domingo, 31 de janeiro de 2016

A Vizinha




Quando Dona Maria me chamou, tinha certeza que era para pedir duas colheres de pó de café emprestado.Não sei porque, talvez devido há tanto tempo sendo vizinhas, posso afirmar que sei o que ela quer, conforme for o seu tom de voz. Por exemplo: quando ela precisa de açúcar a voz é fanhosa; quando quer pó de café ela emite um grito rápido e seco; se for uma xícara de arroz ou de feijão, não sei porque, mas sinto tristeza em sua voz.
     É difícil de explicar, é preciso sentir. Talvez por isso, só eu consigo decifrar os seus chamados. Afinal somos vizinhas há muitos anos.
     Sinto uma alegria imensa quando reconheço o grito dela para devolver os produtos emprestados. Afinal, o custo de vida me atinge também. Nós nos damos muito bem, apesar de algumas divergências. Ela vê novela demais, pode uma coisa dessas?
        Poucas vezes recorri aos seus préstimos. Coitada, o marido ganha tão pouco e ainda por cima a família é grande. Cinco filhos! Talvez seja mesmo bom ela continuar vendo novelas; quem sabe assim não arranja mais filhos. Meu companheiro também não ganha grande coisa, mas, como somos apenas dois e não pagamos aluguel, fica mais fácil. E olha que não gosto muito de televisão. Bem que eu gostaria de ter uma filha, ou filho, mas ele vive dizendo que não quer pôr filho no mundo para sofrer. O jeito é ir evitando como pode, mas um dia destes, erro a tabela, esqueço de tomar a pílula e ele vai ter de aceitar. Ele tem bom coração, acaba gostando. No mais, filhos só trazem alegrias. 
     Nas poucas vezes em que fui pedir alguma coisa emprestada da Dona Maria, digo sinceramente, foi para fazê-la feliz em poder retribuir os meus préstimos. Mas, muitas vezes não deu certo, isto a fazia infeliz, pois, nem sempre tinha como retribuir. Isto me diminuía, me sentia culpada por ter, bem ou mal, alguma coisa para comer, enquanto ela passava por necessidades. Graças a Deus, que em minha casa o de comer não tem faltado.
     Aliás, muitas vezes a minha vizinha nem devolvia as mercadorias emprestadas. Como conhecia os seus apertos, fingia esquecer. De fato não fazia questão e até me sentia feliz em poder ajudá-la. Meu companheiro sempre dizia que deveríamos ser solidários. 
        Mas, outro dia Dona Maria me chamou pelo muro, como sempre, e não consegui decifrar o que ela queria. Ela estava com a voz embargada, dizia coisas confusas. Pedi para que entrasse, para conversarmos. 
      Entrou e me abraçou, chorando.
     - Júlia, minha amiga, não sei o que fazer, meu marido sempre foi trabalhador; nunca teve medo de serviço; não faltava; não atrasava, mas, está ficando velho e fraco e logo agora foi demitido. Estou desesperada.
     - Mas o que motivou a demissão dele?
     -Disseram que não precisam mais do trabalho dele. O encarregado disse que a produção dele caiu. 
    - Filhos da puta! Ele deu toda a sua juventude enriquecendo aqueles exploradores e agora é jogado no olho da rua sem mais nem menos! Como uma mercadoria, como um objeto que se usa e joga fora. É isto, o trabalhador acaba com a saúde, com a juventude, dando lucro a estes capitalistas sem vergonhas, depois demitem, alegando que a produção caiu! Então é assim que tratam um ser humano?
    - E pelo visto – dizia minha vizinha soluçando – vai ser difícil encontrar outro emprego.
    - Não Maria, isto não pode continuar assim. Isto é apenas um exemplo do que acontece com a maioria do povo. A exploração é uma coisa horrorosa.
    - Mas, o que nós, fracas criaturas, podemos fazer? Eles são ricos e poderosos.
   - Podemos fazer muita coisa, sim senhora! Depois de todas essas greves eu passei a pensar umas coisas. Se não houvesse tanta ambição e se as riquezas fossem bem distribuídas, ninguém passaria fome, nem humilhação. 
    - Não estou entendendo nada, Júlia.
    - Outra hora eu explico. Venha, vamos entrar.
    Entrei, conduzindo minha vizinha pelo braço. Preparei um café forte para ela e pedi que tivesse paciência. Disse, ainda, algumas palavras de conforto e que fome eles não passariam, a gente dava um jeito. Na impossibilidade de dividirmos as riquezas, a gente ia dividindo as misérias. Quanto ao aluguel e as crianças, tudo se arranjaria, até aparecer outro emprego.
    Depois de conversar bastante, consegui acalmá-la. Disse-lhe que só tínhamos um caminho: lutar, lutar, lutar, para construirmos uma sociedade melhor, livre da exploração capitalista. 
    Nesta noite não consegui dormir quase nada. Permaneci acordada, pensando nas palavras do meu marido, de que a “a riqueza de poucos era a miséria de muitos”.




