quinta-feira, 21 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
NÃO ME PERGUNTES
Não me perguntes sobre as cores daquela tarde chuvosa
em que segurei tuas mãos desfalecidas.
Não me perguntes onde estão as flores oprimidas por teus olhos áridos.
Vi teus lábios se contorcerem naquela manhã apática, mas meus olhos,
envoltos por nuvens escuras enxergavam luminosidade leniente,
enquanto tu eras presságio, peça sem costura.
E quando diante do espelho vi uma imagem distorcida,
olhar oblíquo, não te reconheci.
Fescenina e réproba, tua melopéia feriram meus tímpanos,
ímpetos de evadir se apossaram dos meus sentidos,
todavia, os membros arrefecidos, não obedeceram ao comando
desse coração singular.
Então não me perguntes mais sobre meu silêncio apartado,
sei que tuas lágrimas não movem nada móvel
e não comovem as fímbrias das tenras flores do jardim prometido.
Os grilhões desse ajoujo não são de hoje, vem de épocas remotas,
apanágio atávico em estágio de mutação.
Portanto não me perguntes mais em que paisagem meu coração se desviou,
a incerteza é minha companheira nessas horas desmedidas.
Este é o primeiro poema do livro Estrelas.
Que tem ainda A Moça do Violoncelo (contos de mistérios), formando dois livros em um, com duas capas em papel laminado, 176 páginas R$25,00 sem mais despesas.
sábado, 9 de julho de 2016
Cão sem Dono
Ninguém sabia quem era o dono daquele cachorro branco de pintas pretas, uma mistura de dálmata com vira-latas, que vivia perambulando pelas estradas empoeiradas de Tropeiros. As pessoas ficavam incomodadas, curiosas e algumas até mesmo irritadas com a liberdade daquele cão, que entrava e saia das chácaras, ora em busca de uma sobra de alimento, ora para satisfazer o seu apetite sexual em uma cadela no cio. Sumia por algum tempo, sem deixar pistas do seu paradeiro.
Ele era meigo e manso, contudo não exagerava nas brincadeiras. Gostava de manter uma certa distância, não querendo se envolver em muitas intimidades, quem sabe, com receios de se apegar a alguém e de criar raízes em terreiros, tornando-se prisioneiro de sobras de alimento e afeto. Preferia ir para onde o nariz apontasse, pois, confiava mesmo em seu instinto, em seu faro. Cadelas no cio não lhe faltava. Cadelas de diferentes raças, pelos e cores.Todas que cruzaram seu caminho, ele cruzou, espalhando o seu DNA.
Cão sem dono. Dono de ninguém. Livre.
Algumas pessoas manifestavam seus pontos de vistas sobre este cão andarilho, nômade, que não respeitava cercas. Conseguira pular sobre a tela de uma chácara e engravidar duas dálmatas legítimas, que deram crias a doze filhotes, para desespero dos donos das cadelas, que juraram dar um fim naquele cão sem dono.Mas, com o passar do tempo, esqueceram a vingança, mas antes, exterminaram os filhotes.
Quando ele era visto cruzando com uma cadela bem no meio da rua havia quem o apedrejasse, horrorizado com tamanha falta de pudor e de respeito, como se fazer sexo fosse algo abominável. No fundo era a inveja se manifestando.A cultura de que o sexo é pecado ainda está enraizada nos corações e mentes de muitos adultos. Os adolescentes, ao contrário, assistiam a tudo excitados.
Contudo, havia quem o defendesse e mesmo tentasse, sem sucesso, mantê-lo no espaço limitado da chácara.
Um dia, algumas pessoas infelizes, prisioneiras da impotência, planejaram exterminá-lo. Não tanto por ódio a ele, muito mais para levar sofrimento e irritação a uma senhora idosa e solitária, que muitas vezes fazia do cão a sua companhia. Todavia, eles não conseguiam se entender sobre os métodos a serem utilizados. Sovinas, nenhum deles desejava gastar dinheiro com veneno e um pedaço de carne.A pauladas era a melhor alternativa, contudo, esbarravam na consciência hipócrita e na dificuldade de apanhá-lo, pois, percebendo o perigo, ele fugia. Precisava de algo que não sujasse as mãos. Uma coisa era certa: depois de morto o cão, seria jogado no quintal da velhinha, para vê-la blasfemar contra a maldade humana. Esta era a parte divertida do plano.
Enquanto isso o cão continuava percorrendo livremente as ruas empoeiradas das chácaras do cerrado, despreocupado e feliz.
Os assassinos finalmente chegaram a um consenso: o cão sem dono seria estraçalhado por um pittbull. Descobriram como prendê-lo: quando estivesse montado em alguma cadela. Em seguida seria levado até a chácara de um conhecido, dono da fera, que também detestava a liberdade alheia e o pittbull faria o resto. Depois, era só levar o cão morto e sorrateiramente atirá-lo no do quintal da velhinha e assistir ao espetáculo á distância, satisfazendo seus instintos maldosos.
