sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Joaquim da Ventania




Joaquim da Ventania (*)

“Eu vou contar um caso do/Joaquim da Ventania/que casou muito criança/mas olerê perdeu o amor da famia...” Domínio público.
- Canção cantada por minha mãe, quando eu era criança. (*)

Joaquim da Ventania tinha quinze para dezesseis anos de idade quando se casou, sob a mira da garrucha de Seu Argemiro, “pru mode tê deflorado minha fia Maria de Lurdes!”. O casório se deu na “igreja verde”, no linguajar irônico do povo, naqueles tempos ásperos.
   Quem tirava o cabaço de uma moça tinha duas opções: casar-se por bem ou por mal ou arribar as pernas para os confins do mundo, para não correr o risco de ter os bagos decepados e comer capim pela raiz. Honra lavada com sangue. Um certo fazendeiro, dono de terras e gente, depois de expulsar a filha de casa “por perder a virgindade para aquele negro fi da égua”, saiu ao encalço do rapaz. Preparou armas, cavalos e matalotagem. Acompanhado de dois capangas, cavalgaram quarenta e três dias e meio, enfrentando intempéries até encontrar o pobre diabo dormindo sob as sombras de um pau d’óleo. “Acorda criolo fi duma vadia, pra nunca mais deflorar as fias de pessoas de bem”. Depois de massacrar os testículos do cabra, o colocaram dependurado, de cabeça para baixo, no galho da árvore. Em seguida esquentaram azeite à temperatura máxima, enfiaram um funil no cu do desinfeliz e derramaram o óleo fervendo...

   A gente se assusta com a violência moderna, mas ela, infelizmente, tem origem longínqua.
  Voltando à história de Joaquim da Ventania, os fatos se deram de forma diferente. Casou-se com Maria de Lurdes e tiveram dois filhos e uma filha, coisinhas mais linda do mundo. Maria de Lurdes abraçava o marido e se derramava todinha, quando ele pegava a viola e cantava as modinhas da época.
  Joaquim da Ventania e Maria de Lurdes viviam uma vida simples, porém não passavam necessidades. Caboclo trabalhador cultivava a terra, de onde tirava o sustento da família. O lazer se resumia a viola e ao rádio de pilha, sintonizado na Rádio Nacional e em beijos e abraços, sexo que rendia muitos filhos, pois naqueles tempos não havia televisão, nem conheciam métodos contraceptivos.
Mesmo esse amor, que parecia eterno, um dia se esgotou. Joaquim da Ventania perdeu o interesse pela viola e por Maria de Lurdes. Vivia macambúzio, para tristeza da amada. Certa manhã, ao acordar, Maria sentiu a ausência do Joaquim.
   Maria de Lurdes, porém, não  deixou-se derrotar, cuidou dos filhos até falecer aos oitenta e três anos de idade seis meses e quatro dias. Em seu último estertor, deu um sorriso de alegria ao sentir as lágrimas de Joaquim em sua testa.


J Estanislau Filho


Este conto está em meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros - Editora Protexto - 2012 - Pode ser encontrado, também, na Estante Virtual ou na própria editora. 

4 comentários:

  1. Um conto narrado em uma linguagem pitoresca, cheio de colorido... Um abraço da Beatriz

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  2. Parabéns poeta,bonito conto e muito gostoso de se ler. Abraços fraternos,

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