segunda-feira, 15 de outubro de 2018

24 - O Povo Vai às Urnas - 25 - Realidade e Sentimento - Filhos da Terra





24 - O Povo Vai às Urnas


Elói não tinha dúvidas de que as eleições transformaram-se num plebiscito sobre o governo Lula. Foi a opção escolhida pela grande mídia e por uma oposição refém das mesmas práticas eleitorais. Todas as pesquisas apontavam a vitória da situação em primeiro turno. A oposição de esquerda não conseguia convencer o eleitorado de que tinha um projeto alternativo à coligação PT/PCdoB/PSB/PTB e à coligação PSDB/PFL/PPS. O eleitorado parecia cansado das notícias diárias há mais de seis meses sobre o escândalo do mensalão e valerioduto, que tentava vincular o Presidente da República e o PT à corrupção. Quando tudo indicava que as eleições terminariam no primeiro turno, uma nova denúncia invadiu os noticiários: a compra de um dossiê contra Geraldo Alckmin. Saem de cena José Dirceu, Roberto Jéferson, José Genuíno, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Duda Mendonça, Marcos Valério, entre outros atores do denominado esquema do mensalão e entram em cena Valdebran, Gedimar Passos, Hamilton, Delegado Edmilson Bruno, Berzoíni, Planam, Vedoin e uma montanha de dinheiro exibida em todos os jornais e no horário político de Geraldo Alckimin. Como a ideia fora alimentada pelo valerioduto, o caso dossiê contra os tucanos era tudo que precisavam os que não desejavam a reeleição de Lula.
     Segundo a maioria dos cientistas políticos, este evento levaria ao segundo turno. Na redação do Diário de Todos, este era o assunto que fazer parte da pauta até o dia da votação do segundo turno. Mas foi Jarbas, o faxineiro anarquista quem recebeu Elói com as críticas mais duras sobre Luis Inácio (ele só se referia a Lula dessa forma): - Sabe meu companheiro Elói, Luis Inácio é o maior responsável pela política que hoje ameaça aumentar a miséria dos trabalhadores e dos jovens. Frustrou o impulso de transformação social e política que o conduziu ao Palácio do Planalto; foi ele quem transformou o partido dele nessa caricatura, este que foi um magnífico instrumento de luta de classes nos anos oitenta, originado nas lutas operárias da década de setenta; Luis Inácio acatou as regras do jogo da casa grande, que atira as migalhas do banquete à senzala. Não há garantias de que o seu segundo mandato seja menos nefasto aos trabalhadores e jovens brasileiros do que um eventual governo do PSDB. Se quiser alguns exemplos de que ele constrangeu  a esperança de 53 milhões de eleitores, que acreditavam na vocação ética e democrática do PT, eu posso dar".
     Elói ouviu tudo em silêncio, depois considerou: - Jarbas, você usa argumentos fortes. Lula deixou muito a desejar, concordo, mas ele segurou as privatizações, implementou uma política externa soberana, não endureceu contra os movimentos sociais, o BNDES foi recuperado e está financiando a produção, as regiões mais pobres do país votaram nele, o que prova sua prioridade e não se pode negar que o Brasil está melhor, a qualidade de vida das pessoas melhorou... 
     - Então eu quero contrapor - reagiu Jarbas, agora ambos cercados pelos colegas de redação, que ouviam atentamente -, o voto dos mais pobres representar a orientação social do governo, não concordo, pois historicamente políticos de todos os matizes receberam apoio de segmentos populares, que vão de Hitler a Maluf; de Vargas a Sarney, Peron. Na verdade o voto nordestino é resultado de alianças espúrias com os coronéis, isso sem considerar que grande parte desses votos foram comprados por meio de programas assistencialistas com viés autoritário e paternalista, caso do bolsa família... Nesse ponto, Elói pediu um aparte:
     - O que é programa assistencialista? Se entendermos que assistencialista é quem assiste, toda política social beneficia a quem não tem assistência do Estado. A questão é se está implementada de forma corrupta e discriminatória e não está. Manuel pediu que encerrassem o debate, pois estavam num local de trabalho, mas Jarbas pediu um minuto: 
     - A conversa mole de que Alckmin completaria as privatizações iniciadas por Collor, intensificadas por Fernando Henrique e interrompidas por Luis Inácio não é bem assim. Ele entregou ao capital privado nacional e internacional, importantes reservas de petróleo; nada fez para investigar as privatizações fraudulentas de FHC e a quem serve o BNDES? Ao capital privado através de empréstimos a juros amigáveis. Companheiro Elói, sinto muito, mas os jovens brasileiros e os trabalhadores podem se preparar, pois nos próximos quatro anos haverá fortes investidas contra os seus direitos. Por isso faço campanha pelo voto nulo.
     - Tudo bem Jarbas, continuo achando o Lula a melhor alternativa. Só gostaria que a mídia empresarial não fosse seletiva. Notícias que atingem os neoliberais não são publicadas. Temos de recorrer ao La Nacion da Argentina sobre um figurão do PSDB de Tocantins, Missilvam Chavier dos Santos, conhecido como Parceirinho, transportando 500 quilos de cocaína. Ele foi candidato a prefeito de Tupiratins em 2004, pelo PSDB e perdeu. Recebeu forte apoio do Senador tucano Eduardo Siqueira Campos. Missilvam voltava para Tocantins, quando a polícia federal o flagrou com o carregamento de meia tonelada da droga. Parceirinho foi preso em um ônibus em Castanhal, município do nordeste paraense. Imagina se fosse alguém do PT! Seria manchete nacional, inclusive no DT. A agência de notícias Reuters distribuiu a informação para toda a imprensa brasileira, mas poucos repercutiram a notícia e quando o fizeram, omitiram a filiação partidária do traficante.
     Ninguém mais se manifestou. Cada um retornou ao seu local de trabalho e a rotina continuou. 

                                                                  Imagem: Goolge




25 - Realidade e Sentimento 



     Como ficam as vidas de milhões de jovens sem perspectivas de empregos dignos? Os pobres continuarão pobres e os ricos mais ricos? Até quando as políticas neoliberais se manterão hegemônicas? Quando será que a humanidade se dará conta da escassez dos recursos naturais? Como a periferia irá se organizar ou se desorganizar incontrolavelmente? Enforcaram Sadam e não encontraram as armas de destruição em massa. Arafat morreu, milhões de civis morreram bombardeados e a sede de sangue do vampiro imperialista aumenta. O latifúndio assassinou Chico Mendes, um "cabra marcado para morrer". A morte de Doris Stang chamou a atenção da mídia, comoveu juízes e o mesmo não acontece com inúmeros trabalhadores rurais anônimos que têm o mesmo destino; não merecem sequer nota de rodapé, não sensibilizam os três poderes. Nas favelas amontoam-se barracos: gente entre lixo e bichos. Em seu novo mandado, o presidente dará dois passos à frente? 
     Em meio às comemorações com a vitória esmagadora de Lula no segundo turno das eleições, Elói se convencera da dependência química da garota que um dia sonhara brilhar nas passarelas. Depois de alguns meses em que se encontravam com regularidade, percebeu o seu lento definhar. O corpo que usava como mercadoria de troca, não servia mais para o consumo. Era patético vê-la prometendo "satisfazer os seus desejos secretos". A certeza de que ela encontrava-se encrencada com traficantes, levou Elói a oferecer-lhe um local seguro, para fazer tratamento, mas ela se recusava sob a alegação de não poder ficar longe da filha, a negar ser usuária de drogas e que o dinheiro era para cobrir despesas com necessidades básicas. Dona Sônia pediu-lhe ajuda, pois Zenaide não ouvia ninguém da família, ficava agressiva. AT & M Construção Civil de Tenório e Marcelo crescia. Edileuza também pediu-lhe apoio, no sentido de conseguir uma clínica de recuperação, que eles arcariam com as despesas. - Seu papel, Elói - disse-lhe Marcelo - é o de convencê-la, pois tem ascensão sobre minha irmã. Elói prometeu, afinal tinha afeições pela família e pela garota. - Mas poderá chegar o momento em que terão de interná-la à revelia - dissera durante um almoço. 
     Quando Elói a viu pela primeira vez sangrando o nariz, ela estava em seu apartamento, numa noite chuvosa. Constatou, com tristeza,  que Zenaide chegara ao fundo do poço. Não era a garota que um dia foi a mais linda do bairro. Não parecia ter a idade que tinha: vinte anos. Caminhava para o molambo. Elói teve piedade. Zenaide estava de dar pena. Cabelos desgrenhados, rosto amarrotado, esquálida e pálida, um zumbi. Declamou um verso:
"Não acabava, quando sua figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura,
O rosto carregado
A barba esquálida". 
Se perguntava o que o levava em se envolver com pessoas transtornadas. Porque isso o atraía? Levou-a ao chuveiro, tirou-lhe a roupa e se assustou com a magreza. Zenaide era pele e osso. Colocou-a sentada em uma cadeira debaixo do chuveiro. Ensaboou-a dos pés à cabeça. Pela primeira vez a viu inteiramente nua e não gostou do que viu, mas via e pensava de como lidar com seus sentimentos. Pele e seios flácidos, sinais de feridas. Feridas que o fazia sofrer. No momento em que passava o sabão nos seios, Zenaide começou a cantar uma canção com voz fraca "não se apresse não, que nada é pra já, o amor não tem pressa, ele pode esperar..."  Elói abraçou-a chorando, e perguntar, sem a ilusão de uma resposta. "Ah meu amorzinho, minha menina, porque tudo isso? Em que caminho nos perdemos? 
     Após enxugá-la com cuidado, levou-a para a cama. Ela adormeceu inteiramente nua sobre o lençol branco e tudo ele sentiu naquele momento foi um amor verdadeiro. Esse amor que ele carregava pelos transtornados, excluídos, miseráveis, viciados. Pelos desamparados. Deitou-se ao lado dela, cobriu-a com um cobertor macio. Acariciou seus seios, coxas. Dormiu acariciando-lhe os cabelos.
     Uma semana depois eles se abraçavam na porta da clínica de recuperação de dependentes químicos e portadores de doença sexualmente transmissíveis. 
     Finalmente Zenaide aceitara o tratamento, com a promessa de mudar os rumos da vida. 
     Bem, o que vai acontecer de fato com Zenaide?  






