quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Capítulos 3 e 4 de Filhos da Terra

Rapidinho: 

Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor. 

Agradeço pela leitura e peço a quem encontrar algum erro de gramática ou digitação, por favor, me avise.


3 - O Microcosmo de Elói

Elói G. de Araújo era um jornalista cético com a mídia empresarial. Para os inimigos, um frustrado. Era repórter de um jornal de grande circulação na região metropolitana. Ao se formar, acreditava poder realizar grandes reportagens, contribuindo, assim, na divulgação da verdade dos fatos. Sentiu o primeiro baque na reportagem de estreia ao denunciar um deputado corrupto, ligado ao tráfico de pedras preciosas. Tomou todos os cuidados, pois receava jogar lama em inocentes. Checou fontes, documentos, ouviu todos os lados envolvidos. A decepção foi enorme ao ouvir do chefe de redação, que a sua matéria não seria publicada, pois o deputado era empresário influente e responsável por boa parte do faturamento do jornal, através de anúncios diários. Elói engoliu seco e só não pediu demissão, porque precisava do emprego. A segunda decepção veio quando o colocaram como redator do caderno de veículos. Não se entregou. Não estudara seis anos de jornalismo, para escrever sobre virabrequim, platinado e corridas, assunto, aliás, que não conhecia. Consultou alguns colegas de redação sobre como elaborar as matérias e eles responderam em uníssono: - Aqui nada se cria, tudo se copia na internet.
     Foi a campo e fez uma extensa reportagem sobre sonegação fiscal das montadoras de veículos, provando como elas exerciam pressão sobre o governo, para obter redução de IPI, e mesmo com a redução, elas não repassavam os impostos recolhidos dos contribuintes ao governo, numa mega sonegação. Provou a prática de apropriação indébita. O chefe de redação elogiou a matéria, mas disse que não poderia ser publicada daquela forma, iria editá-la. No dia seguinte, de fato, a matéria fora publicada. Elói não se conteve. Procurou o chefe e soltou os cachorros: - Pô cara, você arrebentou com a minha matéria e ainda por cima assinou como sua?! Aliás foi melhor assim, porque isto aí não tem nada a ver com o que escrevi. 
     - Calma Elói - respondeu o chefe -, eu conversei com a direção e eles elogiaram a matéria, mas sugeriram que deveríamos denunciar o governo, afinal é o responsável pela fiscalização. Você acha que o governo é inocente?
     - Não acho que o governo seja inocente, mas o fato é que há sonegação e ponto. Quanto ao governo, podemos pautar - retrucou Elói.
     - Não posso contrariar os interesses do jornal, vamos publicar como está e ponto final. Não é o governo que paga os nossos salários. Qual é, Elói? Sabe tanto quanto eu o quanto os políticos são corruptos!
     - Não venha com provocações, porque você também sabe, assim como eu, como os empresários, inclusive os da mídia empresarial são corruptos. De qualquer forma não deixa de ser interessante o jornal denunciar um governo, que esse veículo de comunicação, assim como tantos outros, ajudaram a se reeleger. Um governo que abafou CPI's; privatizou estatais lucrativas a preço de banana em conluio com aliados; sucateou o Estado... - retrucou Elói, indignado.
     - Nada ficou provado e não vamos generalizar. Nem todos os empresários, nem toda mídia são podres - respondeu o chefe.
     - Você está desviando o assunto. Eu fiz uma matéria e você, num suposto acordo com o patrão, fez uma edição porca, sacana. Nem vou discutir ética jornalística...
     - Deixa de bancar o bom mocinho. Você sabe como as coisas funcionam. Não há nada que se possa fazer.
     Saiu da sala inconformado com os rumos da imprensa. Os anos de luta contra a censura oficial desembocavam na censura patronal. A partir daí, convenceu-se definitivamente de que a grande mídia estava a serviço do capital e não mudaria a postura. Acomodou-se, para preservar o emprego. Enquanto isso tentaria construir uma alternativa de colocar em prática o seu projeto. Nesse mesmo dia tomou a decisão de mudar para um bairro operário e se comprometer com os movimentos sociais, com a ideia de assessorá-los na área de comunicação. Alugou um pequeno imóvel e em poucos dias adaptara-se relativamente à nova vida. Estava feliz com a escolha. Os moradores gostavam dele; ajudou a montar um informativo da associação do bairro, participava de reuniões e a amizade com Zenaide iluminava seu pequeno mundo. Era um home livre, sem laços familiares, pois seus pais faleceram sem dar-lhe irmãos. Não tinha afinidade com os primos latifundiários, que odiavam o MST. Sentia-se bem com a família de Dona Sônia. Sua casa era simples, como convém a um homem do povo. Móveis simples e práticos. De luxo, apenas um aparelho de som moderno, muitos discos e uma garrafa de uísque doze anos, um prazer de que não abria mão. Um computador, instrumento de trabalho, ligado a internet, livros espalhados pela casa. Não tinha carro, o salário de jornalista não permitia. Às vezes usava o carro do jornal, com o motorista, para pegar um bico - freelancer - de algum parlamentar de esquerda. Sonhava sair da camisa-de-força da mídia empresarial, mas precisava do salário e o jornal dava-lhe mais visibilidade. Lá no fundo queria emplacar uma grande reportagem, ganhar projeção nacional. 'EGO... E de Elói, G de Gouveia e O de Oliveira, não, não é nada disso, quero fazer uma reportagem que contribua no avanço da consciência da realidade desse país de miseráveis, de idosos injustiçados e crianças abandonadas". Sentiu o olhar penetrante do Comandante fustigando-lhe a consciência. O poster de Che Guevara, com um charuto na boca, estava afixado na parede do escritório, protegido por uma moldura simples, de vidro. Havia também uma foto em preto e branco de trabalhadores rurais com foices e enxadas, de Sebastião Salgado. Nas horas vagas bebia o uísque com bastante gelo e água, enquanto ouvia as canções de Chico Buarque, Gil, Silvio Rodriguez, Pablo Milanês, Xangai e músicos independentes. Nestas horas seus pensamentos voltavam para Zenaide, a garota de seus sonhos dourados. Ele a via com seus cabelos longos da cor do ouro, envolta em um vestido branco, transparente, desfilando sob os aplausos de um público imaginário. Ela desfilava sedutoramente para ele, lentamente se desnudando, chamando-o para si, alisando suavemente os seios empinados, com um sorriso moleque. "O que é isso, Elói, está viajando? Não vê que ela é apenas uma adolescente sonhadora, enlouqueceu? Ah, mas que ela é uma doce tentação, isso ela é!". Voltando à realidade, espantando os devaneios, ocupava-se em pensar numa maneira de ajudar a garota mais linda do bairro a realizar seus sonhos. Ela tinha garra, era inteligente, determinada e muito bonita. Não a deixaria desamparada e não permitiria mais que esses pensamentos torpes o dominassem. Jamais abusaria da confiança de Dona Sônia, da família que o acolhera com afeto. Zenaide agora era como se fosse uma filha. Dormiu abraçado ao travesseiro.