Esta crônica foi publicado pelos idos de 1980 no Jornal O Companheiro. Em 2006 a publiquei em meu livro de bolso Crônicas do Cotidiano Popular

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Promessa





meu cheiro de grama molhada
abraçou o lençol e me olhou
com seu jeito de flor.

abriu um sorriso bonito
rolou de um lado ao outro
e sussurrou em meus ouvidos
palavras de ternos sentidos.

disse que me daria uma estrela
que a depositaria em minhas mãos.

levantou-se vestida de sol,
era mar era lua esplêndida
era estrela prometida.


Formatação: Anna Lúcia Gadelha - amiga e parceira de letras.







J Estanislau Filho

Autor de A Moça do Violoncelo-Estrelas, Filhos da Terra, Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros, entre outros

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O MAR







Diante da imensidão do mar e de suas águas profundas
habitadas por cavalos-marinhos estrelas-do-mar baleias
e milhões de seres desconhecidos observei minhas veias
sublevarem dentro de mim como se fossem ondas
bombeando meu coração acomodado diante de humanos
destemperados a chicotear raivosos os oceanos.

Navegar em oceanos
é mais singelo que navegar
em corações humanos.

O mar não petrifica
o ser sincero
nem fere a retina
de olhos viveiros.

Passear sobre o dorso da baleia
e cortar ondas bravias incendeia
a alma
e o coração aflito acalma.



jestanislaufilho@gmail.com 

Encontra-se à venda meu novo livro de prosa e verso A Moça do Violoncelo-Estrelas - aos interessados façam contato pelo e-mail acima.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O Hóspede









