terça-feira, 25 de julho de 2017

A Moça do Violoncelo



Os acontecimentos daquela noite premonitória mudariam completamente os rumos da vida de William Schlesinger. Sua adorável mãe tentou dissuadi-lo enquanto vestia o terno novo e se perfumava. Meu filho, fique em minha companhia, não saia, pressinto algo ruim, disse alisando carinhosamente os cabelos do filho. Ah mamãe, não perderei o espetáculo dessa noite, talvez seja o último! Trata-se David Gilmour in Concert, comprei o ingresso, respondeu sem esconder o enfado. Deixou-a sozinha com lágrimas nos olhos e partiu. A pobre senhora, desde o suicídio do marido, tornara-se uma pessoa amarga, na visão do filho único. Agarrava-se a ele como tábua de salvação.    
       O teatro estava lotado. Como de hábito, Schlesingir encontrava-se na primeira fila, próximo ao palco. Só ia a espetáculos se encontrasse bilhete na primeira fila, no máximo na segunda. Nessa noite sentia-se personagem especial. E de fato seria. Nesse exato momento a mãe chorava de solidão. William ficava irritado com os clamores da mãe. Não foram poucas as vezes em que disse a ela palavras ríspidas:  tenha paciência mãe, me deixe em paz, que merda!

         Tivesse atendido aos seus apelos, não viveria esse inferno hoje...

     David Gilmour iniciou os famosos acordes dissonantes de Shine On You Crazy Diamond, seguidas de Terrapin, Fat Old Sun… Sentiu um arrepio. Mas foi quando a moça do violoncelo entrou, que seu sangue circulou desordenadamente nas veias. Entrou como uma poderosa deusa, vestido longo, cor de vinho tinto com listas negras, negras rubras em forma de arabescos, cabelos ruivos batendo nos quadris, tendo algumas mechas cobrindo ligeiramente seus olhos castanhos claros. Sentou-se consciente de seu poder. Abriu as pernas com elegância suave, levantou o vestido até a altura dos joelhos e encaixou o instrumento entre as pernas...  Nosso personagem não tirava os olhos da moça do violoncelo. Os fantásticos acordes de David pareciam sair de dentro dela. O mundo girava em torno da moça. Seus movimentos concatenados foram se apossando do íntimo de sua alma. Olhar sedutor, cabelos balançando, doces lábios. O desejo de acariciar sua pele o levaria ao delírio.
     Quando os primeiros acordes Je Crois Entendre Encore soaram, seu coração descontrolou-se. E chorou, chorou...  Chorou como criança.
E soluçou. Soluços que sulcaram fundas fendas. Precisava falar com ela. Mais que falar, ouvir. Aproveitou o momento em que ela se dirigia ao camarim, pois a música seguinte não exigia a sua participação, e a seguiu discretamente. Teve sorte ao driblar a vigilância. Ela encontrava-se sentada de frente ao espelho, reparando a maquiagem. Meu Deus, dai-me força! As pernas tremiam; o coração saía pela boca. Ela o olhou de viés, com ar de desdém. Foi como uma facada no peito. Ao se aproximar, ela ergueu o revólver em sua direção. Trêmulo, disse que só queria admirar sua beleza. Ela o obrigou a ficar de joelhos. Depois ordenou que lhe beijasse os pés.  Beijou-os com sofreguidão. Em êxtase. Em seguida puxou-o pelos cabelos e disse saia daqui antes que eu o mate. William não se moveu. Desafiou-a: mate-me se for capaz. De fato preferia morrer, se ela não o ouvisse ao menos. Ela aquiesceu. Eu te amo. A moça deu um riso de escárnio. Imbecil, não sou mulher para o seu bico, disse dando-lhe as costas, após colocar o revólver sobre o birô.  Schlesinger entendeu o gesto como um convite. Alguém bateu à porta com os nós dos dedos e perguntou: está tudo bem? Ela respondeu, tudo bem. Não teve dúvidas, ela também o desejava. Aproximou-se e abraçou-a por de trás. Em seguida conduziu a mão trêmula entre suas coxas macias. Serpenteou os dedos sob a calcinha e tocou o clitóris úmido. Mas foi interrompido, pois a moça do violoncelo precisava retornar ao palco. Após se recompor retirou-se, lançando-lhe um olhar sensual, eu voltarei para te enlouquecer de prazer, disse fechando a porta.
     De Comfortably Numb William Schlesinger só ouvia os acordes do violoncelo enlouquecido. Última canção, que ficaria gravada em seu conturbado sentimento.
     Ela voltou ao camarim e puxou-o pelo braço, conduzindo-o ao seu quarto privativo. William a seguiu como cão fiel. Fique deitado aí, quieto – ordenou-lhe. Em seguida a moça foi tirando peça por peça de seus trajes, sob o olhar indescritível do rapaz. A sua beleza escultural o atordoava. Inteiramente nua, ela apanhou o violoncelo, que se encontrava sobre a cama, ao lado de William. Sentou-se e o encaixou entre as pernas. Suavemente fez um solo de Ne Me Quitte pas. Ao final, levantou e se vestiu. Schlesinger, depois de ir ao orgasmo, caiu em prantos. Está satisfeito? Agora, retire-se – ordenou. William continuava chorando e dizendo frases, que escapavam ao entendimento da moça do violoncelo. Minha querida mãezinha, o que será de você? Minha vida acaba aqui... Sou seu filhinho querido, mamãe, não a abandonarei... A moça ameaçou: saia imediatamente daqui, maluco, antes que eu chame os seguranças.

