terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2015: O Ano que não Terminou - Breve Retrospectiva.






2015 entra para a história, como o ano que não terminou, pois muitos fatos ficaram emperrados  no Congresso Nacional, nas operações da polícia federal, do ministério público e judiciário.

Inciamos o ano com Dilma tomando posse para o seu segundo mandato. Também, iniciamos o ano, com o candidato derrotado, Aécio Neves, não aceitando os resultados das urnas, entrando com ação no TSE, pedido recontagem dos votos. Alega fraude nas urnas eletrônicas. TSE responde que não haverá terceiro turno e nega o pedindo de recontagem.

Inflado e insuflado pela oposição e pela mídia empresarial, ocorrem manifestações pelo país, pedindo a queda da presidenta, que vai minguando na medida em que novos escândalos vão surgindo, envolvendo políticos da oposição, empresários e executivos da Petrobras.

Paulinho, da Força Sindical é investigado

Aécio Neves consta da lista de Furnas.

A jornada do herói do grupo de Kim Kataguiri com vinte pessoas partiram da capital paulista numa sexta-feira, dia 24 de abril, incluindo uma anestesista que estava de salto alto, recém-saída de um congresso de medicina, rumo a Brasília, para derrubar Dilma. Pode ser considerado o mico do ano.

O ódio das palavras se transformou em violência física, nos moldes fascista. Graças a gente como Marcello Reis, o fundador dos Revoltados Online, um histeria virtual se alastrou nas redes, como manada. Ele foi seguido por outros líderes golpistas, como Kim Kataguiri e Fernando Holiday, do MBL, entre outros e outras.

Os pastores Malafaia e R.R. Soares elogiam e defendem o achacador Eduardo Cunha.

Mico também foi a carta do vice, Michel Temer à presidenta, reclamando ser um vice-decorativo. 

Eduardo Cunha elege-se presidente da Câmara Federal, com o apoio da oposição. Começa então as chamadas pautas bombas, com vistas a desgastar o governo Dilma, até que... Entra o Ministério da Suíça, denunciando as contas secretas do Deputado, sempre aplaudido pela oposição, blindado pela mídia e estranhamente, sem a investigação do Ministério Público Brasileiro, Judiciário e Polícia Federal, que já tinham se omitidos anteriormente, nos casos da construção do aeroporto nas terras da família do Senador Aécio Neves. Assim como, direcionando verbas públicas às rádios de sua propriedade. O helicóptero dos Perrelas, com 450 kg de pasta de cocaína é mais um ponto negativo para a PF, MP e Judiciário, que entra em 2015, sem punição.

Operação Lava Jato. A PF prende o banqueiro André Esteves (banco BTG Pactual, que tem boas relações com políticos e pessoas influentes de diferentes partidos e forças políticas. Pérsio Arida, um dos criadores do Plano Real e identificado com o PSDB, é conselheiro do BTG Pactual. Prende também o Senador Delcídio Amaral (PT).

Operação Zelotes. A incapacidade da PF e do MPF de prender os responsáveis pelos desvios no CARF, estimados pela PF em quase R$ 20 bilhões.

As investigações da Zelotes levantaram os seguintes nomes, como suspeitos pelos desvios no CARF: Leonardo Siade Manzan, Maurício Taveira e Silva, Antônio Lisboa Cardoso, Mauro Marcondes Machado, Edison Pereira Rodrigues (ex-presidente do CARF nomeado por FHC), Meigan Sack Rodrigues (filha do Edison), Jorge Victor Rodrigues (caso Santander e Safra), Lutero Fernandes do Nascimento, Eduardo Cerqueira Leite (caso Bradesco), Jeferson Ribeiro Salazar (caso Santander), José Teriju Tamazato (caso Santander e Bradesco), Mário Pagnozzi Junior, João Inácio Puga (ex-diretor banco Safra), Wagner Pires de Oliveira (caso JS SAFRA), Jorge Celso Freire da Silva (caso Santander), José Ricardo da Silva (centro das investigações), João Batista Gruginski (caso Gerdau), Adriana Oliveira e Ribeiro (caso Gerdau), Silvio Guatura Romão, Ezequiel Antonio Cavallari, Alexandre Paes dos Santos (lobista).

Destes 21, só foi pedida a prisão de Alexandre Paes dos Santos, José Ricardo, Eduardo Valadão, Mauro Marcondes e Cristina Marcondes. Há um foragido. (Fonte: Blog O Cafezinho).

TCU rejeita contas do governo federal, por conta das pedaladas fiscais, praticadas por todos os governos anteriores e nas esferas municipais e estaduais.

Enquanto isso, conservadores e setores da classe dominante e grande mídia (Globo, SBT, Veja, Folha, Rádio Itatiaia, Jovem Pan, etc) mantem a ofensiva ao PT e ao lulo-petismo.

Estudantes paulistas ocupam escolas contra a reorganização do Governador Geraldo Alckimin-PSDB

Manifestações pela permanência de Dilma coloca milhares de pessoas na rua, enquanto a manifestação pelo seu afastamento diminui.

Governadores criam grupo de diálogo com o governo federal.

Dois personagens se destacam em 2015, pela defesa dos direitos humanos: Mojica- Presidente do Uruguai e o Papa Francisco.

Futebol: Sete dirigentes da Fifa foram presos na Suíça após serem acusados por suspeitas de corrupção envolvendo um montante de até US$ 150 milhões. Entre eles está o brasileiro José Maria Marin.

Corinthians campeão brasileiro 2015. Atlético vice, vai disputar a Libertadores em 2016. Palmeiras é campeão da Copa do Brasil. 

Tragédia de Mariana. Samarco e  Vale despejam sobre o Rio Doce um mar de lama, destruindo a biodiversidade.

"E as vítimas do crime são transformadas em culpadas, erraram por estarem na frente da lama.  Era um crime anunciado: a barragem rompida estava recebendo, irregularmente, rejeitos de mina da Vale S/A e não apenas da Samarco; o aumento no consumo de água e energia indica o aumento da produção, numa estratégia de manter os lucros, com a queda do valor do minério." (Beatriz Cerqueira)

Stedile: Se o governo não mudar logo a política econômica, dando sinais claros, certamente perderá sua base social e viverá em crise permanente até 2018.

Faleceram em 2015: Marília Pera, Betty Lago, Yoná Magalhães, Mielle, Claudio Marzo, Cristiano Araújo, Elias Gleizer, Içami Itiba, Eduardo Galeano, Gabriel Garcia Marquez, Zé Wilker, Rubem Alves, o humorista Zé Bonitinho, Selma Reis, Antonio Abujamra.

