domingo, 17 de janeiro de 2016

Mancuspias




As mancuspias entraram pela janela da sala no exato momento em que me preparava para fechá-la. A primeira a entrar estava levemente ferida na área próxima dos olhos. Quis expulsá-la, mas fui invadido de compaixão, diante de seu olhar suplicante. Em seguida entrou mais uma e outra e outra. É difícil identificar o sexo de mancuspias. Júlio Cortázar me dissera que todas tinham morrido. Dessa forma eu as via como criaturas do gênero feminino. Dias depois viria saber, que se tratava de dois casais e que Júlio morrera enganado, pois elas estavam ali, diante de mim, pedindo cuidado. “Elas são sagazes e malevolentes”, explicara-me Júlio em seu último estertor. Lembrei-me desse aviso e me precavi, mas elas pareciam inofensivas. Todas estavam com pequenas escaras, o que me fez lembrar de philodedron bipinnatifidum. Fiquei momentaneamente paralisado observando-as contritas. Em seguida cuidei de seus ferimentos. Elas aceitaram meus cuidados com docilidade, pareciam felizes. Telefonei para A.Balbach e ele aconselhou-me alimentá-las com aveia maltada, mas presas em gaiolas, “pois mancuspias mudam de atitude repentinamente. Saem de um extremo a outro e pode ser perigoso”. Disse ainda, para observar as fezes delas, pois, devido o estado precário em que elas estavam, poderiam apresentar algumas doenças típicas, mas desde já, recomendava archangelica officinalis, pois com certeza elas estariam com diarréia. “Ah, dê um pouco de periandra dulcis, para mantê-las calmas”, recomendou.  Depois de quase duas horas e meia de trabalho, que me deixaram extenuado, fui dormir. Era quase meia-noite. Mal coloquei a cabeça no travesseiro, ouvi um barulho vindo das gaiolas. Peguei a lanterna e fui me certificar. A luz provocou um súbito silêncio. Quando me aproximei, percebi as gaiolas vazias, as portas abertas. Iluminei ao redor. Da pequena mata vinha apenas o som do vento nas folhagens. Apaguei a lanterna por alguns segundos. Ao acendê-la, as quatro mancuspias estavam em volta de mim, olhando-me fixamente nos olhos. Dei ordens para voltarem às gaiolas e elas foram saindo devagar, em fila indiana, mas para dentro da casa. Submisso, as segui. Então elas subiram na bancada da lareira, formaram um circulo e uma coçava a enorme cauda colorida da outra. Foi então que o celular tocou. Era A.Balbach me avisando para não deixá-las dormirem sem antes se aquecerem, “pois o frio as torna agressivas”. Enquanto elas não absorvessem calor suficiente, não conseguiriam dormir, mas, como elas estavam na lareira, apenas deveria esperar pouco mais de duas horas. Assim que atingissem a temperatura necessária, elas voltariam sozinhas para as gaiolas. Fiquei desolado, pois o cansaço tomara conta do meu corpo. Sentei na cadeira ao lado e toda vez que eu começava a dormir, elas gritavam, em uníssono, em meus ouvidos. Duas em cada orelha. Eu acordava assustado e demorava alguns segundos para voltar à realidade. Em um desses breves cochilos sonhei que elas furavam meus olhos. Cheguei a vê-los com lágrimas de sangue, no chão. Depois de quase três horas elas voltaram às gaiolas, então pude dormir.
     Mas o que era para ser um sono profundo, tornou-se agitado. Podia ouvi-las, em alvoroço, nas gaiolas; invadindo a casa com seus gruídos indecifráveis. Ao acordar o sol estava a pino, mas estava cansado, pois enquanto dormia, meu cérebro trabalhava. Saí da cama, correndo de pijama, pois as mancuspias choravam um choro descomunal, a ponto de o dono da chácara mais próxima, a dois quarteirões, vir a mim com ameaças de me denunciar ao IBAMA, por prender animais exóticos. Ponderei, expliquei que elas apareceram em minha casa, sem que pedisse e estava cuidando de suas feridas. Ele respondeu, que em consideração, por sermos vizinhos, e vizinhos são os parentes mais próximos, não iria denunciar, mas que as fizesse calar, e que não se responsabilizaria, se decidisse tomar medidas radicais contra mim. Faça-as calar, sem feri-las, pois quem pariu Mateus, que balance o berço, disse, com o dedo em riste, quase tocando o meu nariz. Jamais pensei maltratar animais. Na verdade, elas estavam com fome e sede. Coloquei mais aveias maltadas e água. Elas devoraram tudo em um segundo e voltaram a gritar. Coloquei mais água e aveia, finalmente elas se