou em grupo. Sempre respondia que não gostava. Mas não se satisfazia com apenas um homem. "De cada vez, amigo", fazia questão de esclarecer. Assim acontecia. E em cada semana ela saía com um, às vezes em um único dia, com dois.
     N'outra ocasião, depois de muitas trocas de mensagens, ela se encantara com um nissei, por conta das músicas que ele lhe enviava. Afrodite, contou-me, agitada, que o nissei a deixava bolada. Imaginava a estrepolias sexuais que fariam. "Meu amigo, o nissei está consumindo os meus dias. Ele me conquistou pelo ouvido. A cada música que me envia, eu me masturbo. Meus pelos arrepiam. Preciso vê-lo com urgência, mas o maluco adia. Fico molhadinha, não sei mais o que fazer", arrematava desligando o telefone, para em seguida retornar a ligação e revelar um novo encontro, agora com um médico sarado, cheio da grana. E se despedia com um sorriso maroto.
    As aventuras de Afrodite mexiam com os meus sentimentos. Algo estranho se movimentava em meu ser e eu não sabia identificar.  Esperava, ansioso, o telefone tocar. Raramente falávamos pelo whatsapp ou messenger. Não sei porque motivo, ela preferia o telefone. Pedi-lhe várias vezes para falarmos pela câmera, mas ela nunca aceitou. Sua negativa levou-me a desconfiar quem de fato era Afrodite. Comecei a pôr em dúvida a sua identidade e ela me enviou uma foto da bunda, com uma calcinha apertada. Linda, redonda. E apagou em seguida. Respondi, que queria de corpo inteiro, nua ou seminua. "Sou exatamente como te disse: seios duros, medianos, coxas grossas e bem torneadas, deixo os homens enlouquecidos. Este rosto que você vê é meu. Quanto as outras partes, não insista. Envio fotos no sítio e apago imediatamente, meu amigo". Eu não gostava que ela me chamasse de amigo. "Amigo porra nenhuma, sou seu Hefesto", retrucava em tom de brincadeira, mas no fundo... Explicarei à frente, porque o telefone está tocando. É ela!
     Para me contar, atropelando as palavras, que passara a tarde em um motel vagabundo, uma espelunca, com um cowboy tosco, que falava tudo errado, "mas, meu amigo, faz sexo como poucos. O cara me virou pelo avesso. É a primeira vez que peço a um homem um descanso. Foram quase três horas de sexo ininterrupto. O cara é um monstro", arrematava com satisfação. E completava, "mas não quero sair com ele mais não, quero alguém mais refinado".
     Assim que desligava, meu corpo fremia. Sonhava acordado com Afrodite em minha cama, na hidro coberta de pétalas aromáticas e a gente se divertindo da forma em que vinhemos ao mundo. Eu a conduzia nua à cobertura, para um banho na piscina térmica. Lá eu tiraria centenas de fotos dela em posições sensuais. Só de imaginar a cena, eu ficava excitadíssimo. Ela desfilando ao redor da piscina, entre gerânios e jasmins. De repente o telefone toca e me tira do devaneio. Para me contar, que transara dentro do automóvel, com um empresário do petróleo, que prometera mundos e fundos em troca da sua fidelidade, mas ela recusa, alega não ser mulher de apenas um. Eu sugiro que ela aceite, sem precisar cumprir a promessa. Ela responde não, pois se diz incapaz de trair um pacto de fidelidade. E conta, com o tradicional sorriso maroto, que as águas a excitam. Gosta de fazer amor no mar, sob ondas e tempestades. Também sob cachoeiras, rios e lagos. Eu sou o contraponto dessa mulher nascida nas águas. Sou fogo. Nosso encontro é inevitável se se confirmar que os opostos se atraem. Mas voltando a Afrodite, ela acaba de me ligar, pra dizer que retornou aos braços e afagos de um ex de mais de dois metros de altura. Ele a procurou e ela não resistiu. O peso do seu corpo sobre o dela, o pênis enorme em sua fenda, marcou-a. O nome dele é Ares, amante das armas e da guerra. "Ele - conta - me espreme contra o colchão com força descomunal..." E segue a narrativa de um sexo selvagem. "Ele faz sexo com um revólver apontado em minhas têmporas", diz amedrontada. Depois do orgasmo, Ares a empurra e a agride com duras palavras. Foge em seguida. "Talvez, amigo, para não me matar, não quero vê-lo mais", desabafa, num choro. E me manda a foto de Ares, "caso aconteça algo comigo, você poderá ajudar nas investigações". Fico em silêncio. Ela insiste e eu respondo, "ah minha doce Afrodite, não vá mais ao encontro de Ares, é loucura!". Ela concorda.
     Mas, dentro de mim um sentimento indecifrável vai ganhando forma.  É como uma chama que me consome por dentro.
     Afrodite ficou sem me ligar por três dias. Enviava-lhe mensagens. Nada de respostas. No segundo dia notei que ela acessara o zap. Nada de respostas. Cogitei de que ela estava em perigo. Teria saído com Ares novamente? Algo me comia as entranhas. Eu estava com raiva, medo, ciúmes. Não quero falar com ela. Não, quero sim. Sentimentos opostos invadiam meu âmago. No terceiro dia, à tarde, como de costume, ela me ligou. Ah, tive vontade de matá-la. Desgraçada. Contou-me que fora amarrada e amordaçada por Hermes. Que a experiência a levara a orgasmos múltiplos. Um misto de sentimentos contraditórios deixou-me arrasado. Como na maioria de nossas conversas, eu apenas ouvia. Até o momento em que explodi:
- Caralho, me deixa falar! Porra. Eu estava com os nervos à flor da pele, ardendo em brasa. - Desgraçada, pensa que meus ouvidos são depositários de sua promiscuidade? Falei tudo que estava engasgado. Só parei quando ouvi seu choro. "Por favor, meu amor, não chore, me perdoe". Entre soluços disse que não me contaria mais suas peripécias libidinosas. "Não meu amor, conte-me tudo, fico feliz de saber".  Porém eu não estava certo disso. Como poderia ser felicidade se suas aventuras sexuais me maltratavam e davam-me prazer?  Essa ambivalência estava me consumindo. Tomei uma decisão. Afrodite seria somente minha. Elaborei um plano. Convidei-a a vir em minha casa. Quase chorei de alegria com o seu aceite. Enquanto não vem, ela continua me ligando, contando suas experiências libidinosas, mas agora, em busca de uma relação monogâmica, duradoura.
     Estou certo de ser o escolhido.

                                                                Imagem: Google



J Estanislau Filho