Evandro tentava compreender os motivos que o levara a se esquecer de eventos pretéritos e até mesmo presentes. Não entendia o sentido da existência de televisão, rádio, computador. Não enxergava matas, rios, nem mesmo pássaros em cativeiro. No zoo viu tamanduá dar bandeira. Em síntese, Evandro não entendia o sentido da vida. No estágio inicial do transtorno, conseguia apreender o instante já, o agora, que se esvaia, na vã tentativa de segurá-lo na memória.
Andava pelas ruas e avenidas, entrava em supermercados reparando tudo, mas atento ao itinerário que o conduziria de volta à sua casa. Pegava ônibus e metrô, distribuía sorrisos e cumprimentos e ao regressar não se lembrava onde estivera. Olhava-se no espelho durante um longo tempo, ora sorrindo, ora fazendo caretas. E perguntava: - Quem é você? De onde veio, para onde vai?
A família e os amigos demoraram a entender que Evandro não estava bom da cachola. A coisa foi acontecendo de modo imperceptível e quando perceberam, estava em estágio avançado: Evandro perdera completamente as faculdades mentais, concluíram. Não falava coisa com coisa.
No começo ele conversava, aparentemente, normal. Respondia com clareza às perguntas; falava de literatura e filosofia: “se Stravoguini crê não crê que crê, se Stravoguine não crê, não crê que não crê”, citando Camus, analisando o personagem de Dostoiéviski em o Mito de Sísifo. Gostava de Ivan Karamazov e Joseph K. Dizia-se ser o homem dionisíaco, do meio-dia, além do bem e do mal.
Deixou-se levar a um eminente psiquiatra, que se interessou pelo caso. O problema de Evandro o interessou tanto, que ele abriu mão dos honorários e cancelou consultas, para garantir agenda ao novo cliente. O Dr. Hipócrates vislumbrou a possibilidade de elaborar uma nova teoria sobre a condição humana. “Ah Evandro, poderei ser o primeiro especialista da psiquê tupiniquim a ganhar o Prêmio Nobel de psiquiatria...”, devaneava o médico, com olhos esbugalhados e cabelos desgrenhados. Evandro olhava o psiquiatra e ria um riso do outro mundo. O médico esfregava as mãos de contentamento.
Dr Hipócrates receitou-lhe centenas de comprimidinhos coloridos e Evandro ingeria-os com sonoras gargalhadas. Às vezes os retiravam das cartelas e os espalhavam sobre a mesa. E se distraia construindo castelos, mandalas, edifícios e outras coisas incompreensíveis às pessoas lúcidas. Acontecia de sair à rua nu, para desespero dos familiares. Ao ser recolhido, recebia beliscões de advertência e ele ria, ria, ria e dizia, “mamãe, você não quer Vandinho pelado mais não? Ah mamãe...”
Hematomas brotavam em seu corpo, marcas da intolerância humana. Evandro, outrora um trabalhador responsável, rapaz de bons modos, tornara-se um estorvo. A família pediu ao Dr Hipócrates que o internasse imediatamente. O psiquiatra sorriu de contentamento. “Muito bem, decisão sábia. Assinam esses documentos, que me autorizam a cuidar do paciente, certo? Doravante cuidarei de você – disse olhando para Evandro, que se encontrava sentado na poltrona do consultório, de olhos fixos em um ponto indefinido – meu rapaz, vamos dissecar sua mente e revelar à humanidade os avanços da indústria farmacêutica da medicina, muito obrigado, podem ir”. – Ficamos livre daquele mala – disse Ana Flávia, a irmã, cujo endereço, na internet é flavialindinha.com.br .
Poucos anos depois, Evandro e Dr Hipócrates foram encontrados nus, por funcionários do Ibama, atirando pedras para o ar e aparando com a cabeça, próximos de uma cachoeira na Serra do Cipó. Ambos foram entregues às respectivas famílias, pois, com a nova legislação, não se permite internar pessoas com transtornos mentais.
J Estanislau Filho
Com Geraldo Bernardes no lançamento de Palavras de Amor no Berimbau Circo Bar - Contagem-MG


Olhar que nos leva a refletir este problema que aflige a sociedade.
ResponderExcluirParabéns, Estanislau, amigo querido, por trazer um tema tão preocupante que assola a população mundial, que não tem cura, pode com medicamento abrandar as crises, controlar os movimentos do paciente, para não sair à rua. Conheço bem essa enfermidade, meu avô materno foi acometido por ela - Tem crônica na n*6 - Imigrantes Libaneses - Você irá entender o nosso problema com essa enfermidade AMINESIA - Beijos ternos,
ResponderExcluirTriste mas real. Doença silenciosa nem todos conseguem detectar a tempo, e no final nem todos têm disposição , paciência para dar a assistência adequada a vítima. Peço a Deus que me livre desse mal. Tocante e pertinente texto. Ótimo final de semana, nobre poeta.
ResponderExcluirStan, você é um grande contista que alia o fantático ao humor. Saravá. Darta
ResponderExcluirE o sonho do Dr. Hipócrates foi cachoeira abaixo... Estigmatizada durante anos, a alteração mental, insanidade, loucura, ou o nome que atribuam a quem sofre de algum transtorno psicológico, "retirou muita gente de cena" por conta do preconceito e dos incômodos que ocasionaram aos seus "familiares". A internação era/é o alívio para as famílias que, por ausência de conhecimento ou paciência, não conseguem lidar com "o problema". O Estado era omisso até a criação da Lei que proibiu as internações, mas continuou sem prestar o cuidado necessário para tratamentos. Um beco sem saída, eu diria. Por isso há tantos loucos perambulando por aí. Desde miseráveis aos de famílias abastadas. Mas desses últimos, não se espera vê-los rasgando dinheiro... O verbo da frase seria outro. Ótima crônica, J.! Abraços
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