quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Crônica do Amor Virtual





Conheceram-se pela internet em uma noite de lua cheia, mas não viram a lua, nem as estrelas cintilantes, viram flores luminosas artificiais piscando na tela do micro e foi amor à primeira visão virtual. Trocaram sucessivas mensagens de amor. Ambos deslumbrados, varavam a noite em conversas emblemáticas. Em uma certa noite, depois de se despedirem ao raiar o dia, firmaram o compromisso de modernizar a comunicação, para, além dos diálogos se verem em gestos e em corpos ardentes.
     Godofredo Alfredo trabalhava na seção de frios de um hipermercado. Passava o dia cheirando a mussarelas e presuntos, sonhando com os olhos aveludados de Maria Madalena. Distraído, enfiava a mão pelos pés, óbvio, no sentido figurado, pois na realidade armazenava margarinas e iogurtes entre mortadelas fatiadas ou com os pobres frangos despedaçados. Algumas vezes fora flagrado pelo chefe da seção, em total enlevo, beijando pizzas, fazendo furinhos em queijos suíços, enfim, viajando na maionese. 
     -  Godofredo, o queijo já tem furos suficiente. O que está havendo? Está maluco?
     Godofredo Alfredo parecia um zumbi zanzando nas dependências do hipermercado, com três noites de sono atrasado.Burlava a vigilância do chefe e corria até a lan house do shopping anexo, para ver a bela e fogosa Madalena, sempre on-line, luz verde, para alegria do indócil apaixonado.
     Madalena fazia parte de um grupo de pessoas irremediavelmente envolvida com o mundo virtual, razão pela qual sua net encontrava-se sempre em on, embora ela pudesse estar no mundo dos sonhos abissais. Viúva, recebia uma polpuda pensão do ex-marido, que se foi desta pra outra, após um ataque fulminante em seu frágil pulmão, por abrigar a nicotina de três maços de cigarro diário. Madá, como Godofredo passou a nomeá-la, enviava à sua paixão virtual, fotos sensuais. Ele literalmente babava.
     Ao voltar para casa, antes mesmo de um banho reparador, ligava a net, para ver a amada. Os encontros reais eram sempre prorrogados. Motivos justos não faltavam.
     Aqui, o autor dá um salto na história, pois o que aconteceu no entremeio todos conhecem. Durante três anos, cinco meses e sete dias os amantes interagiram até ao orgasmo virtual. Enfastiados, puseram um fim à relação e cada um foi, do mesmo modo, em busca de novas aventuras...


J Estanislau Filho -

 Esta crônica, dá nome ao meu livro Crônica do Amor Virtual e Outros Encontros.
O livro pode ser adquirido na Editora Protexto: www.protexto.com.br

7 comentários:

  1. Nossa ! muito bom ,viagei agora. Arrasou como sempre meu amigo querido que tanto admiro e repeito desde que o conheci pela net. Abraço

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    1. Valeu, sempre uma alegria sua amável leitura. Abraço.

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  2. Crônica mais que real! A fantasia de querer amar e ser amado tira o sono o sossêgo de espírito. Vira obsessão, angústia ainda que "gostosa" Parabéns escritor e poeta Estanislau. Sempre bom te ler. Abraço Olynda

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    1. É isso aí, Olynda, abraço e obrigado pela visita.

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  3. Espero que embora a inspiração seja a realidade,entretanto desejo que esta não seja a regra e sim a exceção. Acredito no amor. ..virtual/real mas sempre amor

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    1. Nestes tempos de virtualidade, amores que tornam reais. Obrigado Claudia, pela presença. Abraço.

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  4. É quase fato esta tua crônica, muitos casos ocorrem assim, mas, na crônica está muito polido e beme srito, parabéns Estanislau***** Abraços da Luiza Michel

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