4 - O Segredo de Edileuza

Edileuza não deixava de ir aos cultos da Igreja Nacional do Reino do Amor, nas terças, quintas, sábados e domingos. Com seu vestido cinza batendo no tornozelo, uma blusa cobrindo até a altura do pescoço, cabelos longos maltratados e com a cara fechada, saía com a bíblia debaixo do braço e o olhar fixo no chão, para que não pairasse nenhuma dúvida entre os vizinhos sobre a sua pureza. Pagava o dízimo em dia e era sempre elogiada pelo pastor, por sua conduta ilibada.
     Por conta de sua dedicação, fora escolhida pelo pastor para estudar a bíblia com os superiores, m vistas a tornar-se uma pastora e poder levar a mensagem de Jesus aos pecadores. Em casa ninguém sabia, pois desistira de converter a família. Quando era cobrada pelo pastor, para se empenhar mais na conversão dos familiares, ela respondia que "em casa de ferreiro o espeto é de pau". "Não é por falta de esforço não - continuava - eles ainda não foram tocados, irmão, mas sangue de Jesus tem poder, aleluia!". "Aleluia, irmã", respondia o pastor.
     Ao retornar à sua casa, depois do culto de uma terça-feira de verão em que lera e uma passagem do deuteronômio, caminhando em meu a penumbra da rua, a jovem evangélica foi abordada por um rapaz. Edileuza apertou o passo, procurando afastar-se, porém foi imobilizada, tendo a boca tapada, com vigor: - Não grite e tudo acabará bem - ameaçou o estranho. Ela não esbouçou nenhuma reação, apenas orava, pedindo proteção ao Senhor, enquanto o rapaz levantava seu longo vestido e alisava suas coxas e seios.
     - Vou retirar a mão de sua boca, promete que não vai gritar? Perguntou o rapaz. Edileuza balançou a cabeça afirmativamente.
     - Ótimo, assim é melhor, não quero machucá-la. Quero que se entregue, pois sou louco por você - disse o moço, excitado, subitamente beijando-a na boca.

                                                                Imagem: Domínio público

     Foi um beijo longo, com as mãos debaixo do vestido, percorrendo freneticamente o corpo de Edileuza, que amolecia. Empurrou-a contra o muro, levantou o vestido, deixando à mostra duas coxas rosadas, grossas e rígidas, em seguida desabotoou o sutiã e beijou sofregamente os seios, desferindo suaves mordidas nos mamilos. Edileuza permaneceu inerte. Apos longos loucos minutos, o rapaz pôs-se a chorar diante de uma mulher de sentimentos opostos, que não sabia se gritava por socorro ou se consolava o agressor. Ao perceber que era dona da situação, perguntou: - Quem é você e o que quer de mim? Mas não obteve resposta. O rapaz fugiu na penumbra. Edileuza levou a mão nas coxas molhadas de esperma e sentiu um arrepio. Ao chegar em casa foi direto para o seu quarto, em silêncio. Zenaide folheava uma revista de modas e assim continuou, sem prestar atenção na irmã, que se atirou na cama sem tirar a roupa, com a bíblia sobre o peito e o olhar perdido no teto de telha de amianto. Em seguida dormiu.
     Ao ver a irmã dormindo, Zenaide retirou a bíblia delicadamente e a colocou sobre o criado. Percebeu que ela tinha o sono agitado, balançando a cabeça negativamente e dizendo "não, não, pare satanás, não me tente". Zenaide acordou-a carinhosamente, alisando com suavidade os cabelos da mana. Edileuza abriu os olhos, assustada, olhando a irmã, que dizia: - Você estava tendo um pesadelo, por isso te acordei. Minha irmãzinha, o que está acontecendo?
     - Não está acontecendo nada - respondeu -, foi um pesadelo, obrigada. 
     - Como não? Você se debatia agitadíssima. Acho que anda rezando demais. Olha que pra tudo tem limite, devia mesmo arranjar um homem, fazer sexo e descarregar as energias armazenadas.
     - Você é uma depravada - respondeu, agressiva.
     - Aí é que você se engana - retrucou Zenaide.
     - Anda por aí mostrando o rabo como uma puta - disse a beata, com o semblante carreregado.
     - Mostro sim, o rabo é meu. Quem não quer ver estrela, não olhe para o céu. Agora quer saber de uma coisa? Tenho quase quatorze anos e sei muito bem mais do mundo que você. Sei o que quero, ainda não transei. Faço o meu charme, jogo as tranças, sei seduzir os homens, mas farei sexo com quem eu quiser, na hora em que eu quiser. Não estou preocupada com isso, por enquanto. Quero ganhar dinheiro, muito dinheiro e sair desse buraco. Estou me preparando, correndo atrás, pode ter certeza - disse Zenaide, com um olhar sonhador.
     - Tudo bem, irmãzinha, mas primeiro você devia aceitar Jesus!
     - Não me venha com este papo, Edi. Já aceitei Jesus, só que do meu jeito, tá legal? Vamos mudar de assunto, senão a gente acaba brigando - respondeu Zenaide, voltando a folhear a revista.
     Edileuza tirou o vestido de costas pra irmã, com receios de que ela visse nódoas em suas coxas. Em seguida dirigiu-se ao banheiro. Enquanto a água caía em seu corpo, lembrava do beijo e das mãos do rapaz alisando seu corpo. Ficou excitada. 



