domingo, 12 de novembro de 2017

O Amor





Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,

apareça

numa alameda do zoo,

sorridente,

tal como agora está

no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela,

que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século

ultrapassará o exame

de mil nadas,

que dilaceravam o coração.

Então,

de todo amor não terminado

seremos pagos

em inumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava

como um poeta,

repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!

Quero viver até o fim o que me cabe!

Para que o amor não seja mais escravo

de casamentos,

concupiscência,

salários.

Para que, maldizendo os leitos,

saltando dos coxins,

o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,

que o sofrimento degrada,

não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:

- Camaradas!

Atenta se volte a terra inteira.

Para viver

livre dos nichos das casas.

Para que doravante

a família seja

o pai,

pelo menos o Universo,

a mãe,

pelo menos a Terra.


                                                    imagem: www.jornalviladerei.com



Vladimir Maiakovski (1893-1930)



O poema foi adaptado por Caetano Veloso e outro cara, e cantado também por Gal Costa. Não tenho certeza da tradução (que vi há muito tempo). Segundo um site, vejo agora, Maiacovski fala da dificuldade de traduzir seus versos. Acho que Caetano suavizou a força subversiva do poema.

Fonte: https://jornalggn.com.br/noticia/o-amor-de-vladimir-maiakovski

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Hora de reagir





Não há como saber se as flores aos finados são todas merecidas, é certo, porém, que os homenageados tiveram dias bem menos atormentados do que os nossos. Nunca o Brasil viveu tempos iguais aos desencadeados pelo golpe de 2016, nem mesmo nos 21 anos de ditadura.

Explico.

Os golpistas de então armaram uma arapuca para si mesmos, presas da típica hipocrisia nativa, inventaram um sistema eleitoral e até o AI-5 mantiveram o Congresso em atividade, fecharam-no para reabri-lo mais tarde. Houve oposição valente, e o Ato Institucional foi sua consequência. Daí em diante, as cassações multiplicaram-se, nem por isso a resistência parlamentar arrefeceu.

O MDB liderado por Ulysses Guimarães ofereceu abrigo a todos os opositores e nas eleições de 1974 colheu vitórias significativas. Foi neste momento que o general Golbery começou a cogitar da reforma partidária concretizada cinco anos depois, com o propósito de estilhaçar a aliança oposicionista. E nem assim deu certo.

Houve também a resistência armada dos inconformados irredutíveis, e o resultado foram mais de 400 assassínios e a tortura de milhares. Mas houve também a sedimentação da esperança de muitos de que algum dia finalmente raiaria o sol da liberdade.

E resistência houve, extraordinária, com as greves do ABC, de 1978, 79 e 80, e o surgimento da liderança de Luiz Inácio da Silva, dito Lula, à testa de uma nova leva de sindicalistas habilitados a substituir os pelegos. Vale dizer, ainda, que os militares souberam impor seu nacionalismo à casa-grande, que os convocara para o golpe de 1964. Com isso, ao menos, o País não sofreu o risco do entreguismo.

A situação atual nasce de uma hipocrisia infinitamente mais descarada do que aquela que orientou a ditadura, com o desplante de se vestir de legalidade. Poderia, no entanto, ser de outra forma se o golpe de 2016 foi desfechado pelos próprios poderes da República?

Falsos os motivos do impeachment, Constituição rasgada sem a mais pálida interferência dos guardiões da lei, enquanto o Legislativo empossava o presidente ilegítimo, herói inconteste da corrupção generalizada.

Objetivo do golpe: tornar Lula inelegível graças à Inquisição do Santo Ofício de Curitiba, pronta a condenar sem provas o ex-presidente com a bênção de Tio Sam. Entende-se: tal é a garantia de transformar o Brasil em Estado mínimo neoliberal, sujeito às conveniências de Washington e do capital estrangeiro.




A venda do pré-sal, que avalizava o futuro do País, já está selada, de sorte a preparar a privatização da Petrobras, da qual se tirou o bem maior. Na pauta, também, a privatização da Caixa Econômica Federal, e isso tudo a preços de liquidação.

A reforma trabalhista, que nos devolve ao passado remoto, entra em vigor em novembro para alegria da Fiesp no mesmo instante em que os ruralistas se regozijam com as chances oferecidas à sua vocação escravagista.

A intolerância reina em todos os aspectos mais retrógrados, a confirmar a medievalidade verde-amarela. De fato, a casa-grande consegue se afirmar da maneira inatingida com a ditadura. Tudo se faz para favorecer ricos e super-ricos, em nome de um internacionalismo que agrada apenas ao capital.

Haveria de ser a hora da indignação e da revolta, mas, diante da inércia do povo espezinhado, da resignação dos trabalhadores, da ausência de lideranças, sobra é a desesperança. Permito-me insistir na ideia formulada na edição passada, a Operação Misericórdia pelo Brasil, para convocar os nossos leitores à tarefa de conscientizar todos aqueles ao seu alcance.

Emprego um verbo antigo, conscientizar, ao recordar a ousadia das “reformas de base” propostas pelo governo de João Goulart. E logo viria o golpe. A almejada conscientização não se deu até hoje e o momento é de impasse. Não há como acreditar nas eleições de 2018, desde que os golpistas não têm candidato, mesmo na ausência de Lula.

A história soletra que,  em situações similares, a única saída foi representada por fortes abalos sociais, povo na rua preparado para a luta se necessário, comandado por líderes determinados. Gostaria de me enganar, parece-me, porém, que carecemos de conscientizadores e conscientizados. Em compensação, mais de 61 mil brasileiros foram assassinados em 2016, ao ritmo de 7 por hora.

Mino Carta

fonte: https://www.cartacapital.com.br/revista/977/hora-de-reagir





quinta-feira, 2 de novembro de 2017

As coisas no seu devido lugar

                                                               Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Fotos Públicas (17/03/2016)



Fernando Horta e Patrícia Valim


Classe média tem tomado um rumo contrário aos próprios interesses; análise histórica e sociológica mostra que é difícil apontar um único fator para surgimento deste grupo social

Há evidentemente uma pergunta a ser respondida pelos historiadores, sociólogos e cientistas sociais: por que a classe média brasileira tomou o rumo político supostamente contrário aos seus próprios interesses materiais e, de lambuja, levou o Brasil a uma crise sem precedentes?

Já há algum tempo diversos intelectuais, pesquisadores, professores têm se debruçado sobre esta questão. Desde o argumento do fim da “política de compromisso de classe” que via em Lula um segundo governante (depois de Vargas) a concertar o país num pacto entre as classes, passando pelo “fim do lulismo”, numa explicação que envolvia um argumento econômico de compromisso (fazer todos crescerem) e um político moral (aliança com o PMDB e as “antigas oligarquias”), até chegar no argumento da alienação da classe média por “interesses internacionais” que se materializariam no petróleo e no desmonte das indústrias pesadas brasileiras; a verdade é que há o reconhecimento da mudança de postura hoje deste estamento social (classe média) em relação aos primeiros dois governos de Lula.