Tudo isso deveria ser feito sem despertar a atenção dos vizinhos, pois ali bem próximo havia uma senhora que recolhia cães abandonados e os mantinha sob seus cuidados com a ajuda da sociedade protetora dos animais, que poderia denunciá-los às autoridades.Ela tentara levar o cão sem dono para o seu canil, mas ele sempre dava um jeito de escapar.
Aliás, esta senhora era alvo de deboche, pois, segundo comentários de alguns, como poderia alguém dar proteção a animais com tantas crianças passando fome. Caminhão lotado com sacos de ração seguia todo mês ao local. Ela era uma senhora herdeira de uma fortuna e segundo diziam, não tinha filho, por isso, destinava suas economias cuidando dos animais abandonados. Quando era questionada, respondia: “cachorro também é gente e o dinheiro é meu, ninguém tem nada com isso e são os meus empregados que cuidam dos meus amores, são bem remunerados e vão cuidar das suas vidas, que da minha e dos meus cães, cuido eu”.
Eles prenderam o cão e o levaram ao pittbull. E não acreditaram no que viram: os dois se deram muito bem. Protegido pela fera, ninguém ousou aproximar-se, para retirar o cão sem dono da companhia do seu novo amigo. Pelo que se conta na região, os dois vivem em perfeita harmonia, trocando carícias.
Esta crônica integra o livro Crônicas do Cotidiano Popular - Edição do autor - 2006 - Esgotada. Editoração eletrônica: Fernando Estanislau - Capa/Ilustrações: Maizena.
Está no ar o meu último livro: A Moça do Violoncelo (contos de suspense e mistério) - Estrelas (poesias). Dois livros com capa dupla, orelhas em papel laminado, 176 páginas, 4x4 cores, por R$25,00 sem mais despesas. Peça o seu diretamente com o autor. Seja um mecenas da cultura popular.
LIVRO, UM PRESENTE INTELIGENTE!!!
sexta-feira, 8 de julho de 2016
nudez
Vê-la nua corpo em chamas
Lábios e boca abertos ao beijo
Contorcendo desejos sobre a cama...
Doce menina sedenta de prazer
Mulher plena em plenilúnio
Etílico corrompendo meu ser...
Navegarei em teu dorso como quiseres
Eu marinheiro de versos e mares
Serei teu guia se tu me guiares
Por esses labirintos quereres
[seios pênis clitóris orgasmos]
Subir contigo aos ares
Depois quedarmo-nos
Em diversos marasmos.
O poema acima está em meu último livro Estrelas (poesias), que junto com a Moça do Violoncelo (contos de mistério e suspense) formam dois livros em um, com duas capas, orelhas e papel laminado, 4x4 cores, 176 páginas, que pode ser adquirido, fazendo contato com o autor. Custa R$25,00. Sem mais despesas.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
de quem é a culpa?
Poema-reflexão
foi cruelmente surrado na infância
por motivos fúteis
bloqueou a consciência.
ao ser estuprado chorou
e levou cuspe no rosto
ergueu as calças e se calou
alguém ateou fogo no pasto
e para se ter uma ideia
levou surra por ação alheia
viver não lhe dava sorte
o que mais doía não era o açoite
era sentir-se boi de corte
sofreu nas mãos da polícia
levou chutes de botas
por pouco o crime o alicia
a adolescência foi perda total
dessa forma adulto se mostra
para o convívio social
pensa pensa como pode
viver uma vida sem ódio
é na velhice que ele explode
vai apodrecer nas grades
foi pego à luz do dia
praticando pedofilia.
J Estanislau Filho
LIVRO, UM PRESENTE INTELIGENTE!!!
J Estanislau Filho
Poema que integra o livro Palavras de Amor - 2010 - Esgotado. É possível encontrá-lo em www.biblioteca24horas.com ou no site da Estante Virtual e ainda na Livraria Cultura. Também em Amazon
sábado, 11 de junho de 2016
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
domingo, 5 de junho de 2016
amor e ódio
Ao dar mutuamente a palavra de honra, que não tornariam público suas relações amorosas, decidiram, em conluio plantar um jardim, para selar o pacto. Sonhavam ver seus caminhos juncados de flores e em volta o chilreio dos pássaros.
Caminhavam de mãos dadas pelos parques, sorrindo e se beijando. Sentavam-se nos bancos das praças arborizadas, observando atentamente a fonte luminosa e os passantes.
Cego de amor, ele prometeu ir até o sol e trazer acesa a tocha, para aquecer seus dias. Ela prometeu acender círios coloridos pela casa, todas as noites, para que o breu não os impedisse de ver o brilho de seus olhos. Ele garantiu que iria ao fundo mar capturar um cavalo-marinho e o colocaria em um aquário, para o sortilégio de uma felicidade a dois.
Todavia a névoa chegaria impedindo-os de vislumbrar olhares oblíquos, dissimulados, gestos de fastio.
Dos sussurros nos ouvidos percebiam-se orgasmos fingidos...
