sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Premonições

Imagem: Google


Escobar tentava entender as causas do seu abatimento.  Fora tomado por uma tristeza súbita. Não queria falar com ninguém, a cama era a sua parceira cotidiana. Maus presságios o atormentava. Tinha arrepios ao toque do celular, não atendia  o interfone. Coisas ruins viriam a qualquer momento. Noites maldormidas o extenuava. Foi uma semana complicada, de premonições catastróficas. Nos raros momentos de lucidez, tentava espantar os pensamentos negativos, com leitura. Leu Dom Casmurro, de Machado de Assis e se surpreendeu com o protagonista Escobar. Coincidência, que o deixou atordoado. Escobar traíra seu melhor amigo, Bentinho?  Chegou a expressar um sorriso enigmático  com os ciúmes de Bentinho a Capitu. A leitura acabou por jogá-lo mais fundo no poço da incerteza do porvir. Nesses breves dias de afastamento de pessoas queridas, refletia sobre  a possiblidade de Maria estar nos braços de um algum peralta.  Decidiu ligar: Oi amor, tudo bem? Porque não atende ao telefone, Escobar? Perguntou Maria. Desculpou-se, disse estar necessitado de uns dias, para organizar a contabilidade. Maria o acalmou, compreendia, que ficasse tranquilo e o aguardava, ansiosa. Após desligar, começou a desconfiar da compreensão da namorada. Não sentia sua falta? Voltemos a outras preocupações do jovem contador.  O País passava por turbulências na política; Escobar previa uma catástrofe. 

      Enumerava as perdas se o fascista vencesse. Não saía de sua cabeça a vitória do extremista.  Perderia a chance de se aposentar; perderia a faculdade; o financiamento da casa própria; o emprego; os remédios da farmácia popular. Como pagar os boletos? O casamento por um fio... Ah Maria, Escobar desconfiava. Imaginou-a de lábios colados aos de André, um extremista de direita, sempre de caras e bocas, insinuando.  Arrependeu-se de ter colado no portão o adesivo de seu candidato. A qualquer momento, vândalos o colocaria abaixo. Desceu as escadas com o intuito de arrancá-lo, mas já não estava lá. Olhou de um lado a outro da rua, fechou depressa e voltou ao quarto. Um calor dos infernos. Ligou o ventilador, despiu-se. Deitado de barriga pra cima, permaneceu por longos minutos olhando o teto. Os pensamentos iam e vinham, como ondas de um mar agitado. Se ele ganhar, você perde. As pesquisas eleitorais não ajudavam. Escobar começou a pensar na morte. Morrer de morte morrida, sem dor. Se o extremista de direita ganhar, a tortura será implantada, perseguições aos adversários; o vizinho, vai me denunciar... Foi até a cozinha preparar um lanche, precisava se alimentar, comeu uma banana. A fome, meu Deus, como não pensei nisso, se o fascista ganhar você perde; vou  perder Maria, meu Deus, viveremos dias terríveis, ah, mas vai atingir também os bebedores de detergente, os adoradores de pneus, diacho, isso não serve de consolo... O celular tocou...

     - Oi Maria, não estou bem, acho que vou ter um ataque cardíaco...

     - Estou indo aí, amor, calma!

     - O André vem com você?

     - Para quê? O André está cuidando da mãe, coitada, está na cadeira de rodas, ainda assim votou...

     - André é um sujeito perigoso... Maria interrompeu, como perigoso?, ele é um amor de pessoa, de onde tirou essa ideia?

     - Ele rezou pra pneu...

     - Meu Deus, o André está fazendo campanha para...

     - Para o nazista - interrompeu Escobar

     - Não, mas que diabos está acontecendo com você? Pirou? O André é progressista, afinal de qual André você está falando?

     - O André, mas só tem um...

     - Escobar, por acaso você foi votar? Não viu o resultado? 

     - Que dia é hoje?

     - Tenha paciência, Escobar, olha o celular...

     Escobar passou mais  de uma semana de premonições catastróficas, recolhido em sua casa. Sequer saiu pra votar no segundo turno. O primeiro o deixara fora de si e o extremista André fora fruto de sua mente desordenada.

     Maria o aguardava, para organizarem o casamento. Respirou aliviado, o mundo não caíra sobre o teto de sua casa e um mundo novo descortinava. 



J Estanislau Filho

3 comentários:

  1. Stan, conto arretado. Escobar restava pensando em Capitu. Adorei. William

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  2. Muito interessante para os dia atuais.

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  3. Parabéns poeta muito bom o texto! 👏👏👏👏

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