O cantor, compositor e escritor Chico Buarque é agredido por um grupo de play-bois neo-fascistas, quando saía de um restaurante.

A crise do capitalismo mundial e as guerras levam milhões de imigrantes a abandonarem seus países. No ataque em Paris, morrem de 129 pessoas.

Terremoto no Nepal mata cerca de 8.500  pessoas e deixa milhares de desabrigados.

Terremoto no Paquistão.




Em novembro lancei meu nono livro de prosa e verso, A Moça do Violoncelo-Estrelas.

Luara, minha cadela, morre aos 11 anos de idade em 26-12. Ela estava cega desde o início do ano.

Escrevi contos, crônicas e poemas em meu blog, no Recanto das Letras e no Face Book. Interagi com outros escritores e escritores, conquistei novos leitores, muitos se tornaram amigos, virtuais e presenciais.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A Estratégia da Aranha







Depois de uma caminhada, com o suor saindo pelos poros, depararam com um caramanchão abandonado, no meio da vegetação do cerrado. A Maga e o Isaías foram pesquisar o entorno, enquanto Arnóbio fixava as redes nos mourões. Maga ouvira o som de água de cachoeira e rumou para lá. Uma cachoeira, era tudo de que precisa naquela manhã, que se aproximava da tarde ensolarada. Isaías a seguiu como cão de guarda, pois estava certo de que ela, sozinha, seria capaz de provocar uma hecatombe.
   Deitado com os olhos fixo no teto de folhas de coqueiros, Arnóbio observava, atento, uma aranha estática em sua teia bem trançada. Afastou o pensamento de Isaías, que sempre discutia com Maga por qualquer motivo, como o de ela apertar a pasta de creme dental pelo meio. Uma mosca enroscou-se na teia, imediatamente a aranha se atirou sobre ela, inoculando paralisantes das quelíceras, ato contínuo envolvendo a vítima num emaranhado de tênues linhas, para em seguida retornar à posição de origem. Mas não teve tempo, outro inseto, desta vez bem maior e mais forte, caiu na armadilha e enquanto lutava para se livrar das amarras, a aranha, hábil e ágil tecia tênues fios sobre o inseto, que se debatia. Esforço em vão. Mais alimento estocado.
   A estratégia da aranha produzia resultados, enquanto a de Isaías não surtia efeito algum sobre Maga, que neste momento se jogara, inteiramente nua nas águas da cachoeira.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A Peleja do Pernilongo com Sapo-Boi (infantil).




Sapo-boi fez que foi e não foi
e acabou indo.
Tempo suficiente para pernilongo ficar atento.

Se sapo-boi quisesse mesmo
tinha engolido pernilongo com a sua enorme língua.

Mas os dois vacilaram...

Pernilongo viu o perigo:
pensou... pensou... e pulou nas costas de sapo-boi.

Sapo-boi sentiu a picada...
Assustado pulou no lago.
Pernilongo ia morrer afogado?

Ah ele sentiu o perigo
e antes de sapo-boi mergulhar
voou para um abrigo.




Do livro Palavras de Amor - Pagina 75 - 2011.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Taça partida





a taça quebrou-se
ao som da voz
bem antes da tosse
num brinde anunciado
de uma história didática
e do vinho envelhecido
enseja uma nova gramática
soçobram reminiscências
do conluio de duas taças
vividas em transparência
até que uma se quebra


J Estanislau Filho

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Formigas



No começo eram poucas, andando em fileiras pela pia da cozinha. Não dei importância. Elas sempre aparecem de tempos em tempos. É sazonal, pensei.
     No terceiro dia elas aumentaram em tamanho e quantidade. Resolvi seguir o itinerário delas. Entravam em um pequeno orifício na parede e desapareciam. Melhor deixá-las quietas, a natureza sabe o que faz, anuí.
     Ao acordar na manhã seguinte, levei um susto: a cozinha estava tomada por elas. Impossibilitado de preparar o café, pois além da cozinha, sobre o fogão formou-se uma montanha delas. Não tive dúvidas, peguei um frasco de inseticida aerosol e apliquei sobre elas. Depois de mortas, juntei-as em vários sacos plásticos e atirei ao lixo. Apliquei o veneno no orifício, na esperança de matar a rainha, pois, uma vez morta, todo o formigueiro morre junto. O dia passou sereno, apesar de a cada hora aplicar mais veneno no orifício, pois algumas formigas teimavam e sair e vadiar pela pia. 
     Anoiteceu. Enquanto eu dormia elas me atacaram e arrastaram meu corpo, em minúsculos pedaços, para dentro do formigueiro.