                                                       Imagem: Google - Chico Mendes



 
                                                           Imagem: Google - Sadan

sábado, 13 de outubro de 2018

A ascensão do fascismo

Por Jessé Souza

Todo fascismo é reflexo de uma luta de classes truncada, percebida de modo distorcido e por conta disso violento e irracional no seu cerne. A elite e a alta classe média haviam, com sucesso, legitimado a opressão das classes populares pelo moralismo seletivo da corrupção apenas do Estado e da política como forma de criminalizar a soberania popular. Os “belgas”, que se vem como estrangeiros na própria terra, oprimiram o “Congo”, ou seja, o próprio povo, e o reduziram á pobreza e á ignorância. O ódio ao escravo se transformou simplesmente em ódio ao pobre. O escravo negro é eternizado nas massas majoritariamente mestiças com escolaridade precária condenadas ao trabalho desqualificado e semiqualificado. Esta é a base primeira de todo o ódio e ressentimento reprimido e recalcado que é o núcleo da sociedade brasileira. O fascismo implícito sempre foi o DNA da opressão de classes entre nós. O que tem que ser explicado, portanto, é como ele contaminou as próprias classes populares.

A ascensão do partido dos trabalhadores, com todas as suas limitações, foi uma inflexão importante no processo de organização popular. Com o golpe de 2013/2016 a reação conservadora veio primeiro de cima, da alta classe média nas ruas, da sistemática corrosão de valores democráticos diariamente perpetrada pela imprensa, e do acanalhamento do STF e por consequência da constituição. O governo Temer promoveu o saque e a rapina que a elite queria e empobreceu o povo que havia experimentado uma pequena ascenção social. Foi dito a este povo que a corrupção política havia sido a causa do empobrecimento. Quando a corrupção dos partidos de elite fica óbvia a todos, sem ser reprimida, todo o sistema perde representatividade. O golpe de misericórdia foi a prisão injusta do líder das classes populares desmobilizadas. Aqui o último elo de expressão racional da revolta popular foi cortado.

Abriu-se a partir daí a porta para a revolta agora irracional das massas. Neste contexto a ocasião faz o ladrão. A belíssima marcha do “ele não”, majoritariamente composta pelas mulheres da classe média mais crítica e engajada, possibilitou a cooptação do voto feminino das classes populares, última cidadela contra a “ética da virilidade” do fascismo popular. Aqui entra em cena o que há de mais sujo na política das “fake News” e da mentira institucionalizada. Analistas de ultradireita da campanha fascista, que perceberam as consequências do isolamento político dos indivíduos que é o que capitalismo financeiro representa na esfera política, se aproveitaram impiedosamente deste fato para oporem mulheres emancipadas da classe média contra as mulheres pobres e evangélicas.Se você é pobre e humilhada o ganho emocional que a distinção moral construída artificialmente com relação a mulheres supostamente “indecentes” exerce, por meio de mentiras que não podem ser desmentidas, passa a ter um apelo irresistível. É uma “vingança de classe”, obviamente distorcida e contra a fração errada da classe média, como escape em relação à pobreza vivida diariamente, mas cujas causas não são compreendidas.

Como já discuti no meu livro “A ralé brasileira”, contracorrente, 2017, a oposição pobre honesto versus pobre delinquente perpassa os mais pobres dificultando enormemente qualquer solidariedade de classe. Daí também a importância de líderes políticos que os representem a partir de cima e secundarizem a contradição interna de classe com uma política de interesse de todos os pobres. Era isso que Lula representava. Sem isso a porta fica aberta para a guerra de classe entre os próprios miseráveis divididos entre os supostos honestos e supostos delinquentes como definidos pelas elites.

É aqui que a “ética da virilidade”- ou seja, a ética dos que não tem ética – do fascismo reina absoluta. O fascismo arregimenta a partir de cima os ressentimentos, medos e ansiedades sem explicação possível e os canaliza a “bodes expiatórios” externos. O antipetismo é apenas o mais óbvio. Mas todo fascismo usa e abusa da sexualidade reprimida das classes populares. O homossexualismo que não pode ser admitido em si mesmo é canalizado em selvagem agressão externa e o ódio a mulher percebida como ameaça incitam a uma agressiva regressão a padrões primitivos de relações de gênero. O pobre não é apenas pobre. Ele é humilhado e dominado por valores construídos para subjuga-lo. Isso confere ao fascismo enorme capilaridade e contamina a vida familiar e relações de vizinhança em todos os níveis da sociabilidade popular. 
O líder fascista sem discurso e sem argumentos é o profeta exemplar perfeito das massas destituídas em todas as dimensões da vida. Sem organização hierárquica como os nazistas alemães, o nosso é um fascismo miliciano, capilarizado e sem controle. O que é necessário explicar ao povo de modo compreensível é porque ele ficou mais pobre. Sem isso se pavimenta o caminho ao ódio irreversível.






Fonte> jornalggn.com.br 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

22 - Encontro Marcado - 23 - Os Encontros se Sucedem - Filhos da Terra


Rapidinho:

Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor.
Capa: Berzé; Ilustrações do miolo: Eliana; editoração eletrônica: Fernando Estanislau; impressão: Editora O Lutador - 2009, primeira edição
Agradeço pela leitura e peço a quem encontrar algum erro de gramática ou digitação, por favor, me avise.