No jardim as flores murchavam.
Os círios foram se apagando um a um.
O brilho dos olhos foi substituído pela palidez.
O sorriso, outrora, espontâneo transformou-se em arremedo.
As palavras tornaram-se ásperas, insípidas.
Agora o mundo inteiro ouvia as pragas mútuas.
A honra fora substituída pela desonra.
O amor em ódio.
Esta crônica está no livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros, à venda no site da editora Protexto: www.protexto.com.br
No ar o meu último lançamento. Dois livros em um: A Moça do Violoncelo (contos de mistério) - Estrelas (poesias). Aos interessados, façam contato.
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quinta-feira, 26 de maio de 2016
Senilidade.
Um ancião atormentado pela memória fugidia encontrava-se parado diante do caixa eletrônico do banco. Olhava a máquina como quem olha um ser vivo, pois dizia algo a ela. Uma moça bonita como um anjo, vestida de azul-celeste, que a identificava como funcionária da agência, disse: posso ajudá-lo? Ele recusou-se peremptoriamente. Disse não ser um débil mental, e mais: Passei a minha vida pegando boi pelos chifres, portanto, não tenho medo deste bicho insignificante. Atrás dele a fila crescia impacientemente. Alguém disse, tire este velho daqui. A assistente insistiu em ajudá-lo a se decidir, segurando-o pela mão educadamente. Os impacientes procuraram outro caixa, acompanhados por todos e a fila se desfez. O ancião tornou-se usuário exclusivo do equipamento, com o qual continuava um monólogo inverossímil . Algumas pessoas de boa vontade tentaram uma solução, como procurar se havia nas imediações algum parente; outros procuraram a gerência, pois entendiam ser de responsabilidade da empresa um tratamento adequado às pessoas portadoras de necessidades especiais. Quem seria ele? Os mais curiosos ouviam com atenção o que ele dizia com voz rouca: Pau que nasce torto em casa de ferreiro, antes eu fosse marceneiro, mas o pai dizia que o futuro era a forja; profissão boa é a que oferece oportunidade de emprego, filho! Alguém, irritado, chamou a funcionária do banco: socorre aqui meu bem, senão a fila não anda! Novos usuários incautos formavam nova fila no caixa monopolizado. E o idoso continuava conversando com a máquina de vomitar dinheiro. Pernas bambas, trôpegas, falando mesmo com quem? Na rua seria que enxergava semáforos, faróis, calçadas, plantas, carros? Leria letras miúdas das embalagens? Apertou as teclas da máquina e sorriu ao ver a tela mudar de cor. Usou todos os dedos tocando as teclas com delicadeza. Seriam teclas de piano? Acordeom? Seria ele um músico? Senha, a senha! Esqueci. Perdi o sonho, perdi o sono. Moço, o ônibus cento e dois b passou? Eu não enxergo de longe, o motorista não para. Moro na rua Flamboyant. Fica no bairro Eldorado. Ele não sabe, a rua mudou de nome, agora se chama Gilda Maria. Um momento, senhor, vou ajudá-lo a atravessar a Av. João César. Aqui da Caixa até lá é perto, podemos ir a pé, mas moça, todos sabem, idoso não paga passagem, preciso ir buscar a senha. Honestamente achei que ele zombava de mim. Como o senhor se chama, perguntei. Getúlio Vargas foi o melhor presidente, pai dos pobres. Esse aí, o Brizola, não voto nele. Não será igual ao Getúlio, porque... a minha mulher saiu de casa e não voltou. Tenho uma filha nos Estados Unidos. O senhor me conhece? Pediu-me para marcar uma audiência com Getúlio Vargas. Tive ímpetos de dizer-lhe que a agenda do céu estava esgotada. Disse-lhe então, que tanto Getúlio quanto Brizola, morreram. O Presidente da República é o Lula, disse-lhe ao pé do ouvido. Quem é Lula? Falava de coisas passadas. De quando pegava bois pelos chifres; de subir em pés de jatobás; pegar filhotes de pássaro-preto; guiar carros-de-bois, fazer farinha e rapadura. A mulher cuidando da casa, preparando o almoço para os trabalhadores no eito. Na labuta, preparando a terra, para semear os grãos. Moço, o senhor não sabe, mas fiz de tudo nesta vida: Plantei lavoura de toda qualidade: arroz, feijão, café, cana, fumo...(pausa). O fumo, veja só que ironia, foi a minha salvação e de minha família. Eu que nem fumar , fumo. Ainda tive tempo de virar metalúrgico, coisa que eu não queria. Fiz greve, participei de piquetes. Agora eu fico reparando as coisas. O Carlos Lacerda não presta, mas o Alcino, pistoleiro a serviço de Tenório Cavalcanti, não fez o serviço direito. Como pode mirar o peito e acertar o pé? Um ancião longe do presente. Aquele homem, dizia apontando para um lugar qualquer, está de tocaia para me matar. Fiquei pensando como alguém deixa um ancião sair sozinho. Será que tem filhos mesmo?. Agarrou-me pelo braço e pediu-me proteção contra o assassino imaginário. O que fazer? Eu estava atrasado para o trabalho. Enfiei a mão em seu bolso e encontrei alguns documentos embrulhados em papel-plástico: um cartão magnético da Caixa, apagado, título de eleitor e identidade ilegíveis. Procurava o número de um telefone. Avisar algum parente do paradeiro do idoso. Que situação! Olhei de um lado a outro, nenhum sinal de alguém que o conhecesse. Melhor chamar a polícia. Não, por enquanto