J Estanislau Filho


terça-feira, 8 de setembro de 2015

As múltiplas faces de Joana








Flávio encantou-se com a beleza enigmática de Joana. Ele a viu dançando no RockBar Berimbau, ao som do pop rock anos oitenta, da banda Dona Odete. Aproximou-se. Joana, educadamente, ignorou-o. Continuou sua dança sensual. Flávio interpretou como jogo de sedução a indiferença de Joana. Atitude que atiçou ainda mais os desejos do rapaz. Joana dançava, agitando os cabelos castanhos, exibindo curvas harmoniosas sob um vestido branco, longo, colado ao corpo e levemente transparente.
     Flávio voltou ao assédio. Joana exibiu um ar de enfado, mas aceitou conversar. Dirigiram-se à mesa e uma hora depois saíram do bar de mãos dadas. O rapaz tinha também seus encantos.
     O jovem casal viveria um intenso romance durante algum tempo, sob o teto de um flat aconchegante. Joana vez ou outra demonstrava ciúmes do amado, beliscando-o, mal humorada, ao cruzarem com alguma mulher bonita. Flávio achava graça e até gostava dos rompantes de Joana. Uma vez ela derrubou os talheres de uma mesa de bar, puxando o forro, porque Flávio, segundo ela, se engraçara com uma garota. Nesta noite, ao retornarem, fizeram amor com fúria. Animal, como Joana gostava de dizer.
     Ao chegar em casa em uma noite de inverno, Flávio, com um misto espanto e tristeza, deparou-se com um cenário inesperado: taças, copos e vidros estilhaçados espalhados no piso. Como se um furacão invadira o lar. Olhou ao redor, chamou por Joana. Silêncio. Ao entrar no banheiro, não se conteve. Chorando abraçou a amada, que se encontrava caída, tendo os punhos cortados por uma lâmina de barbear. O sangue escorria pelo ralo. O rapaz agiu com rapidez, fazendo um torniquete. Em seguida, com algodão queimado, estancou o sangue. Levá-la ao pronto socorro não era a melhor alternativa. Polícia, boletim de ocorrência. Enfaixou o punho, após colocar álcool e Joana abriu os olhos. Ainda zonza, recuperou os sentidos. Os dias passaram e a vida retornou ao seu ritmo normal. Joana, por mais que Flávio tentasse, emudeceu sobre o assunto e se negou, peremptoriamente a consultar um psiquiatra.
     A alegria voltou. O casal se divertia e, principalmente, faziam muito sexo. E foi exatamente na melhor parte do sexo, quando Joana trepidava sobre o amante, que ela revelou ao companheiro, que na noite em que desaparecera de casa, fora se encontrar com o pai dele. E gritava em êxtase: - eu transei com seu pai, ele é melhor de cama que você. Neste momento, Flávio perdeu o controle. Agarrou-a pelo pescoço e apertou com gana de matá-la. Caiu e si e soltou-a, depois de esmurrá-la. Mas não sabia que rumo tomar. Joana ajoelhou-se aos seus pés e pediu perdão, em prantos.
     O amor por ela falou mais alto. Flávio rompeu com o pai. Afastou-se dos amigos. Enquanto Joana seguia a vida como se nada de grave tivesse acontecido, o rapaz tecia planos. Entendeu, que não podia entrar em sintonia com as crise da companheira e tomou a decisão de  conversar com o pai, para tirar a limpo o trágico evento. Soube então que Joana, de fato, o procurara, mas que nada houve entre eles. De volta à casa, perguntou porque ela mentira. Joana reiterou o acontecimento e ainda chamou o pai de hipócrita. Flávio espancou-a violentamente. A polícia foi acionada pelos vizinhos, esgotados com as brigas do casal. Pagou fiança e retornou. Joana o esperava. Abraçou-o ao chegar, com a promessa, que doravante tudo seria diferente. 


J Estanislau Filho.

Em novembro: A Moça do Violoncelo - Estrelas - Dois livros em um. Textos inéditos. Reserve já o seu.
   

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

o prazer e a dor do parto




filha ou filho
livro de folhas
a gente não olha
a gente come
e se farta
em cada página
viva
morta

personagens
trama
enredo
drama
humor
e dor
apego

amor !

não falha...


a gente lê
a gente conta
em cada folha
o filho a filha
palavra que calha
face exposta
o prazer e a dor
do parto importa.

J Estanislau Filho.
Em novembro: A Moça do Violoncelo - Estrelas - 2 em 1


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Prisioneiro de Axolotle








Despertei sob o olhar de ouro de axolotle, fixado diretamente aos meus olhos, como se pretendesse vazá-los. Ainda entorpecido, não o percebi de imediato. Esfreguei os olhos com os punhos cerrados e perguntei, o que está fazendo aqui?. Senti, obscuramente, que ele se esforçava para me passar uma mensagem. 
     Inteiramente desperto, vi-o se afastar, com andar desengonçado. Então me lembrei de tê-lo visto no aquário da rua Bahia, com os olhos e bocas colados ao vidro, pedindo-me para libertá-lo daquela prisão.
Talvez tenha vindo para me agradecer. Compreendi a necessidade de sair da minha clausura.


J Estanislau Filho

Vem aí: A Moça do Violoncelo (contos de suspense) - Estrelas Dois livros em um (Poemas). Textos inéditos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Pardais Carnívoros



O homem encontrava-se encostado a um poste de luz, quando um bando de pardais o amarrou com fios resistentes de fibra de sisal.
     Com uma rapidez inominável, o bando volteou os fios ao poste, imobilizando o cidadão. Em seguida puseram-se a bicá-lo. Primeiro devoraram seus pés. E o homem respirava. Em seguida as pernas e os braços.
     Aos poucos foi se formando uma multidão de pessoas, que observavam o espetáculo. 
     Enquanto bicavam o corpo do homem, os pardais cantavam, atraindo mais pardais. O homem continuava respirando, mesmo quando os pardais começaram a abrir sua barriga com bicadas cada vez mais famintas e ferozes. A sua respiração enfraquecia. A multidão observava com o misto de prazer e compaixão.
     Mesmo depois de ter o olho perfurado e comido, o homem continuava respirando, mas baixinho.
     Quando se imaginava o homem em seus últimos estertores, pois os pardais arrancaram-lhe o coração e fugiram com ele no bico, o homem se desvencilhou dos fios que o prendia e caminhou silenciosamente pelas ruas com destino a...