     Em seguida um tiro ecoou no recinto. William tirou o revólver que trazia escondido no cós da calça e atirou. A moça tombou sobre o violoncelo e o sangue se espalhou. Depois de alguns minutos os seguranças arrombaram a porta e se depararam com a cena: William Schlesinger, filho único de Margareth Blair dedilhando o violoncelo ensanguentado, ao lado do corpo inerte. O que se seguiu está registrado nas reportagens do tabloide sensacionalista The Sun.    
     William encontra-se na prisão e recebe semanalmente a visita da mãe, mas ele parece não vê-la. Passa o tempo todo com o fone no ouvido, escutando Je Crois Entendre Encore.

J Estanislau Filho




Dois livros em um: duas capas com orelhas em papel laminado. Com 171 páginas.
Editoração eletrônica: Fernando Estanislau - Impresso na Editora O Lutador

Para adquirir o seu exemplar, sem fins lucrativos, faça contato com o autor. E-mail: jestanislaufilho@gmail.com


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Brasil não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo



* Aldo Fornazieri

O presidente da República foi flagrado cometendo uma série de crimes e as provas foram transmitidas para todo o país.

Com exceção de um protesto aqui, outro ali, a vida seguiu em sua trágica normalidade.

Em muitos outros países o presidente teria que renunciar imediatamente e, quiçá, estaria preso.

Se resistisse, os palácios estariam cercados por milhares de pessoas e milhões se colocariam nas ruas até a saída de tal criminoso, pois as instituições políticas são sagradas, por expressarem a dignidade e a moralidade nacional.

Aqui não.

No Brasil tudo é possível.

Grupos criminosos podem usar as instituições do poder ao seu bel prazer.

Afinal de contas, no Brasil nunca tivemos república.

Até mesmo a oposição, que ontem foi apeada do governo, dá de ombros e muitos chegam a suspeitar que a denúncia contra Temer é um golpe dentro do golpe.

Que existem vários interesses em jogo na denúncia, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe.

Mas daí adotar posturas passivas em face da existência de uma quadrilha no comando do país significa pouco se importar com os destinos do Brasil e de seu povo, priorizando mais o cálculo político de partidos e grupos particulares.

O Brasil tem uma unidade política e territorial, mas não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo.

Somos uma soma de partes desconexas.

A unidade política e territorial foi alcançada às custas da violência dos poderosos, dos colonizadores, dos bandeirantes, dos escravocratas do Império, dos coronéis da Primeira República, dos industriais que amalgamaram as paredes de suas empresas com o suor e o sangue dos trabalhadores, com a miséria e a degradação servil dos lavradores pobres.

Índios foram massacrados; escravos foram mortos e açoitados; a dissidência foi dizimada; as lutas sociais foram tratadas com baionetas, cassetetes e balas.

A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença.

Não temos valores, não temos vínculos societários, não temos costumes que amalgamam o nosso caráter e somos o povo, dentre todas as Américas, que tem o menor índice de confiabilidade interpessoal, como mostram várias pesquisas.

Na trágica normalidade da nossa história não nos revoltamos contra o nosso dominador colonial.

Ele nos concedeu a Independência como obra de sua graça.

Não fizemos uma guerra civil contra os escravocratas e não fizemos uma revolução republicana.

A dor e os cadáveres foram se amontoando ao longo dos tempos e o verde de nossas florestas foi se tingindo com sangue dos mais fracos, dos deserdados.

Hoje mesmo, não nos indignamos com as 60 mil mortes violentas anuais ou com as 50 mil vítimas fatais no trânsito e os mais de 200 mil feridos graves.

Não nos importamos com as mortes dos jovens pobres e negros das periferias e com a assustadora violência contra as mulheres.

Tudo é normal, tragicamente normal.

Quando nós, os debaixo, chegamos ao poder, sentamos à mesa dos nossos inimigos, brindamos, comemoramos e libamos com eles e, no nosso deslumbramento, acreditamos que estamos definitivamente aceitos na Casa Grande dos palácios.