22 - Encontro Marcado

A desordem invadiu as emoções de Elói, deixando-o em dúvidas quanto ao encontro com Zenaide. Brincar com os sentimentos nunca fora o seu forte e se preocupava mais com o dos outros que com os seus. Não queria ser severo consigo, porém a auto-crítica implacável o perseguia. Questionava se era influenciado por ideias egoístas, individualistas, que nos últimos anos iam se tornando hegemônicas, ele um adepto da solidariedade e de projetos coletivos. Sempre tivera amores rápidos, pois prezava a liberdade. Estava consciente de se relacionar com uma garota de programa soropositivo, entretanto um força interior o impelia. Atração? De qualquer forma seria apenas um encontro, embora intuísse que a chance de ir para a cama fosse grande. Inconscientemente elaborava uma estratégia de conquista: surpreendê-la num restaurante acolhedor, com música ao vivo. Tomariam vinho fino, em seguida a convidaria para uma dança. Imaginava o brilho nos olhos da garota, a alegria. Iria sussurrar palavras de amor em seu ouvido. Nem ao menos se lembrava que ela vivia um drama pessoal, tampouco que a idade abria um fosso entre eles. Mas o desejo de vê-la se manifestava de forma avassaladora, assim como o impulso de tê-la nua na cama num lençol branco e perfumado, amando sem medo. Esse mesmo medo que o assaltava quando saía da ilusão com a realidade chicoteando impiedosamente seu coração e mente. Queria ser compensado e recompensado por tudo que entre eles. Serem felizes. Ambos conquistaram esse direito, nada mais justo. "Ora ora - dizia para si -, até quando deixarei escapar um momento de prazer? Passarei a vida inteira me punindo? Elói, preste atenção, o único obstáculo é ela não querer, fora isso, não tem nada a temer. Ela sofrer, não, já está sofrendo, mas é justo aí que está o obstáculo. Assim não pode. No fundo eu quero aliviar o seu sofrimento, fazê-la feliz. Mas temos como fazer alguém feliz? A felicidade não está na pessoa? É subjetiva? É possível ser feliz levando uma vida precária, sem perspectivas de mudança?". Pegou o celular e ligou pra Zenaide, mas a ligação caiu na caixa postal. Não deixou recado. "Caramba, ela não atendeu!". A dúvida de que ela desejava ir ao seu encontro brotou lá no fundo. Esse sentimento de rejeição o incomodava. Esperou um tempo e ligou novamente. O telefone tocou, tocou até se desligar abruptamente. "Por que ela não atende?". Andou de um lado a outro, achou melhor esperar que ela retornasse a ligação. Olhou e relógio e optou por esperar uns dez minutos. O tempo não passava. E Zenaide não retornava a ligação. Esgotado o tempo, ligou de novo e de novo caixa postal. Sentiu-se ridículo. Saiu do apartamento, pegou o elevador e foi pra Cantina do Lucas. Pediu o de sempre. Depois da segunda dose, não resistiu e tornou a ligar. Zenaide atendeu e explicou que Vitória caíra da cama, tivera de levá-la ao pronto-socorro. Acabara de chegar em casa. Perdeu a coragem de convidá-la e a conversa se limitou à saúde da criança. Quando a conversa caminhava para as despedidas, Zenaide disse que gostaria de vê-lo. Combinaram o encontro para o dia seguinte às dezessete horas no Itaú Power Center. Sentiu-se aliviado. Voltou ao apartamento, ligou o computador e começou a escrever um artigo em defesa do governo Lula, a pedido de um parlamentar do PT. Depois de terminar o artigo, enviou-ou pelo correio eletrônico. Passava das duas da madrugada quando fora se deitar. Foi um sono agitado. Ao se levantar surpreendeu-se com o horário. Estava atrasado para o trabalho.
     Entrou no escritório e como de costume foi direto tomar o cafezinho. Colocou meia xícara e levou a Renato Matos. Todos pareciam tensos na redação. Renato fez um sinal pedindo-lhe silêncio, em seguida convidou-o a saírem, com a desculpa de comprar cigarro. Enquanto caminhavam até a lanchonete, Elói perguntou "e aí, o que está pegando?". Renato olhou-o de esguelha "calma, nada fora do normal, as perseguições de sempre". Sentaram-se em um canto isolado e Barros colocou-o à par dos acontecimentos. Manuela, recentemente promovida a chefe de redação, fora chamada à sala da presidência e em pouco tempo voltara com ordens explícitas de que nenhuma matéria sobre o envolvimento do ex-governador tucano com o valerioduto fosse divulgada. Nenhuma matéria com interpretações ambíguas sobre Aécio Neves serão admitidas, ao contrário, focar nas qualidades pessoais do governador, o choque de gestão. Para Elói isso não era uma novidade, "nada de novo na frente de batalha, mas se um grampeador sumir no Palácio do Planalto deve ser manchete de capa". Renato colocou o indicador nos lábios, como sempre fazia quando tinha algo importante pra dizer. "Conheço bem esta expressão, desembucha, Renato, não é só isso", disse Elói olhando no fundo dos olhos do colega. Após alguns segundos, vendo as horas no relógio de bolso, Renato abriu o bico: "É o seguinte, Elói, depois da demissão de vários colegas por não se enquadrarem nas ordens do governador, a caça as bruxas está de volta. Você é a bola da vez. A Manuela você conhece, não põe em risco o emprego dela, obedece, apesar de gostar da gente. Ela segura até certo ponto". Elói fez um gesto de indignação e respondeu: "O que os donos do jornal querem mais? Não basta a omissão? Por estas e outras a imprensa vem perdendo a credibilidade. Os leitores não são imbecis. As tiragens estão caindo tanto e me surpreenderá se o Diário de Todos sair de circulação. Por que não limitam suas opiniões nos editoriais? Além de não podermos noticiar os fatos relevantes ainda temos de encher a bola de quem nos persegue... Quanto a mim, não sei o que querem mais! Suportar a Andrea na redação, selecionando imagens do irmão, definindo manchetes, porra, cara!". Retribuindo o olhar fixo de Elói, Renato disse "veja bem, meu caro, quanto a sua situação, estou falando como porta-voz. É para alertá-lo. Manuela não quer te perder. Disse que sem você a redação será um desastre. É quem tem as melhores fontes, inclusive nos movimentos sociais e na esquerda. Ela sabe, quem sem bons jornalistas, ela também perde, aliás, todos nós seremos prejudicados".  Elói bebeu o último gole de café, acendeu um cigarro e antes de se levantar, disse ao amigo: "Não vou me estressar, tenho um encontro hoje com uma gata. Obrigado, companheiro, mas eles estão de olho em mim por meio de quem?". "Ora ora, de suas matérias, de suas relações com os sem-tetos, os sem-terra em que você aponta as contradições do sistema e tece crítica subliminar ao choque de gestão do governador, elogia sutilmente os programas sociais do governo Lula", completou Barros.

                                *****

     Chegou atrasado ao encontro de Zenaide, que o esperava na praça de alimentação. Cumprimentou-a num abraço afetuoso. Ela parecia triste. Pediu dois chopes e por um tempo falaram de amenidades. Com a intenção de entrar no clima que o levara até ela, disse: - Você está linda. Zenaide olhou-o com tristeza e respondeu sem entusiasmo: - Pode ser, mas até quando? A doença está me comendo aos poucos. A conversa não começara como ele pretendia. Tentou animá-la: - Conheço muita gente infectada levando uma vida praticamente normal. Claro, com alguns cuidados, você é jovem, bonita e poderá encontrar quem te ame de verdade. Ah, não pode tomar coisa gelada! - Encontrar alguém... quem vai querer ficar com alguém condenada a morte? Elói olhou-a, enternecido, tocando levemente em seu rosto: - O que é isso, garota? Eu posso te amar! Zenaide o encarou, séria e cética: - Isso não faz parte de minhas preocupações, não tenho cabeça pra pensar em homens, sexo, amor, paixão. A minha vida está uma merda. Uma coisa é falar, outra é sentir na pele. O que me falta de apetite, sobra em diarreias. Não percebeu o quanto emagreci? Qualquer ferimento é um horror. Gripe, nem pensar! A dor da garota o inibiu, o clima de desejo foi embora e a conversa seguia para outro rumo. A curiosidade de saber de suas atividades de garota de programa teve de ser reprimida. Não queria ser indiscreto e falou com cautela: - Quer dizer que sexo está fora de cogitação! Ela respondeu com firmeza: - Perdi o tesão. Elói sentiu o baque, não se incomodava com a doença, iria pra cama com ela. Sentiu-se rejeitado. Sentimento que o perseguia. Zenaide estava mais para bombeiro, ainda assim Elói recusou-se a ver a realidade e foi em frente: - Penso nunca ter escondido de você meu desejo de levá-la pra cama. Me lembro bem você entrando em minha casa com o short curto, sem sutiã. Puxa Zenaide, não tinha coragem, você de menor. Eu ficava louco de tesão. Lembro bem o dia em que você sentou-se em meu colo, via seus pequeninos seios duros, a pele macia. Cheguei a tocar neles ao te beijar o pescoço. Quando você saiu me masturbei. Nesse ponto Zenaide ficou mais animada, sorriu até. - Eu sempre me lembro dessa época em que éramos felizes. Zenaide sorriu de volta e revelou: - Você era mesmo um idiota. E eu louca pra transar com você. O que mais queria? Fiz de tudo pra chamar sua atenção! Elói retrucou: - Tive medo de te magoar, magoar sua mãe, virgem de menor... Zenaide deu um sorriso e falou com ironia: - Eu virgem? Louca pra trepar com você. Depois eu me cansei, ah, cara chato, bobo! Elói concordou o quanto fora refém de um moralismo cínico. "Mas você tinha apenas treze anos, era complicado", pensou. Se por um lado o amor não tem pressa, também não pode esperar tanto tempo. As últimas palavras de Zenaide deram-lhe esperança. Poderia reconquistá-la. Mas Zenaide não era mais a garota mais linda do bairro. Em cinco anos as mudanças marcaram profundamente suas vidas. Dúvidas o assaltavam novamente. Mesmo que a convence de ir pra cama, como seria? Seria a garota erótica de outrora ou uma profissional do sexo, mesmo não havendo pagamento? Um movimento interno obsessivo sussurrava em seu ouvido para prosseguir. Disse de supetão: - Quero fazer amor você, sempre quis. Zenaide ficou em silêncio, olhando-o com provocação e um sorriso enigmático. Respondeu olhando de um lado para o outro, os cabelos balançando calculadamente: - Estou surpresa com você, que nem sei como responder. Me deixou encabulada e confusa. Sou grata por tudo que fez por mim. Não imaginava que o seu desejo era assim... assim tão forte. Preciso de um tempo. 
     Depois disso, recordaram o passado, o sonho das passarelas, a convivência no bairro. Antes de pedir a conta, Zenaide pediu licença para ir à toalete. Ele a seguiu com os olhos. Caminhava com leveza, balançando os quadris. "Ela já decidiu e nós iremos ao motel em breve", pensou. Ela retornou olhando-o com malícia. Elói se levantou e agarrou-a pela cintura. Seus lábios se tocaram, num beijo rápido. Sorriram. Antes de se despedirem, Zenaide falou com franqueza: - Preciso fazer uma compra no supermercado, você poderia me emprestar uma grana? Pego de surpresa, não soube negar: - Claro, quanto você precisa? - Uns cem reais está bom - respondeu. Sem hesitação, deu-lhe cento e cinquenta.
     Despediram-se com um abraço rápido.





