segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Memórias De Uma Tarde De Chuva

Imagem: Google


Ele era feito de terra e silêncio. Mãos grossas, pele queimada pelo sol, corpo viril marcado pelo peso dos dias, olhos tristes trazendo a solidão das madrugadas. Trazia o cheiro do mato, mãos rudes e fortes, sorriso largo, boca sensual. Não se podia supor a delicadeza que se escondia em seus sentimentos, o fogo contido, o coração que ardia de amor em segredo
Ela, mulher linda e delicada, criada entre varandas largas, janelas altas, finas sedas e ornada com joias. O coração inquieto se sentia atraído pelo que não lhe pertencia. Trazia nos olhos uma fome antiga, inexplicável. Quando o via passar, chapéu na cabeça, roupas rudes, passos firmes, sentia o corpo estremecer num desejo sem lógica e sem razão.
Naquela tarde a chuva veio de repente. Ela, que amava a chuva, saiu pelo campo. Parecia que algo a chamava, que precisava ir de encontro ao seu destino. Ele vinha por ali sem nem saber o porquê. Caminhava sem rumo. Um chamado pulsava nele.
A chuva caía fina, quase um sussurro do céu. O campo se abria diante deles como um altar verde. A relva se curvava exalando um perfume úmido e antigo. Parecia que todo aquele cenário tinha sido criado para aquele instante. Ele vinha com passos firmes, ela surgia entre os arbustos atendendo a um misterioso chamado.
Pararam a poucos passos um do outro. O silêncio pulsava. A água escorria pelos cabelos dela e desenhava caminhos na pele. A blusa fina colada ao corpo a tornava  irresistivelmente sensual. O olhar dele era denso, carregado de desejo contido por muito tempo. Ela olhava seu corpo viril e definido e estremecia de sutis vontades. Parecia haver entre eles algo mais profundo, um reconhecimento que atravessava a carne e tocava a alma.
Ele se aproximou devagar para não quebrar o encanto. A mão dele tocou o rosto dela e um arrepio lhe percorreu o corpo. A pele eriçou e ele sentiu. Ela fechou os olhos permitindo e o corpo tocou o dele. A chuva os envolvia formando um invisível véu. As bocas se encontraram num beijo quente, profundo e demorado. Era fome e reverência, pecado e oração.
Seus corpos responderam e se entregaram sentindo o mundo desaparecer e tornando-se o centro do universo. As mãos dele deslizavam com firmeza e cuidado, explorando curvas, caminhando territórios encantados. Ela se achegou ao corpo dele implorando em silêncio. A respiração se tornou descompasso, o coração pulava no peito. A chuva escorria entre os dois misturando-se ao calor que emanava deles. Frio e fogo. Céu e carne.
Ele a puxou para si, corpos colados. A força de seus braços a deixava refém daquele momento. Ela sentiu-se tomada, cercada, desejada. O encontro era pleno, elétrico, íntimo. Cada movimento era um convite, cada toque uma vertigem. Ele beijou seu pescoço e ela gemeu baixo e era quase uma oração. Ela se deixou conduzir afagando os cabelos dele, pedindo mais, pedindo tudo e muito mais. O mundo parou para olhar aquele momento que valia uma vida.
E ali no meio do campo encharcado, sob a chuva mansa eles se entregaram obedecendo a uma força maior. Não era apenas desejo. Era memória, espírito. Os corpos se entendiam com uma linguagem que dispensava palavras. Cada toque de pele era um selo, cada suspiro soava como um juramento. Eles dançavam a dança do amor sem pressa, mas com firmeza e uma vontade delirante. Ela sentia-se atravessada por algo divino e profano. Ele sentia-se escolhido O tempo não existia. A terra os sustentava, o céu os testemunhava, a chuva os consagrava.
Ao se entregarem um ao outro com urgência e devoção sentiram que dois mundos se tocavam, o da carne e o do invisível. O amor ali era intenso, sagrado, infinito e inevitável. E quando enfim repousaram abraçados,  a chuva continuava a cair, mansa constante, cúmplice. Como se os abençoasse.
Muito mais tarde se despediram, deram as costas e voltaram para casa.
Seguiram suas vidas. Tomaram seus rumos. Viveram o que lhe cabia nesta vida.
Nas tardes de chuva, os dois, cada um em seu canto, ativavam suas memórias de pele e de alma e se lembravam daquele dia em que tiveram um encontro de corpo e alma que valeu por toda uma vida…
Quem sabe um dia em outro mundo, em outra vida, em outra dimensão se reencontrariam para sempre?

 

Nádia Gonçalves 



8 comentários:

  1. Um conto em tom romanesca. Lindo. Um encontro de almas afins . Não conheço a escritora. Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Intensidade, romance e paixão numa história que emana sensualidade elegante e envolvente. Quem sabe o futuro (ou outras vidas) os unirá...! Parabéns à Escritora, parabéns pela publicação, J.! Abraços

    ResponderExcluir
  3. Sinto-me honrada pela publicação de um conto meu no seu blog. Obrigada!

    ResponderExcluir
  4. Essa valsa assim tão a mesma e tão inédita guarda sua lógica própria e sua própria razão! Dualidade anulada no onírico reino das letras! Sensível e improvável, belo e selvagem ! Sabendo a novos pomares, outra serpente e a mesma canção ! E Receba os Meus: Abraços Poéticos Diversos!

    ResponderExcluir
  5. Stan, um conto fantástico. Um encontro permeado de desejodawuele desejo irrefreável que sabe que precisa dar o máximo porque não vai se repetir. Mas vai ficar dentro de cada um vivo e bulindo a aventura na chuva. Adorei. Dartagnan) william

    ResponderExcluir
  6. Uma trama bem urdida.

    ResponderExcluir
  7. Antonio Carlos Rodrigues4 de fevereiro de 2026 às 09:32

    Um encontro sob chuva, que a memória não apaga.

    ResponderExcluir