Só nos damos conta do nosso vergonhoso engano no dia em que os nossos inimigos nos apunhalam pelas costas e nos jogam dos palácios.

Nunca fomos uma democracia racial e, no fundo, nunca fomos democracia nenhuma, pois sempre nos faltou o critério irredutível da igualdade e da sociedade justa para que pudéssemos ostentar o título de democracia.

Nos contentamos com os surtos de crescimento econômico e com as migalhas das parcas reduções das desigualdades e estufamos o peito para dizer que alcançamos a redenção ou que estamos no caminho dela.

No governo, entregamos bilhões de reais aos campeões nacionais sem perceber que são velhacos, que embolsam o dinheiro e que são os primeiros a dar as costas ao Brasil e ao seu povo.

No Brasil, a mobilidade social é exígua, as estratificações sociais são abissais e não somos capazes de transformar essas diferenças em lutas radicais, em insurreições, em revoltas.

Preferimos sentar à mesa dos nossos inimigos e negociar com eles, de forma subalterna.

Aceitamos os pactos dos privilégios dos de cima e, em nome da tese imoral de que os fins justificam os meios, nos corrompemos como todos e aceitamos o assalto sistemático do capital aos recursos públicos, aos orçamentos, aos fundos públicos, aos recursos subsidiados e, ainda, aliviamos os ricos e penalizamos os pobres em termos tributários.

Quando percebemos os nossos enganos, nos indignamos mais com palavras jogadas ao vento do que com atitudes e lutas.

Boa parte das nossas lutas não passam de piqueniques cívicos nas avenidas das grandes cidades.

E, em nome de tudo isto, das auto-justificativas para os nossos enganos, sentimos um alívio na consciência, rejeitamos os sentimentos de culpa, mas não somos capazes de perceber que não temos alma, não temos caráter, não temos moral e não temos coragem.

Da mesma forma que aceitamos as chacinas, os massacres nos presídios, a violência policial nos morros e nas favelas, aceitamos passivamente a destruição da educação, da saúde, da ciência e da pesquisa. Aceitamos que o povo seja uma massa ignara e sem cultura, sem civilidade e sem civilização.

Continuamos sendo um povo abastardado, somos filhos de negras e índias engravidadas pela violência dos invasores, das elites, do capital, das classes políticas que fracassaram em conduzir este país a um patamar de dignidade para seu povo.

Aceitamos a destruição das nossas florestas e da nosso biodiversidade, o envenenamento das nossas águas e das nossas terras porque temos a mesma alma dominada pela cobiça de nos sentirmos bem quando estamos sentados à mesa dos senhores e porque queremos alcançar o fruto sem plantar a árvore.

Se algum lampejo de consciência, de alma ou de caráter nacional existe, isto é coisa restrita à vida intelectual, não do povo.

O povo não tem nenhuma referência significativa em nossa história, em algum herói brasileiro, em algum pai-fundador, em alguma proclamação de independência ou república, em algum texto constitucional, em algum líder exemplar.

Somos governados pela submissão e pela indiferença.

Não somos capazes de olhar à nossa volta e de perceber as nossas tragédias.

Nos condoemos com as tragédias do além-mar, mas não com as nossas.

Não temos a dignidade dos sentimentos humanos da solidariedade, da piedade, da compaixão.

Não somos capazes de nos indignar e não seremos capazes de gerar revoltas, insurreições, mesmo que pacíficas.

Mesmo que pacíficas, mas com força suficiente para mudar os rumos do nosso país.

Se não nos indignarmos e não gerarmos atitudes fortes, não teremos uma comunidade de destino, não teremos uma alma com um povo, não geraremos um futuro digno e a história nos verá como gerações de incapazes, de indiferentes e de pessoas que não se preocuparam em imprimir um conteúdo significativo na sua passagem pela vida na Terra.