não. A polícia está sobrecarregada, ganhando mal. O que eu tenho com isso? O velho decidiu não soltar o meu braço. Pedia: aquele homem quer me matar, vamos embora pra casa. Onde o senhor mora? Perguntei por perguntar. Já sei, rua Flamboyant. Mas e o número? O jeito é ir à rua e bater de porta em porta. Ela não é tão grande. Agora sim, perdi o compromisso. Com todo respeito à polícia, eu mesmo vou resolver esse caso. Não posso deixá-lo aqui. Vamos pensar: ligo e cancelo o compromisso? Como é mesmo o nome do senhor? Ah meu filho! É Zé. Não consigo ler, José Fr...co d. Ican... Preciso do nome completo. Ela se chamava Maria Madalena, era linda, uma cigana... Quando soube que eu era casado, ela se desatinou. Porque eu era danado, um rabo-de-saia, mas abandonar minha Filó, nem pensar, só a morte nos separaria e Madá não teve forças de suportar o tranco. Foi triste. Estava toda desfigurada, não era a minha cigana fogosa, ainda assim, tinha brilho os seus olhos. Na hora do enterro fiquei firme, segurei a dor, mas no terceiro dia, montei no meu alazão e o deixei ir aonde quisesse. Conhecedor de minha tristeza, ele me levou ao local mais solitário que podia existir: O Vale das Lágrimas. Lá eu chorei lágrimas de sangue, porque a ausência de Madalena acabou comigo. Era e ainda é uma dor difícil de avaliar. Se é que o senhor entende a dor da perda de um grande amor. Madalena queria que eu largasse Filomena e isso eu não podia, por causa dos compromissos feito com Deus, com as bençãos do Padre Josué.
Nesta altura eu estava decidido e até sossegado. O dia prometia. Peguei-o pelo braço e saímos andando pela Av. João César de Oliveira, ele falando da cigana, de Filomena, de tocaias. Eu me sentia cansado da rotina de compromissos inúteis, infeliz em um trabalho de Sísifo. À merda tudo isso. Tirei o dia para ficar por conta do velho e de suas histórias inverossímeis. Chegamos ao Parque Ecológico Eldorado, ele olhando como se nada daquilo constituísse novidades. Tentei contar-lhe como o povo se mobilizara para transformar aquela área degradada em um parque, falei do Conviverde, de ambientalistas, do conselho de meio ambiente, mas ele não me ouviu. Sabe meu filho, certa noite eu acordei com um barulho esquisito vindo do curral. Peguei a lanterna, o revólver e saí para ver o que era. Os bezerros estavam agitados, as galinhas também. Mas nada que suspeitasse de onça pintada. Porque se fosse onça, o barulho no chiqueiro seria enorme. Desconfiei de ladrão de cavalo. O Zé Marcolino tinha sido preso várias vezes por roubo de cavalo. A polícia e os bate-paus não tinham piedade. Havia denúncia de roubo de cavalo, Zé Marcolino caía no couro. Às vezes nem era ele. Mas sabe como é: fez fama, ganhou a cama. O ancião só retomava o rumo da história, depois de eu dizer-lhe que o causo carecia de um final. - Aí eu fui até o pasto, não vejo a mula ruana e ouço passos leves: era ela sendo levada. Vou seguindo aquele pisar que conheço bem, quando dou de frente com o ladrão. Aponto o revólver e digo solta esta mula, porque ela tem dono e você está preso, em nome da lei! Nesta hora, não sei o que me deu, quando vi tinha apertado o gatilho. Notei que eu não tinha preparo para essas coisas. Polícia e bate-pau não perdem o controle. Quando disparei a arma, o estranho saiu correndo. Não era o Zé Marcolino, porque ele eu conheço bem. Até fez uns serviços para mim. Recuperei, mas a dor de ter tirado a vida de alguém não me deu sossego, mesmo sendo um ladrão. Não sei se morreu, nem sei quem era. Conheço os mandamentos e não matarás é o terceiro. Não dei conta de viver naquele mudéu de tanta tristeza e vim pra cidade grande. Ser metalúrgico era o desejo de todos. Trabalhar na Mannesmann ou na Belgo-Mineira era como ganhar na loteria. Eu sou contra esse trem de greve, mas não ia trair meus companheiros. Isso nunca. Você viu meu filho por aí? Não, respondi, como ele se chama? Seu Zé entrou em novos devaneios. A pior coisa, no meu modo de entender é a ingratidão. Quando tomo meu café de manhã, agradeço a Deus e às pessoas que trabalharam sol-a-sol, para eu me alimentar. No almoço e no jantar eu agradeço. Ao dormir agradeço os carpinteiros que fizeram a cama, os fabricantes de colchões e cobertores. A vida é uma dádiva, entretanto, como tem gente que reclama de tudo. Olha esta beleza! Como não agradecer a quem construiu este banco? As flores, maravilhas da natureza. Não quero saber de violência. Pode haver ingratidão maior, que a prática de violência? Vamos falar de coisas lindas, tem tanta gente fazendo o bem! Não sou nenhum santo, também fiz as minhas maldades... Nesse momento o idoso parou de falar. Respeitei o seu silêncio, imaginando o que ele estaria pensando. Também me pus a pensar em minhas crueldades. Magoei muitas pessoas. Jurei não colocar filhos no mundo. Para quê? Para vê-los sofrer? Só vejo violência e ódio. Competição, sadismo. Estou aqui ouvindo a lenga-lenga deste velho, vai ver foi um grande filho da puta. Fiquei sem saber o que fazer ao vê-lo se debulhando em lágrimas. Acariciei os seus cabelos, em seguida pousei sua cabeça sobre meu ombro.