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Na próxima quarta um novo capítulo de Filhos da Terra

terça-feira, 14 de agosto de 2018

cacto

                                                             Imagem: Google


"Mandacaru quando fulôra na seca
É o sinal que a chuva chega no sertão..."
Luiz Gonzaga em O Xote das Meninas





resistente espinhosa
defende-se como pode
do chão tórrido seca brava
pacientemente espera
e viceja quando chove
[flor se abre esplendorosa]
espinhos afiados melhor ter cuidado
brota no cerrado
alimenta e mata a sede
não teme maus presságios
e se ergue lenta e perseverante para o céu
flor da caatinga
que fulôra na seca como a cantiga
do cancioneiro popular



                                                                  Imagem: Google



Da série "pra não dizer que não falei das flores" - leia também azaleia, magnólia, cravina, crisântemo...

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A linha e o trem



Sobre a linha passa o trem, com um monte de vagões carregado de minério. É nesta linha que faço a minha caminhada, por volta das dezesseis horas, até lá pras seis. Geralmente nas segundas, na terça tenho oficina de teatro, quartas e quintas. Vou, à pé. Alguns vão de carro ou de moto, até o inicio da linha. Vou até a boca do túnel,às vezes o ultrapasso, para beber água da mina. Água mineral. Às vezes levo a câmera e tiro fotos. Filmei o trem uma vez. Às vezes encontro com o Afrânio. Às vezes o Vilmar passa de carro, sem acelerar, para não levantar poeira e prejudicar os andarilhos. O Vilmar é educado. Assusto quando ele passeia com um pitt-bul. A Luana, às vezes também coincide de eu vê-la. Agora de moto, antes numa bicicleta. Tive alguns parceiros e parceiras de caminhada. Mais parceiras. Parentes, amigos e amigas que me visitam, geralmente eu os levo pra caminhar na linha [Não podendo acomodador a todos em minha casa, sugiro a pousada de Neusa Vale].  

Meu filho, Fernando teve medo de entrar na mina d'água. Mas entrou, com o Raul. Vi umas três vezes um homem correndo, com um aparelho de medir batimento cardíaco. Uma amiga de caminhada me disse que era o Olímpio. Costumo, digo, costumava me encontrar com o Camilo. Uma vez tive a impressão duma jovem, que caminhava sozinha, ficar assustada comigo. Será que sou tão feio assim? O Ângelo, teve um período, que a gente sempre se via na caminhada. Nos últimos dois meses, tenho caminhado no campo de futebol. Então falo de acontecimentos daí pra trás. Me lembro também de ver o Fúvio , antes de ele ser prefeito, e a Eliane, antes de tornar-se primeira dama. Tinha um moço, que conheço de vista, caminhava, não, corria ao lado de um cão. Pastor alemão, se não me engano. Até bati um papo com o cão e o seu dono. Durante a caminhada é comum ver o trem carregado de minério, passar apitando. Em sinal de alerta e cumprimento. Como disse lá atrás, fiz um vídeo. Um monte de vagões lotado de minério. Cheguei a contar mais de cento e tantos. Ah, ia me esquecendo do Irineu da Dona Adélia. Sempre o convido pra caminhar, mas ele sempre adia. É divertido caminhar na linha do trem. Gosto muito de ir pelo caminho da pinguela sobre o ribeirão. Mosquito? Não sei. Tirei uma foto pendurado, como se estivesse caindo lá do alto. Não pode ser eu quem tirou a foto. Não me lembro quem foi esta pessoa generosa. Umas duas vezes, passando pelo caminho do Engenho Século XVIII, encontrei o Joaquim. O Grilo, lá do Geno, que vez em quando encontramos no campo de futebol, onde caminho atualmente, tem a mania de me chamar de Joaquim.