acalmaram e me olharam com olhos meigos, em sinal de agradecimento. Olhavam com tanta ternura, que meus olhos marejaram. Fiquei emocionado vendo-as fazendo sinais entre si e me olhando com um sorriso, que deixava à mostra alguns dentes afiados. Percebi que duas tinham quatro dentes e outras duas apenas dois. Não entendia. Telefonei para A Balbach, mas seu telefone estava desligado, ou fora de área, conforme me disse uma voz eletrônica. Não sei se por causa do toque musical do celular, as mancuspias puseram-se a cantar, a ponto de o vizinho vir escutar, admirado. Eu e ele ficamos ouvindo aquela melodia maravilhosa, que durou cerca de uma hora. Estávamos inebriados. Não era um canto repetitivo, como acontece com a maioria dos animais e até mesmo de alguns humanos. Às vezes entrava uma segunda voz, como um coral. É isso, um coral, em perfeita harmonia. De repente elas pararam e dormiram. Convidei o vizinho, para um café. Eu ainda estava de pijama. Ele me perguntou sobre aquelas criaturas, como ali vieram parar. Contei-lhe sobre Júlio Cortázar, das supostas mortes e acho que elas me encontraram pelo odor de Julio, impregnado em mim. Não tinham sido todas mortas, como Júlio me dissera no leito de morte. Tomamos café com bolinhos-de-chuva. Nesse momento lembrei-me de Leonor e Chango, que ajudavam a cuidar das mancuspias nos tempos de Júlio. Eles sempre usavam o termômetro para medir a pressão delas, que deveria estar, em média, entre 35 a 37 graus. Ultrapassando, elas poderiam ter convulsões. Mormente não morrem, mas produzem um odor pestilento e pode transmitir doença ao ser humano. Era necessário tirar a pressão de manhã e ao anoitecer. Foi então que entendi o motivo de elas terem procurado a lareira. Provavelmente a pressão baixara, A pressão baixa não produziu odores, sinal de não haver riscos de convulsões, que podem levar à morte, dependendo do grau. Cissampelos vitis surge como uma luz. Lembro ser necessário fazer lavagens genitais, mas adio as tarefas para outro dia, pois outras obrigações no Ponto Cósmico me aguardavam.
    Aproveitei bem aquele curto espaço de tempo em que as mancuspias se distraiam em atividades lúdicas, para rastelar o quintal e colher acerolas. Sempre que colho acerolas lembro de Leonor. Quando ela vestia o vestido da cor de acerolas maduras, parecia a mais bela cigana da Terra. Tenho quase certeza, que Cortázar à amou secretamente. Mas quem não amaria uma criatura tão doce e transcendental como ela! Chango era um homem privilegiado. Arranquei alguns pés de sida carpinifolia, para o caso de picada de abelhas.
    Foi então, que em uma noite de chuva torrencial, comecei a compreender o sentido da existência das mancuspias e a nossa. A chuva fez a temperatura baixar bruscamente. Nem todos conseguem sobreviver às intempéries. Todos precisamos de abrigo, de atenção e cuidado. Eu estava distraído, comendo bolinhos-de-chuva com café, quando senti um calafrio, como um aviso de que algo lamentável estaria ocorrendo. Corri, para trazê-las à lareira, para se aquecerem. As mancuspias estavam abraçadas, na tentativa de se aquecerem mutuamente. Ao abrir a gaiola, elas me olharam com olhos de agradecimento, pois entoaram um cântico fúnebre. Era o Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Em seguida cerraram os olhos, abraçadas, em seus últimos estertores. Chorei copiosamente abraçado a elas. Depois, coloquei-as em um manto indiano, bordado com arabescos, que Cortázar me dera de recordação, quando esteve na Índia, divulgando seus livros. No dia seguinte preparei uma única sepultura para elas e as sepultei, embrulhadas ao manto.Construí um túmulo e na lápide as palavras de John Donne:

Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma
partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA, se
um TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA
fica diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO,
como se fosse o SOLAR de teus AMIGOS ou
o TEU PRÓPRIO; a MORTE de qualquer
homem ME diminui, porque sou
parte do GÊNERO HUMANO.
E por isso não perguntes
por quem os sinos
dobram; eles
por ti.


J Estanislau Filho - Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros- Editora Protexto - página 76 -  Primeira edição 2012

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