J Estanislau Filho

A Vaca do Leite de Ouro




     Havia trinta e cinco anos que Altamiro Vaqueiro levantava às três horas da madrugada, lavava o rosto na bica, pegava Lenço Branco no pasto, arreava e ia tocar as vacas para dentro do currar e tirar o leite.
     Trinta e cinco anos enfrentando o orvalho das pastagens e monologando com as vacas do Coronel Fagundes. As vacas e os bezerros com seus berros; o cavalo Lenço Branco; o curral; as pastagens, tudo ao redor estava impregnado de Altamiro Vaqueiro, como se fosse um pedaço dele. Todas as madrugadas, às três em ponto, Altamiro se levantava e cumpria o mesmo ritual, que durava trinta e cinco anos.
     Certa noite o Coronel Fagundes fora acordado pelos latidos raivosos de seus trinta e dois cães. O Coronel sempre dormia sossegado, protegido por estas feras, nenhum bandido se atreveria transpor o limiar da tela, que cercava o terreiro de tamanho descomunal. Muitos fazendeiros e colonos vizinhos achavam um exagero e até mesmo um perigo manter estes ferozes animais. Sem contar os custos no trato, pois os cães do Coronel alimentavam-se de carne da melhor qualidade. Contudo, com exceção de Dona Anastácia, esposa fiel de quem não iria se separar nem mesmo após a morte, Fagundes tinha motivos de se proteger. Ninguém podia conhecer o seu segredo.
     Todas as noites os cachorros latiam, ora para afugentar um gambá que atacava o galinheiro, ora por farejar algo estranho no terreiro, ou latir por latir. Para o Coronel era uma canção de adormecer. Porém, nesta noite os latidos soavam no ouvido do fazendeiro de forma estranha. Ficou atento. Inicialmente os cães fizeram um barulho ensurdecedor, todos eles como se tomados de cólera, para logo em seguida diminuírem lentamente e ficarem rosnando, como se estivessem sendo domados por força maior. O Coronel Fagundes perscrutou com atenção e concluiu que os cachorros acariciavam com as línguas alguma coisa.
     Colocou a capa sobre o pijama, calçou as botinas e com a lanterna em mãos, foi ao terreiro certificar-se dos fatos.
"Falcão, Mineiro, Jardineira, já, vão deitar", gritou o Coronel. Os cães se retiraram, obedientes, e Fagundes vislumbrou uma cesta. Aproximou-se cautelosamente com a lanterna acesa e para seu espanto, dentro dela havia uma criança. O Coronel pegou a cesta e retornou ao quarto, enquanto Dona Anastácia dormia um sono profundo. Sacudiu a velha, que abriu os olhos, assustada. O Coronel mostrou-lhe a cesta com a criança, dizendo que suas promessas foram atendidas. Finalmente tinham um filho. A bem da verdade não era um filho de seu sangue, pensando bem, tratava-se de um rejeitado. decidiram criá-lo, pois, além de um dever de cristão, ele poderia ser útil na fazenda.
Batizaram a criança com o nome de Altamiro Aparecido, e só. Altamiro Aparecido, mais tarde conhecido como Altamiro Vaqueiro, um quase preto criado pelo Coronel Fagundes e Dona Anastácia, que percorria os quatro cantos da Fazenda Bela Vista, tangendo boi, consertando tapumes e chupando cana há trinta e cinco anos. Trabalhando e temendo a Deus, conforme os ensinamentos de Dona Anastácia. Levando castigo até decorar os Dez Mandamentos.  Descendo-lhe a palmatória, salpicando-lhe as palmas das mãos, para aprender a não dormir na hora dos rosários.
     Altamiro colocava em dúvida aquele modo de criação. Trinta e cinco anos de vida esquisita. Pensava nas surras. Só trabalhava e dormia junto de balaios, arreios, misturado a mantimentos. Sexo, praticamente só conhecia com éguas e mulas, nunca beijara uma mulher. Lembrou do dia em que, arretado, arrebentara a égua de estimação do Coronel, após obrigá-la a correr sem parar. O indefeso animal deitou e nunca mais se levantou.  Lembrou do dia em que meteu uma bala na cabeça da cachorra parideira do Coronel Fagundes. Para cada ato descoberto, uma surra de ter de se lavar em água com sal. Dona Anastácia era ruim de doer, para ele, nem comida igual a dos cachorros. Depois, as surras sem explicação. Qualquer mal malfeito era culpa de Altamiro.
     Altamiro Vaqueiro lembrou, com revolta, do dia em que o Coronel dissera que já era hora dele começar a trabalhar, para compensá-los das horas de sono perdidas, que tiveram, para dar a ele um berço.^Você já é um homem feito e está na hora de retribuir o que fizemos ao pegá-lo no terreiro, quando os cães poderiam ter te devorado, como fazem com os gambás". Ele, Altamiro Aparecido, rejeitado, aos oito anos de idade enfrentando o eito, prendendo bezerros, moendo cana no engenho, apanhando e sofrendo todo tipo de humilhação, dormindo no meio de xixi de vaca, cara suja de carvão e a alma desamparada. Antes, naquela noite trágica sido devorado pelos cães, ou que sua desconhecida mãe o tivesse enterrado vivo. Lembrou ainda das palavras de Dona Anastácia "comerás o pão com o suor do teu rosto", quando o Coronel lhe dissera para não entrar pela casa sem autorização, ele, com apenas 11 anos, pelos cálculos de Jeremias, amigo e colono da Fazenda Bela Vista.
     Todas estas lembranças deixavam Altamiro Vaqueiro com um misto de revolta e confusão. Pensava em sumir, mas antes haveria de fazer justiça. Lembrou, com o semblante carregado, do dia em que Fagundes, na praça da igreja, dera-lhe uma surra de chicote na presença dos fiéis, que acabavam de assistir a missa. As chicotadas desciam impiedosamente sobre suas costas, com o apoio do Padre Anselmo, que dizia "é isso mesmo Coronel, é preciso educar este negrinho no temor a Deus". Movido pelo ódio, a cada chicotada, Altamiro gritava "odeio Deus, odeio todos vocês, prefiro me queimar no inferno". Quanto mais blasfemava mais apanhava, até que, não suportando as dores, caiu por terra de boca no chão e lá ficou estendido várias horas.
