domingo, 17 de maio de 2015

Pelo menos hoje




Hoje eu queria falar dos pássaros em voos livres, como telas no espaço. Queria contemplar a menina com flores nos cabelos, sorrindo para borboletas multicoloridas, no jardim. Meninos num corre-corre desenfreado pela casa, derrubando objetos e mães pacientes, pedindo-lhes calma. Hoje eu queria admirar Maria Luiza nas ruas do Rio de Janeiro, em feiras, conversando com feirantes e ao retornar, contar com leveza, como transcorreu o dia. Queria ainda, pegar um barco e me perder nas profundezas do mar, com um escafandro, visionário em busca de tesouros naufragados. Queria ouvir canções de amor, juras, promessas. Penetrar a floresta amazônica e ir de encontro aos povos originários, aprender com eles como viver em harmonia com a natureza. Queria ver ternura nos olhos das pessoas; gestos fraternos; amantes de mãos dadas, beijando-se. Nuvens em movimento; cata-vento para orientar a melhor direção. Hoje eu queria ver os animais, esses seres frágeis, tratados com respeito. Queria ver os líderes políticos mundiais chegarem ao consenso de que a guerra, além de desnecessária, está destruindo a Terra. Pelo menos hoje ouvir a lucidez de José Claudio, para tranquilizar esse espírito inquieto. Queria ver Alice ensolarada. Queria, ah, como queria um banho de cachoeira, que purificasse esse corpo impregnado de som e fúria.Hoje eu queria ouvir as histórias de Vitinha, debaixo de uma seringueira, que Chico Mendes defendeu. Hoje eu queria um abraço.
     Pelo menos hoje, que me encontro tão só, tão triste.


J Estanislau Filho
Imagem: Google.


Esta crônica (ou prosa poética, como preferir) está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros - página 21 - 

6 comentários:

  1. Que prosa mais linda!
    Pelo menos hoje, quero saciar minha fome, não fome de alimentos, mas de palavras.
    Me fartei, lendo você!

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  2. Obrigado pelas generosas palavras. Volte sempre. Abraço.

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  3. Aqui vai o Abraço amigo generoso..
    Maravilhoso inspirador radiante texto que vem da alma...

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  4. Respostas
    1. Romântico, Luiza? Não sei, obrigado pela generosidade.

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