João e Maria não esperavam a súbita visita de um velho amigo.
       Sete anos exatos não se viam. Francisco desaparecera, sem deixar endereço. E durante esses anos não tiveram contato algum. Mas jamais esqueceram do amigo. Lembravam o tempo em que se sentavam ao redor da mesa, com uma garrafa de vinho e discutiam literatura. Francisco tinha um bom conhecimento do assunto e um certo orgulho disso. Era capaz de recitar versos de José Régio, Rimbaud, Drummond, Fernando Pessoa, Neruda, Cecília Meireles... Lera os pré-socráticos, além dos principais filósofos modernos. Fazia análise psicológica dos personagens de Dostoiévisky, Stendahl, com profundidade. A liberdade em Sartre; a temporalidade em Faulkner; o absurdismo em Albert Camus, Arrabal, Ionesco e Jean-Genet. Dissertava sobre a narrativa de Hemingway e Machado de Assis. Falava horas e horas do ciclo da cana de açúcar em José Lins do Rego e do ciclo do cacau de Jorge Amado. Os amigos varavam a noite discutindo, mas quem mais se encantava com os conhecimentos de Francisco era Maria. Às vezes João ia dormir e deixava os dois em uma longa jornada noite adentro.
    Não era exibição, faziam isso por prazer, pois amavam a literatura. Diziam que ela descortina o mundo, oferecendo uma larga visão, ampliando horizontes. Nessas horas os filósofos Epicuro, Sócrates, Platão, Hegel, Marx, Descartes, Hurssel, Zenão, Heráclito, Carl Jasper faziam parte do cardápio metafísico. Música e cinema também eram debatidos, para variar de assunto. Até que um dia, Francisco desapareceu...
     João estava distraído, regando a pequena horta; Maria plantava umas mudas de crisântemo, enquanto o filho brincava com um carrinho de madeira, em longas viagens imaginárias.
    Sentido-se observado, João ergueu a cabeça e vislumbrou um vulto. Um homem barbudo estava parado perto deles, provavelmente a um bom tempo. O estranho homem barbudo olhava com olhos de ternura o casal e o filho, com um leve sorriso nos lábios. Maria e a criança perceberam a cena. Ficaram estáticos durante alguns segundos. Reconheceram o velho amigo Francisco. Abraçaram-se e choraram de emoção. Maria, porém, estava séria, embora feliz. Francisco entendeu que o garoto era filho de João e Maria. Abraçou-o dizendo que agora tinham um novo companheiro para os debates ontológicos.
    Conduziram o amigo para dentro de casa e após o banho, serviram uma farta refeição, regada a um bom vinho, enquanto colocavam os acontecimentos em dia. Queriam saber de tudo. Não esqueceram de falar de literatura e da nova safra de escritores, embora sem o entusiasmo de antes. Contaram que deram nome de Francisco ao filho, em homenagem a ele.
    Foi então que Francisco anunciou ter vindo somente para se despedir em definitivo. Iria morar no continente africano.
      Fizeram questão de conduzi-lo ao aeroporto, onde se despediram.
    João e Maria permaneceram em silêncio ao retornarem, e assim permaneceram naquela noite, como se fora estabelecido um acordo tácito. Talvez ambos tivessem o mesmo pensamento: o amigo jamais saberia que aquela criança era seu filho.



Imagem: JEF - Casa de Bichinho-MG


Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros - Editora Protexto.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

reflexão








reflexão



percepção aguçada
numa tarde quente
reflexão distorcida
sobre pedras centenárias
a nuvem na janela
tão pouco percebida
por vasta indumentária
a beleza que se farta
oferta a olhos baços






Imagem: MA

Pretinha







Pretinha meu bem,
Chegue mais perto.
Vem me abraçar,
Descanse em mim.

Se quiser neném,
Estou desperto
Pra te consolar,
Sou seu querubim.

A paz ainda vem,
Tenho por certo,
Sua dor vai passar.

Força você tem,
Sai do deserto,
Deixe-se amar.