Sobre a classe média brasileira, Marilena Chauí apontava, em 2013, que ela era “uma abominação política, porque é fascista; uma abominação ética porque é violenta; e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”. Recentemente, Jessé Souza foi além e, em seu livro, “A elite do atraso: da escravidão a lava-jato” (Leya, 2017), afirma que nossa classe média também é racista: “Um brasileiro de classe média que não seja abertamente racista também se sente, em relação às camadas populares do próprio país, como um alemão ou um americano se sente em relação a um brasileiro: ele se esforça para tratar essas pessoas como se fossem gente igual a ele” (p. 22).

Ambos concordam com o diagnóstico de uma classe média divorciada do restante do país. O mesmo argumento, aliás, usado pelos grupos que fizeram o golpe, embora por motivos diferentes. Para Chauí, o divórcio tem razões ontológicas, a classe média “é” de uma certa forma, indiferente ao que se possa fazer politicamente por ela. Para Jessé, a separação tem razões sociológicas: eis que a classe média, induzida pelo discurso de intelectuais que legitimam um “culturalismo racista”, teria tido sua formação dentro de uma ótica excludente, que Jessé remonta à escravidão brasileira.

Duas coisas interessantes chamam à atenção: dois intelectuais de primeira grandeza da esquerda brasileira afastam-se das formas de explicação marxistas do fenômeno. Tanto Chauí quanto Jessé, apesar de usarem raciocínios estruturalistas em suas argumentações, partem para noções mais ligadas à identidade e às mentalidades dos grupos sociais. A questão material precisa ser descartada de suas explicações, afinal, durante o período de 2003-2011, nos governos Lula, e depois no primeiro governo Dilma (2011-2014) os números são incontestes sobre o enriquecimento da classe média.
Como explicar, então, que estes agentes político-sociais tenham ido contra as premissas dos atores racionais e das percepções do materialismo histórico de que “em última análise” as questões econômicas deveriam fazer-se sentir? O argumento é sempre o da burla, do engano, do mal-entendido ou do mal-dirigido. Ou Lula enganou a classe média (como tentam desesperadamente manter os grupos apoiadores do golpe), ou a classe média – vil em sua essência – apenas se uniu ao projeto lulista enquanto lhe parecia favorável. Ou ainda, a classe média – ignorante e incapaz de livrar-se de suas “falsas verdades” – foi presa fácil para um grupo de agentes invisíveis que podem ser nacionais (a “elite do dinheiro”, segundo Jessé) ou internacionais (“o capitalismo internacional”). Em algumas versões, há uma articulação que beira o enredo de um romance policial entre estas elites – nacionais e internacionais – de forma a atacarem o Brasil.

Mas e se esta ideia da “burla” sobre a classe média estiver errada? E se a classe média brasileira sempre agiu de forma racional? Como coadunar o divórcio da classe média sem colocar no colo de Lula e de parte da esquerda a culpa por uma corrupção que a vara de Curitiba não consegue provar? Uma das formas de escolhas entre as explicações científicas, chamada de “A Navalha de Ockham”, afirma que “se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor”. Por que temos que transformar em variável determinante o insondável da moral de toda uma classe para explicar o problema sem articular essa variável com as demais esferas dessa realidade? Por que temos que voltar aos primórdios da colonização brasileira e resgatar – com certo descuido – a ideia de “escravidão”, e não de escravismo, para explicar, duzentos anos depois, as escolhas políticas de milhões de pessoas?

Não que se negue que a escravidão tenha um papel fundamental na história do Brasil. Tem, embora seja preciso dizer sobre que escravidão se está falando, porque ela não foi igual nem na geografia brasileira nem na sua história.  Em Portugal houve escravidão; no Brasil: escravismo, escravidão sistêmica. A questão é que houve também outros condicionantes estruturais que poderiam ser invocados como “ideias-força” a moldarem o nosso escravismo: catolicismo, analfabetismo. Todos já foram utilizados em macro-explicações sobre o Brasil: aquelas que querem dar uma razão estrutural às escolhas de mais de 250 milhões de pessoas espalhadas por mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Durante toda a nossa história. Estas tentativas extrapolam qualquer possibilidade de uma síntese sobre algo tão complexo como é o nosso passado, a partir das inúmeras pesquisas elaboradas nas últimas décadas, com profundidade e rigor científico sem mobilizar a falácia da “linguagem fácil”. Até porque, na atual conjuntura, não dispomos de recursos para nos colocarmos à busca de uma explicação para todos do país em todo o tempo. Ainda que isto nos pareça possível e desejável.
Por ora, propomos uma explicação mais simples. Com dados mais próximos no tempo. E, principalmente, que afasta a ideia de “burla”, de engano seja da classe média para com o resto do país, seja do governo para com a classe média, seja, ainda, de certa esquerda e seus intelectuais. Não nos parece que esta classe média esteja “jogando contra si” quando se colocou contra o governo Dilma, apoiando decisivamente o golpe de 2016. É claro e evidente, como têm mostrado as notícias atuais, que cresce o fascismo e que alguns elementos podem se encaixar perfeitamente na descrição de Chauí. Também parece possível que grupos pensem, como Jessé afirma, e que sejam, portanto, a vanguarda do atraso brasileiro.

Contudo, por mais que essas narrativas nos pareçam lógicas, simples e que concordemos com elas, não é disso que são feitos os estudos científicos. Sejam eles de disciplinas ditas “exatas” ou “humanas”. O senso comum não é o condão que nos levará do ano zero até o século XXI, em uma trajetória que explicará a politização da Lava-Jato. Também não nos parece que seja possível, por meio de uma fragmentada percepção sobre a identidade de determinados grupos, que consigamos derivar – sem mediações – suas posturas políticas. Acima de tudo, não acreditamos que a classe média seja “contra um projeto de país” ou que tenha “se deixado enganar” pelos grupos A ou B.
Em um estudo publicado em 1951, o sociólogo Charles Wright Mills fazia uma distinção essencial dentro da sociedade norte-americana: havia um grupo de trabalhadores, que ele denominou de “White collars workers” que se distanciavam dos trabalhadores normais (simples proletários). Este grupo, não era sensível aos apelos de ideologias proletárias de esquerda, não via nos movimentos organizados de proletários qualquer apelo, embora fossem – nas concepções clássicas – trabalhadores assalariados. Estes grupos, na visão de Mills, se viam não como “vendedores” de sua força de trabalho, mas viam-se com capacidade de negociar muitas outras qualidades que julgavam ter. Seus contatos pessoais, sua liderança sobre outros grupos de pessoas, suas capacidades de criar e vender discursos, visões de mundo e etc.