*Aldo Fornazieri é Professor da Escola de Sociologia e Política

terça-feira, 20 de junho de 2017

Flor Agreste




Firmeza da pele, unhas bem feitas, cabelos impecáveis, corpos esculpidos...
Há nas falas graciosidade, recato e também uma dose de futilidade.
Passeiam pelos salões e lugares bem frequentados.
São mulheres boas de se ver, não de se saborear...
Quero a mulher!
Aquela que faz eu esquecer o meu nome, meu endereço, que me deixa desatinado.
Quero aquela que tem sagacidade, a louca translúcida.
Envolvente e afiada como uma faca, que fala o que lhe vem a mente, que gargalha alto...
Quero a insubmissa,
a flor agreste, chapada de desejo.
Aquela que me faz perder o rumo com seus beijos.
Que não se enrubece, que não recua diante do meu olhar.
Aquela selvagem, sem domínio, segura de si. 
Quero essa despudorada que se esconde por aí.
Que passeia por qualquer esquina, que encara os revezes da vida,
que não se amofina.
Quero essa mulher em cima de mim,
como onda que se arrebenta na areia.
Quero essa sereia, esse canto blasfemado.
Esse sangue quente, que ferve os meus nervos, que me tira do eixo, salivando feito lobo.
Essa mulher que não se ausenta dos meus pensamentos e não me concede o adormecer em paz.
Minha gota de orvalho sublimado, quero mais! Quero você minha incerteza, que me escapa feito água corrente, 
beleza estuante, não sossego enquanto não estiveres em minhas mãos.
Quero você mulher, 
rainha dos meus sonhos, que me fascina...

Sou seu fiel peregrino em romaria, 
quero estar entre os seus eleitos, me conceda essa honraria.
Prometo cultuá-la noite e dia, até o meu derradeiro fim.






Erika de Almeida. 

17/06/17


Breves palavras sobre a autora

Erika de Almeida (Kika Men), é formada em Letras, estuda Psicanálise.  Amante das artes. 
Adora escrever poesias e pensamentos sobre a vida e seres humanos. "Somos atravessados pela palavra e consequentemente pela linguagem": 

[Linguagem é a sacanagem boa que a boca faz com as palavras. 
Kika Men]

[A poesia é um tecido feito com linhas de palavras e sons, bordado com sentimentos...
Kika Men]

Salve a vida pai! Grandiosa vida!

 * Foto de 1928 Raphael Martinelli



Nos anos 70, após o Golpe, já preso político, os militares decidiram que meu pai deveria morrer. Escolheram a data, que seria o dia das mães. Assim o presenteariam, com a generosidade de quem dá as duas faces; uma última visita à sua mãe e também sua própria morte; cujo objetivo era eliminar da terra, tipos como ele.

Viu minha Nona pela última vez neste dia, que por conta de seus problemas de saúde, e já sem nenhuma memória, não sabia que era ali à sua frente, seu quinto filho, Léle.
Ao retirarem suas algemas e o soltarem no bairro da Lapa, previam que ele fugiria, com toda certeza, pois estava em seu lugar, conhecia tudo; e aí teriam a justificativa para atirar, deixando assim, um mundo muito "melhor" para a humanidade.

Minha Nona não mais o conhecia. Não mais... Estava em seu mundo de segredos, em sua rede de pequenas distâncias... Ele insistiu, tentou, brincou... Nada a fazia voltar desse jardim de mães, que já se foram, muito antes de se ir.

Na última tentativa cantou: ""Quel mazzolin di fiori... " Uma "cançoneta" do campo.
E para sua surpresa, ela o olhou, fez contato... Cantou!
Cantaram juntos.

Não sei se isso se chama de doce ou de cruel lembrança... Nunca sei onde se colocam essas histórias em mim. Mas sempre que lembro disso, sou tomada por uma inquietude de fazer gritar a alma.
A música, era a preferida de minha Nona, e, até hoje, sempre que a família está junto, é cantada por todos. É sempre um momento onde não temos nomes, idade, ideologias... Nada temos, nada somos, além de ser gente cujo sangue sabe de que rota é feita. Nisso consiste a mágica sonora; o sabor desse lugar em nós.

Meu pai nunca aceitou ser exilado. Não quis ser trocado pelo embaixador, quando teve a oportunidade e seu nome configurou na lista. Escreveu de próprio punho sua recusa em sair, alegando nada ter feito que envergonhasse seus filhos e seu Brasil. Carta que minha mãe teve que endossar, pois para os milicos, ele não podia estar bem da cabeça... Quem é que prefere ficar preso, tendo a oportunidade de ir?

Quando perguntado por mim sobre esse assunto, justifica dizendo: Tica, para ser banido, a gente tinha que assinar uma carta onde dizíamos ter feito muito mal ao país, que a gente não gostava do país... Esse tipo de coisa, sabe? - Oras, qual foi o mal que fiz, se justamente por querer o bem é que estava ali.. ?

Portanto, quem pensa assim, pensa em fugir?

Depois da visita, se entregou. Apresentou-se ao camburão. O cano da metralhadora dentro de sua boca, e a ira dos policiais ao vê-lo de volta, não puderam com os rumos da história.
Uma história de muitas mortes, de grandes renascimentos.

Por isso, hoje, especialmente, há que se comemorar a VIDA! Todas as vidas que ganhou e que fizeram das nossas ainda mais bonita

A foto do menino empoeirado, com semblante bravo e olhar sonhador é prá contrapor e despir uma de suas histórias que contei aqui... É prá afirmar e reafirmar a sempre criança bonita e valente que vive no meu herói, que hoje faz seus 90.

