domingo, 4 de janeiro de 2026

Uma vela pra Deus, outra pro Diabo (a vingança dos super-ricos)


Imagem: Google


Silva saiu do interior em busca de uma vida melhor na capital. Chegou com uma mão na frente e a outra atrás.

     Dois anos depois conseguiu comprar um fusca de segunda mão. Quase todo mundo gostava de Silva. Cabra tranquilo, evitava contenda, sempre concordava com os argumentos dos colegas, mesmo os antagônicos. Que diferença faz? Perguntava para si. Se um colega dizia que pau é pedra, ele concordava; se outro dizia o contrário, também concordava. Polemizar pra quê?, melhor ficar bem com todos. João, colega de saídas nos dias de folga, foi franco, Silva, você acende uma vela pra Deus e outra pro Diabo. Silva concordou, ao responder, como um mantra, que diferença faz? Melhor conviver numa boa com todos. Sabe, meu caro João, aprendi, na prática, que o muro é o lugar mais seguro, completava com sinceridade.

     Certa dia, no centro da capital, Silva procurava uma vaga, para estacionar seu fusquinha. João o acompanhava. Iriam ao mercado central comer um tira-gosto e tomar uma gelada. Olha uma vaga ali, Silva, entra rápido antes que alguém a ocupe. Numa manobra rápida estacionou, sem atentar que um BMW estava com a seta ligada, para fazer o mesmo. O dono do carrão, xingou o Silva por ter ocupado a vaga. Silva, talvez cansado de concordar com todo mundo, respondeu que o mundo é dos espertos. Ah é assim? perguntou o dono do BMW, sem esperar resposta, deu uma marcha à ré, atingindo o fusquinha com violência, deixando-o amassado, em seguida colocou a cara pra fora e gritou, o mundo é dos ricos, babaca, agora vai reclamar com o bispo!

     Conto esse caso, para cocluir, sobre a impossibilidade de se manter neutro, especialmente em tempos de crise. Como diz a sentença, atribuída a Dante de que "no inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise".  

     2026 começa com os Estados Unidos invadindo a Venezuela. A maior potência capitalista está em crise. Dívida pública nas alturas, perda de influência num mundo multipolar, o dólar não é mais a moeda, que dita a regras das finanças global. A Europa sem alternativas. China e outros países negociam com moedas própria. A vingança dos super-ricos, com a precarização do trabalho, com a uberização da economia, a concentração das riquezas nas mãos de poucos e as guerras sem fim, são um tiro no pé do sistema em seus últmos estertores. O infocapitalismo esperneia. Impossível permanecer em cima do muro. 


imagem: Google


J Estanislau Filho