Mills mostrava que este grupo não apenas se via como diferente dos trabalhadores braçais, como ocupavam posições diferentes deste. Seja no governo ou na iniciativa privada. Exigiam, pois, que houvesse uma diferenciação num momento em que – em função da Guerra Fria – havia um apelo da esquerda para que todos reconhecem-se “proletários”. O argumento do sociólogo americano encaminhava-se para um pacto entre grupos sociais em que ambos saíam ganhando: as verdadeiras elites econômicas (aquelas que podem viver sem trabalhar) viram nos “White collars” um cordão de isolamento dos grupos proletários. Por outro lado, estes grupos de trabalhadores aceitavam a postura de defesa das elites desde que recebessem financeiramente mais que os trabalhadores braçais, tivessem seu status social reconhecido como diferenciado e pudessem gozar dos benefícios que a vida capitalista e urbana poderia oferecer
.
No argumento de Mills, não há burla, não há engano. É um pensamento puramente auto-interessado. Uma troca de favores que fazia com que estes grupos, fincados na burocracia estatal ou no campo privado das profissões com mais alto grau de conhecimento técnico, aceitassem ser porta-voz da ideia da diferença social como base de funcionamento de qualquer arranjo de sociedade. Tais grupos poderiam compor funções como juízes, procuradores, médicos, engenheiros, professores universitários e toda sorte de empregos urbanos que hoje chamaríamos – com algum grau de generalização possivelmente indevida – de profissionais liberais, burocracia de estado e postos de comando e estratégia capitalista. Se é verdade que estes grupos não eram a “elite” econômica, pois continuavam dependendo do seu trabalho para sobreviver, também é verdade que eles não eram proletários submetidos às pressões mais primárias do capitalismo exploratório.

Havia aí uma ruptura na ideia de que “os proletários do mundo devem se unir” para lutar contra os grupos opressores. Alguns proletários aceitavam melhores serviços, melhores pagamentos e passavam a compor um primeiro escalão de defesa política contra uma sociedade igualitária e mesmo contra ideias revolucionárias. Eram os White-Collars (que no Brasil vão virar a “Classe Média”) que aceitavam serem os controladores do discurso social. Exercendo seus micro-poderes em benefício da manutenção do sistema como está. Não serão nunca elite econômica e em contrapartida recebem desta elite a segurança de que jamais serão “proletários”.

             
                                                            Tânia Rêgo/Agência Brasil

No Brasil, o argumento de que nossa classe média tem alguma relação direta – ainda que de mentalidade – com a escravidão sofre de sérios problemas. Primeiro porque entre o fim da escravidão e a composição de uma classe média urbana e industrial existe quase cinquenta anos. Se é verdade que podemos argumentar que nosso país ainda não se livrou do preconceito racial não se pode dizer que escravidão ainda está entre nós. Tampouco que a classe média urbana brasileira, formada apenas a partir dos processos industriais do final dos anos 30 se consolidou enquanto grupo social antes do final da segunda guerra mundial. Há um espaço de tempo bastante razoável entre o fim da nossa escravidão e o surgimento de nossa classe média urbana. Este espaço não pode ser coberto pelo prolongamento de explicações estruturais, pura e simplesmente
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Os historiadores que se debruçam sobre o século XIX no Brasil, mostram três características interessantes a respeito dos nossos grupos urbanos. Embora ainda não possam ser chamados de “classe média” (porque ausentes estão as questões industriais que transformam o século XX brasileiro) são chamados, na literatura, de “Estratos médios urbanos”. Normalmente, eram grupos que tinham a formação semelhante aos “White collars” de Mills (médicos, advogados, engenheiros ou partícipes de burocracia estatal), mas que dividiam o espaço urbano com dois outros grupos de cidadãos. De um lado, a um grupo de “bem-nascidos” empobrecidos, que ainda ocupava os cargos dirigentes da burocracia do Estado por meio de relações de clientela e lealdades pessoas, e, de outro, comerciantes que eram mais ou menos ricos dependendo de sua atividade. Se ligadas ao tráfico negreiro tinham mais acesso a recursos, se ligados a venda de bens de consumo urbano, gozavam de menos recursos e mesmo inserção nos poderes de Estado.

Assim, a chamada “classe média” brasileira que vai surgir no final dos anos 30 é formada, no mínimo, por três diferentes grupos e imaginar que ela toda tem uma mesma mentalidade de origem não parece um pressuposto empiricamente sustentável. Entretanto, o pacto que descreve Mills para as sociedades industrializadas (no caso os EUA) já era presente no Brasil desde meados do XVIII. José Murilo de Carvalho mostra que a nobreza brasileira nunca foi nobreza hereditária, dependendo da boa vontade da coroa portuguesa primeiro, e depois do imperador para fazer com que o filho de um Barão, fosse também Barão. É claro que esta “boa vontade” tinha seu preço. A submissão das elites urbanas, ideológica e socialmente, aos desígnios da monarquia é característica que só se rompe no Brasil na última década do século XIX. Nossos estratos médios, pois, sempre se colocaram na função social que Mills descreve: como um guardião da desigualdade social visto como privilégio aos que tem “mérito”.

Da mesma forma, os comerciantes brasileiros não se comportavam de forma capitalista.  Fernando Novais, Stuart Schwartz, João Luís Fragoso, entre outros e outras, demonstram que durante muito tempo, comerciantes que eram riquíssimos em função de sua atividade não mobilizavam seus capitais para reinvestir em seus negócios, pois preferiam adquirir terras e escravos - passando, assim, a cortejar a coroa com objetivo de “ascensão social”. Ser rico, na sociedade brasileira dos períodos colonial e imperial, era ter terras e escravos, de maneira que a questão simbólica relacionada à distinção sempre foi preponderante no Brasil.

Lembremos que a partir da segunda metade do século XVIII, qualquer reforma da coroa portuguesa que colocasse em risco a “natural desigualdade entre os homens”, base do Antigo Regime, foi duramente combatida. Foi assim em 1773, quando o Marquês de Pombal decretou o fim da escravidão em Portugal, presente desde o início do século XV, causando desespero aos escravistas no aquém e no além-mar. Foi assim durante as reformas de outro Ministro da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, d. Rodrigo de Sousa Coutinho, que entre os anos de 1797-98 propôs uma política de tributação justa, o fim dos Morgados, dos monopólios e maior controle no tráfico de escravos, e os setores dominantes protestaram duramente até que conseguiram a manutenção de seus privilégios e a dinamização do tráfico de escravos. Foi assim, também e sobretudo, durante as lutas pela independência política do Brasil, 1821-1824, nas quais as elites provinciais só aderiram à causa quando a permanência do escravismo e do tráfico de escravos não corriam riscos. Aliás, cumpre destacar, que a nossa unidade nacional deve muito ao escravismo – escravidão sistêmica - como projeto de futuro do Estado brasileiro, após a outorga de 1824, como demonstra Luiz Felipe de Alencastro. 