Fábio Brandão Caldeira

domingo, 17 de janeiro de 2016

Mancuspias




As mancuspias entraram pela janela da sala no exato momento em que me preparava para fechá-la. A primeira a entrar estava levemente ferida na área próxima dos olhos. Quis expulsá-la, mas fui invadido de compaixão, diante de seu olhar suplicante. Em seguida entrou mais uma e outra e outra. É difícil identificar o sexo de mancuspias. Júlio Cortázar me dissera que todas tinham morrido. Dessa forma eu as via como criaturas do gênero feminino. Dias depois viria saber, que se tratava de dois casais e que Júlio morrera enganado, pois elas estavam ali, diante de mim, pedindo cuidado. “Elas são sagazes e malevolentes”, explicara-me Júlio em seu último estertor. Lembrei-me desse aviso e me precavi, mas elas pareciam inofensivas. Todas estavam com pequenas escaras, o que me fez lembrar de philodedron bipinnatifidum. Fiquei momentaneamente paralisado observando-as contritas. Em seguida cuidei de seus ferimentos. Elas aceitaram meus cuidados com docilidade, pareciam felizes. Telefonei para A.Balbach e ele aconselhou-me alimentá-las com aveia maltada, mas presas em gaiolas, “pois mancuspias mudam de atitude repentinamente. Saem de um extremo a outro e pode ser perigoso”. Disse ainda, para observar as fezes delas, pois, devido o estado precário em que elas estavam, poderiam apresentar algumas doenças típicas, mas desde já, recomendava archangelica officinalis, pois com certeza elas estariam com diarréia. “Ah, dê um pouco de periandra dulcis, para mantê-las calmas”, recomendou.  Depois de quase duas horas e meia de trabalho, que me deixaram extenuado, fui dormir. Era quase meia-noite. Mal coloquei a cabeça no travesseiro, ouvi um barulho vindo das gaiolas. Peguei a lanterna e fui me certificar. A luz provocou um súbito silêncio. Quando me aproximei, percebi as gaiolas vazias, as portas abertas. Iluminei ao redor. Da pequena mata vinha apenas o som do vento nas folhagens. Apaguei a lanterna por alguns segundos. Ao acendê-la, as quatro mancuspias estavam em volta de mim, olhando-me fixamente nos olhos. Dei ordens para voltarem às gaiolas e elas foram saindo devagar, em fila indiana, mas para dentro da casa. Submisso, as segui. Então elas subiram na bancada da lareira, formaram um circulo e uma coçava a enorme cauda colorida da outra. Foi então que o celular tocou. Era A.Balbach me avisando para não deixá-las dormirem sem antes se aquecerem, “pois o frio as torna agressivas”. Enquanto elas não absorvessem calor suficiente, não conseguiriam dormir, mas, como elas estavam na lareira, apenas deveria esperar pouco mais de duas horas. Assim que atingissem a temperatura necessária, elas voltariam sozinhas para as gaiolas. Fiquei desolado, pois o cansaço tomara conta do meu corpo. Sentei na cadeira ao lado e toda vez que eu começava a dormir, elas gritavam, em uníssono, em meus ouvidos. Duas em cada orelha. Eu acordava assustado e demorava alguns segundos para voltar à realidade. Em um desses breves cochilos sonhei que elas furavam meus olhos. Cheguei a vê-los com lágrimas de sangue, no chão. Depois de quase três horas elas voltaram às gaiolas, então pude dormir.
     Mas o que era para ser um sono profundo, tornou-se agitado. Podia ouvi-las, em alvoroço, nas gaiolas; invadindo a casa com seus gruídos indecifráveis. Ao acordar o sol estava a pino, mas estava cansado, pois enquanto dormia, meu cérebro trabalhava. Saí da cama, correndo de pijama, pois as mancuspias choravam um choro descomunal, a ponto de o dono da chácara mais próxima, a dois quarteirões, vir a mim com ameaças de me denunciar ao IBAMA, por prender animais exóticos. Ponderei, expliquei que elas apareceram em minha casa, sem que pedisse e estava cuidando de suas feridas. Ele respondeu, que em consideração, por sermos vizinhos, e vizinhos são os parentes mais próximos, não iria denunciar, mas que as fizesse calar, e que não se responsabilizaria, se decidisse tomar medidas radicais contra mim. Faça-as calar, sem