      A história tá muito esticada, preciso finalizar e para isso, gostaria que os xavierenses, principalmente, me respondessem:  para onde vai tanto minério? Passa, também, com fios máquinas, bobinas e tubos de aço, além de cimento. Mas bonito mesmo são as árvores e os pássaros, gaviões, maritacas, uns pequeninos. E ter atenção com a cascavel. Eu vi uma esticada, tomando um banho de sol. Linda. Tem muitas histórias sobre a linha do trem. Que também é ponto de encontro de amores norteados e desnorteados. O povo fala demais.
     Engraçado, lembrei de uma coisa: nunca vi ninguém da área de saúde na caminhada na linha do trem. Logo eles, que vivem dizendo pra gente, que caminhar faz bem pra saúde. Esquisito, né?
     Agora, pra terminar mesmo, pra onde vai o trem e a linha, com  tanto minério nas costas?



J Estanislau Filho








Imagens: acervo do autor



2 O Ambiente Familiar - Segundo capítulo de Filhos da Terra


Filhos da Terra

Rapidinho:
Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor. Capa: Berzé; Ilustrações do miolo: Eliana; editoração eletrônica: Fernando Estanislau; impressão: Editora O Lutador - 2009, primeira edição 




Sumário



1 - A Garota mais linda do bairro

2 - O Ambiente Familiar

3 - O microcosmo de Elói

4 - O Segredo de Edileuza
5 - Wallace surpreende
6 - Medo e desejo
7 - O tempo passa rápido
8 - Meu guri
9 - As revelações de Zenaide
10-Na redação
11-Tenório e Edileuza decidem se casas
12-Um corpo no matagal
13-Não sou o salvador da pátria
14-O tempo continua implacável
15-Para onde vai o governo?
16-Reviravolta
17-Vitória
18-A república em perigo
19-A loira misteriosa
20-Frango ao molho pardo
21-O que está acontecendo
22-Encontro Marcado
23-Os encontros se sucedem
24-O povo vai às urnas
25-Realidade e sentimento


2 - O Ambiente Familiar


Marcelo era o mais velho dos irmãos e se entregava ao álcool cada vez mais. Não passava uma semana sem arrumar encrenca. Não que tivesse uma natureza ruim, ao contrário; era trabalhador e solidário com os irmãos e com os amigos. Mas a bebida alterava, ou aflorava a sua personalidade violenta. Brigava com qualquer um que contrariasse seu ponto de vista sobre qualquer assunto em discussão, enfim, transformava-se num chato insuportável. Eu era uma das poucas pessoas que ele ouvia com atenção e respeito. Até mesmo quando estava bêbado, me obedecia. Os elogios que me dirigiam na presença das pessoa causavam-me constrangimentos:

     - O Elói é a melhor pessoa do mundo, nem mesmo meu pai, que Deus o tenha, tinha um coração como o deste cara. Ele é justo, tem lugar garantido no céu!

     - Menos, Marcelo, menos! Não estou com esta bola toda, nem sabemos se o céu existe.