As razões pelas quais as elites provinciais se movimentaram politicamente de forma hegemônica em relação a manutenção e ampliação do tráfico de escravos e do escravismo, no século XIX, está intimamente ligada ao fato de que a maioria desses homens frequentaram a Universidade de Coimbra Reformada, após 1772, instituição da Coroa Portuguesa responsável por conferir unidade ideológica às elites da sua principal colônia no empuxo das reformas pombalinas provenientes da Ilustração Portuguesa. Enquanto a Ilustração Francesa rompeu com o Antigo Regime, guilhotinando a nobreza, criando o Sufrágio Universal e a agenda de combate à escravidão com o Code Noir, a Ilustração Portuguesa fortaleceu o Antigo Regime português e as desigualdades sociais e as econômicas que lhes eram subjacentes e com apoio das elites locais por meio de um pragmatismo político sem precedentes. Esse é um fator importante a se considerar no processo de formação do Estado Brasileiro.

Além disso, as relações econômicas e suas ramificações materiais por todo o século XIX e boa parte do XX não devem ser analisadas sem levar em conta a nossa elite imperial e seu projeto de manutenção do escravismo como linha política do Estado Nacional. Isto é uma das explicações para que o Brasil não tenha iniciado um projeto industrial ainda no século XIX. Tínhamos um imperador dito intelectual, tínhamos um excesso de capital imenso (fruto da exportação de café) e mesmo assim nenhuma capacidade de transformação desta estrutura econômica em algo capitalista, como fizeram os EUA, por exemplo.

Assim, os núcleos urbanos brasileiros que vão se fortalecer a partir do final dos anos 30 eram compostos de pessoas que tinham no simbolismo social da distinção um valor importante, que aceitavam de bom grado a postura de contenção das classes baixas pelo domínio dos mecanismos de convencimento e coerção e que viam o espaço geográfico das cidades como seus espaços sociais. A este grupo, após as mudanças estruturais de Vargas, vão se unir os proletários urbanos e os “white collars” propriamente ditos. No Brasil, portanto, esta elite de trabalhadores de colarinho branco (que vai se transformar na nossa classe média) tem diversas origens sociais e diferentes explicações para a chancela moral da desigualdade, proveniente da escravidão somada ao pacto social que tem como um dos atores o próprio Estado, ou mesmo a própria ideia de diferenciação proletária urbana que detectou Mills.

Nossa classe média prefere manter símbolos de superioridade do que receber possibilidades de ascensão econômica. São aqueles grupos que compram carros com valores muito mais altos no Brasil do que no resto do mundo (chamado de “preço Brasil”) e que só são praticados aqui mesmo. Porque, o carro, o celular, a casa na praia ou a mobília da sala não valem o seu “valor de uso”, mas são medidas por um referencial de diferenciação social que é a gênese da própria classe média brasileira. Ela não empreende porque não lhe interessa o risco, mas ela busca financiamentos maiores do que poderia pagar por itens que sejam demonstradores de sua diferenciação. Escolhe locais na cidade para frequentar em função da diferenciação que ele pode oferecer. E, portanto, isto não é fruto de um racismo (embora o elemento de cor certamente esteja presente) mas é resultado do pacto social urbano brasileiro existente desde o século XIX. O negro sofre mais, mas o nordestino, o proletário ou aquele que não tem “berço” também não é aceito no grupo.

Neste sentido, o que fez o lulismo que desgostou tanto a este grupo? E porque ele não se revolta com Temer e a destruição do país? A verdade é que diante deste pensamento, Lula é mais perigoso que Temer. Lula, por diminuir a diferença relativa entre os proletários e os “White collars” e por fazer com que os espaços geográficos e institucionais começassem a ser partilhados. Desta forma, o governo Lula obriga que os privilégios de acesso aos bens públicos começassem a ser diminuídos, com um número cada vez maior daqueles que “não tem sua posição meritocrática na sociedade” entrando em universidades, exigindo seus direitos serem respeitados pela polícia ou invadindo áreas que não eram de seu espaço social (como shoppings, cinemas, restaurantes ...).

Por outro lado, Temer representa a certeza de uma sociedade desigual, fundamentalmente desigual. Em que cada grupo “sabe o seu espaço”. E, ainda que Temer empobreça o país e diminua os ganhos que eventualmente esta classe média tenha, se ele o fizer de forma desigual será aceito. Se as classes baixas caírem ao limite da fome e não representarem problema para as hierarquias sociais, a classe média se adaptará à nova realidade econômica imposta por Temer. A classe média se entenderá em perigo se houver o desmonte das máquinas estatais que abrigam grande parte de seus membros. Por isto Temer sofreu maiores protestos com o congelamento dos salários do que com o fim da CLT. É também por isto que os políticos estão com medo de votarem a reforma da previdência e recuaram em propostas sobre polícia e exército.

Para a compreensão desse processo não é necessário recorrer ao ano zero da nossa história por meio de uma metodologia nada rigorosa na qual se cobra de um ensaio de 1936 as explicações do movimento político da esquerda brasileira na crise deflagrada desde 2013. Não é preciso desqualificar autores que forneceram análises sobre os nossos dramas para demonstrar o que muitos já demonstraram: o liberalismo brasileiro conviveu bem com o escravismo e ainda convive com a nossa histórica desigualdade social, racial, econômica e de gênero. Não é preciso, também, rebaixar parte da intelectualidade brasileira à condição de “imbecil” e parte da esquerda à condição de “vítima” em razão da “introjeção do liberalismo pela esquerda brasileira” para justificar o presidencialismo de coalização e as alianças que lhe são subjacentes. A esquerda deve disputar a institucionalidade porque ela é a única capaz de colocar em prática um projeto de combate históricas às desigualdades brasileiras. Também não precisamos culpar uma grande conspiração internacional para dominação do país. A explicação mais simples é sempre a melhor. Nossa classe média é fruto de uma fusão de grupos urbanos nobiliárquicos empobrecidos, comerciantes sem os valores capitalistas e um novo bloco de trabalhadores urbanos industrial que acordaram tacitamente em fazer a função dos “White collars”, descrita por Mills.

Eu não me importo de empobrecer de forma absoluta se for mantida a desigualdade social e econômica de forma relativa aos grupos menos privilegiados. E eu vou lançar todo o meu ódio contra aqueles que tenham “traído” este pacto. Que com o meu voto tiverem criado um sistema de aproximação de classes por meio de subsídios econômicos, que chegou a envolver a aproximação física de espaços geográficos e institucionais. Este governo não merece perdão. E isto não tem nada a ver com a corrupção. Tem a ver com a “natural desigualdade entre os homens”, conforme entendida por tais grupos urbanos.

Eles queriam “o país deles de volta”. Este sentimento foi canalizado pelos interesses internos e internacionais, numa briga cada vez mais clara entre liberais internacionalistas, fascistas e grupos corruptos que lutam pela sua própria existência. Os três, entretanto, concordam que a sociedade é – e deve continuar sendo – desigual. Fundamentalmente desigual. O ódio é a qualquer ideia de igualdade de direitos, e a diminuição das desigualdades sociais será combatida violentamente. E a corrupção é apenas uma das ferramentas que dispõem estes grupos para fazer as coisas “voltarem ao normal, ao seu devido lugar”. Se Temer faz uso dela para manter o Brasil um país estratificado, ele nunca escondeu isso e não há problema algum para esses grupos, porque esse é seu projeto de país. Não se podia é construir uma sociedade igualitária. Isto não se pode aceitar. Igualdade jamais. Cabe à esquerda a tarefa de construir a igualdade em todos os tempos e em quaisquer condições históricas. 