     Altamiro Aparecido, mais conhecido por Altamiro Vaqueiro, só agora aos trinta e cinco anos tomava uma decisão. Lembrou com desdém da noite em que penetrara no quarto da filha bastarda do Coronel e despiu-a. Era apenas uma criança de sete anos e dormia profundamente. Fechou o semblante ao recordar o dia em que Dona Anastácia não permitira que ele almoçasse mais na varanda, que daquele dia em diante se virasse para conseguir alimento. Aproveitou a ausência do Coronel e, num dia de nuvens negras esmagou o crânio de um dos cães, deixando-o estendido na entrada da casa. Sentiu alegria vendo a dor da perda nos olhos do pai adotivo. Lembrou com prazer o dia em que deixou de ordenhar as vacas, pois passara a noite em um pagode e enrabara, pela primeira vez uma mulher, a negra Isaura. Esta atitude levou o Coronel a tomar o único presente que lhe dera em um dia de coração mole: a vaca Malhada, prestes a dar cria. Sorriu, lembrando da vingança, ao dar veneno aos porcos, matando vinte e sete cabeças, para desespero do Coronel Fagundes e de Dona Anastácia. Subiu-lhe um ódio ao recordar a primeira surra que levara e das palavras do patrão "abaixe as calças e vire a bunda, para apanhar". A cada surra era obrigado a se joelhar, rezar e pedir ao Pai do Céu, que fizesse dele uma criatura honrada, temente a Deus.
     E na madrugada dos trinta e cinco anos, conhecedor do segredo do Coronel, Altamiro saiu do rancho, quando o galo cantou pela primeira vez. Três da madrugada, em ponto. Nunca falhara: hora de cumprir com a sua obrigação. Altamiro intuía que aquele seria o dia de sua libertação. Outro galo respondeu com um canto triste, agourento. Lembrou-se das palavras proféticas de Jesus a Pedro: "Quando o galo cantar...". Foi até a bica, lavou o rosto, foi ao pasto, assobiou e Lenço Branco atendeu. Arreou o cavalo e foi buscar o rebanho, parar tirar o leite. O capim parecia estar com menos orvalho, apesar da chuva do dia anterior e estava alto, verde, bonito. De cima do cavalo, Altamiro dava pontapés no capim, na tentativa de molhar a barra da calça. Lenço Branco estava inquieto, anunciando mau presságio. Altamiro dava leves chicotadas em suas clinas, dizendo "calma Lenço Branco, hoje é o dia da nossa libertação, claro, você vai comigo, não é velho companheiro?". O cavalo que sim, balançando o pescoço.
     Tudo estava quieto. As vacas soltavam berros agourentos e os bezerros respondiam com berros longos e monótonos. Os cães ganiam no terreiro e os gatos se engalfinhavam no telhado da sede da fazenda, como canção de ninar para o casal da fazenda. Altamiro juntou as vacas no curral, amarrou o tamborete na cintura e abriu a porteira, a cancela dos bezerros, para iniciar a ordenha. Cada um sabia a sua hora, não se antecipava. Primeiro era Mimosa, depois Graúna e em seguida Bolacha, até chegar a última a ser ordenhada, Pinta Preta. Porém neste dia, Mimosa se recusou a sair. Altamiro não ligou, estendeu a mão ao bezerro, que lambeu-a olhando os olhos do vaqueiro. Altamiro, sempre carinhoso com os animais, abraçou-o dizendo: "o que há meu bichinho? Não tem importância. Hoje vou te deixar por último". Deu um tapinha em sua bunda e o animal se retirou para um canto do curral. Chamou Graúna, que como sempre, veio lenta. Jogou a corda em suas pernas traseiras e amarrou a bezerra na dianteira, para tirar o leite. Assim como o resto do rebanho, Graúna parecia diferente, triste.
     Aparecido preparava-se para ordenhar Mimosa, a última vaca. Era desnecessário amarrar-lhe as pernas, pois ela era extremamente mansa. Rompia a aurora, quando apertou suas tetas. Ergueu os olhos e divisou o Coronel Fagundes sobre a cerca do curral, segurando o chapéu e cofiando o bigode. O vaqueiro olhou-o com ódio, ao ouvi-lo dizer: "Não quero saber de alteração na ordem das coisas, Mimosa deve ser a primeira a ser ordenhada".  Altamiro explicou os motivos e o fazendeiro retrucou: Vaca minha não tem querer e que isto não se repita". O vaqueiro respondeu com firmeza: "Pode ter certeza, não vai mais acontecer" e continuou o trabalho.
     Altamiro, a princípio não entendeu o  que estava acontecendo. Apertou novamente as tetas de Mimosa e o leite continuou saindo amarelo, feito ouro. Sim, era ouro mesmo. Gritou: Mimosa está dando ouro!". Fagundes pulou ao chão, berrando: "Você está louco, onde já se viu ouro líquido em ubre de vaca!", Contudo, era ouro.
    Altamiro Aparecido, conhecido por Altamiro Vaqueiro, um quase negro, rejeitado pela mãe, continuou tirando o leite de Mimosa. Era ouro de verdade. Dez litros, que solidificaram no interior do latão. Aparecido, que conhecia o segredo do Coronel, percebeu que o velho sovina ficaria mais rico. Porém uma surpresa, um trágico evento estava prestes  de acontecer. O plano do vaqueiro seria executado.
     O Coronel ficou possesso e queria mais ouro, mas o ouro não saía mais. Sacou o revólver e deu um tiro na cabeça da vaca e ordenou que Altamiro abrisse a barriga da mesma, para ver se encontrava mais ouro. Altamiro, mais conhecido por Altamiro Vaqueiro, trinta e cinco anos trabalhando na Fazenda Bela Vista, agarrou o fazendeiro e deferiu-lhe uma facada na barriga. O velho caiu. Altamiro abriu-lhe o ventre e jogou todo o ouro dentro, costurando em seguida. O rebanho, em uníssono, berrava e os cães latiam desarvorados. Em seguida Aparecido foi ao quarto e arrancou Dona Anastácia da cama, pegou o colchão e rasgou, revelando o segredo: lá estavam milhares de cédulas, muito dinheiro. Arrastou a velha até o curral, mostrando-lhe o defunto, antes de atear fogo. O coração de Dona Anastácia não suportou e parou de bater. Seu corpo tombou sobre o fogo em que seu marido ardia.
     Altamiro Aparecido montou em seu cavalo e desapareceu, levando para sempre consigo o berro triste de Mimosa. No cemitério da Fazenda Bela Vista, Coronel Fagundes e Dona Anastácia jazem. Na lápide está escrito:

     Aqui jazem Coronel Fagundes e sua fiel esposa, Dona Anastácia!

Dizem que Altamiro Aparecido, mais conhecido por Altamiro Vaqueiro continua percorrendo fazendas, montado em Lenço Branco, protegendo os animais da fúria humana.



J Estanislau Filho.

Este conto foi escrito no ano 2000 e integra a antologia da Academia Dorense de Letras. Premiado no III Concurso de Contos de 2001, com o apoio do Bradesco e da Casa da Cultura.




quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Os Metalúrgicos




À memória do líder sindical Joaquim José de Oliveira



     "O Velho - assim era chamado um antigo militante do Sindicato dos Metalúrgicos - estava segurando o microfone enquanto percorria a plenária com um olhar cinematográfico. Suas mãos tremiam e o coração batia descompassado. O Sindicato estava lotado e os aplausos soaram fortes como há muitos anos não acontecia. Um grito isolado ecoou no plenário:
     - Vai firme, companheiro!
     Antes de começar a falar com sua voz de trovão, os pensamentos povoaram a cabeça do Velho, cabeça de onde surgiam fios brancos de cabelo. Milhares de lembranças, em questão de segundos, como relâmpagos, tomaram conta de seus pensamentos. Lembrou dos anos ferozes de repressão; sindicato sob intervenção; dos companheiros mortos, mutilados, exilados; um tempo de agonia e medo. Um tempo de silêncio, de grito reprimido. O Sindicato dos Metalúrgicos, palco de muitas lutas e conquistas, de debates, depois esvaziado por bombas e traidores. Ele indo para casa desolado. Depois vendendo tempero de porta em porta e na igreja evangélica, pregando a libertação da classe trabalhadora.
     O Sindicato estava novamente lotado. Começava a voltar para as mãos de seus legítimos construtores. Difícil esconder a emoção, diante de uma nova geração de metalúrgicos que desconhecia o longo período de silêncio e medo que se abateu sobre as lideranças sindicais. Poucos sabiam que todos os dias "O Velho" percorria os caminhos solitários que levavam ao sindicato, certo que "não há derrota definitiva para a classe operária". Sob o silêncio da repressão, ele continuava o seu trabalho de levar consciência e organização aos humilhados e ofendidos, na certeza de que um dia veria novamente a casa cheia. Sofrera humilhações, muitos riram em sua cara, fizeram deboches diante do sindicato vazio e do silêncio da classe operária. Contudo, como a aranha que pacientemente tece a sua rede, para apanhar a sua presa, "O Velho" tecia a organização sindical.
     Ele permaneceu por mais alguns segundos em silêncio, observando os companheiros ocupando todos os espaços do salão e da quadra do sindicato. Estava feliz e precisava falar. A voz estava embargada pela emoção e algumas lágrimas caíram sobre o microfone em sinal de cumplicidade.
     - O que está acontecendo com "O Velho"? - perguntou um companheiro no ouvido do outro.
     - Estranho... parece que perdeu a voz.
    - Companheiros, - vencendo o nó na garganta "O Velho" iniciou seu discurso - devo confessar que estou emocionado. Depois de muitos anos que o nosso sindicato só não criou teias de aranha porque os faxineiros não permitiram, estou feliz vendo a casa cheia, vendo os companheiros assumindo os seus lugares, pois as paredes e os alicerces desta casa foram erguidos com o suor e o sangue dos trabalhadores. Só não digo que os metalúrgicos são como o filho pródigo que retornou à casa do pai, porque o filho pródigo saiu por vontade própria, enquanto muitos brasileiros foram expulsos. A casa que nos pertence voltou às nossas mãos e vamos cuidar dela com zelo, com organização e muita união, para que nunca mais nenhum aventureiro se aposse dela. Durante todos estes anos fomos humilhados por generais traidores, que tiraram a vida de muitos companheiros; que nos expulsaram de nossas casas com seus tanques de guerra, com seus cães amestrados, para garantir os monopólios. Generais que nos impuseram o arrocho salarial, enquanto o custo de vida disparava.
     Parou por um instante, observando a multidão que o ouvia em silêncio. Suas mãos tremiam, mas, as palavras saíam lúcidas, e como balas iam diretas ao coração do capitalismo. A multidão aplaudiu aos gritos de "trabalhador unido, jamais será vencido!"
     - Companheiros e companheiras, - continuou, limpando o suor da testa com a mão - assim como o boi tem os chifres e o burro tem os cascos para se defenderem, os trabalhadores têm a greve!
     Fez um breve intervalo, para sentir o efeito das palavras. O sindicato quase veio a baixo e continuou:
     "Nós somos o pivô da riqueza, mas também somos o para-raio, pois tudo arrebenta nas costas dos trabalhadores. Nós produzimos a riqueza, mas o lucro fica com os patrões. Um trabalhador só come carne quando morde a língua. O poder é como uma árvore, quando nós sacudimos o tronco, a copa balança. Vamos sacudir as bases que sustentam a exploração, para derrubar o topo da pirâmide e distribuir a riqueza concentrada. No momento estamos conquistando a liberdade de organização e de expressão, ainda não conquistamos a justiça. Ainda temos um longo caminho pela frente. Só alcançaremos a verdadeira vitória, que é a igualdade social, se acreditarmos em nossa força e em nossa união. Precisamos nos organizar diante da nova conjuntura que estamos construindo. Nós sacudimos a árvore da ditadura e seus galhos estão caindo, mas não se iludam, outras árvores virão, com novos métodos, para manter a mentira e a exploração. Demos um passo importante. Estamos vencendo uma batalha, mas a guerra pela liberdade e por justiça continua. Estou feliz. Vamos compartilhar este momento, contem comigo, sempre."
     Aos gritos de "trabalhador unido, jamais será vencido", os peões carregaram "O Velho" pelas dependências do Sindicato dos Metalúrgicos.



J Estanislau Filho

Está crônica integra o meu livro de bolso Crônicas do Cotidiano Popular - Edição do autor - 2006.

Seu Joaquim foi um militante sindical nas décadas de 60, 70 e 80. Operário, pobre e negro, incorruptível. Militou no Sindicado dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem e nos movimentos populares, como associações de bairro. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Distúrbio de Sono



durmo muito, demais até.
não se trata de um sono comum
nem de um sono qualquer:
acordo combalido,
não sei como me sinto...
é algo assim, como estar aturdido.

não vejo nada e vejo tudo - estranha díade.
é um sono que me pega quando menos espero.
quando não quero...

alimentar é um tormento:
a comida desce insossa estômago adentro.
chego a dar vômito, frêmito.

fui a dois neurologistas e ambos diagnosticaram:
- do ponto de vista neurológico você não tem nada.
- então o que tenho, doutor?
- não sei, talvez falta de amor!

ao final de um certo ano e durante o seguinte fui um zumbi.
e fui aprovado em exame de direção!
quando não identificava o norte...
talvez seja a tal sorte.

durante um ano fiz tratamento homeopático
com um médico simpático
e as crises minimizaram.
tive uma ou duas
não sei ao certo
mas recua.

no ano que passou tive uma...
se não me engano.
Então comecei a fazer planos...

o novo ano mal começou tive duas
no final de fevereiro!
parece brincadeira...
Então radicalizei: fui consultar um psiquiatra,
para ver se a crise passa.

quanto ao diagnóstico: conversou tergiversou.
confesso ter entendido bulhufas.
achei-o desequilibrado e ranheta
pra não dizer filho da puta!
assim que me receitou um tarja preta.
então disse-lhe na bucha: - está pensando que sou louco?
e ele: - que é isso velho? Nem um pouco!

receitou-me fluoxetina paroxetina lítio venlafaxina e rivotril...
então inquiri: - com tanto remédio terei disfunção erétil!
ele não disse nada...
apenas deu um sorriso irônico
enquanto sobre a minha cabeça
pairava uma nuvem negra
ao me receitar viagra...


J Estanislau Filho
do livro Palavras de Amor - páginas 68 e 69 - 2010 - Biblioteca24horas.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ela





Ela é minha musa
minha música
a vida em forma de som
minha sonoterapia meu dom
minha ida minha volta
envolta em túnica de cetim.

Ela é tudo para mim
meu começo e meu fim
um filme de Feline
felina a me arranhar
com as cordas vocais de Lenine
um doce de sapoti
sapato a me apertar.