Salve a vida pai! Grandiosa vida!

Rosa Maria Martinelli



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Crônica de uma vida

Crônica de uma vida

Outubro. 1951. Dia 20. Não há registro das horas.
  Consta na certidão, o nascimento de uma criança, pelas mãos de uma parteira, nos grotões da pequena cidade do interior de Minas, São João do Oriente. Entre quatro e seis anos, provavelmente, a família dessa criança mudou-se para outro roçado, no córrego Boleirinha, zona rural de Jampruca, localizada entre o Vale do Rio Doce e Mucuri. A mudança ocorrera, por conta de desavenças políticas. Em Jampruca crescera, entre o roçado e a rua. E o amor ao pé de ingá, onde sempre parava para saborear os frutos e descansar sob suas sombras; entre o trabalho no campo e o lazer com os filhos de companheiros camponeses ou no pequeno distrito, jogando sinuca e futebol; indo ao cinema. Os estudos primários eram, também, uma válvula de escape. De criança a adolescência, tudo passou muito rápido. Aos dezesseis, novamente por conta de desavença política, a família mudou-se para Engenheiro Caldas, mas lá permanecera por curto período: entre 1967 a 1970, quando, novamente mudam de cidade, desta vez, não por desavença política, pois o pai abandonara a contenda, mas por outros motivos, que não veem ao caso e, para não alongar a narrativa. Para onde ia, levava consigo o segredo do evento ocorrido às sombras do pé de ingá. Mudaram-se, então, para Itabirinha. Nesse período, matriculara-se no Ginásio Agrícola de Colatina-ES, em regime de internato. Tempos de ditadura militar; do tri campeonato mundial; do milagre econômico; do "ame-o ou deixei-o"; de "este é um país que vai pra frente". E consigo a lembrança do pé de ingá e do que ali ocorrera...
  Para que a crônica de uma vida não seja prolixa, o autor muda o rumo da prosa, e passa a falar de como a literatura entrou em sua vida. Tudo começou em Jampruca, lendo foto-novelas, quadrinhos e livros de bolso, que os irmãos e uma irmã, traziam das cidades grandes. Depois seguiram-se os clássicos nacionais e estrangeiros. José Alencar, Machado de Assis, Tolstoi, tudo que caía em suas mãos, até conhecer as primeiras bibliotecas e "comer" muitos livros. Das leituras a escrita, foi um pulo. Primeiro com diários, seguidos dos primeiros versos. A literatura descortina o mundo, abre horizontes. Assim, o jovem desbravou florestas; singrou mares; apaixonou-se por capitus e julietas; viu soldados e civis mortos nos front's; revoltou-se com as injustiças, que os livros de história e os romances narravam; buscou entender o sentido da vida com os livros de filosofia e na universidade da vida. Fez greve. Continuava sonhando escrever/revelar o que ocorrera sob as sombras do pé de ingá.
  Inevitavelmente a leitura despertaria a sua consciência política. Em busca de emprego, independência e sobrevivência, foi morar na capital. E do chão da fábrica ao sindicato, foi rápido. Quando a consciência de classe e política de que uma vida plena é um direito de todos se instala, não larga mais. Paralelamente a ação política, escrevia poesias, crônicas e contos. Sedimentava o escritor autodidata.
  Hoje, com vários livros publicados em edições marginais, assiste ao que pensou ser uma página virada na história: a nossa frágil democracia novamente golpeada, desta vez, não pelos militares, mas por uma quadrilha de parlamentares em conluio com a turbamulta. E como a consciência política e social instalou-se definitivamente, continua em ação, para mudar esta realidade.
  E prepara-se para escrever o que deseja ser o seu melhor texto: o evento ocorrido à sombra do pé de ingá.

Publicações:

1 - Nas Águas do Arrudas - poesias - 1984
2 - As Três Estaçoes - poesias - 1987
3 - O Comedor de Livros - poesias - 1991
4 - Crônicas do Cotidiano Popular - 2006
5 - Filhos da Terra - crônicas, contos com fechos poéticas - 2009
6 - Todos os Dias são Úteis - poesias - 2009
7 - Palavras de Amor - poesias - 2011
8 - Crônicas do Amor Virtual e Outros Encontros - 2012
9 - A Moça do Violoncelo (contos) e Estrelas - poesias - 2015


J Estanislau Filho

Imagem: jef

sábado, 10 de junho de 2017

Casa de João-de-Barro

Casa de João-de-Barro.