     De vez em quando eu ia visitar a família dele, para "jogar conversa fora", mas secretamente, queria contemplar a beleza da irmã. Depois que aparecera na televisão, Zenaide se transformara radicalmente. O semblante de adolescente desaparecera e no lugar surgiu uma mulher decidida a ir ao encontro do sucesso e eu, em seus sonhos, seria a pessoa que lhe abriria as portas deste mundo. Ela passou a me procurar com insistência, pedindo-me orientações. Entrava em meu escritório, sem pedir licença, interrompendo meu trabalho. Às vezes eu me irritava, mas ela falava com voz sedutora e percebendo minha excitação, privilegiava-me deixando à mostra seus seios brancos e pontudos. Corado, respondia:
     - Porquê você cismou que eu tenho as chaves que abrirão as portas da fama para você, Zenaide?
     Ela então sentava-se comodamente na poltrona, abrindo ligeiramente as pernas, para eu ver um montinho de cabelos negros tentadores e dizia:
     - Você é bem relacionado, conhece pessoas da televisão, conhece empresários da moda, conhece políticos...
     Reprimindo o desejo de abraçá-la, eu replicava:
     - Veja bem, Zenaide, você é uma menina bonita, mas isto não basta. Além de menor, você é quase uma analfabeta. Vai estudar, criança!
     Nada a irritava tanto quando eu a chamava de criança. Levantava-se e saía blasfemando. Antes de bater a porta com força, dizia: - Já estou na sétima série e você é um tarado! Eu ria, mas intimamente sabia que ela tinha uma certa razão, pois dentro de mim as fantasias de tê-la nua sobre a minha cama ou na poltrona, iam ganhando formas. Não tinha ideia de como isso poderia acontecer, se é que iria acontecer, pois morria de medo de escândalo, complicações judiciais. Às vezes não resistia e me masturbava, pensando estar cobrindo-a de beijos.
     Edileuza era o contrário da irmã. Escondia sua beleza em vestidos longos, não usava maquilagem e tinha um ar grave de uma evangélica. Frequentava a Igreja Nacional do Reino de Amor. Impossível manter uma conversa com ela durante cinco minutos, pois estava sempre citando um capítulo da Bíblia. Fora da Bíblia ou das palavras dos pastores da Igreja só havia devassidão e demônios. Ela era o sustentáculo econômico da família, trabalhava e orava. Tentou impor normas rígidas no lar, impedir que ouvissem músicas que não fossem goospel. Televisão, só os programas evangélicos. Mas não conseguiu. A mãe, Dona Sônia, adorava pagode e não perdia a novela das sete, das oito, para o desespero da filha careta. Não tinha o controle da família e se desesperava, vendo o irmão caçula, de apenas onze anos em companhias esquisitas.
     Wallace era de fato uma criança rebelde. Faltava às aulas e quando ia, aprontava. A mãe dava conselhos, porém, as dificuldades financeiras não lhes permitiam acompanhá-lo de perto. O futuro de Wallace era nebuloso.
     Dona Sônia não era plenamente equilibrada. Ficara viúva relativamente jovem, sem profissão e com quatro filhos para criar. Conformava-se com tudo dizendo que Deus escreve certo por linhas tortas. Nesta altura, Edileuza, apesar de jovem, dividia as responsabilidades da casa, cuidando dos menores.
     Apesar das diferenças, das brigas domésticas e do desequilíbrio familiar, eram unidos. Todos idolatravam a mãe. Mesmo a beata Edileuza, que condenava as estrepolias sexuais dela e o despudoramento de Zenaide, não permitia que elas fossem difamadas por ninguém. Quando vez ou outra alguém da família saía aos tapas com algum vizinho, lá estavam todos, unidos contra o suposto agressor. E a coisa ficava mesmo feia. Munidos de paus, pedras, facas, botavam o desavisado pra correr.
     Em pouco tempo eu estava integrado nesse intempestivo ambiente familiar. Pegava sem pedir, o café; quando tinha pão e manteiga, comia tranquilamente, sob o olhar de todos. Dona Sônia, solícita, me cercava de atenção, inclinando, para me servir o café, momento adequado para me mostrar os seus predicados. Tinha seios firmes, apesar das marcas que o tempo gravara em sua pele. tinha os seus encantos. Algumas vezes pensei em satisfazer meus impulsos sexuais com ela, sem correr o risco de uma gravidez, pois seu útero fora retirado. Cheguei mesmo a perguntá-la um dia, quando não sabia como sossegar a libido, se ela tomava precauções na hora de fazer amor. Animada, respondeu-me: - Claro, eu exijo camisinha! - orgulhosa e sedutora, acrescentou: - Também não ando aí feito louca, fazendo amor com qualquer um. Mas preferi não me envolver. Inconscientemente eu a evitava, não queria magoá-la, pois sabia do sonho dela de se casar novamente. Secretamente eu tinha medo... Mas de quê? Por quê?
     Eu era um convidado nos almoços de domingo, o dia reservado para me relacionar socialmente com os vizinhos. Às dez horas em ponto tomava cerveja no Bar Tomé e jogava conversa fora com os frequentadores; às onze jogava truco na casa de Seu Vitor, de onde saía para o almoço com a família de Dona Sônia, sempre recebido com alegria sincera.
     Nem sempre o almoço transcorria em paz. Marcelo chegava bêbado e armava um barraco. Edileuza queria fazer oração antes e Zenaide batia o pé: - Ah Edileuza, cada um que faça a sua oração em silêncio, Deus não é surdo. Isto porque, Edileuza orava em voz alta, num monólogo interminável.