feri-las, pois quem pariu Mateus, que balance o berço, disse, com o dedo em riste, quase tocando o meu nariz. Jamais pensei maltratar animais. Na verdade, elas estavam com fome e sede. Coloquei mais aveias maltadas e água. Elas devoraram tudo em um segundo e voltaram a gritar. Coloquei mais água e aveia, finalmente elas se acalmaram e me olharam com olhos meigos, em sinal de agradecimento. Olhavam com tanta ternura, que meus olhos marejaram. Fiquei emocionado vendo-as fazendo sinais entre si e me olhando com um sorriso, que deixava à mostra alguns dentes afiados. Percebi que duas tinham quatro dentes e outras duas apenas dois. Não entendia. Telefonei para A Balbach, mas seu telefone estava desligado, ou fora de área, conforme me disse uma voz eletrônica. Não sei se por causa do toque musical do celular, as mancuspias puseram-se a cantar, a ponto de o vizinho vir escutar, admirado. Eu e ele ficamos ouvindo aquela melodia maravilhosa, que durou cerca de uma hora. Estávamos inebriados. Não era um canto repetitivo, como acontece com a maioria dos animais e até mesmo de alguns humanos. Às vezes entrava uma segunda voz, como um coral. É isso, um coral, em perfeita harmonia. De repente elas pararam e dormiram. Convidei o vizinho, para um café. Eu ainda estava de pijama. Ele me perguntou sobre aquelas criaturas, como ali vieram parar. Contei-lhe sobre Júlio Cortázar, das supostas mortes e acho que elas me encontraram pelo odor de Julio, impregnado em mim. Não tinham sido todas mortas, como Júlio me dissera no leito de morte. Tomamos café com bolinhos-de-chuva. Nesse momento lembrei-me de Leonor e Chango, que ajudavam a cuidar das mancuspias nos tempos de Júlio. Eles sempre usavam o termômetro para medir a pressão delas, que deveria estar, em média, entre 35 a 37 graus. Ultrapassando, elas poderiam ter convulsões. Mormente não morrem, mas produzem um odor pestilento e pode transmitir doença ao ser humano. Era necessário tirar a pressão de manhã e ao anoitecer. Foi então que entendi o motivo de elas terem procurado a lareira. Provavelmente a pressão baixara, A pressão baixa não produziu odores, sinal de não haver riscos de convulsões, que podem levar à morte, dependendo do grau. Cissampelos vitis surge como uma luz. Lembro ser necessário fazer lavagens genitais, mas adio as tarefas para outro dia, pois outras obrigações no Ponto Cósmico me aguardavam.
    Aproveitei bem aquele curto espaço de tempo em que as mancuspias se distraiam em atividades lúdicas, para rastelar o quintal e colher acerolas. Sempre que colho acerolas lembro de Leonor. Quando ela vestia o vestido da cor de acerolas maduras, parecia a mais bela cigana da Terra. Tenho quase certeza, que Cortázar à amou secretamente. Mas quem não amaria uma criatura tão doce e transcendental como ela! Chango era um homem privilegiado. Arranquei alguns pés de sida carpinifolia, para o caso de picada de abelhas.
    Foi então, que em uma noite de chuva torrencial, comecei a compreender o sentido da existência das mancuspias e a nossa. A chuva fez a temperatura baixar bruscamente. Nem todos conseguem sobreviver às intempéries. Todos precisamos de abrigo, de atenção e cuidado. Eu estava distraído, comendo bolinhos-de-chuva com café, quando senti um calafrio, como um aviso de que algo lamentável estaria ocorrendo. Corri, para trazê-las à lareira, para se aquecerem. As mancuspias estavam abraçadas, na tentativa de se aquecerem mutuamente. Ao abrir a gaiola, elas me olharam com olhos de agradecimento, pois entoaram um cântico fúnebre. Era o Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Em seguida cerraram os olhos, abraçadas, em seus últimos estertores. Chorei copiosamente abraçado a elas. Depois, coloquei-as em um manto indiano, bordado com arabescos, que Cortázar me dera de recordação, quando esteve na Índia, divulgando seus livros. No dia seguinte preparei uma única sepultura para elas e as sepultei, embrulhadas ao manto.Construí um túmulo e na lápide as palavras de John Donne:

Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma
partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA, se
um TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA
fica diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO,
como se fosse o SOLAR de teus AMIGOS ou
o TEU PRÓPRIO; a MORTE de qualquer
homem ME diminui, porque sou
parte do GÊNERO HUMANO.
E por isso não perguntes
por quem os sinos
dobram; eles
por ti.


J Estanislau Filho - Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros- Editora Protexto - página 76 -  Primeira edição 2012

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Lúcula

Quando Cefaléia ficou grávida, não imaginava que passaria por fortes emoções com a futura filha, Lúcula.

   Estrelário, o pai, esvaiu-se no espaço antes do nascimento da filha. 
Lúcula não veio integrar-se ao Cosmo através de um parto normal. Cefaléia encontrava-se no jardim, cuidando das bromélias, enquanto um sol de primavera se punha no horizonte, reverberando nas nuvens cores múltiplas, quando notou um brilho intenso se movimentando no útero. Não sentia contrações, nem dores, pois  Lúcula nasceria, para trazer a cura a todas as dores.Encantada, Cefaléia, interrompeu o trabalho, sentou-se sobre a relva, sem perceber que o sol se escondera inteiramente e que a noite chegava mansamente, trazendo junto, a escuridão. Em seu útero, a luz ia intensificando o brilho e à sua volta, vaga-lumes e pirilampos se aglomeravam, formando uma imensa tocha, impedindo que a noite vencesse o dia.
   Cefaléia podia ver os movimentos da filha, lentamente, emergindo de dentro do útero. Podia ver o sorriso da criança e os fragmentos de luzes saindo da boca e se espalhando no lusco-fusco. Podia vê-la esfregando os dedos luminosos nos olhinhos brilhantes. Podia ver a alegria estampada em seu semblante. Cefaléia não sentia o chão, seu corpo estava suspenso, tomado de um prazer inominável.
   Findo o parto, Lúcula alçou um vôo, pousando em um galho de árvore, sem ouvir o chamado da mãe, que recolhia a placenta, comendo-a em êxtase.
Lúcula deixou o galho da árvore, voando sobre o jardim, para recolher uma rosa vermelha e oferecê-la à mãe, num gesto de agradecimento e carinho. 
   Cefaléia chamava pela filha que teimava em ficar de galho em galho, voando e mudando de cor a todo instante. Contudo, Lúcula não dava ouvidos à mãe, voando cada vez mais alto. Cefaléia não sabia se chorava ou se ria diante das proezas da filha, enquanto o seu coração pulsava em ritmo acelerado.
   Foi então que um clarão se fez na noite, rasgando o céu, seguido por estrondos descomunais. As nuvens despejaram sobre a terra uma torrente de água, inundando tudo. Cefaléia, que tinha sido atingida por uma forte dor de cabeça gritava pela filha e o seu grito foi ouvido por aves negras que voavam na noite, seguindo as trilhas dos raios luminosos. 
   Assim como vieram, as nuvens e a chuva se foram de repente e uma lua esplendorosa surgiu no céu. Uma mulher em trajes vermelhos, com um enorme chapéu negro e com asas parecidas com as de morcego encontrava-se postada ao lado da mãe, que não parava de chorar e de gritar pela filha. Cefaléia quis saber quem era aquela mulher que lhe acariciava os cabelos, mas ela apenas balançava a cabeça negativamente, recusando-se a responder. Perguntou o que estava acontecendo, mas recebia como resposta o mesmo movimento. Nesse instante, tomada de um profundo cansaço, adormeceu.
