domingo, 10 de janeiro de 2016

O Encontro














Acordei ao som do telefone, que tocava insistentemente. Esfreguei os olhos e fui, sonolento, atender. A voz feminina do outro lado me disse que eu era o pai de um certo Valmir. Olha, creio que você está enganada, respondi. Não há engano algum, você é o pai. Tum-tum-tum...
     Uma semana depois meu sono fora novamente interrompido pelo toque do telefone fixo. A mesma voz, um filho lindo, uma criança doce e você não demonstra nenhum interesse por ele, que tristeza! Eu não queria, mas sabe como é... o garoto cresceu, exige que eu lhe apresente o pai... Tum-tum-tum...
     Pensei em instalar um identificador de chamadas. Alguém estava decidido a me perturbar.
Acordo. De um salto atendo o telefone, você não virá mesmo? Fingindo inocência. É isso. Aqui é Juciléia, seu canalha, lembra agora quando revirava os olhinhos? Tudo bem Gutembergue, esqueci de passar o endereço, anota aí... Vou esperá-lo na rodoviária dia três às oito horas. Só existe um horário de ônibus aqui nesse fim de mundo. O garoto está ansioso de te conhecer, venha! Caramba, ela sabe o meu nome! Anotei o endereço em um pedacinho de papel e voltei pra cama.
     Dia três, quatorze horas, o telefone toca, acordo cambaleando, olha aqui seu canalha, se não vier na próxima quarta-feira a gente se encontra nas barras do tri-bu-nal, entendeu? Exames de DNA, pensão retroativa. Está bem, irei. Tum-tum-tum ...Anotei o endereço noutro papel e voltei pra cama.
     Selei o cavalo e fui dar um passeio pelos páramos. A brisa alvoroçava meus cabelos. O sol batia em meu rosto, de cheio. Um flautim-rufo empoleirado em uma árvore. Apeei à beira do córrego e me sentei sobre o tronco de uma árvore caída.
     Gutembergue é o meu nome. Homenagem ao Gutenberg, inventor da imprensa. Coisa do meu pai. Mas o escrivão certamente nunca tinha ouvido um nome esquisito e registrou-me assim. Cidade pequena, interior, meu pai, analfabeto funcional me dissera mais tarde que tivera de explicar ao escrivão como se escrevia Gutembergue... Não filho, ele não teve culpa. Mas pai, isto não importa, podia ser Alexandre, Heráclito, Pedro, tanto faz.
     Acabei esquecendo de ir ao encontro de Juciléia, conhecer Valmir. Mas Ju e o pirralho estavam dispostos a me colocar contra a parede. Vou dar-lhe uma última chance, Gutembergue: se não vier a jiripoca vai piar, não estou brincado! Está bem, irei, esqueci. Por causa do meu cavalo, a brisa, o flautim-rufo ... O quê? Está me achando com cara de otária? Desta vez irei sem falta, passa o endereço. Perdi. Anote aí, imprestável!
     Ônibus lotado. Saída à meia-noite. Calor. O motorista se dirige aos passageiros. Explica a duração da viagem, as paradas e pede para colocarem o cinto de segurança. Vejo que só eu me afivelo. Algumas pessoas conversam entre si. Ao meu lado um sujeito forte ocupa parte da minha poltrona, atirando-me ao corredor. Face de magarefe. O ônibus ganha as ruas com destino a... Ao entrar na rodovia o magarefe começa a roncar. Cutuco sua costela gelatinosa. Ele se mexe. Fico mais espremido. Volta a roncar.
     Oito da manhã desembarco na rodoviária: uma pequena cobertura de telha de amianto, para um ônibus, na rua principal. Uma mulher de olhos puxados espera, segurando um garoto pela mão. Você é a Juciléia? Pergunto. E este aqui é o Valmir, dá um abraço em seu pai, filho! Ei, diz alguma coisa ao seu filho. Mas não sei o que dizer, digo, oi Valmir. Trouxe algum presente? Não tive tempo, o flautim-rufo... Como assim? você ia dar um flautim, que é isso, uma flauta? Tenha paciência! Ah, também o cavalo, sabe, o sol, também por causa do casal de sabiá construindo o ninho... Não vou discutir com você na frente do garoto, seu filho, Gu-tem-ber-gue! Tiro do bolso algumas moedas, dou ao menino, que sai correndo. Entra no bar, aos pulos. Olho... Um filho. Meus pensamentos se voltam para o flautim-rufo. Juciléia faz um gesto qualquer, diz algo, mas não ouço. O sol está quente. Queima a minha pele. O suor escorre. Que horas o ônibus retorna? Como assim? Não me diga que veio conhecer seu filho e... não acredito! Mas já conversei, olha lá, ele comendo chocolate. Juciléia se dirige ao pequeno público, que se encontra na rua, de frente aos botequins. Pessoal, prestem atenção neste homem, diz com o dedo em riste em minha direção. Vocês sempre me perguntaram pelo pai do meu filho. Este homem é o pai de Valmir, este menino que vocês vêm aqui na praça quase todos os dias. De hoje em diante não precisam perguntar mais. Todos sabem da minha luta para sustentar este menino, meu filho lindo! Mas o pai dele só fala em flautim-rufo. Por acaso algum de vocês trata um filho assim? Sei que não, pois conheço cada um aqui presente. Mas quem é Gutembergue? Não beijou o filho, nem disse meu querido, papai está aqui e te ama...
     A rua começa a ficar pequena para a turbamulta, que me rodeia. Olham-me de modo estranho. Juciléa não para de discursar. Tapo os ouvidos com as palmas das mãos. É assim que trata seu filho? Digo que a viagem foi longa e cansativa, não dormira, um sujeito roncava, o flautim-rufo... À merda o flautim, à merda seu cansaço, estamos falando de um filho, cafajeste!
     
Não me lembro de mais nada. A enfermeira mede minha pressão e sorri. Pergunto pelo flautim-rufo. Ela me sorri novamente e diz que ele está bem. Durmo em seguida.


Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros. Acessem www.protexto.com.br 

12 comentários:

  1. Sempre surpreende no total e principalmente o final inesperado. Parabéns pela centésima vez.
    Tião irmão do Enes

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  2. Obrigado pela centésima vez, Tião rsrs. Volte sempre.

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  3. Um conto que supreende, muito bem escrito, meus parabéns, Stan***** Luiza

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    1. Obrigado pela gentil presença. Volte sempre. Abraço.

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  4. Sempre é supriedente ler seus contos que sempre tem um alho de verdade...

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    1. Cada cabeça uma sentença. Obrigado Ailton. Seja bem-vindo.

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    1. Obrigado, escritor, poeta e jornalista Carlos Costa

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  7. Esse tal de Gutembergue que se cuide...�������� beijo em seu coração!Maria Luiza...

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  8. Obrigado, Luíza. Este conto é um tanto hermético, uma viagem onírica, que foge a linguagem padrão de começo meio e fim. O fio condutor se fragmenta, confundindo, muitas vezes o leitor. Sua leitura é sempre bem-vinda. Abraço.

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