                                                                                        Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/geral/48301/as+coisas+no+seu+devido+lugar.shtml

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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Luz de vela






Uma luz de vela lumia seus olhos.
Há no seu olhar um cintilar que confunde emoções
e a terra gira ao redor do sol
como se o sol fosse uma imensa vela
sob o céu que nos protege uma criança brinca
de ajudar formiga carregar sua carga de folhas.
A luz do mundo brilha e um transeunte
cumprimenta o vendedor de algodão doce.
Ele passa a mão na cabeça da criança
e de seus dedos saem chamas como se fossem velas acesas.
A formiga vence obstáculos sem a ajuda da criança
e lança olhos de gratidão
e já não há mais crianças abandonadas
na ilusão do poeta.


J Estanislau Filho







Imagem 1: Google

Imagem 2- velas: joaocarlosdeoxala

sábado, 28 de outubro de 2017

O outro mundo de Lula





Quando a gente lembra da badalação que a elite brasileira fazia a Lula, no tempo das vacas gordas – para eles, obesíssimas – bem poderia vir à mente a ciranda infantil: O anel que tu me destes/Era vidro e se quebrou/O amor que tu me tinhas/Era pouco e se acabou.
Salvo raras exceções, a nata da imprensa brasileira – alguns deles, quando jovens, encantados com o “operário na política” – trata Lula com um desprezo e nojo que, no fundo, têm ao tempo em que eram, ou pensavam que eram, mosqueteiros da “esquerda”.
Mas quando a gente olha a coleção de pinturas – desculpem, não são fotografias – feitas pelo Ricardo Stuckert durante a peregrinação que Lula faz pelas lonjuras do Brasil, vê-se que existe um amor que não é pouco e sobreviveu à mais intensa e canalha campanha de propaganda que já se desenvolveu no Brasil contra um líder político desde a que se fez contra Vargas. Mesmo contra Brizola, tenho de reconhecer, os limites foram superados e olhe que não é fácil fazer contra alguém o que a Globo fez contra ele.
Só não é, aliás, maior do que aquela que se fez contra Getúlio porque a este se acusou de ser mandante de um assassinato, o de Rubens Vaz.
A mim, a emoção que transborda no rosto das pessoas impressiona mais que a visão dos montes de gente que se atrai a vê-lo, debaixo de  sol, neste Brasil que não é brilhante e azul como o mundo das elites, mas encardido das poeiras da terra castigada que somos.
Fico com pena de quem tem de escrever o pouco que sai desta marcha na imprensa e nas redes sociais. Como descrever com palavras o que está na imagens do “Stuquinha”? Como provocar um entendimento  igual com um ” a lavradora Maria de Souza, 72 anos, se emocionou quando Lula…” diante da visão do rosto esculpido pelo tempo, pelo sol e pela pobreza?
Os intelectuais de pretensão grande e coração pequeno chamam logo de “populista” o que veem. O povo brasileiro, para eles, é uma terceira pessoa, alguém distante do que ele próprio é que, no máximo, precisa ser “ajudado”, quando muito.
O que vejo ali, creiam-me, é um Lula que só não está plenamente feliz porque tem um medo, que não é de Moro.
É do tempo.
De  novo peço a bondade, senão a de me acreditarem, a de ouvirem quem acompanhou um personagem da história das lutas sociais do povo brasileiro: não é retórica quando Lula diz que gostaria de não ser candidato, mas tem o dever de sê-lo.
Essa é a força que anima a sua candidatura.
Ela não vem de dentro para fora, mas de fora para dentro do mundo político.
Geraldo Alckmin definiu “Preparado para o Brasil” como slogan de sua campanha.
Quase igual e completamente diferente do que é Lula, que é muito maior do que suas qualidades e defeitos pessoais, como todos temos.
Lula é preparado pelo Brasil, o fruto inevitável de um povo.

Fonte>http://www.tijolaco.com.br/blog/o-outro-mundo-de-lula/

Thamara Silva
















Se Thamara fosse tâmara
Fruta africana
Esta bela menina
Filha dos mares
Cantaria suas dores
Aos peixinhos do mar
Mãe dos pescadores
Deusa Iemanjá
Ísis Dandalunda Inaé Janaina
Thamara Silva
A filha pequenina
Flor de ébano
Beleza na selva...






J Estanislau Filho


Imagem 1 - Thamara
Imagem 2: google

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

magnólia







ao vê-la pela primeira vez foi uma síndrome
eu não sabia o seu nome
juro meu amor
que me senti menor
bem mais velho
carta fora do baralho
mas uma flor não desdenha
nem se acanha
e se fez atrevida
deu-me boas-vindas
espargiu perfume no ar
bela e sedutora magnólia
quando me olha
leva-me aos píncaros
sou pássaro
num voo de Ícaro
filho de Dédalo
feliz de ser seu vassalo.







Da série pra não dizer que não falei das flores

Imagem da flor: google
Imagem do autor: RR

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Yolanda





Do poeta de Electra a triste ária
Teve o dom de salvar da morte certa
De Atenas a muralha milenária.

Milton



Yolanda foi o que podia ser chamado de belzebu em forma de gente. O primeiro sinal foi, quando ao nascer, mordeu a mão do médico, que registrou o fenômeno em seu prontuário.

Ao terceiro dia do nascimento, a menina, que nasceu com tênues pelos ao redor do órgão genital, balbuciava as primeiras palavras, para desespero dos pais. A família trancou a filha a sete chaves. No primeiro mês de nascimento começou a rolar de um lado a outro da cama e engatinhou. Fome insaciável, após sugar todo o leite dos seios da mãe, mordia-os, irritada, pois os primeiros dentes nasceram prematuramente. Já no terceiro mês de vida deu os primeiros passos, derrubando objetos, enfiando dedo nas tomadas. Com menos de cinco meses, foi encontrada sobre o vaso, pernas abertas, acariciando a vagina, despudoradamente. Apesar do crescimento precoce, Yolanda seria uma adulta de estatura baixa, menos de um metro e meio, como será esclarecido adiante.

Os pais estavam desarvorados. Mas ao completar um ano, a garota, que tinha um corpo delineado, aquietou-se. Um fenômeno, que chamava a atenção de quem a visse. Pequenos seios redondos e salientes; coxas torneadas, bumbum avantajado. Um caso digno de estudos científicos, que não foi possível, por conta do receio dos pais. A partir dos sete anos transformou-se, de certa maneira em uma criança normal. Ia à escola regularmente, gostava de chocolates, brincava de boneca... Porém esse bom comportamento iria terminar por volta dos nove anos, quando um certo tio, em visita à irmã, não resistiu aos encantos da garota.
Os pais de Yolanda não poderiam imaginar que um parente próximo ousaria molestar a criança. Mas enganaram-se. De volta à casa, ficaram pasmados com a cena: O tio tombado sobre a cama, sem a cabeça. É isso, caro leitor e caríssima leitora: Yolanda lutou bravamente, para se defender e foi além: Com a navalha do pai e um único golpe no pescoço, a cabeça do tio caiu feito fruta podre no piso do quarto. Cama e piso cobertos de sangue. Mas onde estava a cabeça? Onde estava a garota? Os pais chamaram-na. Não houve resposta. Vasculharam todos os aposentos e nada de encontrar a filha.

