quinta-feira, 19 de março de 2015

O Dono do Território



     Sentia-se dono do território - pedaço de rua, naco de quarteirão. João, filho preferido: "sim meu pai". André o enfrentava. Os demais, subterfúgios, dissimulados, aguardavam a hora do acerto de contas: crescer, sair de casa, quem sabe.
     Constantino, constante em rompantes, palavras ásperas: "Vem aqui seu desgraçado, arrebento esta moleira mole". Em casa ninguém escapava. Só João, merecedor de agrados: "Menino bom, este sim, filho verdadeiro, não é igual a estes bostas". Não enfrentava André, protegido por um líder do tráfico, segundo os vizinhos. Romélia, que um dia fora Rô, agora era tratada de qualquer jeito, maus modos. "Eita peste de mulher, casa bagunçada, meus chinelos criaram asas, Romélia?". Peraí homemdedeus, já vai. Aperreie não!". "E tenho motivos para me aperrear, tenho?".
     Ao colocar a barriga na rua era "fora da porta de minha casa seus fidumaségua, aqui não é campo de futebol, porra!". Esmurrou Narciso, menino de modos delicados. Seu Cândido, pastor evangélico, tentou amansar a fera, levar as palavras do antigo testamento, mas Constantino colocou o homem pra correr: "Sai daqui se não quiser engolir esta bíblia, véi safado, enganando este povo besta, comigo não!". Os vizinhos nada diziam.
     Entre os colegas de profissão era outra pessoa. Fora de seu território, cabra pacato. Buscava areia em Esmeraldas, dirigindo seu caminhão basculante. Prestativo. Zé da Abadia não acreditava: "Cabra nojento. Esta cara cheia de ruas de rugas não me engana, Firmino. Isto não vale uma bala do meu trêsoitão". 
     A fila de caminhões basculantes ia se formando perto das dragas. Constantino colaborava com todos. Trocava pneus; não se importava se alguém furava a fila. Mas sempre arrumava um jeito de arrancar uns trocados extras: "Por dez reais pode carregar primeiro, Elias, tenho pressa não". "Vai caçar dez reais na casa do carai, Constantino". Lisboa intercedia: "Que é isso Elias, Constantino é gente boa". "Um adulador, confio nele não, conheço este tipo, esfaqueia pelas costas".
     Dezembro começou a chover, varou janeiro sem parar. Fazer compras, ir trabalhar, uma dificuldade. As roupas mofavam, maioria das casas era infiltração. Morar em encostas, beira de barranco, perigo de deslizamento. Fevereiro caiu barranco, soterrando casas e gente. Desespero, choro. As autoridades dos município tomaram as providências cabíveis. O prefeito apareceu na televisão, não culpou as administrações passadas, pois ele era o passado. Culpou a chuva, o povo que mora em qualquer lugar e a falta de verbas. Chorou. "Lágrimas de crocodilo", gritou pra televisão Seu Joaquim Serralheiro. Tragédias de uns, alegria de outros. Constantino observava tudo, matutava. Muita terra, caminhão basculante... Tinha dois. Vestiu capa, calçou botas de borracha e foi se juntar ao mutirão. Trabalhou duro na lama: "Pessoal, estou ouvindo algo, aqui tem uma criança". Retirou-a com vida e a entregou nas mãos dos bombeiros. Constantino virou líder, heroi num piscar de olhos. As autoridades municipais ladearam o novo heroi, mais dono do território que nunca. Concedeu entrevistas rápidas às rádios e televisões. Horário nobre.
     Os moradores do Subaco das Cobras foram retirados com truculência. Constantino ajudou o pessoal da defesa civil colocar abaixo os barracos. Gritava, dava ordens: "Some daqui coisa ruim", "mas Constantino, pra onde nós vai? Pra debaixo da ponte?", implorava uma sem-teto. "Pur mim vão pros infernos, que esta favela desgraçada acabou, vamos encher esse buraco de terra, vai se fudê!".
     Alegria de uns, tristeza de outros. Muita gente ficou feliz, Subaco das Cobras enfeiava o bairro. Mesmo com alguns moradores resistindo em sair dos barracos, os primeiros caminhões de basculante começaram a chegar. Constantino decidia quem podia e não podia aterrar o local. Seus dois caminhões basculantes não paravam. João em um, André em outro. André impôs condição. Pagamento semanal. Constantino aceitou.
     "Ei, peraí, tá pensando quissoaqui é casa da mãe joana?". Pegou um porrete e amassou a lataria do caminhão basculante de um desavisado. O sujeito desceu. Foi tirar satisfação. Constantino e os filhos deram-lhe uma surra. "Aqui só despeja terra com o meu consentimento, tenho apoio do secretário de obras!". 
     O tempo passou. A antiga favela do Subaco das Cobras foi aterrada e o local virou uma praça. O dono do território batia na pança: "Não fosse eu os vagabundos ainda tavam aqui. Romélia, cadê meus chinelos, ô mulher lerda!". 
     Um dia deu uma surra em Romélia. E a vida de Constantino girou cento e oitenta graus. João, André e os outros filhos reagiram: "Bater na mãe, não, isso não, pai". "Batos sim, quem vai impedir?".
     Constantino foi expulso de casa, depois de uma chuva de socos e pontapés.
     Joaquim Serralheiro comentou o fato: "Cria corvos e será devorado por eles". 


J Estanislau Filho
Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros - página 63.

Pode ser adquirido no seguinte endereço eletrônico: www.protexto.com.br


   

7 comentários:

  1. Um conto com belíssima projeção, parabéns Stan***** abraços

    ResponderExcluir
  2. Excelente trabalho Estan..
    Quem com ferro fere, com ferro é ferido..

    ResponderExcluir
  3. Constantino era um troglodita transvestido de pastor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um pobre diabo, Carlos. Obrigado pela presença.

      Excluir
  4. Excelente conto, e desfecho surpreendente.
    parabéns Zé, abraços!

    ResponderExcluir