Decidi, como planejara, ir à R. Gilda Maria e bater de porta em porta. Não demoramos muito encontrar a casa de "seu"..., até porque ele era bastante conhecido na rua. Depois dos agradecimentos e das apresentações, fui convidado a tomar um café. Pedro, o filho, contou-me que o pai passa a maior parte do tempo no Sítio Paraíso, um pedacinho de terra que temos em Taquaraçu de Minas. É viúvo e às vezes a gente precisa trazê-lo em Contagem, para passear, ir ao médico e ele desaparece. Por falar nisso, preciso ligar pra polícia, avisando que o encontramos. Não sabemos como agradecê-lo, disse-me Clara, esposa de Pedro. Respondi ter sido um prazer, afinal aprendi muito com ele e acabei conhecendo pessoas interessantes.
Antes de me despedir trocamos o número de nossos celulares, endereços eletrônicos, para nos comunicarmos e estreitarmos os laços de amizade. Alguns meses depois eles me convidaram a um passeio ao Sítio Paraíso.
Eu estava levando a vida muito a sério, rigoroso demais comigo, muitas cobranças, um peso enorme nas costas. As visitas ao sítio e os causos de Seu Zé Francisco me acalmavam. Em um dia de lucidez ele me disse: Vou ser sincero com você, meu filho, tenho momentos de muita tristeza, sim! Solidão não presta; amei e fui amado; ainda penso arranjar um novo amor, para passar o resto de meus dias cuidando de orquídeas, bromélias e uma horta de couves, cebolinhas e uns pés de alface. Só para passar o tempo, quero saber de trabalho não. Carreguei muitos fardos. Fui jogando tudo fora, carrego apenas a roupa do corpo. Vamos deixar de lado as preocupações, a raiva, a mágoa, os rancores. Assim a vida fica mais leve. O dia está tão bonito. Aposto que você trabalha obrigado, enfrentando uma rotina chata.
Fiquei pensando em suas palavras. Pouco tempo depois pedi demissão da empresa e comprei uma chácara ao lado do Paraíso. Pude então realizar um sonho antigo: Pintar as minhas telas e vendê-las. Havia tempo para ouvir os causos do cada vez mais senil, o Seu Zé Francisco. Às vezes o via andando com passos trôpegos pelo sítio, apalpando folhas e flores e as levando próximas aos olhos. Ele me inspirou uma tela, que não está à venda e estes singelos versos:
o coração não bate
com o mesmo vigor
a face tem outra cor
ao erguer-se da cadeira
contorce-se de dor
a visão está turva
não separa folha da flor
seus direitos fundamentais
tornaram-se banais
não se humilha mais
com seus atos fecais
os pruridos morais
ficaram para trás
os pés não movem
com a antiga pressa
há rugas espessas...
Esta crônica está em meu livro Filhos da Terra - Edição do Autor - 2009 - Esgotado
Conheça meu último lançamento> A Moça do Violoncelo (contos de mistério) - Estrelas (poesias). Dois livros em um. Duas capas com papel laminado, duas orelhas - 176 páginas - R$25,00 (frete incluso).
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sábado, 21 de maio de 2016
A morte como companheira
Imagem: Google
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência
Não há quem pelo menos uma vez na vida, não tenha refletido sobre a morte. Parece tenebroso, agourento, mas faz parte da vida
A gente nasce, cresce, fica velho e morre. É inevitável. Feliz quem chegou à velhice, passando por todas as etapas da vida, experimentou o mel e o fel, cresceu e evoluiu com as intempéries e as calmarias. Alguns não tiveram esta oportunidade. Foram vítimas precoces de balas perdidas, desnutrição e fome. Contudo, se alguns morressem cedo, ninguém lamentaria.
