terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Delírios de Rosas

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Fabrício Valdéz esfregou os olhos com os punhos cerrados, naquela manhã em que o cheiro de rosas brancas invadiu seu valhacouto, serpenteou sob a manta de estampas coloridas, presente dos ciganos, que a cada quatro anos, no verão torrencial, armavam barracas de lonas puídas em suas terras, para vender tachos de cobre aos moradores do vilarejo, cavalos e burros decrépitos como se fossem jovens, graças a artimanha de colori-los com tintas  extraídas de plantas. O cheiro das rosas penetrou em suas narinas, expulsando de vez o sono de uma noite premonitória.
     Sentou-se com dificuldades, tateou o chão com os pés à procura das pantufas de cetim rotas, única lembrança de Catarina Flor, que o abandonara naquela noite de tempestade desmesurada, com as andorinhas em algaravias, e que decidira, para colocar-se a salvo dos tormentos dos remorsos, revelar com quantas mulheres havia se deitado no transcorrer de vida a dois. Pela primeira vez ao longo dos trinta e três anos de solidão, praguejou que merda ao refletir sobre o sentido das palavras de Flor, seu desgraçado, réprobo, porque não carregou esta ignomínia para o túmulo!
     Às vésperas de completar noventa e oito anos, trinta e três de solidão em companhia de bêbados, drogados e prostitutas, não estava certo de alcançar a cocaína que o reanimava desde que Catarina Flor desaparecera naquela noite sob a chuva de granizo, que provocara uma desordem descomunal no vilarejo, matando porcos, cavalos, galinhas, cães e outros seres indefesos, destelhando casas, deixando por vários dias um odor putrefato.
     O cheiro de rosas brancas intensificou-se ao tentar tocar a aldrava e desta vez lamentou que merda, como pude magoar minha prófuga andorinha! Neste instante uma rajada de vento descerrou as janelas e pétalas de rosas, como aves migratórias invadiram o quarto, pousando suavemente sobre sua cama, no chão, nos móveis. Milhões de pétalas foram cobrindo o corpo caquético de Fabrício Valdéz e entre elas identificou Catarina Flor, vestida de branco, dançando com leveza, tendo nos lábios e nos gestos a pureza dos justos. As pétalas foram se amontoando placidamente no valhacouto até alcançar o teto. As que não conseguiram espaço interno foram amontoar-se ao redor da casa sob os olhares diáfanos de lírios, de rosas.



J Estanislau Filho - do livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros

Dedicado à memória de Eno Teodoro Wanke e ao genial Gabriel Garcia Márquez. 

11 comentários:

  1. Narração ímpar em escrita toda bem cuidada - trazendo ao leitor uma paixão secreta pela Crônica, que faz as plavrfas bailarem com toque de sabedoria sob nossos olhos tão leigos, parabéns Escrtor Estanislau*****, beijos da Luiza Michel

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    1. Obrigado pela presença, volte sempre Luiza. Abraço.

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  2. Linda crônica Estan, o que é um Amor Platônico, passa o tempo que for e fica enraizado,com a tristeza na alma!

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    1. Obrigado Maria, bom tê-la entre as minhas leitoras. Abraço.

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  3. Tu nos faz enxergar a cena
    Escreveu difícil, meu amigo rsrs Gosto do seu jeito de escrever. Abraço da Olynda

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  4. A presença marcante das flores deu uma incrível sensibilidade ao conto. Amo flores! Perfeito.

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    1. Obrigado pela presença Maria José, seja sempre bem-vinda. Abraço.

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  5. Parabéns, Estanislau, pelo seu belo e reflexivo texto! Grata, pela indicação do seu blog! beijos ternos,

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