23 - Os Encontros se Sucedem

Zenaide voltou para casa, após o encontro, chorando copiosamente. Porém teve força para buscar a cocaína de que era usuária já algum tempo. Era uma mulher de sentimentos desordenados. Antes de cheirar, lia uma passagem da Bíblia e ao repetir a dose, espalhava o pó sobre o livro sagrado. Quando o efeito cessava, caía em depressão profunda. A mãe não lhe dava tréguas: - Faça-me mil favores de levantar desta cama, lá fora o sol brilha e tem uma filha pra criar. 
     Ainda na cama acessava a caixa postal do celular, para certificar-se das ligações. Tinha uma pequena clientela fiel, que lhe garantia uma grana razoável, subtraída pela droga. Entre os seus clientes havia um empresário da construção civil, Olavo Carneiro, que lhe oferecera um apartamento e uma boa mesada em troca de fidelidade. Olavo estava com sessenta e dois anos de idade, mas na cama parecia um garoto de vinte. Exigia apenas discrição, pois além de empresário bem sucedido, tinha família e compromissos sociais. Tinha horror a escândalos. Zenaide retribuía com profissionalismo, sem imiscuir-se na vida privada de seus clientes. Estava sempre de plantão, para atender o "Seu Lavinho", fizesse chuva ou sol. Algumas vezes, depois do sexo, saíam de carro em busca de locais aprazíveis. Gostavam de irem ao mirante da serra do curral e passarem horas contemplando a capital mineira iluminada, mas depois das denúncias de assaltos na área, deixaram de frequentar o local. Com Olavo passou a gostar de passeios de carro. Se pudesse seria apenas um bom amigo, pois sexo com ele a deixava deprimida. Durante horas tinha a sensação de estar cheirando a cachorro molhado, mesmo depois dos banhos florais na imensa hidromassagem do flat do empresário. Com ele sentia-se protegida.
     Um dia, porém, a fonte secou. Sentindo os laços de amizades firmes entre eles e desejosa de superar a ambivalência, decidiu contar-lhe a verdade sobre a sua saúde. Não imaginava que a verdade suscitaria tanto ódio: - Puta desgraçada - dissera apertando-lhe o pescoço - te mato se tiver me infectado. De nada adiantou explicar que a camisinha o protegera. Olavo Carneiro estava possesso. Abriu a porta do mercedes e a empurrou para fora.
     Chutada como uma cadela, encontrava-se perdida na escuridão de um lugar ermo. Caminhou sem rumo com as lágrimas se misturando às gotas da neblina, que resolvera dar o ar da graça. Caminhava sem saber a direção, sem parar e a chuva aumentando. Caminhava e chorava. Cabelos molhados, roupa molhada, o rosto borrado pela maquiagem e uma dor descomunal em seu coração frágil. Andou sem rumo durante a noite. Um inverno implacável trouxe a desesperança.
     Em meio ao nevoeiro intenso da dor surge a figura de Elói. Telefona-lhe. Identificado o local ele a busca e a leva ao seu apartamento. Depois de tomar um banho quente, Elói preparou leite com chocolate e biscoito. A garota se alimentava enquanto as lágrimas caíam em profusão sobre a mesa, dentro da xícara. Elói olhava sensibilizado. Em seguida colocou-na cama. Em poucos minutos ela dormia o sono dos inocentes. Deixou um bilhete sobre a mesa dizendo para que ela o esperasse, que ficasse sossegada, pois Dona Sônia já fora informada do seu paradeiro e que estava bem. 
     Ao retornar encontrou-a sentada na poltrona com o olhar paralisado. Demorou alguns minutos para que ela voltasse à realidade. Elói não conseguiu arrancar nenhuma informação sobre o evento ocorrido na noite anterior. Ela batia a mesma tecla "quero morrer, quero morrer!".  Quis levá-la em casa, mas preferiu voltar sozinha, agradecendo e prometendo telefonar-lhe. 
     À partir de então os encontros entre ambos tornaram-se frequentes, com promessas de não se separarem. A cada encontro, Zenaide adiava para outro o dia em que iriam para a cama, sem esquecer de pedir uma grana emprestada. Elói começou a desconfiar de extorsão, sentia-se usado. Mas não negava, pois o desejo e a compaixão se misturavam. Resolveu mudar a estratégia. Queria ter certeza dos sentimentos da garota. Um dia perguntou: - O que você sente por mim? Não demonstrou a raiva que sentiu ao ouvir a resposta: - A verdade verdadeira é que quero fazer amor com você. Teve vontade de desmascará-la, dizer que sabia ser ela uma garota de programa e que iria contratar seus serviços, para "satisfazer os meus desejos secretos!". Mas achou que seria cruel. Quando Zenaide pediu-lhe mais dinheiro para despesas, ele negou. - Então me dê ao menos o dinheiro da passagem. Contudo os encontros não deixaram de acontecer, com promessas renovadas de desejo insopitável. Resolveu entrar no jogo, pagava para ver até onde essa situação se sustentava, enquanto o desejo ia, aos poucos, ia sendo substituído por outro sentimento.


Próximos capítulos:

24 - O Povo Vai às Urnas


25- Realidade e Sentimento - Final




                                                     Publicações de J Estanislau Filho

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Nada é o que parece

                                       Imagem: Jef -  Show de Flávio Venturini - Tiradentes



Admito, fiquei encantado com a sua beleza. Com o primeiro diálogo que tivemos: educado, franco e de afeto. Pensamos diferente sobre diversos temas. Ficou nítido em nossas conversas.  Na segunda vez, como num acordo tácito, evitamos temas polêmicos. Trocamos impressões sobre música, viagens, cinema e um pouco de literatura, mais porque puxei o assunto. Dissera-me no primeiro diálogo que não gostava de ler. Relevei, afinal eu estava mesmo encantado com seus lábios e o colo provocante. As coxas, ah que coxas! Nesse primeiro encontro, você estava irresistível. Tentei um beijo, você não consentiu. Ficamos mesmo numa prosa agradável, toques de mãos e a promessa de um segundo encontro.
     E veio o segundo encontro. Passeamos, tomamos banho de cachoeira; colhemos mudas de orquídeas. Foi quando tentei de beijar. Te agarrei pelo pescoço e você se deslizou. Depois voltamos. Você veio a minha casa e ficou dois dias. Duas noites. Sugeri que dormisse comigo. Não quis. Você dormiu n'outro quarto. As duas noites. Ficou entendido que éramos apenas amigos. 
      Pouco tempo depois você se revelou uma pessoa mesquinha. Conservadora. Preconceituosa. Má.
  
               Como dizem: nada é o  que parece...



                                                                     Imagem: jef

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Filhos da Terra capítulos 19, 20 e 21- Na reta final

Rapidinho: 

Filhos da Terra é uma novela dividida em vinte cinco capítulos. Narra a trajetória de Zenaide, uma ninfeta, que se envolve num mundo do sexo, droga e fúria. A história de uma garota da periferia; pobre, sensual, que sonha com o sucesso. Zenaide e sua família, num turbilhão de sentimentos. Um jornalista, como um anjo de guarda, surge em sua vida. Um amigo, um pai; um amor. 
Capa: Berzé; Ilustrações do miolo: Eliana; editoração eletrônica: Fernando Estanislau; impressão: Editora O Lutador - 2009, primeira edição 
Agradeço pela leitura e peço a quem encontrar algum erro de gramática ou digitação, por favor, me avise.


19 - A Loira Misteriosa

Saí de casa para o trabalho com o clima tenso na redação do jornal. Meus colegas estavam divididos. Eu confuso com os ataques diários. Para alguns o Presidente da República era populista, assistencialista e corrupto mesmo. Outros acreditavam em sua inocência. Corrupto era o nosso parlamento, onde o governo não tinha maioria e precisava negociar a aprovação de projetos, sentenciavam outros. Muitos atribuíam a responsabilidade a alguns ministros, especialmente o chefe da Casa Civil, "um arrogante", no entender de Renato Matos: - Eu não confio em ninguém que muda de cara" - repetia Renato o seu bordão, referindo-se ao fato de o Ministro da Casa Civil ter um dia feito plástica, para retornar ao Brasil. - Não, Renato, aí é muita maldade - eu retrucava em defesa do Ministro - puxa vida, o cara estava no exílio, foi a forma encontrada de voltar ao país sem despertar suspeitas, se os militares o pegam estaria morto. 
     As notícias chegavam em conta gotas. Primeiro foi a tv mostrando um funcionário dos correios recebendo um pacote de dinheiro. Depois o Deputado, ex-integrante da tropa de choque do caçador de marajás, vindo a público e abrindo a caixa-preta do financiamento de campanha e a coisa se degringolando. Novos atores aparecem em cena, envolvendo parlamentares da base aliada, um empresário e um banco num esquema denominado de valerioduto. 