Chico da Cruz viveu cento e dezenove anos, quatro meses e onze dias. Foi encontrado dentro de uma vala que ele próprio cavara, debaixo da mangueira que ele mesmo plantara na infância e onde queria ser enterrado. Morreu no último dia de fevereiro do ano bissexto de 19... Quando o filho mais velho, que não se casara e viveu na fazenda fazendo o trabalho duro e completaria cento e um anos, percebeu o cachorro jogando terra com as patas sobre a vala, ciscando como galinha, soube que o pai deixara a vida. Interrompeu o trabalho do cão, para que ele esperasse a família se reunir e dar o último adeus ao patriarca.
Eram oito horas de uma manhã ofuscada pela forte cerração e confusa pela algaravia das aves e dos animais domésticos. Somente às dezoito horas em ponto, hora do ângelus e do tanger do sino da pequena capela da Fazenda Nossa Senhora do Rosário, foi que Francisco da Cruz Filho conseguiu juntar os vinte e um irmãos, duzentos e quinze netos, noventa e seis bisnetos, dezenove tataranetos e três filhos de um tataraneto. A razão de extensa prole era pelo fato de Chico da Cruz não admitir o uso de contraceptivos proibidos pelo Papa. Não fossem os três que nasceram mortos, um que se desviou dos caminhos de Deus e fora assassinado por um marido ciumento e outro, que morrera de varíola, o velho Chico da Cruz e Dona Manuela teriam ao todo vinte e seis filhos.
Dona Manuela era bem mais nova que Chico da Cruz. Ao chegar à beira da cova, reagiu de um modo, que deixou seus descendentes com um misto de medo e satisfação: cuspiu no rosto do defunto e praguejou: - Bosta do demônio, ao seu lado eu fui a mulher mais infeliz do mundo, você nunca soube como odiava o seu bafo de cachaça, suas mãos ásperas e seu corpo asqueroso tremendo em cima de mim. Nem mesmo os filhos que me deu, pude partilhar alegria, pois você os tratava pior que os seus porcos que chafurdam na lama. Como rezei para que morresse, seu desgraçado, filho do cão. O terço que nos obrigava a rezar antes de deitar, as penitências que fazíamos, pedindo chuva em tempos de seca, carregando pedra na cabeça até o cruzeiro lá no alto do morro podem ter lhe dado vida longa, mas não evitarão que você queime no inferno. Você cometeu perjúrio, teve filhos bastardos, dormiu com criadas, deflorou meninas desamparadas, estuprou e até em éguas, mulas, cabras e porcas você enfiou este pinto nojento. Que a morte lhe traga sofrimentos, para pagar todo o mal que fez à humanidade! Podem jogar terra e vamos todos à sala comemorar, não há razão para tristezas e orações. Morreu tarde!
Após o breve discurso, Dona Manuela se dirigiu para dentro de casa, amparada pelo bisneto, o Dr. José Luis da Cruz de Almeida Cunha, médico otorrinolaringologista, que morava na capital federal e viera em seu helicóptero para o enterro e atestar o óbito.
O Dr. José Luis, Zezé para os familiares, não ficou para a festa de comemoração da morte do bisavô, pois precisava retornar à capital federal, para participar de um congresso de otorrinolaringologia, para o qual fora honrado com o convite de fazer a cerimônia de abertura ainda naquela noite. A Fazenda Nossa Senhora do Rosário não era distante da capital, portanto, em menos de uma hora chegaria para a cerimônia, com um ligeiro atraso, aliás, planejado, pois julgava que assim criaria um clima de expectativa. Ao contrário do bisavô, que não temia a morte, o bisneto sentia-se próximo dela. Antes de entrar no avião, colocava sal grosso nos bolsos e enfiava uma folha de arruda ou guiné na orelha esquerda; na hora de deitar-se media a pressão; auscultava o peito com estetoscópio, para ouvir o batimento cardíaco; engolia uma dúzia de comprimidos e colocava uma venda nos olhos, para aplacar a luminosidade da lâmpada e ia dormir com ela acesa, pois receava morrer no escuro, tendo o cuidado de verificar se o telefone estava funcionando, para o caso de chamar o Dr. Epaminondas, um médico amigo, especialista em cuidar de pacientes com síndrome de pânico e de doenças da alma.