A mãe lembrou de não ter averiguado o sótão. Lá estava a garota, segurando a cabeça do tio com uma das mãos, enquanto com a outra, perfurava-lhe os olhos com uma agulha. A mãe foi a primeira a abraçar a filha, seguida do pai. Yolanda soltou a cabeça, que rolou sobre o piso, como num filme de terror.

A polícia foi chamada e as investigações foram iniciadas. Yolanda começou um tratamento psicológico, mas em pouco tempo recebeu alta, sem que o psicólogo diagnosticasse alguma sequela. Não parecia ter ficado traumatizada com o acontecimento. Continuou estudando, tornou-se uma bela moça, compassiva, alegre, comunicativa, mas evitava os adultos. Entre os doze e dezesseis anos, pelo menos três corpos de homens foram encontrados sem as cabeças, nas adjacências da casa da garota, mas as mortes jamais foram esclarecidas. No bairro, muitos desconfiam da jovem.

Só aos dezessete anos deu seu primeiro beijo e se apaixonou por um homem mais velho que ela vinte dois anos e sete meses. Abandonou definitivamente a escola, para se casar. Teve filhos, educados com zelo.



Aos cinquenta e oito anos, Yolanda resolveu dar um novo rumo em sua vida. A pequena estatura era um estorvo. Depois de um ano de terapia, descobriu que o único motivo de ter estacionado em um metro e quarenta e oito de altura, foi resultado de um bloqueio, provocado pelo trágico evento na infância. Descobriu, também, ser portadora do complexo de Electra.



Imagens: Google




Um conto que integra a coletânea do livro abaixo:



Editoração eletrônica: Fernando Estanislau

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O QUE A VIDA SIGNIFICA PARA MIM






Nasci na classe trabalhadora. Cedo descobri o entusiasmo, a ambição e os ideais; e satisfazê-los tornou-se o problema da minha infância. Meu ambiente era cru, áspero e rude. Não via nenhuma perspectiva ao meu redor, por isso, o melhor era olhar para cima. Meu lugar na sociedade era nos fundos. Aqui a vida não oferecia nada, além de sordidez e miséria, tanto para o corpo como para o espírito. Por aqui corpo e espírito andavam famintos e atormentados.

Acima de mim se erguia o imenso edifício da sociedade e, em minha mente, a única saída era para cima. Logo resolvi subir. Lá em cima, os homens vestiam ternos pretos e camisas engomadas e as mulheres usavam vestidos lindos. Havia também coisas boas para comer e muita fartura. Abundância para o corpo. Depois havia as coisas do espírito. Acima de mim, eu sabia, havia despojamento do espírito, pensamentos puros e nobres e uma vida intelectual intensa. Eu conhecia tudo isto porque lera romances na biblioteca Seaside, nos quais, com exceção dos vilões e dos aventureiros, todos os homens e mulheres tinham pensamentos puros, falavam uma linguagem bonita e realizavam ações generosas. Em resumo, assim como eu aceitava o nascer do Sol, aceitava que acima de mim estava tudo o que era fino, nobre e belo, tudo o que dá decência e dignidade à vida, tudo o que faz a vida valer a pena e recompensa um homem por seu sofrimento e esforço.

Mas não é muito fácil para um homem ascender e sair da classe trabalhadora - especialmente se está cheio de ambições e ideais. Eu vivia num rancho na Califórnia, e era duro descobrir o caminho para subir. Cedo quis saber qual a taxa de juros do dinheiro aplicado, e preocupava meu cérebro de criança a compreensão das virtudes e excelências desta notável invenção do homem, os juros compostos. Mais tarde conheci os níveis de salário praticados para trabalhadores de todas as idades, e o custo de vida. Com todos estes dados, conclui que, se começasse imediatamente, trabalhasse e poupasse até os cinquenta anos, poderia parar de trabalhar e desfrutar de uma pequena porção das delícias e maravilhas que estariam a meu alcance um pouco acima na sociedade. E, claro, decidi não me casar, ao mesmo tempo em que me esquecia inteiramente de considerar esta grande causa da catástrofe no universo da classe trabalhadora - a doença.

Mas a vida que havia em mim exigia mais que uma pobre existência de restos e de escassez. Aos dez anos de idade, tornei-me jornaleiro nas ruas da cidade e descobri uma nova perspectiva. Tudo ao meu redor estava impregnado da mesma sordidez e desgraça, e acima de mim existia ainda o mesmo paraíso, esperando para ser conquistado. Mas o caminho para subir era diferente. Era o mundo dos negócios. Por que poupar meus ganhos e investir em papéis do governo quando, comprando dois jornais por cinco centavos, num piscar de olhos, podia vendê-los por dez e dobrar meu capital? O mundo dos negócios era para mim o meio de subir na vida, e eu me via como negociante quadrado e bem-sucedido.

Ai das visões! Quando tinha dezesseis anos me chamavam de “príncipe”. Este título me foi dado por uma gangue de assassinos e ladrões, que me chamavam de “O príncipe dos piratas de água doce”.

Naquele tempo eu tinha galgado o primeiro degrau no mundo dos negócios. Era um capitalista. Possuía um barco e uma tripulação completa de piratas de água doce. Tinha começado a explorar meus semelhantes. Toda uma equipe estava sob meu comando. Como capitão e dono, ficava com dois terços do dinheiro e dava à tripulação o outro terço, embora eles trabalhassem tão duro quanto eu e arriscassem tanto quanto eu suas vidas e sua liberdade.

Este degrau foi o último que subi no mundo dos negócios. Uma noite, participei de um assalto a pescadores chineses. Suas linhas e redes valiam dólares e centavos. Era um roubo, claro, mas era este precisamente o espírito do capitalista. O capitalismo toma os bens de seus semelhantes a título de reembolso, traindo a confiança ou comprando senadores e juizes de tribunais superiores. Eu era apenas mais grosseiro. Essa era a única diferença. Eu usava um revólver.

Mas, naquela noite, minha equipe agiu como aqueles incompetentes que o capitalista está acostumado a fulminar, sem dúvida porque estes incompetentes aumentam os custos e reduzem os lucros. Minha quadrilha fez as duas coisas. Por falta de cuidado, tocou fogo na vela principal, destruindo-a totalmente. Não houve lucro aquela noite, e os pescadores chineses ficaram mais ricos pelas redes e linhas que não pagamos. Eu estava arruinado, sem condições sequer de pagar sessenta e cinco dólares por uma nova vela principal. Deixei meu barco ancorado e saí num barco de piratas na baía para uma viagem de saques pelo rio Sacramento. Enquanto estava fora, outro bando de piratas da baía saqueou meu barco. Roubaram tudo, até mesmo as âncoras; e mais tarde, quando recuperei o casco abandonado, obtive apenas vinte dólares por ele. Tinha descido o primeiro degrau galgado, e nunca mais tentei o caminho dos negócios.