Um choro um riso um grito por aí
uma contorcionista
contornando a pista
da Avenida João César
ela dá a César o que é de Deus
um beijo um aceno um adeus
não sei se ela foge de mim...

... Se não quer me ver
ou se tem medo
não sei medo de quê
ou se não quer mesmo saber
de amar de querer
não sei se sente culpa
ou se enche de ternura.

Quem sabe ela quer ajuda
não sei se ela procura
um amigo um pai
não sei aonde ela está
nem para onde vai
ela está em todo lugar
talvez menos em meu coração.

Talvez esteja perdida
ou a procura de uma razão
um sentido para  sua vida
talvez não tenha noção
de que a existência é passageira
ela passa ligeira
mas cegue cegamente decidida
tecendo a teia
com a linha que a vida lhe deu
rezando e agradecendo a Deus.


                                                                           

                                                                                      J Estanislau Filho

                                                                   Do livro Todos os Dias são Úteis- páginas 21 e 22.

Imagem: Av. João César de Oliveira - Contagem-MG


terça-feira, 30 de junho de 2015

Um Dinossauro em Minha Vida







     Meti tudo que necessitava dentro da caminhonete: comida e água; barraca e saco de dormir; anzois, espingarda e munições entre outros artigos necessários, para viver um ano, conforme prometera ao ambientalista Jacinto Flores, no interior da floresta amazônica. Não esqueci de levar algumas garrafas de vinho e cachaça de Minas. Com a cara e a coragem, dei adeus à selva de pedra, sob a orientação da médica cubana Saylly, que me aplicou algumas vacinas contra doenças tropicais. Dias de aventuras desafiadoras me aguardavam. Cinco meses depois de instalado próximo às margens do Solimões, ouvi um uns pisados fortes e o agito de folhas aproximando-se  da barraca. Ergui, com a espingarda em punho. Um dinossauro se aproximou. Eles não foram extintos, conforme se dizia. Apontei a espingarda e ele sorriu. Ao abaixar a arma o animal, com mais de três metros de altura, por três de comprimento me lambeu o rosto com sua língua enorme e áspera. Fui ao chão. Então ele se abaixou, e maneou a cabeça, mostrando o lombo, para eu montar. Dei-lhe o nome de Jacinto, em homenagem ao meu amigo ambientalista. Fiz passeios maravilhosos montado em seu dorso.
     Só percebi o problema em que tinha me metido ao retornar à selva de pedra, um ano depois da estadia na floresta de matas: Jacinto queria porque queria vir comigo.  O que fazer? Deixei a caminhonete na floresta e pulei em seu dorso, rumo à cidade.
     Tive de reformar o apartamento, para que Jacinto vivesse confortavelmente. Tive ainda de enfrentar a fúria dos condôminos. A dificuldade maior foi alimentá-lo cotidianamente com uma tonelada de folhas. Outro problema era na hora de sairmos do apartamento, para o passeio diário. Por fim, tivemos de mudarmos para um pequeno sítio, pois os moradores impetraram uma ação na justiça, que me obrigou a retirar Jacinto do apartamento.


J Estanislau Filho







Os primeiros fósseis de dinossauros encontrados no Brasil datam de 1897.[carece de fontes] Trata-se de pegadas fossilizadas descobertas na localidade de Passagem das Pedras, próximo ao município de Sousa (PB), pelo agricultor Anísio Fausto da Silva,[carece de fontes] que acreditava tratarem-se de rastros de boi e ema.

Fonte: Wikipédia

sábado, 27 de junho de 2015

Raio em Céu Azul



na cabeça do homem na cabeça da vaca
na cabeça de quem quer que seja
seja deus seja santo
seja eu sejam tantos
quantas flores quantas dores
quantas guerras quanta era de aquário...
quanto luto quanta luta
"quantas barricadas por seis sardinhas infelizes" (Jacques Prévert)

quanto salto quanto assalto no escuro
quanta procura do "obscuro objeto do desejo" (Filme de Luis Buñel)
quanta cópula quanta cúpula
quanta coisa esdrúxula
: mariposas cheias de tetas
ideias cheias de mutretas
: "tiranos fazendo planos para dez mil anos" (Bertolt Brecht)

de que me vale de que me serve
este nexo este sexo este plexo
este complexo de édipo quando
"elétrons deificam uma gilete em macroescala" (T.S. Eliot)
minha mãe santa criatura
hermética partitura
nesse meu inconsciente do inconsciente coletivo vendo
"minha cabeça servida numa travessa" (T.S. Eliot)

que me vale que me valha
"duas mãos e o sentimento do mundo" (Carlos Drummond de Andrade)
"o dono da tabacaria" (Fernando Pessoa)
procissão romaria
"é de sonho e de pó o destino de um só" (Renato Teixeira)
se tenho uma faca na garganta
uma molécula uma tarântula e
"quem, se eu gritasse, entre as legiões dos anjos me ouviria?" (Rilke)

mesmo que ouvisse de que adiantaria?
"tem piedade, Satã, desta longa miséria" (Baudelaire)
nem anjos nem demônios
arcanjos querubins
"Allons! seja você
quem for, venha comigo viajar" (Walt Whitman)
"sem medo de ser feliz" (Hilton Accioli)
neste tom neste som
fornalha em meus ouvidos...

este caco este saco este asco
este corte esta morte
este amor inconcebível
: "troço de louco,
corações trocando rosas
e socos" (Paulo Leminsk)

mas a gente grita a gente corre
"atrás da mesma alegria fatal" (Konstantinos Kaváfis)


...J Estanislau Filho



Poema escrito em 01/de abril de 1990 (Do meu livro O Comedor de Livros-1991)



quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Abutre




Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.

– É que estou sem defesa – respondi. – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.

– Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. – Basta um tiro e pronto!

– Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?

– Certamente – disse o senhor. – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?

– Não sei lhe dizer. – respondi.

Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:

– De qualquer modo, vá, peço-lhe.

– Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.

O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.


Franz Kafka

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Existem Homens



Existem homens
corajosos destemidos
que cantam e sonham
transformam o minério em aço
e têm nos olhos a lágrima
nos lábios o sorriso.

Existem homens que lutam
e superam a dor
enfrentam obstáculos
não se entregam não recuam
espantam o medo não traem
não delatam.

Existem homens que parecem
não são deste mundo
sob a cruz
coroa de espinhos
ou diante do fuzil
lançam os olhos às estrelas.

Existem homens
que fazem
exatamente
o oposto.