Durante o voo o Dr. Zé refletia sobre a barafunda que fora a existência do bisavô. Não compartilhava o ódio descomunal de Dona Manuela, afinal, Chico da Cruz nunca deixou faltar nada aos filhos, ajudou netos e bisnetos a encontrar um rumo na vida. Ele mesmo se formara graças à ajuda dele, que pagara todas as despesas, que o pai negara, pois o queria padre. O pai contrariado jurou nunca mais conversar com o avô e só compareceu à cerimônia do enterro por causa da avó, balançando a cabeça afirmativamente quando ela rogara-lhe as pragas terríveis. Quanto ao filho, que ousara desobedecer-lhe, protegendo-se nas asas do bisavô, apenas depois de alguns anos concedera-lhe o perdão, atendendo ao pedido da esposa e do próprio Zé Luis. Lembrando o comportamento tresloucado do patriarca, esboçou um sorriso, que chamou a atenção do piloto: - O senhor acaba de sair do enterro do velho e me parece tranquilo. - Estou rindo de uns acontecimentos envolvendo meu bisavô e não há motivos para choro com a sua morte, ao contrário, é para comemorar, pois são raros os que chegam na idade dele. Sabe Paulo César, a existência é um enigma. Meu bisavô levou uma vida atabalhoada, rodeada de perigos, bebeu cachaça que nem bezerro e em sua autossuficiência não incomodou ninguém, nem na hora da morte. Dona Manuela sofreu na mão dele, é verdade, mas só agora revelou a extensão de sua raiva. Fico pensando como alguém consegue guardar a sete chaves tanto rancor por tanto tempo e não morrer. Acho que o ódio, assim como o amor, prolonga a vida. Eu não viverei tanto, porque não trago ódio, nem amor no coração, logo, tenho a morte como companheira. Apesar das precauções, tenho mais medo da terra do que suspenso nessa geringonça. Mas estava pensando no velho Chico da Cruz, lembrando alguns momentos engraçados, porque os eventos ocorridos com ele, mesmo trágicos, parecem comédias. A vida, meu caro Paulo, é uma tragicomédia.
Meu bisavô ia a cavalo à cidade todas as quartas e sextas à tardinha, sempre bêbado. Respeitava os domingos, indo à missa com a família, não bebia, não blasfemava e não respondia às agressões verbais de minha bisavó. Voltava bêbado da cidade, montado em seu alazão. Este cavalo era o seu fiel companheiro, jamais o deixava na mão. Chico da Cruz vinha balançando o corpo, ora para a esquerda, ora para a direita, pra frente e pra trás. Muitas vezes acontecia de inclinar o corpo pra frente, deitando-se de bruços no pescoço do animal, cochilando. Chegava em casa são e salvo. Acontecia de ele cair e ficar por muito tempo no solo. O cavalo parava imediatamente e esperava o Chico da Cruz acordar. Ele ficou rico fabricando cachaça. No começo era um alambique imundo. Não chamava de cachaça ou aguardente, era arrebenta-peito, água-que-passarinho-não-bebe, sinhaninha, esquenta-por-dentro, água-benta, filha-de-senhor-de-engenho e outros nomes engraçadas. No processo de fermentação encontrava-se até rato morto no tanque. Somente a terceira geração introduziu modernas tecnologias, aumentou a produção e o patrimônio cresceu. Hoje a famosa Água-Benta do Chico da Cruz é exportada para a Europa e é a base do patrimônio da família. Açúcar e álcool vieram bem depois, mas o sucesso pertence a Água-Benta. Outro fato interessante é que o velho não se embebedava com a sua cachaça, pois ele acreditava que isso traria azar. Gostava era de pinga desdobrada, pinga ruim de boteco fuleiro, copo-sujo. Segundo as más línguas ele era um pervertido sexual, que emprenhou muitas meninas. Sinceramente não sei se é verdade. Alguns causos são verdadeiros, pois presenciei.
Dr José Luis faz uma pausa, para observar as nuvens. Em seguida prossegue: - A mania que ele tinha de não amolar as pessoas, levou-o a usar um penico para as suas necessidades. Depois de urinar e defecar, isto já em idade avançada, ele o lavava, para beber água e até se alimentar. Bisavó Manuela ficava horrorizada e dizia "eita bicho porco". Não gostava de usar o sanitário. Fazia suas necessidades no penico ou no mato. Preferia banhar-se na cachoeira e na bica. Jamais quis saber de morar na cidade. Não foi fácil convencê-lo a se mudar para a nova sede da fazenda, queria ficar na casa antiga, sem conforto.
- Mesmo depois de ter ficado rico, ele manteve a mania de defecar em penico? Perguntou o piloto, preparando-se para a aterrissagem.
- Esta mania ele adquiriu quando ainda era jovem, lá pelos sessenta anos - respondeu o médico, sorrindo - e já estava numa situação econômica confortável. Depois ele jogou o velho penico de esmalte fora e mandou fabricar um sob medida, folheado a ouro. Eu o trouxe com medo de Dona Manuela sumir com ele. Fico me perguntando porque o velho Chico viveu tantos anos? Bebendo pinga como ele bebia... A minha bisavó, que nunca tomou uma dose de álcool, também é uma fortaleza! Ela chegará aos cem brevemente com uma vitalidade de fazer inveja a muitos jovens. Pariu vinte e seis filhos, assim, sem assistência médica adequada, aliás, os onze primeiros assistidos por parteiras, sem higiene, com ausência total de profilaxia. Poucos morreram e os que viveram cresceram com vitalidade.