     - Olhem aqui, pessoal! O que vou dizer não significa uma justificativa a favor do governo, mas me intriga tanto alarde com algo que sempre aconteceu na política brasileira: o toma lá dá cá, porquê só agora resolvem denunciar? O erro está no financiamento de campanha, que leva, inevitavelmente à criação do caixa 2, por isso defendo o financiamento público. Isso me cheira a golpe. E mais, o tiro pode sair pela culatra. Acho que os autores da denúncia não calcularam bem o calendário eleitoral e até la esse assunto estará desgastado e o governo poderá reverter esta situação. Não sei. A quem interessa a queda do presidente? Está me parecendo um processo kfkiano. E nós, jornalistas? Vocês observaram que a tal liberdade de imprensa é uma falácia?  Não temos convicção do teor das denúncias, entretanto, escrevemos cegamente o que nos determinam, não conseguimos apurar nada. Está muito esquisito. Não posso defender o governo diante da gravidade das denúncias, assim como não posso denunciar sem conhecer as fontes..."
     Mas, no fundo, eu estava desapontado. A aprovação despencava e os movimentos sociais não davam sinais de apoio. Lembrei-me, com tristeza, as palavras do filho de um companheiro de luta, um militante que sofrera tortura nos porões da ditadura: - Para que serviu a luta? A corrupção continua; a violência aumenta, os ricos continuam cada vez mais ricos e os pobres continuam na merda e você nem sequer consegue ser recebido pelos "companheiros, que fazem parte do governo". Pode haver manipulação nas denúncias, calúnias até, mas precisavam ser apuradas. A máquina do governo é grande, tem gente de todo tipo e a corrupção está entranhada na máquina pública. É preciso apurar, dizia aos seus botões no momento em que atravessava a Rua da Bahia em direção ao Maleta, viu a loira misteriosa do shopping entrando no edifício pela Avenida Augusto de Lima. Correu para alcançá-la, mas ao chegar no hall, a porta do elevador se fechou. Não conseguiu entrar, mas pode vê-la de relance, antes de a porta se fechar totalmente. Ficou deslumbrado com a beleza desmesurada da mulher. Foi tudo muito rápido. Agora sabia como encontrá-la, o coração pulsava forte, principalmente pela sensação de ter sito notado por ela. "Será que mora aqui? Vou esperar um pouco, talvez ela saia". Não fumava, mas a ansiedade o levou ao bar e comprou um cigarro picado. Fumou desajeitado, inquieto. Depois de meia hora de espera inútil, de novo sentiu-se ridículo e foi embora. Em casa foi direto ao chuveiro, pensando trocar de roupa e voltar pra fazer plantão na porta do prédio. "Estou parecendo um adolescente, caramba!"... E daí? Estou afim de uma parceira, chega de frescura! Vamos lá Elói. Esquece os problemas, esquece o governo, você lutou por um sonho, valeu a pena. Pare de se cobrar, relaxa e vá viver a vida enquanto é tempo".
     Desceu o elevador e voltou ao local. Bem em frente do edifício, um bar. Sentou-se em uma cadeira, onde pudesse ver o movimento de entrada e saída do prédio. Depois de mais de uma hora e na quinta dose de uísque, a loira finalmente saiu. Devido a penumbra e por estar ligeiramente embriagado, não conseguiu identificar o vulto. Levantou-se e foi em direção a ela, que arrumava os cabelos com as pontas dos dedos, olhando de um lado a outro. Aproximou-se e trêmulo de surpresa disse: - É você? Não é possível, puxa vida! Mudou demais em tão pouco tempo, está lindíssima. 
     - Elói, seu miserável - respondeu a loira com um misto de alegria e raiva. 
     - O que está fazendo por aqui, garota? - perguntou com medo da resposta.
     - Estou trabalhando, preciso ir, minha filha me espera.
     Elói fingiu não saber de nada. Permaneceu parado diante dela, indeciso. Depois de alguns segundos, disse:
     - Não vá agora, vamos conversar um pouco. Que bom te ver linda e saudável... - arrependeu-se da última palavra, mas ela não parecia infectada.  
     - Devo-lhe muitos favores, estou agradecida, mas você foi muito claro, mudou-se e me disse que só o procurasse em caso de extrema necessidade. Não te explorei muito não, foi só no começo. Sou atendida pelo SUS. Aquilo que suspeitávamos aconteceu, tenho, como diz minha mãe, "aquela doença" - respondeu Zenaide com um semblante indecifrável. 
     - Ô Zenaide, você está ótima. Eu moro aqui, do outro lado, se quiser, vamos lá ao meu apartamento, ou a outro bar, para conversarmos. Eu planejo visitá-los por estes dias.
     Diante dele estava, com seus quase dezoito anos a garota mais linda do bairro, que sonhara ser famosa e rica. Mãe aos dezesseis, depois de inúmeras tentativas de aborto. Para ele, continuava sendo a garota mais linda, não só do bairro, mas do mundo. Quantos garotos, quantas garotas iguais a ela estariam nas mesmas condições? Era esse o futuro reservado para elas e eles? Voltou a si ao ouvir Zenaide quase gritando:
     - Acorda, o que foi?
     - Não sei. Acho que sonhava. 
     - Desculpe-me, estava pensando como a conheci. Tinha treze anos - explicava Elói, olhando-a comovido.
     Mas Zenaide estava estranhamente séria, como se tivesse perdido algo, que ele não conseguia decifrar: um sentimento... Então ela disse algo que dava uma pista:
     - A minha vida não tem sido nem um pouco interessante, a minha companhia menos ainda. Mas se for nos visitar será bem recebido, mamãe fala muito de você, o Marcelo, a Edileuza, todos perguntam...
     - Quero saber de você - interrompeu Elói -, quero saber como está, o que pensa de mim, não me julgue mal, nunca esqueci ninguém, tenho as melhores lembranças de todos, especialmente de você. Tentou acariciar o rosto dela, mas ela se esquivou.
     - Você está bêbado?
     - Ligeiramente de fogo, só isso e aí? Vamos sair para conversar?
     - Preciso ir embora, Vitória precisa de mim - respondeu, com o semblante indecifrável.
     - Vitória, sua filha. Como ela está?
     - Bem, na medida do possível - respondeu secamente.
     - Estou te achando... Como posso dizer? Estranha, diferente. Cadê aquela alegria? Cadê aquela garota cheia de vida?
     - Ah, tem dó, estas suas perguntas...
     - Puxa vida, tenho o maior carinho por você - disse tentando, mais uma vez tocá-la. Zenaide recuou. Estava arisca.
     - Você tem alguma mágoa de mim? Perguntou com voz triste.
     - Existe motivo? Por que está me perguntando? Vim ao seu apartamento e acabei dormindo. Tive um pesadelo.
     - Não sei. Estou te achando rude comigo. Não vou aborrecê-la, se é assim que você quer, tudo bem!
     - Diga à Dona Sônia, que domingo próximo irei visitá-la. Posso? - a pergunta foi irônica e de retórica.
     - Ela ficará muito feliz...
     - Você, não?
     - Talvez!
     Assim foi o reencontro com Zenaide, depois de quase dois anos. Ele sempre a desejara, agora mais ainda. 