Francisca, como sempre esbaforida, foi entrando sem pedir licença. Encontrou a Maga dizendo a Joel - o sapo domesticado - para que não se preocupasse com Jael, o papagaio bipolar, que em suas crises, bicava o sapo: - Meu amor, fique quieto dentro da panela, vou sair com a Xica, para espairecer, contemplar a natureza, querido. Eu e a Xica iremos fazer a trilha da Cava Amarela. Qualquer coisa o Isaías (disse Isaías em voz alta) está em casa.
   - Vamos embora - interrompeu Francisca -, antes que fique tarde. Você conhece bem a trilha, depois destas chuvas, deve ter crateras, troncos, pedras...
   - E centenas de borboletas, jacus, árvores... Vou pegar umas frutas e água. Cadê sua matula?
   - Deixei na poltrona da sala. Vamos - Disse Francisca, enxugando a testa.
   - Calorão em amiga! Mudança hormonal é fogo!
   - Se é. Mas não é só isso, que atiça meu fogo, sinto falta do meu escultor de pedras preferido. Miserável, entrou e saiu da minha vida assim, ó, sem anunciar!
   - Esquece aquele idiota, vamos embora.
   Subiram a trilha, observando as borboletas azuis. A intenção era ir até o maior jequitibá do mundo.
   - Do mundo, Maga? Menos, né.
   - Ah, é o maior sim.
   Distraíram-se no caminho ao ver uma casa de João-de-Barro.
   - Dizem que o macho empareda a fêmea no ninho, caso ela se engrace por outro macho; que são parceiros fiéis - comentou a Maga.
   - Lenda, amiga, lenda, não há comprovação científica ou empírica. Mas que eles formam um belo casal e são exímios construtores, não tenho dúvidas. A natureza é mágica.
   - Pena que eu e o Isaías estamos sempre às turras - lamentou a Maga.
   - Isaías é boa gente, filósofo de meia tigela - ironizou Francisca.
   - Ah isso não, Isaías tem muito conhecimento. Debate qualquer assunto e tem opinião própria - retrucou a Maga.
   Francisca deu uma sonora e gargalhada e brincou: - Está certa, não está mais aqui quem falou. Imagino se vocês combinassem como este fiel casal de joão-de-barro...
   E prosseguiram, decididas, rumo ao pé de jequitibá.


                  Da série> Outras Espécies - minicontos, próximo livro.


Pesquisa:

O arquiteto perfeito

É um arquiteto perfeito. O ninho tem dois cômodos, com uma porta que dá acesso ao primeiro, que é feita na medida para que a ave entre sem precisar se abaixar. O cômodo mais interno, geralmente é forrado com penas, pelos e musgo, serve para a postura de ovos e acomodação dos filhotes. A porta de entrada é sempre estrategicamente posicionada na direção contrária à chuva e ao vento.

Fonte: http://diariodebiologia.com/2009/09/joao-de-barro-um-arquiteto-ciumento-e-vingativo/

A sua grande habilidade de manipular o barro, que dá nome ao passarinho. Outro destaque do joão-de-barro é o canto. Alto e forte, como uma gargalhada, a sua vocalização tem sequência rítmica prolongada como uma canção festiva, crescente e decrescente, e é cantada pelo casal canta nas horas mais quentes e claras do dia.

Fonte: http://www.ebc.com.br/infantil/voce-sabia/2015/09/joao-de-barro-conheca-o-passaro-construtor-e-sua-lenda-indigena

Caracterização
Mede 19 cm. Os sexos são muito parecidos, a fêmea pode ser identificada, pelo hábito de ocupar à noite, sozinha, o ninho com ovos e filhotes. Plumagem de cor parda, com cor ferrugem nas costas e  especialmente na cauda.

Habitat
Campos desprovidos 





                                             No ar:
                                   Peça já o seu e leve junto Estrelas, sem fins lucrativos


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Shows das Diretas Já em Copacabana marca virada histórica contra o golpe