     - Não custa nada - eu intercedia em favor da beata - vamos orar.
     - Mas que não vire moda - reagia a irmã. O cardápio era sempre o mesmo: frango. Ora com quiabo e angu; ora ao molho pardo; ora com macarrão ou frito, assado. Sempre saboroso. Quando eu não almoçava  com eles, sentia um vazio no estômago. Dona Sônia estava sempre bem vestida e maquiada, provocante. Edileuza com seu vestido longo, o rosto limpo; Marcelo escornado na cama, dormindo e roncando, depois de eu tê-lo acalmado. Wallace comia em silêncio, enigmático e Zenaide... praticamente de sutiã e calcinha, exibindo seios, barriga, costas, bundas e pernas lindas. O assunto era a aparição de Zenaide na TV e os novos amigos que conquistara. A mãe demonstrava preocupação.
     - Elói - dizia com o garfo suspenso - conversa com esta menina. Já não me obedece mais. Está chegando tarde em casa, Andando com desconhecidos, falando em abandonar a escola. Não sei mais o que dizer a ela, pois, para tudo ela tem uma resposta na ponta da língua. Sexta-feira passada, um rapaz bonito, num carrão foi quem a trouxe pra casa.
     Esta notícia me abalou. Mas me contive e disse, tentando esconder a raiva:
     - Mas o que é isso, Zenaide! Ficou maluca? Não consegui dizer mais nada. Olhando-me maliciosamente, ela respondeu:
     - Não se preocupem comigo, sei o que estou fazendo. O rapaz é gente fina, prometeu conversar com um estilista conhecido dele, uma oportunidade de eu vir a trabalhar em seu ateliê. Não posso perder essa oportunidade.
     Olhei fundo em seus olhos e disse:
     - Zenaide, acho bom tomar cuidado. As coisas não são tão simples assim. O mundo está cheio de picaretas, querendo tirar proveito de pessoas inocentes como você.
     - Ah, tem dó, Elói! Sou boba não. Sei o que quero. Já que você está tão preocupado comigo, porque então não faz nada? Você é jornalista, sem jornal, é claro! Completou, me provocando.
     - Você é de menor - retrucou Edileuza.
     - Pois saiba que escrevo artigos em diversos jornais, dou assessoria de comunicação e sou procurado por empresários e políticos. A questão é que eu não confio nos propósitos deste pessoal. Estão interessados no vil metal, em explorar, enganar e manipular a opinião pública. Respondi com empáfia.
     - Você nunca me mostrou uma foto sua ou um artigo com a sua assinatura em jornal ou revista. Tenho cá minhas dúvidas - disse balançando leve e sedutoramente os cabelos.
     Respondi tentando controlar a raiva:
     - Não tenho necessidade de aparece, não me interessa o convívio com os hipócritas. Escrevo os meus artigos e os vendo, porque preciso de grana para suprir as minhas necessidades, entende? Não sou vaidoso, mas vou mostrar-lhe os meus textos, assinados e publicados em revistas afinadas com a minha ideologia. Só uso a mídia podre como fonte de subsistência. Não tenho projeto de acumular capital.
     - Para de falar bobagem! Eu quero ter muita grana, viajar e frequentar os melhores restaurantes, ter uma casa bonita. Quero sair daqui, isso aqui é uma pobreza. Nem um banheiro decente nós temos!
     - Está vendo, Elói, como ela ficou mais atrevida depois que apareceu na televisão? Nós somos pobres, mas somos honestos - interveio Dona Sônia.
     - Zenaide, não se trata de você querer melhorar de vida. Quanto a isso, tudo bem, mas é preciso cuidado, o mundo está cheio de pilantras. Como você pode ter certeza de que este cara quer mesmo te ajudar? Te digo com conhecimento de causa: o mundo das passarelas é hipócrita, não só das passarelas, o da mídia, do teatro e do cinema, dos esportes. Não estou querendo dizer com isso, que não existam profissionais sérios. Você não pode ser encaminhada por um estranho, sem a presença de um adulto responsável, entende?
     - Em você eu posso confiar? Respondeu-me desaforadamente.
     - Não só você, todos nesta casa confiamos em Elói. Faça o favor de respeitá-lo, está bem?
     Fiquei aliviado com as palavras de Dona Sônia e olhei com ar vitorioso pra Zenaide, que balançou os ombros em sinal de desdém. Nesse momento uma emoção nova tomou conta de mim, precisava, de alguma forma contribuir para que os sonhos da garota não se transformassem em pesadelos e obsessão. Um longo silêncio invadiu o ambiente, interrompido apenas pelo som dos talheres inoxidáveis, contentes por ser o dia em que saíam da sombra da gaveta e se exibiam sobre a mesa forrada com toalha de renda de bilro. Com um olhar dissimulado percebi os olhos marejados de Zenaide. Contive o ímpeto de dizer-lhe palavras de consolo. Reprimi também o desejo de abraçá-la e acariciar-lhe os cabelos longos, penteados e tingidos de loiros. Ela acreditava que seus cabelos negros seriam um obstáculo à sua carreira de sucesso. Suas lágrimas derramaram dentro de mim, inundando-me de tristeza. E era contra essa dor abissal que eu lutava cotidianamente, só interrompida quando Zenaide entrava, iluminando meu microcosmo. Queria pedir-lhe que enxugasse os olhos e sorrisse para mim. Como para me punir, ela se manteve em silêncio durante o almoço. Em seguida foi para o quarto.
     O silêncio foi quebrado quando Dona Sônia disse: - Não sei o que está acontecendo com esta menina, ultimamente deu para ficar macambúzia. - Não se preocupe, é próprio da idade, vai passar - respondi.