O helicóptero pousou suavemente e o Dr. José Luis fez o sinal da cruz antes de pisar em terra firme.
Na abertura do XXII Congresso de Otorrinolaringologia extrapolou o tempo programado com uma oratória recheada de latim de trinta e dois minutos a mais, irritando muitos presentes, em especial aos que vão a congressos e seminários apenas na abertura, para cair de boca sobre o bufê. Por motivos antagônicos, todos ficaram felizes com o fim da intervenção do Dr. José Luis, ovacionado pelo público. Este mesmo público, à exceção do Dr. Epaminondas Hipócrates Soares, médico especializado no tratamento de pessoas com a síndrome de pânico, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno afetivo bipolar, não percebeu a saída silenciosa do Dr. José Luis. Epaminondas o seguia à distância com o olhar e o viu entrar no carro, deixando o local do evento. Dr. Hipócrates retornou ao auditório, pensando se deveria ligar para o amigo, ele, que muitas vezes fizera o papel de conselheiro e psicólogo de Zé Luis, que nos últimos tempos dizia ver a morte como companheira. Pressentia a sua presença. Nestas horas sentia arrepios pelo corpo, o coração disparava. - Hipócrates, meu amigo, eu me comunico com ela. Ah, sinto frio, entro em transe e em êxtase - contava, emocionado, ao amigo. O Dr. Epaminondas diagnosticava ansiedade, angústia, taquicardia, pró-lapso da válvula mitral e, ultimamente, insanidade mental, mas esse diagnóstico guardava para si. Aconselhava o amigo a se casar, arranjar uma companheira, a construir uma família, mas Zé Luis retrucava, dizendo que era um ser solitário e que só se casaria ao encontrar sua alma gêmea e que o amigo não se preocupasse, pois o que tinha de ser será, completava em tom premonitório: A minha hora vai chegar. Repetia esta frase, quando desejava encerrar a polêmica. Ao se lembrar disso, Dr. Epaminondas decidiu esquecer o amigo e foi participar do coquetel.
Enquanto isso o Dr. José Luis chegava em casa. Lentamente subiu a longa escada, que conduzia ao seu quarto. Colocou o pijama negro de cetim, que comprara recentemente, para ser usado em uma ocasião especial. Nessa noite decidira romper o medo e sentou-se na cadeira de vime, com as luzes apagadas. Minutos depois, sentindo-se sonolento, entrou em estado de vigília. Viu o rosto de Chico da Cruz na cova e o cachorro ganindo de tristeza, viu a alma do bisavô saindo do corpo e se esvaindo. Em seguida um barulho de passos ritmados na escada, que ele sabia quem era. Sim, era ela chegando conforme previra. Epaminondas não se surpreendeu de tê-la, finalmente encontrado. Sua esplêndida alma gêmea. Em êxtase contava e cantava em silêncio os passos suaves subindo a escada:
Ouço passos na escada...
É noite e há silêncio.
Fico quieto ouvindo os passos ritmados
subindo a escada.
É uma mulher que vem
com sapatos de salto ato.
No silêncio noturno meu coração
bate batidas aceleradas.
Na noite silenciosa estou só.
A vela bruxuleia sobre a mesa
em cúmplice solidão.
Ouço passos na escada,
prenúncio de minha
derradeira noite de espera...
É ela que vem para pôr fim
aos meus dias solitários...
Reconheço seus passos decididos.
Vem com seu vestido negro
balançando os quadris
com uma expressão de amor.
Espero a campainha tocar.
Sei que é ela chegando
com seus cabelos longos
ligeiramente encaracolados
com um sorriso suave
para me acalmar.
Continuo paralisado
atendo aos leves passos
subindo a escada
na noite silenciosa e fria.
A minha hora se aproxima
mas os passos dela subindo a escada
parecem não ter fim.
Sei que vem com lábios de carmim
olhos meigos
elegante e sedutora.
Deixarei que ela me conduza
ao quarto e me coloque
sobre a cama com candura.
Meus tristes dias logo logo
terão fim
pois ouço o toque de seus passos
ecoando na escada.
É ela finalmente vindo a mim
e quando ela me tocar
meu coração deixará de bater descompassado.
Quando ela pousar seus doces lábios
sobre os meus
meu coração silenciará.
É ela sim...
Reconheço bem seus passos na escada.
É ela que vem
meu pássaro noturno.
J Estanislau Filho
domingo, 15 de maio de 2016
Oferta
ofereço a ti amor
o meu olhar sonhador
que enxerga luz na escuridão
ofereço as paisagens
de minhas retinas
as maravilhosas nuvens
que desanuviam o teu coração
ofereço-te a minha poesia
meu afeto e a alegria da partilha
de um menino inquieto
que se desatina com a injustiça
e atiça tuas fantasias
ofereço-te meu coração
e meu ouvido atentos
para enxergar e ouvir teus sonhos
ofereço a ti amor
na alegria e na tristeza
palavras e gestos de alento...
Imagem: JEF - por do sol em São Tomé das Letras.
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