Estamos a menos de duas semanas das Eleições Gerais no Brasil e são as mais significativas; não se trata de exagero, mas de uma condição muito transparente
Céli Pinto (*)
Não estaremos escolhendo entre o candidato A e o candidato B, mas entre uma escalada abrupta rumo ao totalitarismo colonizado e a continuidade da democracia. Isto tem de estar muito claro na cabeça de cada eleitor, de cada eleitora. Somos responsáveis pelo futuro deste país. Seremos acusados pelas futuras gerações, com razão, se falharmos e o Brasil for entregue a abutres colonizados.
Os eleitores, as eleitoras, militantes ou não, jovens, adultos ou idosos têm muitas frustrações em relação ao governo do momento. De fato, poderia ter feito mais, principalmente se não tivesse um parlamento dedicado, quase exclusivamente, a tirar proveito em causa própria. Ainda assim, fez muito, não apesar do parlamento, mas justamente porque ele existe e foi possível negociar com ele, constrangê-lo na imprensa e nas redes sociais.
Só poderemos continuar fazendo isto e, ao mesmo tempo, lutar para transformar a forma de fazer política no parlamento, assegurando que todos que quiserem falar possam falar, possam lutar politicamente, que instituições possam investigar e serem investigadas. Assegurando a total liberdade e lisura dos pleitos. E tudo isto só acontecerá se assegurarmos a continuidade da democracia, mesmo que com muitos problemas.
Os eleitores, as eleitoras, os militantes, jovens, adultos de meia-idade ou idosos podem estar frustrados com o Supremo Tribunal Federal com razão. Há uma fragorosa indecência no comportamento deste bando de homens meio velhos, todos brancos. Da única mulher, que nem progressista é, não existe um único episódio contra seu comportamento como ente público.
Mas vivemos em uma democracia e só não fomos atropelados pela tentativa de melar as eleições de 2022 e, depois, de perdoar militares e assemelhados em um bem armado golpe de Estado, porque existem o Tribunal Superior Eleitoral e o Superior Tribunal Federal. E, ainda, só sabemos o que está acontecendo agora porque vivemos em uma democracia, onde tudo pode ser exposto.
O governo Trump está aprofundando a política imperialista a níveis assustadores, até para quem sempre soube do ethos colonizador dos Estados Unidos. A atual quadra do capitalismo abriu mão até de sua retórica pseudodemocrática para avançar, sem nenhum limite, sobre a autonomia e a soberania dos países do sul global, principalmente na América Latina.
Quando o presidente Lula disse, em sua fala na Sessão de Abertura da Assembleia Anual da ONU, que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, ele sabia o que estava dizendo. Ele, assim como muitos de nós, sabe que está se armando um golpe contra a soberania brasileira, liderado pela famiglia Bolsonaro e por seus mais óbvios financiadores. Todos seriam perdoados, caso o pior viesse a ocorrer, e o país seria levado à mais absurda miséria e esbórnia.
O momento é de gravidade absoluta. Circunstâncias como estas devem ser tratadas sem meias palavras, sem meias medidas. Se Lula ganhar as eleições, o paraíso não surgirá de uma hora para outra. Muitos continuarão enfrentando frustrações, mas posso assegurar que não tirarão a comida da boca do povo, nem o teto sobre suas cabeças, nem o fundamental atendimento do SUS, os remédios grátis, as cotas sociais e raciais na educação e para admissão no serviço público.
Se Lula ganhar as eleições, o Brasil não se tornará um paraíso sem violência nem os homens deixarão de matar as mulheres da forma estúpida como fazem hoje, como num passe de mágica, mas podem estar certos de que cada vez menos morrerão jovens pobres e negros, cada vez mais a polícia será responsabilizada por assassinatos a granel.
O crime organizado será combatido, como está sendo agora, asfixiando o dinheiro das facções, prendendo os cabeças, muitos políticos inclusive. Não haverá chacinas espetaculosas promovidas por uma polícia cujo governador do Estado está sendo acusado de comprometimento com os chefes dos 122 mortos em outubro de 2025, no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro.
Votar em Lula nas próximas eleições não é votar em um mito ou em um salvador da pátria, é votar na segurança de que poderemos continuar nossas vidas, lutar para melhorá-las e para ter o poder de criticar, de reclamar, de ter uma imprensa verdadeiramente livre.
Votar em Lula significa que estaremos estancando o avanço da escalada abrupta rumo a um totalitarismo bestial, violento, sem lei, onde os direitos adquiridos das populações sofridas podem ser retirados com uma canetada, onde a violência se tornará o princípio que vigorará nas relações entre as autoridades e o povo. Onde haverá licença para ser misógino, racista, homofóbico, transfóbico e, ainda por cima, em nome de um Deus ou de um Jesus Cristo que nega toda ideia de igualdade e justiça.
Estamos, pois, de um lado, frente à continuidade da democracia, onde teremos espaço para lutar por um país mais justo, mais igual e mais livre; de outro lado, frente ao caos distópico de dimensões absolutamente trágicas.
Nunca estivemos tão em perigo, apesar de tantos riscos que já vivemos na história deste país.
(*) Professora emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cientista política e historiadora.
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