20 - Frango Caipira ao Molho Pardo

Ao saber que Elói viria visitá-los no domingo, Dona Sônia começou a pensar no almoço. Lembrou-se de que ele adorava frango caipira ao molho pardo. Pediu a opinião de Zenaide, mas ela se limitou a sacudir os ombros num gesto de tanto faz. Preferiu não saber o motivo da indiferença, pois sabia que a filha, apesar da dedicação com a neta e com o trabalho, estava de mal com o mundo. "Coitada, tão nova e com esta doença, não é para menos", dizia para si. "De quê adianta sofrer? O que está feito não está por fazer", pensava enquanto olhava a filha cuidando de Vitória. "Ela devia deixar de lado a revolta, tem uma filha linda, saudável. Tudo bem, entendo, é a doença e está com medo de amar. Se arrumar um namorado, não poderá esconder a doença... Se contar... Situação difícil. Tem gente que só de ouvir falar na doença, sai de perto. Acha que AIDS transmite num abraço. Ignorantes! Será que o Elói desapareceu por causa disso? Como não pensei nisso antes? Muito estranho, vou tirar a dúvida perguntando, na lata! Se bem não vai adiantar, ele não vai admitir. Também não dá pra ficar com raiva, ele sempre foi solidário e não adianta ficar procurando responsável pela tristeza de minha filha, foi ela que buscou isso. Sofrimento por livre-arbítrio? Esquisito. O Elói vai dizer que é uma questão social. Até sei como vai explicar: culpa do capitalismo! Eu não entendo essas coisas. Não foram os homens que construíram o capitalismo? Eu quero é ver minha filha feliz, o Brasil é grande, tem de haver um jeito de melhorar a vida do povo. Muita gente necessitada. Chico Xavier disse que o Brasil será o celeiro do mundo, mas ainda não é um celeiro nem para os filhos da terra. Tem um tantão de gente assim, ó, descendo a lenha no Lula, mas eu acho que a vida dos pobres deu uma melhorada. Bolsa Família tem ajudado muitas famílias, o custo de vida melhorou, verdade seja dita. Mas que tem muita gente falando mal dele, ah isso tem. Eu não entendo, não leio nem assisto jornal. No horário político desligo a televisão. É uma mentirada, não dá pra confiar nos políticos. Eu com isso? Zenaide, vem aqui um pouco, trás Vitória, quero te perguntar umas coisas".
     Assim que Zenaide chegou com a filha no colo, a avó fez uns carinhos na filha e na neta e perguntou:
     - Minha filha, me responda, por favor, como foi que você encontrou com o jornalista? 
     - Ah mãe, pra que a senhora quer saber? - respondeu desconfiada.
     - Ué, pra saber, que que tem? Depois de tanto tempo sumido...
     - Curiosidade boba, mãe - respondeu com enfado - foi por acaso, em Beagá. E Belo Horizonte não é tão grande assim. Já em Contagem. Encontramos na rua. 
     - De repente fiquei pensando se vocês estão se encontrando há muito tempo, sem eu saber de nada - disse como se estivesse com ciúmes.
     - Me poupe, vai ver a sua novela, está na hora - respondeu se retirando.
     Dona Sônia estava curiosa, queria saber onde a filha trabalhava, mas ela alegava não ser um trabalho fixo. A grana que ela trazia não era muito, mas suficiente para suprir as despesas pessoais e de Vitória. Vez ou outra pagava uma conta de luz, água e gás e sempre trazia alguma coisa da rua para casa: pães, frutas, leite. Raramente dava um sorriso, em geral, com Vitória, com quem passava horas brincando. Às vezes a avó dizia para ela dar um passeio, divertir-se um pouco. Convidou-a várias vezes a ir ao centro espírita, mas ela se recusava, sem explicar a razão. Zenaide se trancara a sete chaves, não falava de seus sentimentos. Sônia depositava esperança em Elói, para tirá-la do silêncio doloroso. 
     Passava do meio-dia quando Elói chegou. Tenório e Edileuza, Marcelo e Dona Sônia receberam-no com entusiasmo. Dona Sônia pediu desculpas por Zenaide, que se encontrava ocupada com Vitória. Apresentou-lhe Seu Atílio, que apos um breve diálogo convidou-o a tomar um suco de manga. Alguns vizinhos, conhecidos de Elói, apareceram para cumprimentá-lo. Apesar de simples, a casa estava bonita, com as paredes pintadas de azul-anil, portas e janelas envernizadas. A cozinha pequena tinha cerâmica decorada.
     - Desculpe, Elói, nessa casa agora só bebemos água, suco e café com leite - justificou Marcelo, vangloriando-se de ter largado o álcool.
     - Sem problemas, Marcelo - respondeu Elói -, pensando bem, suco é bem mais saboroso. Ficou na companhia de Marcelo e Tenório, na sala, enquanto Dona Sônia e Edileuza cuidavam do almoço. Só depois de quase meia-hora após a sua chegada foi que Zenaide apareceu com ar sério, porém sem a carranca de quando se encontraram. Elói sentiu o coração bater afoito e as pernas tremeram quando ela o cumprimentou com um abraço forte e demorado. Zenaide estava no esplendor da beleza, lábios carnudos, pele viçosa e quadril largo. Sentiu a dureza dos seios tocando justamente em seu coração. Ao se soltarem pairou no ambiente um silêncio constrangedor. A garota tinha os olhos cheios de lágrimas. Habilmente Marcelo rompeu o silêncio, perguntando a Elói o que achara da reforma que fizera na casa. Nesse ínterim, Zenaide pediu licença, para ir até a cozinha, saber se precisavam de sua ajuda. Elói bem que tentou desviar os olhos da garota, que se dirigia à cozinha, balançando os quadris, protegidos por uma calça justa de lycra. O sentimento adormecido acordava com uma força arrebatadora a ponto de não escutar o Marcelo dizia. Agora tinha certeza de que fugira desse desejo, fugira de Zenaide de medo de ter seu amor contrariado; não suportaria vê-la andando livre sob os olhares de cobiça de gente jovem e bonita. Descobriu, finalmente, que o preconceito em relação à diferença de idade era dele, pois o amor não enxerga estas coisas. Não importa o que a sociedade pensa, o que conta é o sentimento puro e verdadeiro, recíproco. Sempre tivera medo de amar, admitia agora. Mais ainda quando esse amor se manifestava por uma garota dezoito anos mais jovem. Jurou não meter os pés pelas mãos. Voltou à realidade, elogiando Marcelo pela reforma caprichada. E por ter se recuperado da dependência do álcool; por se tornar um artista da construção civil. Disse estendendo os elogios a Tenório, enquanto manuseava um álbum de fotografias das construções que eles fizeram, e, como sempre, fazendo uma análise da conjuntura. Disse-lhes que se preparassem, pois o país passaria por um período de crescimento econômico nos próximos anos, em especial na área de construção civil.
     - Já melhorou muito - interveio Tenório, animado - com a diminuição da alíquota de impostos em alguns materiais, o mercado está se aquecendo, o cimento barateou.
     - É isso aí, Tenório - apoiou Elói - percebo que você está antenado. É inevitável, pois o crescimento está estagnado há décadas e este governo popular precisa dizer a que veio. A imprensa está batendo forte, faz parte do jogo de interesses, o que vai acabar forçando o governo a tomar algumas medidas a favor do povo. Primeiro porque é necessário, segundo porque precisa de apoio popular, que garanta a reeleição. Você já ouviu falar no efeito bumerangue? As denúncias, para desestabilizar o governo acabarão por fortalecê-lo. Voltará contra os denunciantes.
     Quando a conversa entrava em sua fase mais animada, foi interrompida para o almoço. O cheiro delicioso do frango ao molho pardo provocou o estômago de todos, que se dirigiram à cozinha. À mesa Zenaide exibia um sorriso esplêndido, porém, antes de iniciar a refeição, ela o convidou a ir ao quarto e conhecer Vitória. Dona Sônia se assanhou, querendo acompanhá-los, mas se conteve ante o olhar significativo da filha. Assim ambos tiveram a oportunidade de ficarem um instante a sós. Vitória era, de fato, uma criança linda. Tinha um verde esperto nos olhos e abriu um sorriso encantador. Elói pegou-a nos braços, dizendo, "ó minha filhinha linda!". Zenaide olhou-o com ternura, dizendo: - Lembra-se de quando me propôs registrá-la em seu nome e eu não aceitei? Não seria justo, nunca quis tirar proveito de sua bondade. - E sei - respondeu Elói, retribuindo o olhar terno -, até mesmo a clínica que pus à sua disposição, você quase não utilizou. - Preferi o SUS - respondeu Zenaide - e peço-lhe desculpas pela maneira que o tratei naquela noite. Fui rude, estava irritada  por outros motivos, que não vêm ao caso, não era nada pessoal, como pode ver, afinal, de você só tenho boas recordações. Um pouco de mágoa, por ter desaparecido - completou, piscando os olhos. - Zenaide, vamos sair uma hora dessas, com calma, para conversarmos? Que tal um jantar? Tenho ótimas recordações suas, vamos colocar as coisas em ordem. Está linda, quero que me fale de você, de seus planos, do trabalho, tudo... Mas ao tocar no tema do trabalho, Zenaide baixou as vistas e seu semblante mudou. - O que foi? - perguntou Elói -, falei algo que te aborreceu? - Não, não, de forma alguma - respondeu Zenaide -, a gente vai se encontrar sim, para uma longa e boa prosa, mas agora vamos almoçar. - Sim, vamos - concordou Elói, olhando-a no fundo dos olhos, mas antes me passe o número de seu celular.

21 - O Que Está Acontecendo?