Desde então fui implacavelmente explorado por outros capitalistas. Tinha força física, e eles faziam dinheiro com isso enquanto que, apesar do meu esforço, eu levava uma vida banal. Fui marinheiro, estivador e grumete. Trabalhei em fábricas de enlatados, indústrias e lavanderias. Cortei grama, limpei tapetes e lavei janelas. E não ganhava nunca o produto inteiro do meu trabalho. Olhava para a filha do dono da fábrica de enlatados, em sua carruagem, e sabia que eram meus músculos que ajudavam a empurrar aquela carruagem em seus pneus de borracha. Via o filho do industrial indo para a escola e sabia que era em parte a minha força que ajudava a pagar seu vinho e suas boas amizades.

Mas não ficava ressentido com isso. Fazia parte do jogo. Eles eram a força. Muito bem, eu era forte. Podia cavar um lugar entre eles e fazer dinheiro com a força de outros homens. Não tinha medo do trabalho. E quanto mais duro, melhor, mais me agradava. Gostaria de me entregar ao trabalho, trabalhar mais do que nunca e, eventualmente, me tornar um pilar da sociedade.

E a essa altura, com a sorte que eu gostaria de ter, descobri um patrão com a mesma mentalidade. Eu estava querendo trabalhar, e ele estava mais que querendo que eu trabalhasse. Pensei que estava aprendendo um ofício. Na realidade, havia substituído dois homens. Pensei que ele estava fazendo de mim um eletricista; de fato, estava ganhando, comigo, cinquenta dólares a mais por mês. Os dois homens que eu substituíra recebiam quarenta dólares por mês cada um, enquanto eu fazia o trabalho dos dois por trinta dólares.

Este patrão me fez trabalhar até a morte. Um homem pode adorar ostras, mas ostras demais vão deixá-lo enfastiado. E assim foi comigo. O excesso de trabalho me deixou doente. Eu não queria mais ver trabalho. Abandonei o emprego. Tornei-me um vagabundo, mendigando de porta em porta, perambulando pelos EUA e suando sangue em favelas e prisões.

Eu nascera na classe operária, e agora, aos dezoito anos, estava abaixo do ponto em que tinha começado. Caíra nos porões da sociedade, jogado no subterrâneo da miséria sobre o qual não é agradável nem digno falar: estava no fosso, no abismo, no esgoto humano, no matadouro, na capela mortuária da nossa civilização. Esta é a parte do edifício social que a sociedade prefere esquecer. A falta de espaço me leva aqui a ignorá-la, e devo dizer apenas que as coisas que vi lá me deram um medo terrível.

Estava apavorado até a alma. Vi a nu a complicada civilização em que vivia. A vida era uma questão de abrigo e de comida. Para conseguir abrigo e comida os homens vendem coisas. O comerciante vende seus sapatos, o político vende seu humanismo e o representante do povo, com exceções, é claro, vende sua credibilidade, enquanto quase todos vendem sua honra. As mulheres também, nas ruas ou na sagrada relação do casamento, estão prontas a vender seus corpos. Todas as coisas são mercadorias, todas as pessoas são compradas e vendidas. A primeira coisa que o trabalhador tem para vender é a força física. A honra do operariado não tem preço no mercado. O operariado tem músculos e somente músculos para vender.

Mas há uma diferença, uma diferença vital. Sapatos, credibilidade e honra têm como se renovar. Constituem estoques imperecíveis. Mas os músculos, estes não se renovam. Quando um comerciante vende seus sapatos, repõe o estoque. Mas não há como repor o estoque de energia do trabalhador. Quanto mais vende sua força, menos sobra para si. A força física é sua única mercadoria, e a cada dia seu estoque diminui. No fim, se não morreu antes, vendeu tudo e fechou as portas. Está arruinado fisicamente e nada lhe restou senão descer aos porões da sociedade e morrer na miséria.

Aprendi, ainda, que o cérebro também é uma mercadoria, ainda que diferente dos músculos. Um vendedor do cérebro está apenas no começo quando tem cinquenta ou sessenta anos, e seus produtos atingem preços mais altos do que nunca. Mas um operário está esgotado e alquebrado com quarenta e cinco ou cinquenta anos. Eu tinha estado nos porões da sociedade e não gostava do lugar para morar. Os canos e bueiros eram insalubres e o ar, ruim para respirar. Se não podia morar no andar de luxo da sociedade, podia, pelo menos, tentar a mansarda. Ela existia, a comida lá era escassa, mas pelo menos o ar era puro. Assim, resolvi não vender mais meus músculos e me tornar um vendedor de cérebro.

Começou então uma frenética perseguição ao conhecimento. Voltei para a Califórnia e mergulhei nos livros. Como me preparava para ser um mercador da inteligência, achei que devia me aprofundar em Sociologia. Assim, eu descobri, num certo tipo de livros, formulados cientificamente, os conceitos sociológicos simples que eu tinha tentado descobrir por mim mesmo. Outras grandes mentes, antes que eu tivesse nascido, tinham elaborado tudo que eu havia pensado e muitas coisas mais. Eu descobri que era um socialista.

Os socialistas eram revolucionários, porque lutavam para derrubar a sociedade do presente e tirar dela material para construir a sociedade do futuro. Eu, também, era um socialista e revolucionário. Liguei-me a grupos de trabalhadores e intelectuais revolucionários, e pela primeira vez entrei na vida intelectual. Aí descobri mentes aguçadas e cabeças brilhantes. Encontrei cérebros fortes e atentos, além de trabalhadores calejados; pregadores de mente muito aberta em seu cristianismo para pertencer a qualquer congregação de adoradores do dinheiro; professores torturados na roda da subserviência universitária à classe dominante e dispensados porque eram ágeis com o conhecimento que se esforçavam por aplicar às questões maiores da Humanidade.

Descobri, também, uma fé calorosa no ser humano, um idealismo apaixonante, a suavidade do despojamento, renúncia e martírio - todas as esplêndidas e comoventes qualidades do espírito. Naquele meio, a vida era honesta, nobre e intensa. Naquele meio, a vida se reabilitava, tornava-se maravilhosa. E eu estava alegre por estar vivo. Mantinha contato com grandes almas que punham o corpo e o espírito acima de dólares e centavos, e para quem o gemido fraco de crianças famintas das favelas vale mais do que toda a pompa e circunstância da expansão do comércio e do império mundial. Tudo à minha volta era nobreza de propósitos e heroísmo; meus dias e noites eram de sol e de estrelas brilhantes; tudo calor e frescor, como o Santo

Graal, o próprio Graal do Cristo, o ser humano caloroso, conformado e maltratado, mas pronto para ser resgatado e salvo no final, sempre ardente e resplandecente, diante de meus olhos.