J Estanislau Filho

Do livro Todos os Dias são Úteis - página 56 - Edição do Autor - 2009

Imagem: Trabalhador Rural, esculpida em madeira pelo artesão Manuel - Araçuaí - MG

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Artista de Jogos Malabares



     Os circos mambembes não suportaram o avanço tecnológico e arriaram as lonas, sucumbiram-se.
     O Circo Africano tinha as lonas rotas, mas encantava as crianças da periferia. Muitos adultos, também. "Respeitável público...". Com esta frase famosa, o apresentador - em geral o dono do circo - de fraque, cartola e gravata-borboleta abria o espetáculo. Era de partir o coração vê-los em suas indumentárias puídas.
     A roupa do palhaço era cheia de buracos, mas quanto ao palhaço, vá lá, ele está no picadeiro para fazer graça, ser alvo de chacotas para o respeitável público extravasar sentimentos estancados.
     Quanto aos trapezistas, contorcionistas, as belas bailarinas - profissionais atentos -, precisam se apresentar com a dignidade que a arte necessita.
     O mágico, coitado, tinha uma cartola que estragava a surpresa da mágica, para o delírio da garotada: ela tinha um enorme furo, que deixava à mostra o rabo do raquítico coelho, na parte escondida da cartola.
     O malabarista desastrado, sempre deixava cair uma peça e recomeçava tudo naturalmente, sob vaias tímidas.
     Confesso que, muitas vezes, assistia aos espetáculos com os olhos marejados. Ia mais por solidariedade a esta gente simples, que lutava para sobreviver através de sua arte, e para propiciar a fuzarca de umas crianças sem oportunidades de diversão. Como recompensa eu via seus olhinhos brilharem.
     O circo era generoso, reservava um dia em que liberava a bilheteria. Praticava a inclusão social muito antes de ela se tornar políticas públicas. Assim era o Circo Africano, cujo único africano, mesmo assim, de providência duvidosa, era um macaco com aparência de cansado daquela vida, louco para voltar ao sossego de seu espaço.
     Meus filhos adoravam e até pediram para serem fotografados em um caloroso abraço ao Idi Amin. Adoravam, principalmente as pipocas e os algodões-doces. Ficavam paralisados diante das mágicas, assustavam-se, cobrindo os olhos, com medo dos trapezistas caírem, pulavam na arquibancada de tábuas carcomidas pelos cupins, deixando-me tenso com a possibilidade de tudo vir a baixo, quando o palhaço fazia suas palhaçadas e tropeçava nos obstáculos colocados por um garotinho de olhos de azeitonas pretas. O palhaço se esborrachava no picadeiro e o garotinho pulava, aplaudindo, a fim de estimular o público. Nestas horas eu ria de dar nó nas tripas.
     O Circo Africano, já combalido, foi nocauteado e beijou a lona, para nunca mais se levantar. A juventude está ligada é na internet, nas redes sociais, na virtualidade. Não há mais lugar para os circos mambembes e seus ingênuos espetáculos. Foi então, que numa tarde cinzenta, de trânsito infernal, comecei a compreender para onde os artistas destes circos migraram.
     Estava cansado, depois de um dia de muito trabalho, cujo objetivo meus sentidos não captavam, querendo voltar depressa ao refúgio do lar, tomar uma ducha e refestelar-me no sofá, quando o semáforo amarelou. Tive de frear o veículo bruscamente, para escapar da câmera filmadora e não contribuir com o erário municipal, esta instituição sedenta de recursos, muitas vezes destinados a projetos obscuros. Lembrei do dito popular: "A pressa é inimiga da perfeição". Sou um defensor ardoroso da sabedoria popular a nos ensinar que a beleza está nas coisas simples; que o segredo da boa saúde está em não se estressar: Vamos devagar com o andor, que o santo é de barro. O hermetismo é elitista, assim como a pressa, esta mania que a tal modernidade quer impor, faz uma cortina de fumaça em torno de interesses de poucos, no afã de acumular capital.
     Ainda bem que não aboliram o vermelho a nos lembrar de parar. Não fosse ele eu teria perdido um esplêndido espetáculo, que me remeteu aos bons tempos do Circo Africano: um jovem, nu da cintura para cima, de pele da cor das jabuticabas maduras, com uma calça de moletom vermelha, colada ao seu corpo atlético, com um gorro vermelho de cauda com bolinhas brancas na ponta e que balançavam com seus movimentos coordenados, realizou um número de malabarismo esplêndido nos poucos minutos de semáforo vermelho, para os afobados motoristas. Após a breve apresentação, fez o tradicional gesto de agradecimento, curvando a cabeça, como se aguardasse os aplausos. Em seguida dirigiu-se aos motoristas e passageiros, para recolher as parcas moedas, que nem todos se dispuseram a entregar-lhe.
     Meus olhos encheram-se de lágrimas, quando o reconheci do Circo Africano. Ele era a criança que infernizava a vida do palhaço, colocando os obstáculos, que o levava a engraçadas quedas. Dei-lhe uma polpuda gorjeta. Quando o sinal abriu, ainda tive tempo de vê-lo me olhando e aplaudindo, com sorriso largo, deixando à mostra os dentes de brilho desmesurados, reverberando nos últimos raios de sol.


J Estanislau Filho-crônica do livro Filhos da Terra-paginas 121/122/123-Edição do Autor-2009

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Rumores



faca de dois gumes
quando cega
não corta legumes

cuidado minha nega
se o efeito te pega
a cabeça dança
os olhos balançam
: menina

o vaso que se quebra
no limiar da janela
sob o lumiar da vela
incendeia a cortina

na estrada o estrondo
dilacera talebãs
debaixo dos escombros
do edifício incongruente
dormem vilões e inocentes

mundo nas mãos
mudos corações
refletem anseios desconexos
conectando semblantes perplexos

peregrino persegue prossegue
em seu fundamentalismo banal
o neoliberalismo consegue
impor seu fundamentalismo fatal

afagar afegões e afegãs 
com missas massas e mísseis

tênues lágrimas incendiárias
internam-se em fundas fendas
ferindo feras centenárias

trilhando trilhas herméticas
encarquilhados trapos visionários
talham desenhos antagônicos
revelando suas metas fanáticas

agitadas mãos sobre a tela
traçam riscos histéricos

a caneta rompe o papel
outrora tronco outrora vegetal
num cálculo matemático.



Poema do meu livro Todos os Dias são Úteis - pagina 59/60 - primeira edição - esgotado.