Eu estava ansioso para o encontro com a garota de meus sonhos de amor reprimido. É verdade que perdera a inocência e a pureza de seus treze anos, que me levaram a ouvir estrelas. Por conta de uma segurança exagerada, por conta de uma moral conservadora perdi a chance de tê-la no frescor da puberdade. Talvez eu esteja enxergando um passado inexistente, talvez eu seja um visionário em questões de amores juvenis ou quem sabe até, um porco-chauvinista. Como posso afirmar que ela iria pra cama comigo? Relembrando aquele período vejo-a em meus braços pedindo-me ajuda com um misto de sonho frágil e decisão. Me lembro dela roçando os seios dóceis em meu peito; me beijando calorosamente a face; desatenta, abrindo as pernas e deixando à mostra o sexo róseo de penugens esparsas; recordo o dia em que a beijei na face e meus lábios se deslizaram até os dela, devagar, contendo o ímpeto de um beijo ensandecido. Também me lembro de suas faces coradas, baixando as vistas, sorrindo, esforçando-se naturalidade; recordo bem o dia em que ela com uma saia branca e curta sentou-se em meu colo. Vestia uma blusa lilás transparente, sem o sutiã. Fiquei com a respiração presa, o coração disparado ao ver os seios rosados, o fio-dental vermelho, as coxas da cor de jambos maduros descobertas e ela me sorrindo com doçura, balançando suavemente de um lado para o outro com prazer sobre o meu pau enrijecido. Há sentimento de frustração, ao mesmo tempo de paz na consciência, pois foi melhor não ter acontecido nada mais além disso. Com esses pensamentos eu seguia para a redação do jornal, para mais um dia de denúncias contra o governo Lula. Mas eu estava imune aos ataques raivosos das pessoas que se diziam lesadas pelo governo. Meus pensamento estavam voltados para o encontro que teria ainda nessa semana com a minha doce Zenaide. O que ela teria para me dizer de novidade? O fato de ela estar infectada não nos impede de irmos para a cama, afinal as camisinhas existem para nos proteger de doenças e gravidezes. Ah, de novo começo a fantasiar, calma Elói, o que está acontecendo? Não, não vou deixar escapar a oportunidade que se apresenta, tudo pode acontecer entre nós, inclusive nos amarmos. Hoje com tranquilidade, pois ela é de maior e eu estou mais seguro, quero fazer tudo direito. Um jantar romântico... Levo flores? Levá-la a um motel. Veremos. Mulheres não gostam de irem pra cama num primeiro encontro, gosta de um ritual. Se bem, hoje em dia as mulheres estão mais decididas, além de sermos velhos amigos. Não acredito no que está me acontecendo! Preciso de um terapeuta kkkk...  Na altura do campeonato, com tantas mulheres no mundo eu ficar feito um idiota por causa de uma garota problemática? Minha imagem refletida... só pode! Está certo que ela é linda, sensual, não pode ser apenas sexo. Alguma coisa estranha está acontecendo comigo. Posso estar arranjando sarna para me coçar. Qual é o verdadeiro sentimento que me leva a ela? Tô surtando? Parece uma obsessão ou estou me tornando um velho sonhador, que não se enxerga? Zenaide não é para o seu bico, velho safado kkk, preciso me conhecer melhor. Talvez um altruísmo inconsciente... sei lá!
     Com estes devaneios Elói chegou à redação. Sem cumprimentar os colegas foi direto na garrafa de café e se serviu. Pediu um cigarro a Manuela: - Uai, você está fumando? As denúncias contra o governo estão abalando os seus nervos? - provocou. Só então voltou a si: - Qual é a nova denúncia? - Perguntou, acendendo o cigarro. Manuela mostrou-lhe o resultado da pesquisa sobre o governo e o presidente estava recuperando a popularidade. 
     - Parece que os ataques diários tiveram efeito contrário, sabe Manuela - sentenciou Elói -, quem está caindo no descrédito é a mídia empresarial. Por mais ignorante que uma pessoa possa ser, ela desconfia, percebe algo estranho. Uma coisa é a informação, outra coisa é a manipulação. A insistência de desacreditar e atingir o Lula em um país em que quase todos os políticos têm telhados de vidro leva à contradição. Porque poupar uns e atacar outros? Só se age assim por interesse. Vou repetir o meu bordão: Lula não faz o governo dos meus sonhos, mas convenhamos, está colocando velhas raposas no bolso. Disse e repito, ele vai se reeleger. Sabe por quê? Porque a maioria do povo está vivendo melhor, as pessoas sabem disso e na hora de votar, não arriscam. 
     - Começo a concordar com você - Interrompeu Renato Matos -, todos sabem do meu ceticismo com a política brasileira, mas está muito claro que por trás das avalanches de denúncias se escondem interesses de classe. A luta de classes está acontecendo em outro patamar. A população está desgastada com as denúncias, até porque sempre foi assim. Quem não praticou um caixa dois, que atire a primeira pedra. Por que só agora o espírito ético baixou em políticos que sempre se locupletaram com o erário? Repare bem a cara dos moralistas de plantão. Falta credibilidade!
     - Às vezes penso ser a oportunidade de todos repensarmos seus valores - interveio Manuela enquanto colocava em ordem algumas fotos de empresários e políticos que participaram do coquetel no Palácio da Liberdade -, principalmente nós, jornalistas. Em tempos de internet nos acomodamos, agora é só diante do computador, em salas de ar refrigerado, enquanto o Brasil real está lá fora. Fazemos uma leitura errada dos acontecimentos. Só tem uma coisa, Elói, apesar dos exageros, acho que o PT fez por merecer. Seus dirigentes sempre pregaram a moralização e não há como negar que muitos botaram a mão na botija. Conclusão: ou o PT assume os compromissos históricos ou cai na vala-comum. Vigiar os passos dos dirigentes é um dever do bom jornalismo. 
     - Não entendi - ironizou Renato.
     - Simples. A imprensa em geral poderá mudar a postura. Não poderá mais ser seletiva. Onde houver irregularidades terá de denunciar, forçando todos a refletirem sobre mudanças de paradigmas. Isso vale tanto pra esquerda, quanto pra direita.
     - Vija não Manuela - interveio Jarbas, o faxineiro anarquista -, temos de colocar tudo isso abaixo. Todo mundo está na vala-comum, todos querem uma propina, um jabá. 
     Jarbas colocou um fim na conversa e cada um foi ocupar sua mesa. 
     Elói começou a folhear um jornal concorrente, uma de suas novas atribuições, que fazia a contra-gosto. Em geral lia as manchetes e completava com uma leitura dinâmica algumas colunas. Nesse dia, sem motivo ou motivação, lera alguns classificados de garotas de programa, que se ofereciam para o sexo. Um chamou a sua atenção: "Ninfeta loura vai levá-lo ao mundo dos prazeres! Sou meiga, carinhosa e satisfaço os seus desejos secretos. Venha ser feliz. Espero a sua ligação". O número do celular era o de Zenaide.



Próximos capítulos...


22 - Encontro Marcado
23 - Os Encontros se Sucedem


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Professoras que estudaram 200 edições do Jornal Nacional mostram como cena de avião marcou operação de “silenciamento” do ex-presidente Lula

                                                              Imagem: Viomundo


ATO 1: SILENCIAMENTO DE LULA, O CANDIDATO INDESEJADO 

por Ângela Carrato e Eliara Santana*, especial para o Viomundo

CONTEXTO

Desde janeiro de 2018, quando iniciamos esta pesquisa, já analisamos mais de 200 edições do Jornal Nacional à procura de padrões que pudessem indicar o comportamento da cobertura jornalística do principal veículo da Rede Globo, como ator que se posiciona no campo político, na disputa de poder.

O nosso estudo não avalia apenas os elementos objetivos — duração das matérias, pertinência das fontes ouvidas, presença do contraditório.

Atenta também ao que é dito, como é dito, por quem é dito, pois são aspectos igualmente importantes numa análise com esse perfil.

Vale dizer: entonação de voz, fisionomia da pessoa, vestuário, contexto em que a pessoa fala, cores predominantes na cena, entre outros detalhes. Tudo isso importa e muito.

É importante observar, ainda, que pesa muito o modo como as informações/notícias são organizadas e apresentadas para os telespectadores.

O resultado dessa empreitada é que pudemos verificar, na análise, que há padrões internos claros na cobertura, bem como mudanças estratégicas neles, de acordo com o cenário e as ênfases que a edição pretenda dar.

A mídia, em especial a televisiva (principal fonte de informação do brasileiro, em que se destaca o Jornal Nacional, com cerca de 70% de audiência), é um poderoso elemento que atua na forma como as pessoas passam a perceber a realidade.

Percepção que se torna fundamental para, num momento seguinte, se posicionarem sobre essa mesma realidade.

Ressaltar esse aspecto é essencial, tendo em vista a divergência reinante entre os estudiosos da mídia.

De um lado, aqueles que defendem que a mídia manipula a compreensão do público sobre os fatos, valendo-se para tanto de várias técnicas, entre elas o agendamento (agenda setting).

De outro, os que defendem que o público tem autonomia e outras fontes de informação, sendo assim capaz de formar julgamento próprio (as teorias sobre deliberação).

Os defensores da segunda visão estariam menos equivocados se no Brasil existissem, efetivamente, fontes plurais de informação (em especial também uma mídia pública) e não um monopólio comercial de mídia.

Estariam menos equivocados se existisse aqui uma educação de qualidade para todos e uma população plenamente — e não apenas funcionalmente — alfabetizada, como acontece em países da Europa ou mesmo nos Estados Unidos.

Nesse esforço analítico a que nos propomos, delineamos, nesse período de nove meses, algumas estratégias na cobertura do JN, bem como padrões que se consolidaram.

A edição dos telejornais brasileiros, em especial o JN, utiliza um recurso que segue a mesma lógica das novelas (tão apreciadas no País) e das séries.

Um assunto começa num dia e se prolonga por vários “capítulos”.

O que aconteceu num “capítulo” acaba tendo influência em outro.

No entanto, ao contrário das novelas, onde um personagem não pode desaparecer por muito tempo, nos telejornais, a presença de personagens e dos temas a eles ligados não segue essa lógica.