Imagem: Povo Sem Medo 



Ao descrever o senso de justiça de Zadig, protagonista de uma de suas mais célebres novelas, Voltaire cunha, em duas frases, dois princípios básicos do direito penal humanista:
“Mais vale o risco de salvar um culpado do que o de condenar um inocente. Ele [Zadig] entendia que as leis eram feitas para dar segurança aos cidadãos, e não para intimidá-los.”
Depois de séculos de terrorismo penal, alguém – no caso, o maior gênio do século XVIII – finalmente ousava dizer, embora na linguagem cifrada da ficção, que o objetivo das leis deveria ser ampliar nossas garantias de liberdade e não nos asfixiar pela violência vingativa dos juízes.
Entretanto, o humanismo de Voltaire, que ecoa os belos e libertários pensamentos de Cesare Beccaria, não reflete unicamente a preocupação com o direito individual. Ao mencionar a “segurança” dos cidadãos como meta das leis, Voltaire defende um sistema de justiça ancorado na razão, ou seja, no bem estar social. Uma justiça que, em nome de um suposto combate à corrupção, destrói a economia e política de um país, não visa, definitivamente, o bem estar social.
Eu já escrevi posts dizendo que Sergio Moro não havia lido Machado de Assis, em especial o conto O Alienista, no qual o protagonista é uma espécie de justiceiro muito parecido com nosso paladino de Curitiba, que decide encarcerar quase toda a população da cidade, tida por ele como insana; e que tampouco lera Montesquieu, cujo Espírito das Leis, traz algumas passagens que parecem ter sido escritas precisamente para corrigir os vícios da justiça curitibana (a qual, para nossa tragédia, parece ter contaminado todo o sistema judicial brasileiro):
“Foi Carondas que introduziu os julgamentos contra os falsos testemunhos. Quando a inocência dos cidadãos não está garantida, a liberdade também não o está.”
“(…) as leis que condenam um homem à morte com base no depoimento de uma só testemunha são fatais para a liberdade”.
Nesse post, eu observava que Montesquieu associa a liberdade política do cidadão a tudo que o protege dos “falsos testemunhos” ou dos arbítrio de juízes.
Esses pensamentos serão determinantes para produzir o espírito da revolução francesa. E assim é feita a história. A crítica erudita de alguns cidadãos, quando justa, penetra profundamente na base do corpo social, pela simples razão de ser uma crítica que nasce da leitura de problemas que afligem a maioria dos cidadãos. É uma revolta que vem de baixo, influencia as mentes mais sensíveis da elite pensante, e retorna às origens.
Quando a gente se insurge contra os arbítrios de Sergio Moro, da mesma maneira, também estamos fazendo uma crítica radical às violências que atingem fundamentalmente, e há muito tempo, as populações vulneráveis do país.
A revolução francesa tem início com um movimento que visava precisamente destruir o demônio mais terrível da Idade Média: o arbítrio judicial. Assim como a aristocracia do Antigo Regime, a turma de Curitiba certamente jamais se perguntou porque o principal símbolo da revolução francesa é a tomada da Bastilha.
Com base em Montesquieu, podemos resumir a injustiça primitiva do sistema de justiça da idade média em dois pontos: 1) o uso de falso testemunho, ou da delação extraída sob coação; 2) a sentença judicial baseada unicamente no arbítrio do juiz, ao arrepio da própria lei.
Ou seja, a Lava Jato inaugurou, no Brasil, uma justiça contra a qual a modernidade vem lutando desde o século XVIII.
Por isso a importância, para a história do Brasil, da Batalha de Curitiba, o movimento social que reuniu milhares de pessoas de todo o país para prestar solidariedade e apoio ao ex-presidente Lula, que por sua vez se tornou símbolo da luta milenar entre a liberdade individual contra a violência do Estado.
É uma ironia tipicamente brasileira, que um dos homens mais odiados e desprezados por aqueles que se intitulam “liberais” (termo que, no Brasil, na minha opinião, foi invertido), tenha se tornado símbolo de tudo pelo qual o liberalismo clássico sempre lutou.
E agora, como consequência dessa nova descarga de energia desencadeada pela dupla “pegadinha” diabólica que Joesley Batista e a PGR deram no presidente da república, Michel Temer, e no presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, estamos testemunhando uma série crescente de manifestações populares em prol das Diretas Já.
Neste domingo, o show em Copacabana em defesa das Direitas Já, com a presença,  de um lado, de dezeans milhares de pessoas, e, de outro, com a participação de artistas como Caetano, Milton Nascimento, Mano Brown, Rappin Hood, Wagner Moura, Maria Gadu, Otto, Criolo, entre outros, marca uma virada histórica.
O golpe de 2016 caracterizou-se pelo mais terrível cerco midiático já montado na história da humanidade. Não creio que, em qualquer outro país, se tenha visto uma violência tão organizada por parte dos principais meios de comunicação, associados a um sistema de justiça completamente enlouquecido pelo ódio político.
Mas o cerco foi rompido.
Na verdade, testemunhamos uma virada do “zeitgeist”, do “espírito do tempo” desde o carnaval, época em que a mídia perde o controle da narrativa.