   Ergueu os olhos e percebeu ao redor vultos que se movimentavam. Ao colocar-se de pé sentiu duas mãos amparando o seu corpo, que cambaleava. Perguntou:
- Quem são vocês?
- Não se preocupe, somos seus guias. Apenas siga as nossas instruções.
  Em seguida colocaram-na em um veículo ou aeronave, que Cefaléia não conseguia identificar e rodaram ou voaram por locais desconhecidos. Por mais que se esforçasse não conseguia ver com nitidez as criaturas que seguiam em silêncio em sua companhia. Com muito esforço, perguntou com a voz fraca sobre o paradeiro da filha. Uma das criaturas aproximou-se e falou em seu ouvido:
- Não existe nenhuma filha. Fique quieta.
  Cefaléia ficou muda. Precisava agir com cautela, pois, a julgar pela resposta ameaçadora, poderia colocar em perigo a sua vida e a da filha. Fingiu dormir para distrair a atenção e observar os movimentos dos companheiros de viagem. Um, que parecia ser o chefe da expedição dava instruções aos demais, contudo, Cefaléia não entendia o que ele falava. Ele trajava um casaco preto, longo, cobrindo o corpo todo, e tinha uma enorme gravata borboleta vermelha. Sobre a cabeça um chapéu de bico longo e de abas curtas. Cefaléia abaixou a vista devagar e notou que ele tinha uns pés de pato descoberto. O nariz era longo e arrebitado, que usava para recolher pequenas bolinhas vermelhas que caiam do teto do veículo ou aeronave. Observou que os outros três tinham uma estatura menor e obedeciam ao comando do chefe. Tinham, também, pés de pato, vestiam roupas idênticas, uniformes. Os semblantes pareciam com o do chefe, porém, menos desenvolvidos. Não usavam chapéu, deixando à mostra o despontar de um chifre, o que explicava o uso do chapéu longo do chefe: esconder o longo chifre.
   O veículo ou aeronave parou. Cefaléia fingiu continuar dormindo. Mas, foi acordada por um dos acompanhantes com um leve estalar de dedos em cujas mãos só existiam dois. Ela foi levada a uma sala de luzes azuis onde cerca de cem desses seres encontravam-se de pé em silêncio. “Fique aqui e aguarde as instruções”. Foi então que Cefaléia percebeu que eles falavam em diversos idiomas.Reconheceu o francês, o espanhol, o latim, o grego, o inglês e o português, idiomas que ela falava fluentemente.
   O silêncio tomou conta do recinto, um silêncio tão forte, que as batidas do coração e a respiração de Cefaléia pareciam incomodar os presentes.
   Neste momento uma luz vermelha foi projetada em um ponto da sala e de dentro dela uma criança surgiu. Cefaléia reconheceu Lúcula e quis ir ao seu encontro, mas conteve-se, com receios dos acontecimentos. Ficou quieta, aguardando.
   Em seguida iniciaram um ritual com cânticos e sons de harpas. Lúcula sorria e do seu sorriso brotavam gotas de luzes que se espalhavam pelo ambiente. Todas as criaturas presentes erguiam os narizes, recolhendo-as e à medida que se fartavam evaporavam. Até que não restou mais ninguém no amplo salão além da mãe e da filha. Cefaléia pegou a filha e ergueu-a feliz.Em seguida deitou-a no berço.Lúcula começou a brincar com um boneco de pano de pés de pato, casaco preto, gravata borboleta vermelha e com a cabeça coberta por um chapéu de bico longo e abas curtas, fazendo quac quac quac aos apertos da criança. 
   Cefaléia percebeu que a dor de cabeça passara e, por um momento, teve dúvidas de sua sanidade. Correu até o berço e viu que a filha dormira com o boneco preso nas mãos.

