quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O maior tributo a um grande amor que se encerra

E então pensei no final adequado de uma história de amor: gratidão ou maldição eterna? Amor ou ódio?

Aqui mesmo, diante desta tela, me ocorrem cenas de nosso amor de ontem.

E então eu sei, Deus, como eu sei, que a resposta àquela questão, para nós dois, é obrigado.

Gratidão eterna, em vez de maldição.

Serei feliz em sua felicidade. Escrevi uma vez e escrevo agora outra.

Sei que você também será feliz em minha felicidade.

De você lembrarei das pequenas e das grandes coisas.

Das cartinhas deixadas sob meu travesseiro: a letra ligeiramente inclinada para trás, a bola sobre a letra i. “As pessoas nascem para fazer certas coisas”, estava escrito numa delas que reli agora em nossa despedida. “Eu nasci pra te amar.” Éramos reis naqueles dias, não éramos?.

Do cheiro forte, perfume de fêmea, tão bom de aspirar pela manhã, antes que sabonetes e perfumes tornassem tudo artificial. Uma de minhas batalhas perdidas foi tentar convencer você a não usar perfume.

Das roupas tão desafiadoramente fora do padrão. Poderiam ficar esquisitas em outra mulher, mas em você eram a perfeita embalagem para uma alma também fora do padrão.

Das enxaquecas, suportadas estoicamente, sem o recurso a outras armas que não aquelas bolinhas brancas da homeopatia.

Dos sorrisos cúmplices para a câmara que eu empunhava. Gostaria, se você não se importar, de ficar com as fotos feitas apenas para o fotógrafo.

Da coragem admirável escondida num corpo miúdo, e não demonstrada em gritos ou mesmo em voz alta.

Da graça natural com que se move na dança.

De certas coisas esquecerei, afinal tão pequenas diante do conjunto da nossa vida, e sei que você fará o mesmo em relação a mim.

Esquecer, ainda mais que lembrar, pode ser o maior tributo a um grande amor que se encerra.


Fabio Hernandez


Sobre o Autor

O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".

8 comentários:

  1. acho que histórias de amor são melhores como lembrança quando os temores, as dúvidas, os tropeços já estão superados e fica somente a calma, o sabor das lembranças e tudo que não é mais pressa nem desejo, apenas uma história que pode ser revivida calmamente, como quando se vê um filme já visto, sabendo como termina, aí a gente pode saborear sem medo do que virá..

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    1. Obrigado pela visita e pelo comentário pertinente.

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    2. Histórias de amor são sempre as minhas favoritas, amei demais Parabéns <3

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  2. Assim escrevem os grandes escritores que nos colocam de cheio em suas belas narrativas de onde emanam emoções experientes de dores, alegrias, reconciliações! E para minha surpresa, só ao final da leitura, pude constatar que o texto não era de sua autoria, querido amigo! Felicidades, receba o meu carinhoso saudoso abraço!

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  3. Amores verdaeiros não se enceram, mas, liricamente, o texto é belo!!! Bom dia poeta Estanislau*****

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  4. Amar é exercício generoso.Quem busca a evolução não se amesquinha diante das perdas, das aparentes despedidas.Agradece e segue.Gosto muito deste texto do Hernandez, que dialoga com um do Rubem Braga(Despedida) e com seu pensamento de poeta afinado com a alma humana.Abraço!!

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  5. Os amores se vão, mas as lembranças ficam... Abraço!

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