Em outras palavras: nos telejornais, onde deveria haver espaço para recortes de um dado real, tem predominado mais ficção — compreendida aqui como reconstrução enviesada do real — do que nas próprias novelas.


A CONSTRUÇÃO DAS CENAS

Há movimentos bastante precisos e coordenados em relação às edições do jornal nesse período (que denominamos ATO 1), com um enquadramento muito bem construído a partir dos temas (assuntos principais em destaque), da qualificação dos atores e da construção da cena enunciativa.

É preciso ficar bem claro que o JN não está fazendo (se é que algum dia efetivamente fez) puramente jornalismo.

Ele está tentando criar um repertório coletivo, recorrendo à memória discursiva, modalizando o dizer, com estratégias muito bem construídas do ponto de vista discursivo, para substituir a percepção e a memória que os telespectadores têm dos fatos.

Dito de outra forma: o JN está tentando reescrever a história do Brasil, de acordo com os interesses da família Marinho e da elite dominante brasileira (e de seus apoiadores externos).

Esses aspectos são fundamentais para podermos mostrar como, enfim, a discussão de temas relevantes no cenário nacional é circunscrita no e pelo JN, visando a determinadas interpretações e problematizações.

Afinal, o que está circunscrito opera dentro de quadros e enquadres limitados, delineados, produzindo determinados sentidos.

Há acontecimentos relevantes que são redimensionados pelo JN, bem como assuntos que são trazidos à cena para ocultarem ou silenciarem outros.

Por exemplo, a cobertura na semana do julgamento do habeas corpus (HC) à prisão do ex-presidente Lula.

Durante esse período, a cena enunciativa construída no JN projeta uma instância plural, tendendo à neutralidade, atenta à veracidade dos fatos, com foco em temas variados e que contemplam todo o conjunto da sociedade.

Desaparecem os grandes temas POLÍTICA e ECONOMIA.

Tudo gira em torno de questões técnicas (relativas à prisão, ao julgamento).

Alguns aspectos se destacam:

1. Reforço a questões técnicas — o discurso cumpre a função de mostrar que não há um viés determinante no JN.

Há fatos e aspectos técnicos que demonstram esses acontecimentos, e todas essas percepções são mostradas por vozes de autoridade — o jornal não fala.

2. Edições num esforço de equilíbrio, projetando um ethos de neutralidade.

3. Reforço à ideia de justiça para todos, justiça acima de interesses desse ou daquele partido — a grande justiça que está sendo feita é apartidária.

4. Ideia de que a Globo não é contra a justiça — mas a quer para todos.

5. Há um tom sóbrio e de neutralidade.

6. O julgamento do HC pelo STF (4 de abril), a determinação do juiz Sérgio Moro (de cumprimento da prisão menos de 24 horas depois da decisão do STF) e a prisão de Lula são enquadrados pelo aspecto das tecnicalidades: é preciso explicar o que aconteceu e mostrar às pessoas que se trata de um caso comum de detenção, analisado sob um ponto de vista estritamente técnico.

7. Tal enquadramento não contempla a política. Tudo se resume à técnica, à adequação à justiça.

8. Cobertura a-histórica: não há nenhuma recuperação do que foram os governos Lula (2003-2010). A historicidade é apagada da cobertura.


                                                                  Imagem: google

SEM O FINAL ESPERADO
Foi a partir de uma chamada do Plantão JN, no final da tarde de 5 de abril, que a maioria da população tomou conhecimento de que o juiz Sérgio Moro acabava de decretar a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A notícia, lida de forma sóbria por uma das apresentadoras do JN, Renata Vasconcellos, com a câmera destacando seu rosto e sua camisa alvíssima (veja acima), remetia simbolicamente a uma ideia de purificação, limpeza.
Imagem que visivelmente contrastava com a “sujeira” contida nas centenas de matérias feitas nos últimos anos pelo JN, denunciando corrupção e atribuindo-a ao PT e aos seus integrantes, sempre ilustradas por um grande tubo de esgoto, com fundo vermelho, por onde saía todo o dinheiro ilícito.
A construção das cenas, portanto, não é apenas o quadro para a TV, é uma construção de uma cena para enunciar, para dizer de determinado modo, conduzindo a interpretação do espectador.
As cenas são fortemente marcadas por elementos simbólicos (o duto, de um lado; a roupa alva, de outro) que estarão sempre na memória do espectador. E são elementos que aparecem reiteradamente, em quase todas as edições.
A decisão de Moro dominou toda a edição do JN.
Ênfase especial foi dada às condições determinadas por ele para a prisão, lidas com destaque:
“Em respeito ao cargo que ocupou, o ex-presidente deve se entregar até às 17 horas do dia seguinte”; “não serão usadas, em hipótese alguma, algemas” e “ele terá uma cela individual na sede da Polícia Federal, em Curitiba”.
O tom anunciado e que se confirma na matéria é o de pintar o juiz com as cores da benevolência, civilidade, respeito aos direitos.
E isso é marcado pelo verbo que descreve a ação do juiz – Moro CONCEDE O DIREITO A LULA…
Essa ideia perpassa toda a matéria, pois há a descrição dos inúmeros benefícios concedidos a Lula pelo juiz.
A matéria também faz um histórico da decisão do STF sobre o pedido de HC e leem com destaque o ofício de Sérgio Moro.
Não há comentários sobre a rapidez no pedido de prisão.
Há uma descrição detalhada dos benefícios concedidos a Lula, como o banho de sol mais longo e a sala individual e com chuveiro elétrico funcionando.
Na descrição da sala, fazem uma comparação com a situação de outros presos — que não têm essas “regalias”.
Mostram-se as manifestações favoráveis a Lula, em todo o Brasil, bem como depoimentos de vários políticos em Brasilia sobre o pedido de prisão.
Bonner arremata para projetar o ethos de um jornalismo plural — lê uma nota afirmando que a Globo cobre todos indistintamente.
A matéria tem um tom marcadamente sóbrio, descrevendo as ações e os acontecimentos.
A repetição dessas condições, ao longo da edição do JN, acabou funcionando como uma espécie de denúncia de privilégios que Lula, mesmo numa situação extrema, continuava gozando.
A edição do JN do dia seguinte, 6 de abril, trouxe como destaque a não apresentação de Lula e o encerramento do prazo dado a ele por Moro.
Novamente são construídos dois campos de sentidos: Moro, o benevolente, o que concede benefícios, e Lula, o infrator, aquele que descumpre até ordem de prisão.


Havia uma expectativa de que o JN fizesse, no sábado, 7 de abril, uma edição apoteótica, uma espécie de coroação do combate que há anos vinha empreendendo, “em nome da moralidade pública”, contra o PT e os seus integrantes.
A prisão do ex-presidente tinha os ingredientes para ser apresentada ao respeitável público como o ponto final para Lula, o lulismo e o PT.
Mas a cobertura da apresentação de Lula, chamada pelo JN de “entrega”, ficou muito distante do “grand finale” pretendido.
Uma multidão se aglomerou no entorno da sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, para onde Lula se dirigiu e permaneceu antes de se entregar.
Isso ressaltava simbolicamente a resistência e o grande apreço por um líder político, destoando de possíveis imagens que remetessem ao ostracismo de alguém acuado e rechaçado pela população.
Daí a emissora ter preferido veicular apenas imagens em planos fechados, totalmente diferentes daquelas em que Lula era carregado em meio a um mar de gente, exibidas nos principais sites brasileiros e em jornais internacionais.
Não passou despercebido aos olhares mais atentos que, naquela edição, a imagem que permaneceu mais tempo no ar foi a de um pequeno e defasado avião monomotor Cessna Caravan, da Polícia Federal, que decolou de São Paulo, rumo a Curitiba, levando um ex-presidente que, aos poucos, sumia num céu escuro.
Uma vez que a prisão de Lula não deu à imprensa o espetáculo esperado, tendo ele se projetado como sujeito histórico de muita relevância, as edições da semana de 09/04 a 16/04 cumprem o papel de criar para os espectadores o sentimento de uma “virada de página” — está em curso um novo momento na história do Brasil, sem Lula, sem o PT.
Simbolicamente, a imagem do avião cumpre essa função — uma parte da história se encerra para dar lugar a um recomeço.
Para isso, algumas estratégias, do ponto de vista do discurso, da encenação da notícia, são bem pontuadas, como o silenciamento.
É necessária uma operação para silenciar sentidos potentes advindos do movimento de prisão de Lula, como Lula = ideia.
É preciso conter e silenciar esses sentidos, é fundamental deixar de dizer, é essencial mostrar página virada: por isso, não há qualquer menção a Lula ou aos desdobramentos da prisão nos dias seguintes.
Vejamos as cenas dos próximos capítulos.

*Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
*Eliara Santana, também jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.



Fonte: https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/jornal-nacional-e-mostram-como-cena-de-aviao-marcou-operacao-de-silenciamento-do-ex-presidente-lula.html