domingo, 10 de janeiro de 2016

O Encontro














Acordei ao som do telefone, que tocava insistentemente. Esfreguei os olhos e fui, sonolento, atender. A voz feminina do outro lado me disse que eu era o pai de um certo Valmir. Olha, creio que você está enganada, respondi. Não há engano algum, você é o pai. Tum-tum-tum...
     Uma semana depois meu sono fora novamente interrompido pelo toque do telefone fixo. A mesma voz, um filho lindo, uma criança doce e você não demonstra nenhum interesse por ele, que tristeza! Eu não queria, mas sabe como é... o garoto cresceu, exige que eu lhe apresente o pai... Tum-tum-tum...
     Pensei em instalar um identificador de chamadas. Alguém estava decidido a me perturbar.
Acordo. De um salto atendo o telefone, você não virá mesmo? Fingindo inocência. É isso. Aqui é Juciléia, seu canalha, lembra agora quando revirava os olhinhos? Tudo bem Gutembergue, esqueci de passar o endereço, anota aí... Vou esperá-lo na rodoviária dia três às oito horas. Só existe um horário de ônibus aqui nesse fim de mundo. O garoto está ansioso de te conhecer, venha! Caramba, ela sabe o meu nome! Anotei o endereço em um pedacinho de papel e voltei pra cama.
     Dia três, quatorze horas, o telefone toca, acordo cambaleando, olha aqui seu canalha, se não vier na próxima quarta-feira a gente se encontra nas barras do tri-bu-nal, entendeu? Exames de DNA, pensão retroativa. Está bem, irei. Tum-tum-tum ...Anotei o endereço noutro papel e voltei pra cama.
     Selei o cavalo e fui dar um passeio pelos páramos. A brisa alvoroçava meus cabelos. O sol batia em meu rosto, de cheio. Um flautim-rufo empoleirado em uma árvore. Apeei à beira do córrego e me sentei sobre o tronco de uma árvore caída.
     Gutembergue é o meu nome. Homenagem ao Gutenberg, inventor da imprensa. Coisa do meu pai. Mas o escrivão certamente nunca tinha ouvido um nome esquisito e registrou-me assim. Cidade pequena, interior, meu pai, analfabeto funcional me dissera mais tarde que tivera de explicar ao escrivão como se escrevia Gutembergue... Não filho, ele não teve culpa. Mas pai, isto não importa, podia ser Alexandre, Heráclito, Pedro, tanto faz.
     Acabei esquecendo de ir ao encontro de Juciléia, conhecer Valmir. Mas Ju e o pirralho estavam dispostos a me colocar contra a parede. Vou dar-lhe uma última chance, Gutembergue: se não vier a jiripoca vai piar, não estou brincado! Está bem, irei, esqueci. Por causa do meu cavalo, a brisa, o flautim-rufo ... O quê? Está me achando com cara de otária? Desta vez irei sem falta, passa o endereço. Perdi. Anote aí, imprestável!
     Ônibus lotado. Saída à meia-noite. Calor. O motorista se dirige aos passageiros. Explica a duração da viagem, as paradas e pede para colocarem o cinto de segurança. Vejo que só eu me afivelo. Algumas pessoas conversam entre si. Ao meu lado um sujeito forte ocupa parte da minha poltrona, atirando-me ao corredor. Face de magarefe. O ônibus ganha as ruas com destino a... Ao entrar na rodovia o magarefe começa a roncar. Cutuco sua costela gelatinosa. Ele se mexe. Fico mais espremido. Volta a roncar.
     Oito da manhã desembarco na rodoviária: uma pequena cobertura de telha de amianto, para um ônibus, na rua principal. Uma mulher de olhos puxados espera, segurando um garoto pela mão. Você é a Juciléia? Pergunto. E este aqui é o Valmir, dá um abraço em seu pai, filho! Ei, diz alguma coisa ao seu filho. Mas não sei o que dizer, digo, oi Valmir. Trouxe algum presente? Não tive tempo, o flautim-rufo... Como assim? você ia dar um flautim, que é isso, uma flauta? Tenha paciência! Ah, também o cavalo, sabe, o sol, também por causa do casal de sabiá construindo o ninho... Não vou discutir com você na frente do garoto, seu filho, Gu-tem-ber-gue! Tiro do bolso algumas moedas, dou ao menino, que sai correndo. Entra no bar, aos pulos. Olho... Um filho. Meus pensamentos se voltam para o flautim-rufo. Juciléia faz um gesto qualquer, diz algo, mas não ouço. O sol está quente. Queima a minha pele. O suor escorre. Que horas o ônibus retorna? Como assim? Não me diga que veio conhecer seu filho e... não acredito! Mas já conversei, olha lá, ele comendo chocolate. Juciléia se dirige ao pequeno público, que se encontra na rua, de frente aos botequins. Pessoal, prestem atenção neste homem, diz com o dedo em riste em minha direção. Vocês sempre me perguntaram pelo pai do meu filho. Este homem é o pai de Valmir, este menino que vocês vêm aqui na praça quase todos os dias. De hoje em diante não precisam perguntar mais. Todos sabem da minha luta para sustentar este menino, meu filho lindo! Mas o pai dele só fala em flautim-rufo. Por acaso algum de vocês trata um filho assim? Sei que não, pois conheço cada um aqui presente. Mas quem é Gutembergue? Não beijou o filho, nem disse meu querido, papai está aqui e te ama...
     A rua começa a ficar pequena para a turbamulta, que me rodeia. Olham-me de modo estranho. Juciléa não para de discursar. Tapo os ouvidos com as palmas das mãos. É assim que trata seu filho? Digo que a viagem foi longa e cansativa, não dormira, um sujeito roncava, o flautim-rufo... À merda o flautim, à merda seu cansaço, estamos falando de um filho, cafajeste!
     
Não me lembro de mais nada. A enfermeira mede minha pressão e sorri. Pergunto pelo flautim-rufo. Ela me sorri novamente e diz que ele está bem. Durmo em seguida.


Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros. Acessem www.protexto.com.br 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

esfinge


















desvendado o enigma
o clima se desfaz.
esfinge se desespera
e da rocha se atira.
imagina... imagina...
Édipo mata o pai
Jocasta expõe vagina
o amor se vai
de encontro ao chão.
desvendado o doce mistério
amor antes tão sério
fica sem visão!