sexta-feira, 12 de setembro de 2014

MÃOS QUE AFAGUEI




A primeira mão que afaguei foi a de minha mãe.
Esta primeira carícia foi uma delícia, um êxtase.
Mamãe sorriu, enquanto acariciava-lhe a mão e sugava o leite.

As mãos de meu pai, ríspidas e insípidas, causaram-me estranheza.
A afagá-las tive a primeira experiência de rudeza.
Aprendi que nas mãos de calos podem ter enfeites.

Afaguei mãos amigas, que me conduziram nos caminhos da vida.
Minha professora e primeira mão que afaguei com paixão,
Que de tão macias pareciam polidas.

O nome dela era Iracema, para mim a virgem dos lábios de mel,
Não tinha os cabelos negros como as asas da graúna, nem ídia era.
Foi meu amor juvenil, um sonho, uma quimera.

Amei Terezinha, colega de escola, cujas mãos sequer peguei,
Por ela andei perdido em doces devaneios...
Tinha as coxas mais lindas e pequeninos seios. 

Paguei para afagar as mãos de muitas putas,
Que me lançavam olhares de comércio ligeiro,
Que não me satisfaziam, não me deixavam inteiro.

Mãos clandestinas estenderam-me livros proibidos,
Escritos por mãos libertárias e que li com voracidade
E me ensinaram o amor pela humanidade.


Depois afaguei com o amor mais puro e sincero
As mãos  da mulher, companheira, amor sereno,
Que fizeram os meus dias plenos.

Assim aprendi, que o amor dos pais
São feitos de palavras e de sinais,
Que entendemos quando temos filhos.

Quando afagamos suas mãozinhas
Vemos em suas palmas tênues linhas,
Que são seus caminhos, seus trilhos.

J Estanislau Filho


Do livro Todos os Dias são Úteis- Edição do Autor - 2009

9 comentários:

  1. Nada como mão materna querido amigo lindo poema de dar água na boca

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  2. Benditas são as mãos que afagam. Bendito é aquele que tem mão a lhe afagar.Afago é ternura, venha de onde vier de quem vier. Emoção ao ler. Um afago para ti poeta Estanislau

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  3. Uma poesia reflexiva...e penso...em quais mãos damos valor? Um abraço querido amigo. Beijo Camille Simeone

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  4. A tua poeticidade contém a sentimentalidade mais pura de suas células líricas, J Estanislau. E esse poema remete a reflexões elevadas sobre as mãos que afagamos e que nos afagam. Meus aplausos, amigo, e um grande abraço.

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    1. Obrigado pelas belas palavras Antenor Rosalino, amigo e parceiro de letras.

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