Peço aos leitores e leitoras, encontrando algum erro de gramática ou digitação, para me avisar. Leia na quarta-feira que vem o próximo capítulo: 



3 - O Microcosmo de Elói



quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Filhos da Terra

Rapidinho:
Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor. Capa: Berzé - Ilustração: Eliana - Editoração eletrônica: Fernando Estanislau - Prefácio: Ignácio Hernadez - Editora: O Lutador - 2009



Sumário

1 - A Garota mais linda do bairro
2 - O Ambiente Familiar
3 - O microcosmo de Elói
4 - O Segredo de Edileuza
5 - Wallace surpreende
6 - Medo e desejo
7 - O tempo passa rápido
8 - Meu guri
9 - As revelações de Zenaide
10-Na redação
11-Tenório e Edileuza decidem se casas
12-Um corpo no matagal
13-Não sou o salvador da pátria
14-O tempo continua implacável
15-Para onde vai o governo?
16-Reviravolta
17-Vitória
18-A república em perigo
19-A loira misteriosa
20-Frango ao molho pardo
21-O que está acontecendo
22-Encontro Marcado
23-Os encontros se sucedem
24-O povo vai às urnas
25-Realidade e sentimento


1 - A Garota Mais Linda do Bairro - primeiro capítulo



Tinha apenas treze anos de idade e despertava desejo até mesmo de decrépitos indolentes. Era uma beleza vê-la andando distraída pelas ruas, balançando os cabelos com displicência, cônscia do despertar de sua sexualidade. Não era exibição, pois caminhava naturalmente, sorria naturalmente, cumprimentava a todos e todas que a conheciam e desejava o que uma adolescente geralmente deseja: diversão. Era uma menina alegre e por causa de sua beleza era muito comentada pela população masculina do bairro e, consta, também, por muitas mulheres de sexualidade dual.
     A beleza dela não era comum, não obedecia os padrões estéticos estabelecidos pela indústria da beleza. Talvez por isso, chamasse tanto a atenção. Ela era magra, mas de uma magreza estranha. Era uma falsa magra, pois, o olhar atento e quase todos olhavam-na atentamente, notaria que ela tinha umas coxas grossas, um traseiro bem delineado, de acordo com o conjunto do corpo. O rosto incomum sugeria que ela poderia ser modelo e tudo indicava, que seria beneficiada pela altura, o que aumentava a chance de tentar as passarelas. As pernas longas realçavam seu corpo, sugerindo uma idade além de seus treze anos. Era a garota mais linda do bairro, segundo a opinião dos fogosos rapazes, que sonhavam fazer sexo com ela. A família tentava de todas as formas impedi-la de circular pelas ruas do bairro e frequentar os barzinhos, onde poderia ser seduzida por um Dom Juan de plantão. Queria mantê-la distante de olhares concupiscentes, de um contato precoce, que pudesse seduzi-la. A princípio ela não ia muito além das adjacências, continha o ímpeto de conhecer locais mais distantes do bairro. Obedecia a mãe e os irmãos, pois pai ela não tinha, morrera de morte súbita numa tarde de céu azul intenso em que o sol esplendia como se não quisesse se esconder. 
     Tinha apenas treze anos e estava no esplendor da beleza, corpo de mulher a espera do amor, ávida de vida, conquistar o mundo, indicando o rumo de uma vida repleta de satisfação. O amor tocando fundo a fenda de seu íntimo, flor esplêndida se abrindo.
     Aos poucos, ela ia se distanciando de casa, indo além, ultrapassando os limites estabelecidos pela mãe. Percebia os olhares e gostava, balançava os quadris, deixando à mostra o umbigo. Resolveu  tirar os seios do esconderijo de roupas largas. Deu-lhes a liberdade, não mais prisioneiros de sutiãs. Começou a exibir um decote, que mostrava uma pele morena-clara, macia e lisa. Sorria com ar de malícia diante dos olhares inquiridores. Ela estava irresistivelmente bela, impossível não desejá-la. Quando distraída, abaixava-se, ora deixando ver o bico dos seios, ora a calcinha. Os conservadores diziam que ela era devassa, pecadora; os excluídos de sua atenção, chamavam-na de vadia; e os que foram presenteados pelo seu sorriso enigmático, embrenhavam-se em fantasias eróticas. Ela não percebia e às vezes fingia não perceber o burburinho que se fazia quando ela passava com seu short curto, apertado, deixando à mostra as coxas torneadas e a bunda arrebitada. Por causa de seu erotismo precoce, um poeta escreveu e leu um poema durante um evento público na praça principal do bairro. Não revelou o nome de sua musa inspiradora, mas os moradores não tiveram dúvidas em descobrir para quem era o poema intitulado Prazer:

Quero me perder nas ondulações sensuais de teu corpo
cegar-me com o brilho de teus olhos

Quero seguir
o teu hábito
achar-me em teus passos

Quero sentir
o teu hálito
embriagar-me em teus braços

Como as ondas do mar beijando a areia
quero beijar teu corpo
em cada curva estacionar meu sonho

Quero ser atrevido
violar os teus sentidos
afogar-me em tuas águas
mar de delícias
envolver-me em carícias

Roçar meu corpo em tua pele
sentir o calor
brotar em nossos poros

Quero me atazanar me estrepar
em teus espinhos
Conquistar, palmo a palmo errante
tua selva misteriosa
e me eleger teu bandeirante

Quero teu corpo molhado suado
a formar vapor subindo
virando nuvens no céu

Chuva caindo sem assombro
sobre a terra fértil
Quero-te ave de múltiplas cores
pousada sobre meu ombro

     Certa vez uma emissora de televisão enviou uma equipe de jornalistas, para fazer uma reportagem sobre umas nascentes do Ribeirão Jatobá, que estavam sendo drenadas pelas máquinas de uma imobiliária e uma multidão de curiosos se aglomerou no local. Lá estava a mais bela do bairro, com seu mini-traje, acompanhando a reportagem. Intencional ou não, ela fora flagrada pelas lentes do cinegrafista e quando a reportagem foi exibida no jornal da noite, ela tornou-se uma celebridade na região metropolitana. No dia seguinte, carros luxuosos circulavam pelo bairro. Os moradores comentavam, que não se tratava de preocupações ambientais: procuravam a garota mais linda do bairro, não para fazê-la feliz, não para propiciar-lhe um futuro promissor. Praticamente todos pensavam o pior, com destaque para a exploração sexual.
     Mas, a garota mais linda do bairro, apesar da pouca idade, tinha um projeto de vida: queria brilhar!

A seguir:


2 - O Ambiente Familiar


domingo, 29 de julho de 2018

azaleia


                                                                      Imagem: jef


como te amo flor
que irradia luz
e me faz pessoa melhor

cuido de ti com zelo
por me ofertar beleza
sem cobrança ou apelo

te beijo tu me beijas
te desejo em dobro
tudo que me desejas

amor tão transparente
gera mútuo crescimento
que nos faz bons amantes

J Estanislau Filho


Da série Flores. Leia também: Cravina, Begônia, Magnólia, Rosa...


Imagem: nr

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A peleja da blogosfera progressista contra as mentiras da grande mídia (plim-plim)


por Luiz Inácio Lula da Silva, em Lula.com.br  

A história ensina que numa guerra, a primeira vítima é a verdade.

Encontro-me há mais de 100 dias na condição de preso político, sem qualquer crime cometido, pois nem na sentença o juiz consegue apontar qual ato eu fiz de errado.

Isso porque setores da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário, com apoio maciço da grande mídia, decidiram tratar-me como um inimigo a ser vencido a qualquer custo.

A guerra que travam não é contra a minha pessoa, mas contra a inclusão social que aconteceu nos meus mandatos, contra a soberania nacional exercida pelos meus governos.

E a principal arma dos meus adversários sempre foi e continuará sendo a mentira, repetida mil vezes por suas poderosas antenas de transmissão.

Tenho sobrevivido a isso que encaro como uma provação, graças à boa memória, à solidariedade e ao carinho do povo brasileiro em geral.