E eu, pobre tolo, julgava ser aquilo apenas uma amostra das delícias de viver que eu deveria descobrir acima de mim na sociedade. Tinha perdido muitas ilusões desde os dias em que lera os romances da biblioteca Seaside, no rancho da Califórnia. E estava destinado a perder muitas das ilusões que me restavam.

Como mercador da inteligência, fui um sucesso. A sociedade abriu suas portas para mim. Entrei direto no andar de luxo; mas meu desencanto foi rápido. Sentei-me para jantar com os senhores da sociedade e com as esposas e mulheres dos donos da sociedade. As mulheres se vestiam muito bem, admito; mas para minha ingênua surpresa percebi que eram feitas do mesmo barro que todas as outras mulheres que eu tinha conhecido lá embaixo, nos porões. A esposa do coronel e Judy O’Grady eram irmãs sob suas peles e seus vestidos.

Não foi isto, porém, mas seu materialismo, o que mais me chocou. É verdade que estas mulheres lindas, ricamente vestidas tagarelavam sobre singelos ideais e pequenos moralismos; mas, ao contrário do teor de sua conversa mole, a tônica da vida que levavam era materialista. E como eram egoístas sentimentalmente. Contribuíam de todas as formas para pequenas caridades e se informavam sobre a realidade, mas, o tempo todo, os alimentos que comiam e as belas roupas que vestiam eram comprados com os lucros manchados pelo sangue do trabalho infantil, do trabalho exaustivo e mesmo da prostituição. Quando mencionei tais fatos, esperando em minha inocência que aquelas irmãs de Judy O’Grady arrancassem fora de uma vez suas sedas e joias tingidas de sangue, ficaram furiosas e excitadas, e leram para mim pregações sobre o desperdício, a bebida e a depravação inata que causavam toda a miséria nos porões da sociedade. Quando disse que não podia perceber bem qual era a falta de economia, a intemperança e a depravação de crianças quase famintas de seis anos que faziam trabalhar doze horas por noite numa fiação de algodão sulista, aquelas irmãs de Judy O’Grady atacaram minha vida pessoal e me chamaram de “agitador” - embora isto, na verdade, reforçasse meus argumentos.

Não me dei melhor com os senhores da sociedade. Esperava encontrar homens honestos, nobres e vivos cujos ideais fossem honestos, nobres e vivos. Andei com homens que estavam nos lugares mais altos - os pregadores, os políticos, os homens de negócios, professores e editores. Comi carne com eles, tomei vinho com eles, andei de automóvel com eles e estudei com eles. É verdade, encontrei muitos que eram honestos e nobres; mas, com raras exceções, não estavam vivos. Realmente acredito que poderia contar as exceções com os dedos das minhas mãos. Quando não estavam mortos pela podridão moral, atolados na vida suja, eram apenas a morte insepulta - como múmias bem preservadas, mas não vivas. Neste sentido, poderia especialmente citar professores que conheci, homens que vivem de acordo com o decadente ideal universitário, “a perseguição sem paixão da inteligência sem paixão”.

Conheci homens que invocavam o nome do Príncipe da Paz em seus discursos contra a guerra e que botaram nas mãos dos Pinkertons rifles que abateram grevistas em suas próprias fábricas. Encontrei homens incoerentes, indignados com a brutalidade de lutas de boxe e pugilismo, e que, ao mesmo tempo, participavam da adulteração de alimentos que a cada ano matam mais bebês do que qualquer Herodes de mãos rubras jamais havia matado.

Em hotéis, clubes, casas e vagões de luxo, em cadeiras de navios a vapor, conversei com capitães de indústria e me espantou como eram pouco viajados nos domínios do intelecto. Por outro lado, descobri que sua inteligência para negócios era excepcionalmente desenvolvida. Descobri também que sua moralidade, quando há negócios envolvidos, nada vale.

O delicado, destacado e aristocrático cavalheiro era um testa de ferro de corporações que secretamente roubavam viúvas e órfãos. Este cavalheiro, que colecionava edições de luxo e era patrocinador especial da literatura, pagou chantagem a um chefão político de queixo duro e sobrancelhas escuras da máquina municipal. Este editor, que publicou propaganda de medicamentos licenciados e não ousou divulgar a verdade em seu jornal sobre os mesmos medicamentos, com medo de perder o anunciante, me chamou de canalha demagogo porque lhe disse que sua economia política era antiquada e sua biologia, contemporânea de Plínio.

Este senador fora a ferramenta e escravo, o pequeno fantoche de uma máquina indecente e ignorante de um chefão político; assim eram o governador e seu juiz no Tribunal de Justiça; e todos os três tinham passes para viajar de graça na estrada de ferro. Este homem, falando seriamente sobre as belezas do idealismo e a bondade de Deus, acabara de trair seus camaradas numa questão de negócios. Aquele outro, pilar da igreja e grande contribuinte de missões no exterior, obrigava as garotas de suas lojas a trabalhar dez horas por dia por um salário de fome e, portanto, encorajava diretamente a prostituição. Este homem, que dá dinheiro à universidade, comete perjúrio em tribunais por causa de dólares e centavos. E o grande magnata da estrada de ferro quebrou sua palavra de cavalheiro e cristão quando admitiu abatimentos secretos para um de dois capitães de indústria empenhados numa luta de morte.

Era a mesma coisa em todo lugar, crime e traição, traição e crime - homens que estavam vivos não eram honestos nem nobres; homens que eram honestos e nobres não estavam vivos. E havia uma grande massa sem esperanças, nem nobre nem viva, mas simplesmente honesta. Esta não podia errar, positiva ou deliberadamente; mas errava de maneira passiva e ignorante ao concordar com a imoralidade generalizada e com os lucros que ela produz. Se fosse nobre e viva, não seria ignorante, e teria se recusado a dividir os lucros do crime e da traição.

Percebi que não gostava de viver no andar de luxo da sociedade. Intelectualmente era aborrecido. Moralmente e espiritualmente, eu me sentia enojado. Lembrava-me de meus intelectuais e idealistas, meus pregadores sem hábito, professores desempregados e trabalhadores honestos com consciência de classe. Lembrava meus dias e noites de sol e estrelas brilhando, quando a vida era uma maravilha doce e selvagem, um paraíso espiritual de aventuras não-egoístas e um romance ético. E diante de mim, sempre resplandecente e excitante, vislumbrava o Sagrado.

Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não reserva delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para fazer mais uma vez o edifício inteiro balançar. Algum dia, quando tivermos mais mãos e alavancas para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida podre e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo.

Esta é a minha perspectiva. Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago, quando haverá maiores estímulos para levar os homens à ação do que o incentivo de hoje, que é o incentivo do estômago. Conservo minha crença na nobreza e na excelência da Humanidade. Acredito que a doçura e o despojamento espiritual vão superar a gula grosseira dos dias de hoje. E, no fim de tudo, minha fé está na classe trabalhadora. Como diz um francês: “A escada do tempo está sempre ecoando com um tamanco subindo e uma bota engraxada descendo”.

Jack London