Daí veio o desastre econômico crescente do governo, com aumento do desemprego e piora de todos os índices sociais e econômicos, inclusive aqueles que o neoliberalismo finge prezar tanto, como todos os referentes à situação fiscal.
O golpe de 2016 representou a maior catástrofe política, social, econômica e moral do país desde a república. De uma só tacada, destruímos toda a nossa frágil democracia:
1) o sistema de justiça (incluindo aí seus dois braços armados, a Polícia Federal e o MP) mergulhou num autodestrutivo processo de entropia que ameaça consumir todos setores econômicos e políticos do país, com apoio da grande mídia, principal a Globo, que inclusive publicou hoje um editorial incrivelmente fascista, falando em “limpeza geral” do país.
2) a imprensa, confusa pelo regime de exceção que ela tanto defendeu, e que agora ameaça seus próprios jornalistas, perdeu qualquer escrúpulo de honestidade que um dia fingiu ter. Tornou-se uma furiosa difusora de mentiras.
3) os empresários decidiram romper, num acesso igualmente de loucura, todos os tímidos pactos com o mundo do trabalho, que eram obviamente fundamentais para manter a estabilidade política do país. Sem esse pacto, só restará, à classe trabalhadora, a luta aberta e radicalizada das ruas.
4) a classe política, desde o início intimidada e chantageada pelo golpe, tem reagido com movimentos de desespero. A “pegadinha” contra Aécio Neves e Michel Temer serviu para desmascarar os dois golpistas mais canalhas da nossa história política,  mas revelou também que as consequências do terrorismo judicial sobre o espírito de um grande empresário, como Joesley Batista, e de experientes raposas políticas, como Aécio e Temer. Quando o maior empresário brasileiro do mundo da produção decide fazer o que fez Batista, é porque estava positivamente apavorado com o Estado de Exceção. E agora temos informação de que procuradores da república perguntaram a Batista se o filho de Lula era mesmo “sócio” da Friboi. Ou seja, o processo que engolfou a JBS e Fribou, desde a operação Carne Fraca, até a delação dos irmãos Batistas e as pegadinhas já mencionadas, foi, por incrível que pareça, contaminado pela loucura coxinha anti-Lula.
O Brasil não tem que viver nenhuma “grande limpeza” da vida pública, como quer a Globo, seja lá o que isso queira dizer. O Brasil precisa de democracia, o que significa eleições limpas, diretas, monitoradas por uma justiça eleitoral descontaminada de paixões políticas, distante do pensamento jurisdicional de exceção, nascido em Curitiba, e livre dessa obsessão negativa de controlar e criminalizar tudo. Precisamos agora de democracia e liberdade. O que precisa ser controlado, naturalmente, é o monopólio midiático, em especial a Globo. O TSE poderia concentrar suas energias não mais em proibir e censurar manifestações políticas e culturais e sim em obrigar os grandes canais de tv e rádio a cumprirem o que determina a Constituição Brasileira.
O show das Diretas Já, no Rio de Janeiro, mostrou que a nossa cidade permanece rebelde e atenta. Os reflexos políticos e culturais do evento continuarão ecoando e repercutindo até 2018.
Com a Batalha de Curitiba e as últimas manifestações, o campo progressista-popular conseguiu montar uma armadilha semiótica dentro dos salões luxuosos do palácio do golpe: cada nova medida do governo, cada nova tentativa de aprovar uma lei, cada nova investida judicial contra Lula, tudo se revertirá dialeticamente contra os próprios golpistas.
As conspirações midiático-judiciais acharam que poderiam asfixiar os movimentos populares. Jorge Bastos Moreno, o simpático e pusilânime golpista da Globo, chegou a dizer que a “oposição” ao governo Temer não duraria alguns meses, porque o “dinheiro” iria acabar. E assim que as tropas de bandidos ocuparam o Palácio do Planalto, os cofres foram abertos para a grande mídia.
Todos esqueceram o básico: o princípio constitucional de que “todo poder emana do povo” também é uma fórmula econômica básica. Empresas e governos só tem acesso a recursos financeiros porque a população lhes provê esses recursos. Mas é a população que é, também, a proprietárias dos recursos.
Com uma população de 207 milhões de habitantes, os recursos para vencer e esmagar o golpe são ilimitados. Ao apoiar um impeachment sem crime, a Globo e seus comparsas cometeram o pior erro de sua história. Se tivessem respeitado a vontade as urnas, talvez pudessem sobreviver por mais algumas décadas.
Ao virem com sede excessiva ao pote, eles mostraram ao povo quem é seu verdadeiro inimigo. E ao defenderem o Estado de Exceção, expuseram-se a si mesmos às fúrias desatadas.
A luta agora se dará em várias frentes convergentes: pela democracia, pelas liberdades, pela reorganização do Estado em novas bases sociais.
Não importa mais se a vitória está próxima ou distante: os últimos desdobramentos políticos nos asseguraram um caminho de luta e era isso do que mais precisávamos nesse momento.
Ao encontrar o seu caminho, o campo progressista pode enfim respirar o ar infinitamente puro que se cria quando o povo começa a andar para o mesmo lado.
O ar puro da vitória futura!

Miguel do Rosário
Fonte: http://www.ocafezinho.com/2017/05/29/shows-das-diretas-ja-em-copacabana-marca-virada-historica-contra-o-golpe/