Dentre as muitas manifestações de solidariedade, quero agradecer o espírito de luta dos homens e mulheres que fazem do jornalismo independente na internet uma trincheira de debate e verdade.

Desde que deixei a Presidência, com 87% de aprovação popular, a maior da história deste país, tenho sido vítima de uma campanha de difamação também sem paralelo na nossa história.

Trata-se, sabemos todos, da tentativa de apagar da memória do povo brasileiro a ideia de que é possível governar para todos, cuidando com especial carinho de quem mais precisa, e fazer o Brasil crescer, combatendo sem tréguas as desigualdades sociais e regionais históricas.

Foram dezenas de horas de Jornal Nacional e incontáveis manchetes dedicadas a espalhar mentiras – ou, para usar a linguagem da moda, fake news – contra mim, contra minha família e contra a ideia de que o Brasil poderia ser um país grande, soberano e justo.

Com base numa dessas mentiras, contada pelo jornal O Globo e transformada num processo sem pé nem cabeça, um juiz fez com que eu fosse condenado à prisão, por “ato indeterminado”, usando como pretexto a suposta posse de um imóvel “atribuído” a mim, do qual nunca fui dono.

Contra essa aliança espúria entre alguns procuradores e juízes e a mídia corporativa, a blogosfera progressista ousou insurgir-se.

Sem poder contar com uma ínfima parcela dos recursos e dos meios à disposição dos grandes veículos alinhados ao golpe, esses homens e mulheres fazem Jornalismo. Questionam, debatem e apresentam diariamente ao povo brasileiro um poderoso contraponto à indústria da mentira.

Lutaram e continuam a lutar o bom combate, tendo muitas vezes apenas o apoio do próprio povo brasileiro, por meio de campanhas de financiamento coletivo (R$ 10 reais de uma pessoa, R$ 50 reais de outra).

Foram eles, por exemplo, que enfrentaram o silêncio da mídia e desvendaram as ligações da Globo com os paraísos fiscais, empresas de lavagem de dinheiro e a máfia da Fifa. Que demonstraram a cumplicidade de Sérgio Moro com a indústria das delações. Que denunciaram a entrega das riquezas do país aos interesses estrangeiros. Tudo com números e argumentos que sempre são censurados pela imprensa dos poderosos.

Por isso mesmo a imprensa independente é perseguida por setores do Judiciário, por meio de sentenças arbitrárias, como vem ocorrendo com tantos blogueiros, que não têm meios materiais de defesa.

Enfrentam toda sorte de perseguições: tentativa de censura prévia, conduções coercitivas e condenações milionárias, entre outras formas de violência institucional.

E agora, numa investida mais sofisticada – mas não menos violenta – agências de “checagem” controladas pelos grandes grupos de imprensa “carimbam” as notícias independentes como “Fake News” e, dessa forma, bloqueiam sua presença nas redes sociais. O nome disso é censura.

Alguns desses homens e mulheres que pagam um alto preço por sua luta são jornalistas veteranos, com passagens brilhantes pela grande imprensa de outrora, outros sem qualquer vínculo anterior com o jornalismo, mas todos movidos por aquela que deveria ser a razão de existir da profissão: a busca pela verdade, a informação baseada em fatos e não em invencionices.

Lutaram e lutam contra o pensamento único que a elite econômica tenta impor ao povo brasileiro.

Quantas derrotas nossos valentes Davis já não impuseram aos poderosos Golias? Quantas notícias ignoradas ou bloqueadas nos jornalões saíram pelos blogues, muitos deles com mais audiência que os sites dos jornalões?

Mesmo confinado na cela de uma prisão política, longe de meus filhos e amigos, impedido de abraçar e conversar com o povo brasileiro, tenho hoje aprovação maior e rejeição menor que meus adversários, que fracassaram no maior dos testes: melhorar a vida dos brasileiros.

Eles, que tantos crimes cometeram – grampos clandestinos no escritório de meus advogados, divulgação ilegal de conversas entre mim e a presidenta Dilma, todo o sofrimento imposto à minha família, entre muitos outros –, até hoje não conseguiram contra mim uma única prova de qualquer crime que seja.

A cada dia mais e mais pessoas percebem que o golpe não foi contra Lula, contra Dilma ou contra o PT. Foi contra o povo brasileiro.

Mais do que acreditar na minha inocência – porque leram o processo, porque checaram as provas, porque fizeram Jornalismo – os blogueiros e blogueiras progressistas estão contribuindo para trazer de volta o debate público e resgatar o jornalismo da vala comum à qual foi atirado por aqueles que o pretendem não como ferramenta capaz de lançar luz onde haja escuridão, mas apenas e tão somente como arma política dos poderosos.

A democracia brasileira agradece, eu agradeço a vocês, homens e mulheres que fazem da luta pela verdade o seu ideal de vida.

Hoje a (in)Justiça brasileira não só me prende como impede sem nenhuma razão que vocês possam vir aqui me entrevistar, fazer as perguntas que quiserem. Não basta me prender, querem me calar, querem nos censurar.

Mas assim como são muitos os que lutam pela democracia nas comunicações e pelo jornalismo independente, e não caberiam aqui onde estou, essa cela também não pode aprisionar nem a verdade nem a liberdade.

Elas são muito mais fortes do que as mentiras mil vezes repetidas pelo plim-plim, que quer mandar no Brasil e no povo brasileiro sem jamais ter tido um único voto. A verdade prevalecerá. A liberdade triunfará.

Forte abraço,

Lula